A palavra
«Ocidente», com a qual definimos a nossa cultura, deriva etimologicamente do
verbo cair e significa, literalmente: «aquilo que está a cair, que não
cessa de cair». Também estão ligados a este verbo os termos «acaso» e «casual».
Aquilo que não cessa de cair e de se pôr — occasus significa, em latim,
o pôr-do-sol — está, por isso, também à mercê do acaso, de uma incessante
casualidade. Não surpreende, portanto, que o governo dos homens e das coisas
assuma hoje a forma de protocolos de intervenção, independentes de resultados
certos, sobre um mundo concebido como disponível e calculável precisamente por
ser casual. O Ocidente existe e governa-se apenas no tempo do seu fim e da sua incessante
queda [caduta] e, tal como o seu Deus, está ininterruptamente em vias de
morrer. Mas é justamente nisto que reside a sua força: uma morte incessante é,
por definição, sem fim; uma caducidade ou casualidade infinita é propriamente imparável.
Uma estratégia
que procure fazer face a esta queda [caduta] perpétua deve encontrar
nela um interstício ou uma interrupção em que o Ocidente perca a sua
continuidade e afunde de uma vez por todas. Esta cesura abissal é a memória. O
Ocidente, na sua natureza casual e caduca, não tem memória de si mesmo, não
conhece uma brecha nem um espaço onde algo como uma recordação possa, por um
instante, irromper e aflorar. Ele pode certamente construir, como faz, arquivos
e registos nos quais dispor continuamente os acontecimentos — os casos — da sua
história, mas carece da capacidade de vivenciar verdadeiramente um passado, de
se abrir a algo que rompa o tecido uniforme das suas representações. A
anamnese, a memória, tem, pelo contrário, a forma de um interstício em que a
queda [caduta] — o acaso — por um instante se detém e deixa surgir, como
nunca antes, um passado heterogéneo e irrepresentável. «O passado, abismo do
pensamento» (Schelling): só o pensamento que mergulha resolutamente neste
abismo pode conduzir o Ocidente, de uma vez por todas, ao seu fim.
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Giorgio Agamben
Filósofo. Nasceu em Roma em 1942. É fundamentalmente conhecido pela sua
obra magna Homo Sacer, publicada parcialmente em português, nomeadamente
Poder Soberano e Vida Nua e Estado de Excepção. É autor também de
Ideia da prosa e A comunidade que vem.
Nota da edição
Texto originalmente publicado na coluna Una voce que o Giorgio Agamben tem
no site da Quodlibet. Foi publicado a 16 de Fevereiro de 2026.
Imagem
Andy Warhol, Suicide, 1965
Ficha técnica
A queda do Ocidente • Giorgio Agamben
Data de publicação • 11.04.2026
Edição #45 • Inverno — Primavera 2026


