Quem, se eu gritasse? \ Álvaro Domingues




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Quem, se eu gritasse?
Álvaro Domingues

Os anjos (que costumam cantar em latim) reuniram-se um dia e cantaram para os pastores Gloria in excelsis Deo et in terra pax (nunca houve) etc. Tinha nascido quem sabeis numas instalações péssimas, um burro de um lado, uma vaca do outro, mãe virgem e pai mais ou menos incógnito. Três reis magos viriam depois animar esta função. Repetem-se todos os anos os festejos e redobram os reclames na TV, uma popota e o pai natal vestido de vermelho hohoho!!! e luzes a acender e a apagar em pinheiros.
Os anjos são os mensageiros dos deuses, os que anunciam a glória, os desígnios divinos. Organizados em hierarquias, há serafins, querubins, tronos, dominações, virtudes, potestades, principados, arcanjos e os propriamente ditos anjos, incluindo os da guarda, andróginos, sempre com crianças à frente para proteger dos precipícios. Pintados e esculpidos, são normalmente bem-apessoados, de ar sereno, e beleza sem sal, loiros a tocar trombeta, de cabelos aos cachos (está quase tudo…), ora com asas, ora sem asas, vestidos com longos drapeados, quase cortinados e reposteiros, só com os pés de fora. Não há anjas. São machos. Quando caídos, é o diabo. Quando crianças, andam nuzinhos e mostram boa carnação e regueifas abundantes. Confundem-se assim com divindades muito pagãs e lascivas; um desses, um tal Cupido, por exemplo, andava metido com a Psique, rapariga problemática, na qual Freud se inspirou para fazer psicanálise (estou a um passo de perder o fio e a meada).
De tudo isto se me ia povoando o pensamento para não cair na tentação de sair dos salmos, dos evangelhos, dos livros sérios, das coisas sagradas e na ordinarice habitual do sexo dos anjos que, seja anatomia ou teologia, é coisa que com facilidade acaba emporcalhada, mais caso, menos caso, profanando a moral e a quadra natalícia, entre outros assuntos e acontecimentos.
O caso é que me apareceu esta espécie de anjo guitarrista, perna cruzada, túnica atirada para o lado a mostrar o corpo, sentado em cima de uma bola branca que bem podia ser o mundo em tempos de grande glaciação global ou talvez apenas caiado pela alva cabeleira de um cometa que se lhe atravessou na órbita. No muro onde a Silvana Ciara e o Carlo pintaram os nomes, estão umas calças penduradas e uma camisola no chão, cadeiras tombadas e móveis aos trambolhões, anunciando excesso de hormona, fogosidades, incontroláveis ímpetos e brincadeira que o anjo disfarça mal e a sonoridade da música não abafa.
Enfim…, demasiados cabos eléctricos pelo ar, muita construção de variados feitios, uma grande árvore esguedelhada e aquela gigantesca molhada tubular ao fundo, riscada em faixas de azul e branco, misteriosa, de exorbitante cilindrada.
Agora que estava fixado nesses canudos, ia-me esquecendo dos bidões azuis – cilindros de igual feitio. Está tudo ligado. O que não se sabe é com quê. Talvez os fios que atam tudo por cima, talvez este anjo fadista que Rainer Maria Rilke não deve ter conhecido quando escreveu as suas elegias: “Quem, se eu gritasse, dentre as legiões dos anjos / me ouviria?” Ninguém, pois claro. Este aqui, além de distraído e a borrifar-se para o que quer que seja, até tem as orelhas tapadas com cabelos negros em penteado de capacete (e, se calhar, também é capado dos órgãos ouvidores).
Havei todos, pois, umas alegres festividades nestes dias, muito amor e sorrisos rasgados et in terra pax sabe-se lá quando.
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Imagem
Torrão, Trafaria, Álvaro Domingues, 2015.
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Álvaro Domingues
Melgaço, 1959. É geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.
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Ficha técnica
Data de publicação: 21 de Dezembro 2015
Etiqueta: Geografias \ cidades



Quanto do teu «saal» são lágrimas de Portugal \ Álvaro Domingues e Pedro Bismarck




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Quanto do teu «saal»
são lágrimas de Portugal
Álvaro Domingues
Pedro Levi Bismarck

Dois textos: de Álvaro Domingues e Pedro Levi Bismarck em formato de comentário ou de cadáver esquisito a propósito da exposição “O Processo SAAL: Arquitectura e Participação, 1974-1976” patente no Museu de Serralves, Porto, entre 1 de Novembro 2014 e 1 de Fevereiro de 2015. Exposição dedicada ao SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local), um projecto arquitectónico e político criado poucos meses depois do 25 de Abril de 1974. A exposição apresenta 10 projectos documentados através de maquetas, fotografias históricas, gravações sonoras, documentários e filmes de 8 e 16mm. Inclui igualmente uma série de encomendas fotográficas aos fotógrafos André Cepeda, José Pedro Cortes e Daniel Malhão e uma instalação da artista Ângela Ferreira. Esta exposição é comissariada pelo curador independente Delfim Sardo. Organização do Museu de Serralves em colaboração com o Canadian Center for Architecture.
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Álvaro Domingues
Era manhã de domingo na branca catedral. Os fiéis deambulavam em suas erráticas procissões, ora ensimesmados parando para fixar o olhar e o pensamento, ora distraídos com seus amigos, filhos, encontros mais ou menos esperados, bocejos e alegrias. No templo da religião sem deus e incerta crença, cumpre-se o ritual da visitação e da inspecção de salas e paredes entre cogitações existenciais e curiosidades intermitentes. A suspensão do tempo comum dá lugar à flutuação.
O SAAL em retrospectiva tem tudo que o presente não tem: fervor revolucionário, sangue quente, voluntarismo, generosidade, povo, participação, estética e revolução. Por isso migra tão facilmente para a sua condição de mitologia datada na história e nos factos e por isso também ainda mais mitológica porque enredada entre realidade, ficção, utopia, fingimento, arma de arremesso e doce nostalgia. Faltava uma manobra potente de estetização. Aí está ela. O caso blindou-se. Mesmo que se tenha perdido a fé, as coisas veneradas passaram do culto para a arte sacra e assim ecoam por múltiplas esferas e rituais de rememoração.
Hoje a arquitectura de intervenção é um tédio para entreter pessoas (expressão que não designa entidades políticas) que participam e que partilham (expressão corrente no mundo morno e leviano do livro das faces) em eventos devidamente registados para depois prolongarem artificialmente o seu ciclo de vida até se dissolverem no éter voraz da informação e dos acontecimentos.  Por isso o passado é tão calmo e reconfortante. É ainda melhor que o futuro porque já aconteceu e por isso teve lugar. É só contar como foi em tempo mais que perfeito, de preferência pelas partes envolvidas porque assim o legitimam como testemunhas encantadas, a cores e ao vivo em 3D para lá do aborrecimento mudo das fontes mortas.
O sistema está sofisticado. A grande narrativa das causas e dos princípios absolutos decompôs-se em labirintos. Qualquer enunciado sobre qualquer coisa, qualquer massa de milhões imediatamente é capturada por este dispositivo multifunções que tudo separa em porções menores, relações instáveis, expressões vagas, e equações diversas. Mil planaltos. A função é a dissipação: dissolver sólidos e evaporá-los.
Siga pois a função. Não se esqueçam, porém, que outros são os tempos e que não se enchem angústias e perplexidades de hoje com comidas requentadas e vol-au-vent. Porque os abismos são terríveis e muitas as inseguranças, queremos mentiras novas, como está escrito nas paredes. É que as utopias, sobretudo as reais, podem ser tóxicas se esconderem atrás da sua celebração o que as moveu e ainda move.  
Oh deixai de edificar
tantas câmaras dobradas
mui pintadas e douradas
que é gastar sem prestar.
Alabardas, alabardas
espingardas, espingardas
nam queirais ser genoeses
senam muito portugueses
e  morar em casas pardas.
Gil Vicente (1514), Auto da Exortação da Guerra



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Pedro Levi Bismarck
Walter Benjamin escreveu algures em Parque Central que “o souvenir é a relíquia secularizada”. Acrescentando logo a seguir que “nele reflecte-se a crescente auto-alienação do indivíduo que faz o inventário do seu passado como haveres mortos”. Se a relíquia vinha do cadáver (dos santos), diz Benjamin, o souvenir procede da experiência morta, ou daquilo a que se chama eufemisticamente a vivência. O comércio dos souvenirs sucede assim ao comércio das relíquias. Por exemplo: os souvenirs que coleccionamos vindos de Paris, da Grécia ou do Tibete, são os substitutos dessa experiência que o turista anseia profundamente mas que nunca consegue realizar. São os emblemas de uma experiência morta, impossível, de uma vivência que irá certamente compor maravilhosamente bem os álbuns ou as clouds fotográficas, mas que pouco poderá acrescentar ao turista no seu tempo do ócio. O souvenir nada tem para dizer a não ser que não pode dizer nada. Ele é o emblema que está em vez da experiencia que não se teve e por isso é um fetiche, recompensa o turista da sua eterna insatisfação e entrega-o, enfim, ao reino das mercadorias.
Que algo se tenha transformado em souvenir significa que deixou de pertencer à topologia das coisas no quotidiano, que deixou de ter precisamente um “valor de uso” (o pártenon souvenir, a Veneza souvenir). Mas também significa que a relação que se estabelece com esse objecto já só é possível através do “valor de exposição”. Isto é que a nossa relação com as coisas já só se concebe a partir de um olhar estético e não a partir de um olhar histórico. A visão desinteressada do turista é o olhar estético. Não procura nada mais que o objecto que tem à sua frente, não procura extrair dele nenhum conhecimento, nenhuma história, nenhuma razão. A sua relação é a da empatia e do gosto.
O turista é hoje a figura preponderante do museu. O objecto de consumo pode ser de outro grau, mas a relação que se estabelece é a da vivência e da empatia de um domingo bem passado, em família, e ainda por cima, libertando a consciência para esse fim bem burguês e elevado que é o da contemplação desinteressada. Não é por acaso que na grande parte dos museus a loja dos souvenirs adquiriu já um espaço assinalável. Também é certo que os museus têm procurado contrariar essa relação, promovendo serviços educativos e acções paralelas que procuram estabelecer um outro tipo de ligação e conhecimento com a obra em exposição. Umas com mais sucesso que outras.
A consagração do SAAL à categoria de objecto de exposição teria obviamente de se haver com esse limbo dramático onde caminham os museus e os seus objectos actualmente. O facto do título da exposição ser o “Processo SAAL” abria, porém, uma janela de esperança. O envolvimento de alguns dos intervenientes e a expectativa de amostragem de um espólio valioso, o facto de a tónica ser posta no processo parecia admitir a possibilidade de um modo de apresentar e de expor capaz de responder às exigências de um processo que apesar de curto no tempo foi bastante complexo e heterogéneo, tendo inúmeras implicações e sequelas. Tanto no que diz respeito às políticas da habitação em Portugal, como no que diz respeito à própria visibilidade da arquitectura portuguesa e da Escola do Porto.
E, contudo, nenhuma dessas questões parece ter sido endereçada pela curadoria da exposição. A queda do SAAL no maravilhoso mundo dos souvenirs é imediata mal se entra na primeira sala, entre os ruídos nostálgicos de gravações e os cartazes de intervenção pendurados melodramaticamente nas paredes brancas do museu. As vitrinas guardando as relíquias desse tempo passado acentuam mais ainda essa distância convertendo-as em curiosidades bric-à-brac, as cópias heliográficas arranhadas, os projectores de slides à “época” e a parede funerária com os nomes inscritos dos participantes nos vários projectos adquire aquele último suspiro de homenagem e louvor aos mortos pela grande batalha da habitação social em Portugal. Mas tudo sem grandes distinções e requintes. A pobreza ascética dos meios disponíveis, dos elementos expostos, das próprias impressões, está entre a expectativa do low cost e do retro, da escassez e do precário. O “processo”, a chave de leitura do que foi o SAAL, está ausente, mas também a própria arquitectura e os seus moradores. Nem um deles teve direito a figurar nas encomendas fotográficas, sem desprimor para os fotógrafos. Talvez seja que essa ausência diga muito mais do que tudo o resto. Mas nada disso é relevante, no final tudo se dissipa numa atmosfera nebulosa e esbranquiçada de desenhos, maquetes, fotografias, que não chegam sequer a cumprir aquela inicial vaga promessa de estetização que pelo menos os museus e as curadorias tão habilmente aprenderam a fazer.
Esgotada e não cumprida a transformação do SAAL em objecto museológico, a sua estetização e elevação à categoria de relíquia sagrada, ficou por cumprir aquele que de facto poderia ter sido o grande objectivo deste projecto expositivo e curatorial. E qual era? Pois é precisamente isso que fica por saber. Mas não será de todo impossível considerar que os limites desta exposição sejam já os limites da interpelação feita pela equipa curatorial ao “Processo SAAL”. Talvez o problema se coloque precisamente no tipo de questão que se endereçou ao objecto em causa, no tipo de objectivos que motivaram e orientaram essa incursão pelo “Serviço de Apoio Ambulatório Local”. Neste sentido, a verdadeira questão que podemos dirigir não será tanto a pergunta-homenagem, a inquirição historicista e nostálgica que procura saber «o que foi o SAAL?» ou «onde está o SAAL?». Não se trata de interpelar os sonhos ou a memória esquecida do “Processo SAAL”, de o classificar e enterrar num gabinete de curiosidades como relíquia santificada, vendida enquanto indulgência para salvar a consciência da disciplina na sua progressiva conversão em prática burocratizada, tecnocrática e despolitizada. A potência do gesto SAAL só poderá ser passível de ser compreendida e, por isso, actualizável, não na homenagem, não na celebração que nos remete nostalgicamente e esteticizadamente para o seu tempo, para a sua época, como lembrança de um passado ao qual jamais se poderá voltar, mas no movimento contrário. Não se trata de o interrogar, mas deixar que seja o SAAL a interpelar-nos, a interrogar a nossa contemporaneidade. Mas também não se trata de instrumentalizar o SAAL ou de simplesmente o trazer para o “presente”, mas de o colocar numa relação directa e íntima com o fazer e o pensar da arquitectura na actualidade, na sua relação com a cidade e com a sociedade, com aquilo que somos e fazemos enquanto arquitectos hoje. Em suma: nem homenagens, nem lições. Talvez algo que seja preciso voltar a aprender. Algo que tem a ver com o ser arquitecto e o fazer-se arquitectura. E aí talvez seja possível voltar a encontrar a potência do gesto SAAL, certamente não (apenas) no museu, mas nas escolas e nos currículos de arquitectura, nos ateliês e no debate arquitectónico.
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Nota da edição
Ver também crítica de Ana Catarina Costa ao Simpósio “SAAL: em retroprospectiva”, organizado a 10 de Maio de 2014 em Serralves.
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Imagens
Exposição “O Processo SAAL: Arquitectura e Participação, 1974-1976”. Museu de Serralves.
© José Carlos Melo Dias (Flickr)


Bestiário do Imobiliário V \ Álvaro Domingues




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Bestiário do imobiliário 5
Álvaro Domingues

1.
Ó Micas ranhosa? Te calarás quando puderes: ovelha que berra, bocado que perde (a outra continuando a falar e a mastigar ao mesmo tempo). Alguém sabe de quem é este terreno? E alguém quer saber, por acaso? Do mundo de onde vimos havia a vezeira, o rebanho comunitário que pastava no baldio da freguesia; tudo colectivo. A propriedade privada é alienação. Isto são casas fechadas, imobiliário imobilizado à beira do asfalto com seus futuros quintais vendidos no mercado de futuros. É o espaço público (diz uma das pedras do muro em primeiro plano), o espaço verde e a habitação unifamiliar em muro de granito aparente e reboco rosa-claro, foi assim que me ensinam. Se não fosses pedregulho (diz o poste também em primeiro plano) saberias que isto é erva à beira da estrada em volta de umas casas e que o espaço público era verde e que vieram as ovelhas e o comeram.


2.
Ó tu do barrete que não sais de cima, há alguma previsão sobre quando acaba isto de estarmos a fazer homem-cavalo-estátua com as patas presas por argolas? Sairemos daqui quando acabarem as promoções, foi esse o contrato. Achas que nos pagam? Estás a ver aquele cartaz azul que mistura inglês e chinês, o Lucky’Star Import & Export? É a globalização com erros ortográficos e línguas estrangeiras que nos reduz à condição de figurantes numa ficção Ribatejana, percebes? É por causa daquilo que iremos à falência antes de acabarem as promoções. Funciona de maneira simples: monta-se o circo do dinheiro que faz dinheiro em qualquer lado do mundo onde os salários, o fisco, as condições de trabalho, os preços da energia, etc., sejam mais baratos e vende-se em qualquer lado a quem tenha dinheiro. Quando mudarem as regras, desmonta-se o circo e monta-se noutro lado com maior rapidez do que andar a cavalo, percebes cavalo? Cavalo, quem? Eu? Sim, tu, quem havia de ser? Se não fosses cavalo e tivesses crina metida nos neurónios de loiça, saberias orientar a vida e poderíamos ser como aqueles da estátua equestre no Terreiro do Paço, eu de rei e tu de bronze.


3.
Somos nove galinhas (mais uma cortada ao fundo) e dois galos e já se sabe que isto só funciona com sexo em grupo. Assim é a moral da criação. Desde o livro da génese que sabemos que é um assunto íntimo e delicado; não é disso que queremos falar. A questão é que depois de sucessivas exigências de modernização e conforto para este, a bem dizer, chiqueiro, apenas nos trouxeram as tábuas das paletes e a banheira. As tábuas eram para um deck mas estão todas partidas. Quanto à banheira, já está ao alto – não somos patos nem vamos a banhos de imersão. Queremos um elevador ou escada grimpante e ar condicionado, os pressupostos mínimos da arquitectura moderna. O capoeiro tem três andares, três ninhos por andar; nós não voamos (outro legado da criação que nos fez  / nesse céu onde o olhar / é uma asa que não voa, / esmorece e cai no mar, como diz o fado) e já chega de promiscuidade nas tarefas da reprodução! Cada uma deve poder ir para o seu ninho com o máximo conforto. Os galos querem o ar condicionado por causa do aquecimento global e da climatização da crista, e nós queremos o capoeiro aquecido para resolver a crise da natalidade e chocar os ovos que hoje já ninguém se sujeita a estar um ror de tempo a chocar naquela aninhada pasmaceira.
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Imagens
Fotografias do autor.
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Álvaro Domingues
Melgaço, 1959. É geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.
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Ficha técnica
Data de publicação: 2 de Julho de 2014
Etiqueta: Geografias \ cidades



Bestiário do Imobiliário IV \ Álvaro Domingues




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Bestiário do imobiliário 4
Álvaro Domingues

1.
Não somos de cá mas, desde os primeiros festivais do Sudoeste que nos habituámos a vir correr para esta herdade e espreitar oportunidades de negócio porque isto dos ovos e das plumas foi chão que deu uvas. Está tudo a ficar flat e arenoso por estes alentejos.
A Leopoldina, aquela apardalada da minha amiga lá ao longe, diz que vai comprar o casinhoto branco ao fundo para o turismo rural. Pois que vá. Ficarei aqui a pensar com a minha sombra e a fazer pose para uns tipos que passam, fotografam e não pagam. Ela não é assim. Tudo o que faz é a pagar, incluindo corridas eróticas.
É o empreendedorismo, diz ela, usando tamanha e avestruza palavra difícil de pôr a maquinar mas muito boa para discursos e para subir na vida. Por mim, sempre que penso nisso enterro a cabeça na areia porque me disseram que um dos problemas do empreendedorismo é que, quando funciona, o fisco dá cabo dele. Por isso, irei directa para a economia subterrânea e não quero mais saber do assunto.



2.
Moramos neste condomínio fechado há que tempos, eu, a égua cinzenta e o universo familiar dos porcos pretos sempre em expansão. Não é fácil. Eles cheiram mesmo mal.., é preciso manter certas distâncias. As casas, ao estilo alentejano, são limpas e confortáveis. Os porcos não querem telemóveis, de forma que pedimos este poste para telefone convencional. O pasto é péssimo. Não tarda, comeremos galhetas e gomas.
O maior problema, porém, é aquela vaca que desde que aparece em tudo que é estrada em telas triangulares emolduradas de vermelho, deixou de nos falar (falar é um modo de dizer, claro, porque aqueles sons monocórdicos e prolongados mal se percebem). Fica naquela posição, nua, estática e em contra-luz muito cheia de si a mandar parar o trânsito. Aqui nem trânsito há, tem graça. É mesmo uma fingida esta raça de unicórnio degenerado.
Pois que se lixe. É menos uma a pagar o condomínio mas os PIGS que são desgovernados, pagam sempre nem que seja em chouriços e fumados, como diz o Financial Times, essa pérola do expoente civilizacional dos humanos.



3.
Declaration of the Occupation of New York City:
“As we gather together in solidarity to express a feeling of mass injustice, we must not lose sight of what brought us together. We write so that all people who feel wronged by the corporate forces of the world can know that we are your allies.
As one people, united, we acknowledge the reality: that the future of the human race requires the cooperation of its members; that our system must protect our rights, and upon corruption of that system, it is up to the individuals to protect their own rights, and those of their neighbors; that a democratic government derives its just power from the people, but corporations do not seek consent to extract wealth from the people and the Earth; and that no true democracy is attainable when the process is determined by economic power. We come to you at a time when corporations, which place profit over people, self-interest over justice, and oppression over equality, run our governments. We have peaceably assembled here, as is our right, to let these facts be known.”

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Imagens
Fotografias do autor.
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Álvaro Domingues
Melgaço, 1959. É geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.
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Ficha técnica
Data de publicação: 18 de Maio de 2014
Etiqueta: Geografias \ cidades



A produção de conhecimento científico \\ Álvaro Domingues



Justificadas pelas dificuldades financeiras, pela qualidade e pela utilidade, as opções de política que decorrem dos cortes d­­o financiamento público à investigação científica por parte da FCT, constituem um erro com repercussões muito graves no sistema de formação avançada em Portugal.
Em primeiro lugar para os bolseiros, os trabalhadores precários da ciência em Portugal. O modo como se fizeram os cortes e se justificaram, as irregularidades cometidas, são um atentado ao respeito e ao esforço devido aos investigadores. Com as carreiras universitárias congeladas, o congelamento da contratação de docentes e a escassez de oportunidade de trabalho em laboratórios e instituições públicas e privadas de investigação, a única hipótese é mudar de vida, emigrando. Não existe em Portugal um meio empresarial com suficiente escala e cultura empresarial, para que se possa dizer que a parte da investigação e desenvolvimento com ligação directa ao mundo empresarial ficará financiada por aí. As excepções confirmam a regra.
A ética da investigação científica pauta-se por princípios de clareza, transparência, independência e liberdade. A investigação feita e paga pelas empresas legitima-se pela estratégia empresarial e pelo mercado, e é desse único critério que decorre a sua utilidade. Em tempos de globalização e de concorrência aberta, a lógica mercantil é a lógica do dinheiro e do lucro.
Nos estabelecimentos públicos de Ensino Superior a questão é bastante diferente.
Como muitas outras a FAUP é uma instituição cuja missão é formar arquitectos. Sem quadros e carreiras próprios, a investigação tem um papel subsidiário: é uma actividade que acompanha a progressão na carreira docente (entretanto congelada) e os alunos dos programas de doutoramento. Actualmente a FAUP tem 139 alunos inscritos no PDA, 26% dos quais com bolsa FCT. A evolução do esforço de investigação levou à organização do Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo, a um esforço continuado de investimento, e à estruturação de linhas de investigação. Aqui como noutras faculdades que não possuem quadro de investigadores, as áreas de investigação não podem seguir a via da especialização: a arquitectura e o urbanismo são campos disciplinares muito diversos, e os motivos de escolha das áreas e projectos de investigação – inseridos em doutoramento ou não -, são os mais variados e estruturam-se em práticas e culturas institucionais muito diferentes das ciências duras. Essa diversidade pertence a uma escola que tem um prestígio inquestionável de que é prova a notoriedade de muitos arquitectos, investigadores, professores e alunos que cá estão ou por aqui passaram.
A actividade de produção de investigação não pode, portanto, ser vista separadamente porque está estruturalmente cruzada com a actividade docente e, juntas, com o dia-a-dia da FAUP; é tão simples como entender que um investigador externo ligado a um projecto de investigação ou à docência num programa de doutoramento, é também um colaborador potencial em qualquer iniciativa da escola; ou perceber que um docente envolvido num determinado projecto de investigação repercutirá a inovação e a qualidade do seu trabalho na docência. Assim, ensino e investigação interligam-se
- nas parcerias e redes nacionais e internacionais;
- na estratégia de internacionalização;
- na renovação e qualificação dos conteúdos ensinados;
- no aumento do leque das opções;
- na multiplicação de actividades extra-curriculares (colóquios, seminários, exposições, conferências, etc.);
- nas acções de divulgação do conhecimento e da produção cultural.
Esta é a “utilidade” da investigação. Mais do que a bateria de indicadores usualmente utilizados e mais que discutíveis, a investigação é um multiplicador que se percebe claramente nos seus diversos afloramentos nas carreiras profissionais e nos dias normais ou extraordinários da vida académica e das actividades dos membros da academia.
Se as políticas públicas entendem que o esforço financeiro para a investigação científica se pode reduzir de forma tão grosseira e com as justificações mais bizarras e contraditórias, pense-se também que há bastante mais coisas que vão na enxurrada e de pouco vale o refinamento tecno-burocrático das avaliações, as bibliometrias, ou os planos estratégicos anuais ou de médio prazo. Tudo parece resultar de uma estratégia de dissipação da questão de fundo, estilhaçando-a  numa infinitude de discussões menores e conjunturais em torno de assuntos aparentemente pontuais mas que não passam de pontos na teia de que fazem parte.
Dissipação é coisa que não existe para quem se ocupa da universidade, da docência, da gestão, e da investigação (e das burocracias da investigação). As coisas caem invariavelmente sobre as mesmas pessoas e instituições, apesar das decisões terem partido de pessoas ou instituições diferentes, com ideias diferentes, por razões diferentes. Numa situação de crise, o pior é o desânimo e a desistência, como se sabe.
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Álvaro Domingues
Geógrafo, professor na FAUP (Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto).

Recolhimento do Anjo à Porta do Olival \ Álvaro Domingues



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Recolhimento do Anjo à Porta do Olival
Álvaro Domingues
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Postal illustrado

Nos idos de setecentos existia aqui o Recolhimento do Anjo à Porta do Olival, para protecção de donzellas honradas e pessoas virtuozas de puro e limpo sangue, nas palavras da caridosa testamentária que esta obra pagou. Veio depois o anti-Cristo, os liberais e as guerras, foi-se o Recolhimento em fanicos, veio o mercado do Anjo, a Praça de Lisboa (má escolha de mafarrico que enxofrou este lugar), os fanicos segundos, o Clérigos Shopping e tudo e tudo, os fanicos terceiros e agora o renascimento com nome de Passeio dos Clérigos: o acabamento da cobertura será essencialmente verde dando origem a um jardim suspenso pontuado por árvores em pleno coração da cidade. Como espécie arbórea, é proposta a Oliveira evocando a memória do antigo Campo do Olival. Uma grande parte da área da cobertura é acessível. Em suma, procurou-se uma solução arquitectónica que, com total consciência e respeito pela importância patrimonial da envolvente, procura um diálogo com essa mesma envolvente, com a consciência de também ela própria estar a criar património e a deixar uma marca na história da cidade. Não sei que mais dizer. Em meados de Novembro começa a apanha da azeitona para o azeite que alumeia o Santíssimo e talha a zipela. Onde cuidavam outros que havia violinos, cresceram-me oliveiras no telhado e assim se me dobraram os trabalhos. Que longos e afadigados dias passarei neste olival por sobre esta memória em ruínas.
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Fontes preciosas:
Elisabete M.S. de JESUS (2006), Poder, caridade e honra : o Recolhimento do Anjo do Porto: 1672-1800, Porto (Edição do Autor), http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/19406
Premio Nacional de Reabilitação Urbana da publicação Vida Imobiliária, http://www.premio.vidaimobiliaria.com/node/39


Escola da Cardosa \ Álvaro Domingues



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Escola
da Cardosa
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Álvaro Domingues

A Escola da Cardosa é uma verdadeira escola de instrução para todos os animais domésticos, porcos, patos em fila, burros albardados, ovelhas, moinhos de vento, laranjeiras e campónios. No tempo em que o povo não sabia ler e escrever, tão-pouco se lhe tinha que explicar o que fazer ou não na obra pública e privada: fazia quem mandava e quem podia ou mandava fazer como entendia e não se falava mais nisso; o povo ia para os campos e os porcos para o chiqueiro. Protestos eram roncos e grunhidos.
Nós porcos aqui deitados e agora vagamente instruídos, pensamos, enquanto não nos reduzirem a fumados, enchidos e papas de sarrabulho, que os humanos se excedem na construção das suas maravilhas, confundindo realidade com ficção e ficcionando a realidade para melhor se relacionarem com ela e daí tirarem proveitos vários em falsa ou justa moeda. Que estranhos os humanos que tanto se esfolam a classificar coisas extraordinárias e distintas para que sejam protegidas e logo depois extraordinariamente canibalizadas, rematando no final com a atribuição de outras distinções para que se dê a perceber que assim permanecem tão distintas coisas tão distintamente albardadas.

* Fragmento-postal da contribuição de Álvaro Domingues no Seminário ICOMOS Porto Património Mundial, que decorreu no passado dia 25 de Outubro no Cinema Passos Manuel.


Bestiário do Imobiliário III \ Álvaro Domingues




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Bestiário do imobiliário 3
Álvaro Domingues

1.
Estou aqui há que tempos com a cabeça encostada a este muro a pensar. Não se ouve o barulho do contador da água nem da luz. Nunca foram ligados. Viemos aqui todas em rebanho comprar casas. Foi um cão que nos trouxe; dizia que era pastor: cão pastor. Estamos com a corda ao pescoço com os bancos e o sacana do construtor desapareceu sem fazer as casas. Até já tenho a lã das tosquias dos próximos 20 anos empenhadas, 10 cordeiros e 200 litros de leite. Não me importo com o leite e a lã. Vender filhos é que não! Agiotas! Agora tomamos conta deste terreno. Quem quiser vir para aqui mandar bitaites terá que se haver connosco. Resistiremos até à fase do ensopado de borrego.
A luta continua! 



2.
Este animal de soquetes brancos sou eu, a égua. Antes de ter mudado de sexo, era um dos cavalos do motor do carro do meu patrão. O meu patrão tinha uma fábrica de almondegas para o IKEA para onde iam, dizia ele, todas as minhas amigas e colegas que entretanto nunca mais vi (terão emigrado? Terão ido a Ascot às corridas no countryside?). Para além desta fábrica, o meu patrão tinha também o tal carro desportivo com um motor que tinha, dizia ele, duzentos cavalos. O homem era megalómano e disparatado. Duzentos cavalos nem lhe cabiam na fábrica, quanto mais no carro. Fábrica é uma maneira de dizer; isto aqui ao lado é um barraco onde entra vento e chuva por todo o lado. Agora diz que vem aí uma inspecção do banco e das finanças e o homem pôs-se a queimar coisas, papéis, facturas. Sabe-se lá o quê mais, mas já sai fumo branco. Diz que é por causa do papa novo. Eu não sei; ele já se pôs ao fresco. Isto está uma barafunda tal que me deixa louca de relinchar aqui presa. Que farei quando tudo arde?, como dizia Sá de Miranda que ainda não sabia que tudo que é sólido se dissolve no ar (em fumo).



3.
Pode não parecer mas o meu parente mais próximo é o monstro de Loch Ness, uma besta inclassificável que nem deve ter estado na Arca de Noé. Nunca o vi, acho os escoceses bastante convencidos e não me parece de todo apropriado usar aquelas saias ao xadrez e a gaita-de-foles ao dependuro.
Uma verdadeira gaita é este negócio em que me meti. Tinha tudo para dar certo: as casas com vista para a lagoa, os desportos aquáticos, a criação de patos, a pesca e tudo, e tudo, como em Veneza mas mais perto e com menos turistas. Agora, tenho a impressão de que tudo se vai afundar nesta pasmaceira de águas paradas. Tudo é miragem e flutuação. Nem um escocês para comprar uma só casa da lagoa; só ricos para lavar dinheiro em mansões acima de um milhão de euros.
Sinto a humidade no plástico das entranhas; arde-me a crista verde de tristeza. Levantarei vôo com estas asas rachadas e irei para os confins da Antárctica. Venderei casas de gelo que são imunes à febre imobiliária.



4.
Quem desce a Serra Algarvia a caminho dos ardores do sol e do mar sereno, vai avistando esta marca indelével de saúde e bem-estar: as piscinas e a sociabilidade intensa que proporcionam.
É assim o nosso branding: cinco empresárias corajosas e naturistas que recusam o fado e os balcões frigoríficos dos talhos e se fizeram à vida no admirável mundo do negócio imobiliário do eco-resort. Só temos este problema com a inconstância atmosférica. De Inverno, chove que alaga tudo; de Verão, ou mantemos a água na piscina, ou se secam os relvados, coisa que põe os clientes nervosos porque dizem que não se deitam no restolho e nos cardos. Isto dos clientes também é coisa que nunca está satisfeita; se não é o restolho, é o pó, se não é o pó, são os mosquitos.
Está tudo muito parado. Talvez seja melhor oferecer umas aulas de fitness para atrair vacas gordas e o tempo mudará.
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Imagens
Fotografias do autor.
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Álvaro Domingues
Melgaço, 1959. É geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.
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Ficha técnica
Data de publicação: 25 de Setembro de 2013
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