Ben Morea (1941-2026). O Homem Menos Cínico do Mundo • Luhuna Carvalho





Ante a morte de Ben Morea, a minha primeira tentação foi a de narrar a sua lenda, uma sucessão cinematográfica e quase inverosímil de aventuras, uma contra-história do pós-guerra americano, um longo canto à irredutibilidade de alguns espíritos. A primeira versão deste texto ensaiava essa canção, escrita de memória, um arrebato eufórico que exigiria ao leitor uma comoção conforme. Parei a meio, a elegia devida era outra, não totalmente ofuscada pela sua própria narrativa.

Conheci o Ben em 2010 quando passei um ano a trabalhar em Nova Iorque. Tinha lido o livro de Osha Newman sobre os Motherfuckers que termina com o desaparecimento de Ben nas florestas do Colorado e perguntava às pessoas que ia conhecendo se sabiam algo do seu destino. Ninguém sabia responder até que um amigo me contou que ele tinha regressado a Nova Iorque um par de anos antes e que tinha reatado contacto com algum do meio anarquista da cidade.

Numa assembleia de um colectivo desse amigo alguém revelou ter encontrado nos arquivos da fundação Andy Warhol a peça de teatro escrita por Valerie Solanas, há muito perdida, alegadamente na base do conflito que a levou a alvejar Warhol. Reza a lenda que Solanas, boa amiga de Ben, lhe tinha prometido que ele seria o último homem a ser eliminado na vindoura revolução feminista. Em sua homenagem, organizámos uma leitura integral da peça à porta da antiga Factory, e convidámos o Ben a aparecer.

A editora espanhola La Felguera tinha recentemente editado uma antologia da Black Mask, a revista de Ben nos anos 60, e pensei que as Edições Antipáticas poderiam fazer o mesmo. Apresentei-me, contei-lhe do plano e sugeri uma tour por Portugal e Espanha, organizada com a La Felguera e com a Feira do Livro Anarquista de Barcelona. O Ben alinhou imediatamente: «Se me disseres que posso partir e voltar com a mesma nota de cinco dólares no bolso, eu vou». Ao longo dos meses seguintes visitei-o várias vezes no seu pequeno apartamento de Hell’s Kitchen, que servia também enquanto galeria. Ben vivia, parcamente, de comprar objectos de arte nos vários mercados de Nova Iorque que revendia aos seus contactos no mundo das artes. Adorava receber gente mais nova, que sorvia as histórias que contava uma e outra vez. Estava sempre a ir e vir do Colorado, onde conduzia cerimónias rituais entre as comunidades nativo-americanas.

De regresso a Lisboa, fizemos inúmeros jantares de beneficência no RDA69 para subsidiar a viagem. Quando Ben aterrou em Lisboa havia um jantar à sua espera no centro social. Ficou emocionado, disse que era a primeira vez que via o mesmo tipo de ambiente que lhe tinha sido tão familiar nos anos sessenta. Passámos as duas semanas seguintes a viajar, muitas horas de carro e de deriva, preenchidas com muita conversa mas sobretudo com os silêncios cúmplices nos quais as amizades ganham corpo. Essa amizade durou até ele falecer, com várias outras aventuras pelo meio, não obstante a distância e os largos intervalos entre os encontros.

Nos últimos anos, começou a tornar-se óbvio que cada vez que nos víamos poderia ser a última, bem como uma certa dificuldade em expressar um afecto tão profundo e ao mesmo tempo tão privo de quotidiano. Lembro-me da última vez que o vi, exactamente um ano antes de morrer, no Novo México, os dois em silêncio, encostados a um carro enquanto um dos seus netos adoptados brincava com uma arma de plástico rodeado de cavalos e de deserto. A sua presença suscitava-me uma imensa alegria, que creio mútua, que no entanto sempre se expressou mais por uma partilha silenciosa do que por qualquer efusividade verbal. Um dia disse-lhe que ele tinha tido uma vida mais interessante do que qualquer um de nós, e ele respondeu que sim, mas que nós eramos mais espertos. Não creio que seja verdade, mas essa troca de palavras cimentou o que havia de familiar nessa relação, algo feito desse amor partisan entre pessoas que não partilham tempo, origem, língua, cultura ou sangue, mas que partilham uma intensa e inefável certeza sobre a qual construíram um modo de viver a vida. Ben Morea foi um arauto desse «amor armado».

A história dos Motherfuckers é relativamente conhecida. Um gangue de marginais, artistas e revolucionários, que espalha o caos em Nova Iorque durante a segunda metade dos anos 60. A sua verdadeira marginalidade, o seu espírito proto-punk e a sua implementação territorial distinguem-nos de uma série de grupos afins. Os Motherfuckers cuidavam de dezenas de pessoas através de dinheiro cobrado aos negócios locais, disputavam o controle do bairro com o Estado e com a máfia e praticavam um dadaísmo armado. Os órfãos de uma América traumatizada pela sua própria brutalidade desciam sobre a cidade à procura da revolução aquariana e transformavam-se em lobisomens sedentos de vingança.

A teoria militante passaria as décadas posteriores a tentar expressar o que ali era ensaiado. A ontologia política pressuposta nos Motherfuckers é simples: a totalização das relações sociais capitalistas fomenta a multiplicação de práticas de secessão. O confronto entre a civilização do capital e essas formas de vida é um jogo de soma zero. Essas formas são compostas por relações. De que são capazes essas relações? São mediadas pelo dinheiro, pela ideologia e pelo Estado ou pela sua dissolução através de uma afinidade espiritual feita de cuidado e antagonismo?

O que permanece da liderança carismática de Ben, para o melhor e para o pior, é a sua intransigência. Todo o confronto deveria escalar até à sua máxima intensidade, porque seria aí que o antagonismo poderia devir condição espiritual. Há na teatralidade e no excesso da violência dos Motherfuckers uma indecisão entre a pantomina e a aspiração  a que se torne mítica, primordial e cosmogónica, mas ao contrário do que sucede noutros locais, essa potência insurreccional não degenerou na luta armada clandestina. Ela encontrou uma via de escape na extensão americana. Quando o confronto com a polícia e a máfia se tornou insustentável, os Motherfuckers encetaram o seu êxodo para o Novo México, palco de disputas territoriais entre o Estado federal e as tribos nativas. A dissolução do grupo num banditismo desperado e em facções rivais (o «síndroma Pancho Villa» de que Ben falava) aponta o limite de uma ontologia pura da guerra civil: além da metrópole ela corre o risco de degenerar em mera autofagia. Mas é nesse colapso que Ben se liberta do papel de líder carismático. O que sobra aos revolucionários quando se desfaz a certeza na iminência da revolução? O racket narcísico? A gestão de um património residual? A incessante renovação geracional do millieu? Ben Morea podia ter morrido enquanto mártir ou sobrevivido enquanto ícone, mas escolheu desaparecer. Passou, com a sua parceira Joan, cinco anos a cavalo entre as montanhas e as florestas, caçando e forrageando, aproximando-se das comunidades nativas, pelas quais foi adoptado e iniciado. Assentou na fronteira entre o Colorado e o Novo México e passou as décadas seguintes a conduzir rituais e cerimónias por todo o pais, adoptando dezenas de crianças perdidas, algumas por alguns meses, outras durante décadas.

Há uma continuidade tangível entre esses momentos. A cultura psicadélica devém cerimonial, o cuidado insurreccional torna-se comunal. Mas há algo menos óbvio que persiste nessa transformação de líder revolucionário em líder espiritual. Ben não gostaria das palavras que escolho para o descrever, mas uso-as porque acho que usar outras palavras para falar do que ele falava é a mais honesta homenagem que lhe posso prestar. Entre a sua «família» do Lower East Side e a sua família do sudoeste americano perdura uma antropologia comunista, não obstante quão frágil, efémera ou situada ela possa ser. Ela não nos é acessível enquanto tal. Nenhuma dessas formas é repetível ou apropriável, mas nelas permanece a intuição de uma autonomização da questão comunista (e anarquista) da crise das subjectividades revolucionárias. Quando a revolução termina — vendida ou perdida —  o revolucionário que quiser permanecer fiel à sua essência ética deve encontrar uma outra forma de renovar o seu compromisso e testemunho, sob pena de ser devorado pelos seus fantasmas ou possuído pelos seus demónios.

É por isso que o hesitante retorno de Ben é tão singular. Ele não regressa para esclarecer os desnorteados revolucionários do séc. XXI ou para reclamar os dividendos do passado. Pelo contrário, regressa para oferecer um testemunho de algo hoje aparentemente impossível, que é a possibilidade de uma vida boa. Não há nada de hagiográfico nesta afirmação. Quem o conheceu sabe quão caprichoso, colérico e autocentrado podia ser, mas não havia um pingo de cinismo, descrença ou ressentimento naquele homem. Ben era um antídoto à malaise contemporânea, e não é por acaso que se constitua enquanto tal na destituição da masculinidade feérica da figura do revolucionário.

A mítica fusão entre arte e vida surge de um narcisismo cripto-aristocrático posto em abismo. Ben partiu desse programa vanguardista e superou-o. Desse panteão soixante-huitard que nos desaparece por entre os dedos, é talvez o único que não era filósofo ou escritor. Os santos que nos sobram são aqueles que ante o estilhaçar psíquico, corpóreo e existencial das subjectividades modernas conseguiram manter uma integridade sensível. Essa integridade não é beata ou neurótica, pelo contrário, ela é excessiva, violenta e algo monástica. É uma graça ctónica, térrea, polvorosa e distante. Ben viveu para que, não obstante tudo à nossa volta arda, permaneça possível pensar numa vida boa dentro desse incêndio.

 

 

 

Luhuna Carvalho

Estudou cinema em Barcelona. Fez um estágio em Nova Iorque, mestrado na FCSH, Universidade Nova de Lisboa e doutoramento no Centre for Research on Modern European Philosophy, Kingston University, Londres. Autor de Depois da Lei e Uma Nova Violência.

 

Ficha técnica

Ben Morea (1941-2026). O Homem Menos Cínico do Mundo • Luhuna Carvalho

Data de publicação • 13.05.2026

 Edição #45 • Inverno — Primavera 2026