1.
Nada
confundiu tanto o que aconteceu no final da manifestação da greve geral como as
imagens dos confrontos. Como já alguém disse, as imagens (pessoas no chão a ser
agredidas pela polícia) contradiziam literalmente o relato dos jornalistas (que
estavam polícias a ser agredidos). Nunca é mostrado esse momento original, que
legitimaria a carga, onde os manifestantes atacam a polícia — ele simplesmente
não existiu.
Um
mínimo de literacia crítica chega para desconstruir as reportagens. Todos recordam
os actos de desobediência civil de bombeiros e polícias que passaram totalmente
incólumes e todos recordam o manancial de episódios grotescos envolvendo a
polícia que enchem as páginas dos jornais, do black site de tortura
lúdica no Rato às câmaras escondidas nos balneários femininos. A carga foi o case-study
perfeito de um exercício arbitrário de violência policial encoberto por um
conluio mediático-institucional, onde o espectáculo mediático combinou
perfeitamente com o silêncio do MAI, dos partidos e dos sindicatos.
Essa
leitura é correcta, mas insuficiente. As imagens não mostram o mais importante,
e o mais importante, desta vez, não é a violência policial em si, nem como ela
é ao mesmo tempo o excesso e o garante do sistema. Pelo contrário, o que há de
mais relevante nesta história é o que as imagens não mostram: os momentos que
antecederam e sucederam a carga.
2.
Cerca
de cem polícias formam um cordão coeso ante cerca de duzentos manifestantes.
Essa correlação de forças é mais do que suficiente para conter a multidão, que
se apresenta indefesa. A polícia podia simplesmente permanecer onde estava e a
manifestação acabaria por desmobilizar. Nas escadarias, um oficial fala ao
megafone, presume-se que interditando a manifestação, de modo inaudível. Repete
a pantomina um par de vezes até que chega uma nova coluna de polícias, estes do
corpo de intervenção, e a carga começa, sem qualquer provocação prévia.
Esta metodologia revela uma radical mudança no controle da ordem pública. O paradigma anterior estava vigente deste o governo de Passos Coelho, o último a ter de lidar com grandes manifestações. Depois de um primeiro período de protestos onde a actuação de polícias à paisana causou enorme escândalo popular, Passos Coelho percebeu que mais valia fazer recuar as suas linhas vermelhas. Recorde-se a greve geral de 14 de Novembro de 2012, quando a PSP esteve duas horas a levar com pedras da calçada antes de carregar. Esse paradigma transitou para os anos da Geringonça, bastante tímidos em termos de mobilização popular.
O
que explica essa mudança? Uma polícia violenta na periferia e nas margens da sociedade
mas tolerante no seu centro servia as formas de governo assentes numa ideia de
paz social ainda devedora ao pacto social abrilista e europeísta. Esse tempo
acabou. Esse pacto social terminou. Ele é irrecuperável.
A carga serviu essencialmente para duas coisas. Ela foi, em primeiro lugar, servida enquanto petisco ao povo que quer sangue na arena. É a enésima concessão do governo à extrema-direita. Fá-la para recolher capital político que lhe permita disputar espaço com o Chega. Pouco importa se a ameaça era ali real, pouco importa se a integridade física dos agentes da ordem estava ou não em risco, é necessário criar conteúdos com wokes e esquerdistas a levar na boca, que serão consumidos com prazer. O governo sabe que ninguém ou quase ninguém, no que sobra de espaço público, tem a coragem de desacreditar o que ali aconteceu. Os partidos de esquerda e os seus militantes, normalmente profissionais do escândalo, permanecerão calados, sabendo que a sua presença mediática está por um fio, não podendo arriscar desbaratar os cinco segundos de atenção que ainda recebem num tema que não podem capitalizar politicamente. A grande ilusão da esquerda organizada é que pode simplesmente fingir que isto não aconteceu. Não percebeu ainda que as políticas repressivas aplicadas a segmentos concretos da população são eventualmente aplicadas à totalidade do corpo social. A violência que decidiu ignorar é aquela que lhe está reservada num futuro próximo.
Mas
a questão vai um pouco mais longe. Não se trata apenas da alteração de um paradigma
de manutenção e mediatização da ordem pública, mas da alteração de um paradigma
de governo. Doravante, o governo, qualquer governo, não governará uma “sociedade”
mas sim uma “crise”. As crises não se governam gerindo a paz mas
instrumentalizando os conflitos, um exercício mais arriscado e volátil, mas
eventualmente mais proveitoso. A carga foi um teste. O governo perguntou-se o
que aconteceria se carregasse sobre manifestantes “de classe média”, sem
filiações partidárias ou sindicais óbvias. Não estava muita gente, se corresse
mal não seria grave. Teve a resposta que queria: não aconteceria nada.
Assinalou-se
ali a criação de um novo sujeito, que é, na verdade, uma nova abjecção: a
partir de agora, a classe excedentária não será apenas composta por populações
imigrantes e racializadas mas também por um elemento “interno” à decomposição
do tecido social. A proletarização das “classes médias” encontrou uma
significação política até agora omissa, ela juntou-se aos corpos dispensáveis,
sobre os quais o estado pode exercer a sua violência sem consequências.
3.
O
que também não apareceu na televisão foi a resistência. Sem grande preparação
nem organização, os presentes montaram uma série de barricadas ao longo das
ruas que se afastam do Parlamento. Ninguém lhes mostrou o que havia a fazer e
como se deveria fazer: foi uma inteligência óbvia do momento que ditou os
acontecimentos. Não foi algo glorioso, heróico ou sequer bem conseguido, foi
apenas algo necessário. Ser capaz de no momento certo fazer algo necessário,
ser capaz de aprender com isso, não é questão de somenos. Torna-se necessário
reconhecer e reclamar esse gesto sem ceder a qualquer romantismo mas sem ceder
igualmente a qualquer justificação.
O
reverso da medalha dessa abjecção criada pelo cancelamento do estado social,
pela decomposição da esfera pública, pelo eugenismo tecno-burocrático, é a
emergência, ténue, de um novo sujeito político que não se expressa pelas formas
de mediação da representação e do civismo. Esse sujeito existe de forma
fragmentada, um pouco por todo lado, um pouco perdido, incapaz de se reconhecer
enquanto tal, incapaz de superar o seu activismo indignado e o seu civismo
arruinado. É aqui que o gesto do governo se torna volátil e perigoso. Ele corre
o risco de criar as condições para que esta proletarização abstracta se
reconheça enquanto tal e irrompa de forma concreta na materialidade das ruas.
Se estas imagens nos condenam à proscrição política é para além delas, naquilo
que foi ocultado, que nos podemos encontrar algo de tangível para além da
miséria que nos reservam.
•
Imagem
Pierre Ambrose Richebourg, Barricadas de Paris, 1871.
Ficha técnica
Uma sombra nas barricadas. Três notas sobre os confrontos na greve
geral • Tiago F. Duarte
Data de publicação • 11.06.2026
Edição #45 • Inverno — Primavera
2026


