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Quem,
se eu gritasse?
Álvaro Domingues
Os anjos (que costumam cantar em latim) reuniram-se um dia e cantaram
para os pastores Gloria in excelsis Deo
et in terra pax (nunca houve) etc. Tinha nascido quem sabeis numas
instalações péssimas, um burro de um lado, uma vaca do outro, mãe virgem e pai
mais ou menos incógnito. Três reis magos viriam depois animar esta função.
Repetem-se todos os anos os festejos e redobram os reclames na TV, uma popota e
o pai natal vestido de vermelho hohoho!!! e luzes a acender e a apagar em
pinheiros.
Os anjos são os mensageiros dos deuses, os que anunciam a glória, os
desígnios divinos. Organizados em hierarquias, há serafins, querubins, tronos,
dominações, virtudes, potestades, principados, arcanjos e os propriamente ditos
anjos, incluindo os da guarda, andróginos, sempre com crianças à frente para
proteger dos precipícios. Pintados e esculpidos, são normalmente bem-apessoados,
de ar sereno, e beleza sem sal, loiros a tocar trombeta, de cabelos aos cachos
(está quase tudo…), ora com asas, ora sem asas, vestidos com longos drapeados,
quase cortinados e reposteiros, só com os pés de fora. Não há anjas. São
machos. Quando caídos, é o diabo. Quando crianças, andam nuzinhos e mostram boa
carnação e regueifas abundantes. Confundem-se assim com divindades muito pagãs
e lascivas; um desses, um tal Cupido, por exemplo, andava metido com a Psique,
rapariga problemática, na qual Freud se inspirou para fazer psicanálise (estou
a um passo de perder o fio e a meada).
De tudo isto se me ia povoando o pensamento para não cair na tentação de
sair dos salmos, dos evangelhos, dos livros sérios, das coisas sagradas e na ordinarice habitual do sexo dos anjos que, seja anatomia ou teologia, é
coisa que com facilidade acaba emporcalhada, mais caso, menos caso, profanando
a moral e a quadra natalícia, entre outros assuntos e acontecimentos.
O caso é que me apareceu esta espécie de anjo guitarrista, perna cruzada,
túnica atirada para o lado a mostrar o corpo, sentado em cima de uma bola
branca que bem podia ser o mundo em tempos de grande glaciação global ou talvez
apenas caiado pela alva cabeleira de um cometa que se lhe atravessou na órbita.
No muro onde a Silvana Ciara e o Carlo pintaram os nomes, estão umas calças
penduradas e uma camisola no chão, cadeiras tombadas e móveis aos trambolhões,
anunciando excesso de hormona, fogosidades, incontroláveis ímpetos e
brincadeira que o anjo disfarça mal e a sonoridade da música não abafa.
Enfim…, demasiados cabos eléctricos pelo ar, muita construção de
variados feitios, uma grande árvore esguedelhada e aquela gigantesca molhada
tubular ao fundo, riscada em faixas de azul e branco, misteriosa, de
exorbitante cilindrada.
Agora que estava fixado nesses canudos, ia-me esquecendo dos bidões
azuis – cilindros de igual feitio. Está tudo ligado. O que não se sabe é com
quê. Talvez os fios que atam tudo por cima, talvez este anjo fadista que Rainer
Maria Rilke não deve ter conhecido quando escreveu as suas elegias: “Quem, se eu gritasse, dentre as legiões dos
anjos / me ouviria?” Ninguém, pois claro. Este aqui, além de distraído e a
borrifar-se para o que quer que seja, até tem as orelhas tapadas com cabelos
negros em penteado de capacete (e, se calhar, também é capado dos órgãos
ouvidores).
Havei todos, pois, umas alegres festividades nestes dias, muito amor e
sorrisos rasgados et in terra pax
sabe-se lá quando.
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Imagem
Torrão, Trafaria,
Álvaro Domingues, 2015.
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Álvaro Domingues
Melgaço, 1959. É geógrafo
e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.
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Ficha técnica
Data de publicação: 21 de Dezembro
2015
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