Herdernstrasse 72 \ Diogo Seixas Lopes




___
Herdernstrasse 72
Diogo Seixas Lopes

O último número publicado do Punkto dedicado à “Nostalgia” (Maio 2013) teve como colaborador, mas também como amigo fiel Diogo Seixas Lopes. Na circunstância deste seu desaparecimento demasiado cedo, não podíamos não voltar a publicar o artigo que o Diogo nos escreveu à época, final de 2011, como uma carta que se envia não de um lugar para outro, mas de um tempo para outro. De um tempo-presente para um tempo ainda por vir. A carta: promessa do que ainda há-de vir. A carta como lugar, texto e pretexto para escapar à pulsão eterna e terrível dessa terra humana, demasiado humana que dá pelo nome de nostalgia – terra não apenas de ruínas, mas de todas as sementes. Fazer da nostalgia um poema. E do poema uma invenção para a vida. Só podemos dizer com Jorge Luis Borges: “Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas são agora o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o negro e penso nessas impossíveis cores como não pensam os que vêem. O meu pai morreu e está sempre ao meu lado. Quando quero escandir versos de Swinburne, faço-o, dizem-me, com a voz dele. Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos”.
____


A nostalgia, que durante muito tempo e ainda hoje muitas pessoas chamam doença do país, caracteriza-se pela necessidade imperiosa daqueles que a sentem de voltar ao seu país e rever os locais da sua infância; ou seja, pela necessidade urgente de reencontrar o seu primeiro domicílio. Quando impedidos de o fazer, são atormentados pelo desgosto, insónias, falta de apetite e outros sintomas graves.
Philippe Pinel, “Nostalgie” Médecine, Encyclopédie Méthodique

De acordo com esta definição, todos podem sofrer de nostalgia. Dos animais ao homem selvagem e deste ao homem civilizado. Assim, o veado volta de imediato ao seu abrigo quando consegue fugir dos caçadores que o perseguem. O mesmo acontece com o habitante das montanhas, depois de abandonar a sua cabana na neve à procura de trabalho em lugares distantes para vencer a fome. Ou ainda com o habitante das cidades, depois de partir em busca de fortuna noutros hemisférios. Se o seu regresso tarda em acontecer, ele padece de tristeza e tédio por entre as riquezas que encontrou.
Durante o Renascimento, muitos mercenários helvéticos a soldo de outros exércitos desertavam para voltar ao seu país. Em campanha nas planícies de Itália ou França, só pensavam nas cordilheiras dos Alpes. Esse sentimento passou a ser chamado de nostalgia. Hoje, grande parte dela está reunida na Suíça, onde emigrantes do mundo inteiro procuram uma oportunidade de vida. Para compensar a ausência da pátria, resta o folclore e símbolos como a bandeira. Num Inverno em Zurique, ela lembrava o que tinha ficado para trás:
A bandeira encontra-se hasteada numa cabana de madeira construída num Schrebergarten, um pequeno terreno que um português arrenda ao município para plantar hortaliças. De alguma maneira, e apesar do céu cinzento e da chuva, uma sugestão tropical preenche o espaço entre o pau da bandeira e a janela, como sempre quando o Norte se encontra com o Sul. Os trópicos existem na imaginação europeia como utopia, ou, pelo menos, como ponto quente. E ao mesmo tempo – pelo menos desde Lévi-Strauss – como local de “tristeza”.
Ákos Moravánszky, “A cidade do sul cativo. Álvaro Siza, Peter Märkli e Eduardo Souto de Moura no Campus Novartis” in Falemos de Casas: entre o Norte e o Sul, Lisboa, Athena, 2010, p. 261.
A arquitectura portuguesa encontrou um reduto neste local, ainda que por conta doutrem. Quando até as mais altas patentes exortam ao exílio, restam as recordações dos assalariados em terra estrangeira. Mas esta longa noite que cai sobre a profissão, reduzida a exportar mão-de-obra, esconde outras alvoradas. Elas passam por recusar a nostalgia de um ideal perdido, para começar de novo. Saudades, só daquilo que ainda está para vir.







___
Notas da edição
Este texto foi publicado originalmente no número 3 da Revista Punkto “Nostalgia” (Maio 2013). As fotografias publicadas são do autor do texto.
___
Diogo Seixas Lopes
Lisboa, 1972-2016. Arquitecto formado pela FAUTL. Doutorado na ETH de Zurique com uma tese de doutoramento sobre Aldo Rossi, publicada em livro, em 2015, pela Park Books sob o título “Melancholy and Architecture. On Aldo Rossi”. Foi professor Auxiliar Convidado no Departamento de Arquitectura da FCTUC. Foi director da revista Prototypo e do Jornal Arquitectos com André Tavares, com quem partilharia a curadoria da próxima edição da Trienal de Lisboa. Trabalhava como arquitecto em parceria com Patrícia Barbas, responsáveis entre outras obras pela recuperação do Teatro Thalia.
___
Ficha técnica
Data de publicação: 24 de Fevereiro 2016
Etiqueta: Arquitectura \ Espaços

O ícone está morto, viva o ícone ▬▬ Rui Gilman





 “A arquitectura, em tempos a súmula mãe de todas as artes, completada pela pintura e a escultura e portadora de significância e significado, vê-se reduzida a um espectáculo supérfluo.”, escreveu Peter Buchanan,  na edição de Janeiro de 2015 da Arquitectura Viva intitulada “Expanded Icons”. Meses antes o Wall Street Journal dava conta das palavras públicas, depreciativas, proferidas pelo Presidente Chinês, Xi Jinping, sobre a “arquitectura excêntrica”. Ambas reflectem uma mudança de atitude, um novo consenso, um zeitgeist hostil relativamente à arquitectura icónica. As declarações contrastam abertamente com o entusiasmo com que durante décadas a política, os media, o público geral e a própria arquitectura trataram este subsegmento da produção arquitectónica. A euforia e o frenesim que acompanharam o Guggenheim de Bilbau ou a Casa da Música do Porto parecem agora distantes, quase irreais. Midas perdeu o seu toque. Parece agora definitivamente afastada a ideia do ícone arquitectónico como fórmula mágica para a resolução de problemas económicos, sociais, urbanísticos e forma de ultrapassar a própria crise da prática arquitectónica.
As obras arquitectónicas e operações urbanísticas, antes vistas como o resultado da aliança entre o génio artístico individual do arquitecto, a visão política, a audácia dos promotores imobiliários e as capacidades tecnológicas do computador são agora vistas como caprichos artísticos egocêntricos, populismo pouco ilustrado, ganância do lucro e ditadura informática. A solução universal tornou-se num problema global. Mas como chegamos aqui? Para entender o trajecto do ícone temos de recuar a 1972, ano em que Rem Koolhaas escreve “A Cidade do Globo Cativo”.



Ascensão e queda
“ [A Cidade do Globo Cativo] é a capital do ego, onde a ciência, a arte, a poesia e os tipos de loucura competem em condições ideais para inventar, destruir e restabelecer o mundo da realidade fenoménica”. O ensaio descreve uma cidade surreal, de infinita extensão, organizada por uma retícula que “ (...) define um arquipélago de ‘cidades dentro de outras cidades” e um globo em posição central. Três premissas imutáveis (retícula, quarteirão e embasamento) formam um sistema dinâmico que depois comporta todo o género de desvios e excepções. Os edifícios em cada quarteirão variam livremente em número, altura, configuração, uso, etc., funcionando o globo como um silencioso regulador. Koolhaas cristaliza nesta utopia a libertação do ícone.
Até então o ícone vive sob o espartilho de um consenso social mínimo, tecido pelo Estado-Providência. Num pós-guerra dominado por uma modernidade funcionalista, a arquitectura icónica, como a Igreja de Ronchamp de Corbusier (1955) ou a Filarmónica de Berlim de Scharoun (1963), surge como excepção sensual, expressiva e humanista, ligada a funções agregadoras do tecido social como a religião e a cultura. No entanto, esta paz e hierarquia de valores onde assentava o exercício arquitectónico estavam desgastados. O declínio das meta-narrativas (descrença em Deus, no progresso, na democracia, na liberdade e no valor redentor da arte), o nascimento da contracultura, o concilio Vaticano II, a pressão consumista e a resistência à mesma corroem os alicerces culturais onde assentava o modernismo. Às 3 da tarde do dia 16 de Março de 1972, este morre em Pruit-Igoe.
No ano seguinte, a Era Pós-Moderna abre com o primeiro choque petrolífero, a primeira grande crise capitalista desde da grande depressão, e assim como o eclodir da crise de 1929 coincide com a conclusão do Empire State Building e do Edifício Chrysler, a crise de 1973 coincide com a inauguração de dois marcantes ícones, o World Trade Centre e a Ópera de Sidney.
Em 1978, Koolhaas retoma o seu ensaio de 1972, agora como “conclusão fictícia” do seu livro Delirious New York. O universo utópico do ensaio é reforçado e sistematizado ao torná-lo descendente directo de uma realidade física concreta prévia, a Ilha de Manhattan. A arquitectura icónica tinha encontrado a sua bíblia. O sucesso do livro advém da sintonia entre as novas ideias/premissas arquitectónicas expressas e as novas ideias coevas noutros campos. As teorias que Koolhaas desenvolve, captam e espelham o espírito da época. Delirous New York, apresenta a ordem capitalista da cidade como única, apriorística e natural. A liberdade individual e criação deve ser levada aos limites. A regulação deve ser estrita mas mínima. O equilíbrio do conjunto é dinâmico, perfeito e perpétuo. Todas as partes estão subliminarmente unidas mantendo-se simultaneamente absolutamente autónomas. O esforço individualista de cada parte reforça a rede invisível que as une e da qual estas desconhecem a existência. O livro transporta para o universo da arquitectura as teorias de equilíbrio permanente dos mercados financeiros, do enfraquecimento do papel dos reguladores, do capitalismo auto-regulado, do individualismo extremo, dos sistemas em rede, da internet e dos ecossistemas. O globo no centro da cidade é o computador.
Em 1979 dá-se o segundo choque petrolífero, Margaret Tatcher vence as eleições em Inglaterra e um ano depois Ronald Reagan é eleito presidente. O capitalismo ganha novo e revigorado folego. Em 1989 cai o muro de Berlin e em 1991 colapsa a URSS. O capitalismo havia triunfado por KO.
Uma nova arquitectura icónica transnacional conquista paulatinamente o planeta. Os anos noventa são os anos do encantamento. O ícone arquitectónico contemporâneo passa a ser o carimbo no passaporte para cidade global. Koolhaas cavalga a onda optimista e escreve dois influentes ensaios: “Grandeza, ou o problema do grande” e “ A cidade genérica”. 1997 é o ano da  crise Asiática mas é também o ano de inauguração de dois ícones: as Torres Petronas na Malásia e o Museu Guggenheim de Bilbau. Este último torna-se instantaneamente num dos mais reconhecidos edifícios do mundo. A popularidade e sucesso do museu restabelece a ligação entre a arquitectura e o grande público. O efeito-Bilbau torna-se num case-study e entra na gíria do debate arquitectónico, económico e político. O ícone arquitectónico passa a ser visto como fórmula para a redinamização e transformação de cidades. A arquitectura passa a peça central da máquina capitalista e os arquitectos passam ao estatuto de superestrelas, verdadeiros heróis Randenianos.
 Em 2001, dá-se o atentado às Torres Gémeas, o rebentamento da bolha das dot-com e o escândalo da Enron. O movimento de globalização acelera-se. O influxo de capital cresce exponencialmente alimentando uma enorme bolha imobiliária. À medida que prolifera quantitativa e geograficamente, a arquitectura icónica torna-se mais excessiva e formalista.
Koolhaas, no entanto, denota os primeiros sinais de cansaço da audiência global em relação à arquitectura icónica que ele próprio ajudou a criar. No ensaio “Espaço-Lixo” escreve: “Embora cada uma das partes (do espaço-lixo) seja o resultado de inventos brilhantes, lucidamente planeados pela inteligência e potenciados por computação infinita, a sua soma augura o fim do iluminismo, a sua ressurreição como uma farsa, um purgatório desvalorizado...”. Mercantilização, des-hierarquização, estandardização, infantilização, mediatização e rapidez, transformam a utopia de Delirious New York no pesadelo de “Espaço-Lixo”. Em 2007, Koolhaas declara publicamente “O ícone está morto”.



Pós-ícone
Apesar do descrédito, o ícone arquitectónico e a arquitectura icónica continuam a exercer um enorme poder, quer de fascínio quer de repulsa – tantos são os que evitam evocá-los como aqueles que os tentam ressuscitar. Presentemente, a prática da arquitectura icónica diverge e diversifica-se depois de um período de relativa uniformidade, conseguindo-se distinguir claramente dois tipos: um representando uma ruptura formal e outro uma ruptura real. 
O primeiro é o dos “Anti-Ícones”, edifícios colossais que afirmam o seu valor imagético contrariando as habituais expectativas sobre a arquitectura icónica. Assentam numa geometria de sólidos platónicos puros usando como valores a repetição e a dimensão. O minimalismo substitui o expressionismo modernista, como inspiração histórica. A curto prazo esta promete ser a corrente predominante pois essencialmente muda o invólucro, mantendo intactas todas as premissas que nortearam a arquitectura icónica durante últimos 30 anos.
O segundo, a que chamo “Ícones Divergentes”, assenta numa prática arquitectónica diversificada e heterodoxa. Não detêm qualquer espécie de gramatica formal comum. É mutante, experimental e esquiva a classificações definitivas. Assim cada exemplo funciona autonomamente. O seu sucesso é particular, alicerçado numa cúmplice e indestrinçável relação com o sítio.

Ícones Divergentes



Ícone Aberto
1111 Lincoln Road, Herzog & de Meuron, Estados Unidos.

Este edifício consiste num esqueleto estrutural que serve a função principal de parque de estacionamento enquanto simultaneamente alberga lojas, galerias, residências e um restaurante. O Icónico deriva da superação sensata das limitações tipológicas e expressivas da função primária. Uma actividade mecânica, rotineira e aborrecida torna-se numa experiência surpreendente. Servindo uma dinâmica rua de Miami, o edifício funciona como mediação entre visitante e a cidade. A dupla suíça aproveita o clima e inspira-se no modernismo tropical ao mesmo tempo que reinterpreta algumas das lições de Koolhaas. O espaço apesar de adequado a uma função específica está preparado para receber todo um outro tipo actividades temporárias ou permanentes. O edifício posiciona-se como uma obra aberta cuja vida mimetiza a da cidade.



Ícone Vazio
Museu de Arte de Teshima, de Ryue Nishizawa, Japão.

Construído numa pequena ilha do arquipélago japonês, o museu consiste em duas cúpulas irregulares de betão de apenas 25cm de espessura. A cúpula menor alberga um escritório e uma loja, enquanto a principal alberga apenas uma instalação de arte inspirada no desenho arquitectónico. O ruído normalmente provocado pelos elementos construtivos, como caixilharias, foi reduzido virtualmente a zero, aumentando a naturalidade e tornando o espaço permeável aos elementos (chuva, vento, sol, etc.). As duas cúpulas, semelhantes a etéreas gotas de água, adaptam-se discretamente à morfologia do terreno, esbatendo as fronteiras entre o natural e o construído. A qualidade icónica deriva desta combinação entre um desenho e programa minimalista e uma inserção silenciosa num território remoto. O difícil acesso torna o percurso de chegada parte da experiência arquitectónica, uma quase peregrinação, um preâmbulo necessário para a meditação e a contemplação dum “quase vazio” uma vez chegados.



Ícone Ruína
New York High Line, James Corner Field Operations com Diller Scofidio + Renfro, Estados Unidos.

O projecto consiste na transformação da antiga linha de comboio elevada num espaço urbano pedonal novo. Destinados a serem desmantelados e demolidos, os viadutos ferroviários albergam agora um passeio urbano verde a uma cota superior à da rua, um jardim corredor aéreo que serpenteia os arranha-céus da cidade. A qualidade icónica assenta no estabelecimento de relações novas e surpreendentes entre os edifícios e as pessoas. Esta criação de um espaço público verdadeiramente inovador não provoca, no entanto, estranheza, pois parte da memória imanente da cidade. Viadutos, antes percorridos velozmente por máquinas, são agora percorridos lentamente pelas pessoas, numa lógica romântica de ruína reinterpretada.



Ícone Móvel
Museu Nómada, Shigeru Ban

Instalado primeiro no porto de Nova York e posteriormente no de Santa Mónica, este museu é transportado por barco e montado in situ. Os seus elementos construtivos são umas massivas colunas de cartão com 75cm de diâmetro (usadas na cofragem de pilares) e 148 contentores reutilizados.
Esta obra afirma a sua iconicidade através da sua relação peculiar com o espaço e com o tempo. Ban aproxima a arquitectura icónica do campo da arte, da instalação e da performance. O ícone deixa de ter assim um referencial geográfico fixo e passa a ter um tempo de permanência limitado. No abstracto o seu espaço é todo o mundo e o seu tempo é o da memória. Além da itinerância e da temporalidade, o carácter icónico da estrutura é reforçado por um programa cultural ligeiro, bem como pela expressividade dos materiais e componentes reciclados usados. O espaço interior revela serenidade e imponência, combinando astutamente a brutalidade da estética industrial com a beleza calma da composição clássica.  

Epílogo
A ascensão e queda do ícone é a ascensão e queda dos nossos sonhos e utopias de liberdade. O seu epílogo é o mesmo que o nosso. Desilusão e desolação. Sobreexposição mediática, relação umbilical com a especulação imobiliária e financeira, declínio das meta-narrativas e ascensão do materialismo monetário a uma condição deífica de ubiquidade, omnipresença, omnisapiência e sancionador último de validade. As razões da falência da arquitectura icónica são as mesmas da falência da democracia. Reinventar o ícone é assim reinventar a utopia, é reinventar a esperança, é reinventar um novo lugar para a arquitectura e o arquitecto, é urgente.

Nota da edição
Este artigo é uma versão ampliada e revista de um artigo com o mesmo título publicado na ARQA revista de Arquitectura e Arte nº118 Maio/Junho 2015.

Imagens
Imagem de capa: Tarot XIII, Rui Gilman.
1. Madelon Vrisendorp, The City of the Captive Globe, 1977.
2. Madelon Vrisendorp, Capa, Archithese, Zufall, 6. 2010.
3. 1111 Lincoln Road, Herzog & de Meuron, Estados Unidos.
4. Museu de Arte de Teshima, de Ryue Nishizawa, Japão.
5. New York High Line, James Corner Field Operations com Diller Scofidio + Renfro, Estados Unidos.
6. Museu Nómada, Shigeru Ban.

Ficha Técnica
Data de publicação: 01.10.2015

Rui Gilman
Porto, 1982. Licenciado em Arquitectura pela Escola Superior Artística do Porto, frequentou o Curso de Estudos Avançados em Património na FAUP, criador e locutor do programa de arquitectura "cidadesINdiziveis" na Radio Manobras.

Quanto do teu «saal» são lágrimas de Portugal \ Álvaro Domingues e Pedro Bismarck




____
Quanto do teu «saal»
são lágrimas de Portugal
Álvaro Domingues
Pedro Levi Bismarck

Dois textos: de Álvaro Domingues e Pedro Levi Bismarck em formato de comentário ou de cadáver esquisito a propósito da exposição “O Processo SAAL: Arquitectura e Participação, 1974-1976” patente no Museu de Serralves, Porto, entre 1 de Novembro 2014 e 1 de Fevereiro de 2015. Exposição dedicada ao SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local), um projecto arquitectónico e político criado poucos meses depois do 25 de Abril de 1974. A exposição apresenta 10 projectos documentados através de maquetas, fotografias históricas, gravações sonoras, documentários e filmes de 8 e 16mm. Inclui igualmente uma série de encomendas fotográficas aos fotógrafos André Cepeda, José Pedro Cortes e Daniel Malhão e uma instalação da artista Ângela Ferreira. Esta exposição é comissariada pelo curador independente Delfim Sardo. Organização do Museu de Serralves em colaboração com o Canadian Center for Architecture.
__
Álvaro Domingues
Era manhã de domingo na branca catedral. Os fiéis deambulavam em suas erráticas procissões, ora ensimesmados parando para fixar o olhar e o pensamento, ora distraídos com seus amigos, filhos, encontros mais ou menos esperados, bocejos e alegrias. No templo da religião sem deus e incerta crença, cumpre-se o ritual da visitação e da inspecção de salas e paredes entre cogitações existenciais e curiosidades intermitentes. A suspensão do tempo comum dá lugar à flutuação.
O SAAL em retrospectiva tem tudo que o presente não tem: fervor revolucionário, sangue quente, voluntarismo, generosidade, povo, participação, estética e revolução. Por isso migra tão facilmente para a sua condição de mitologia datada na história e nos factos e por isso também ainda mais mitológica porque enredada entre realidade, ficção, utopia, fingimento, arma de arremesso e doce nostalgia. Faltava uma manobra potente de estetização. Aí está ela. O caso blindou-se. Mesmo que se tenha perdido a fé, as coisas veneradas passaram do culto para a arte sacra e assim ecoam por múltiplas esferas e rituais de rememoração.
Hoje a arquitectura de intervenção é um tédio para entreter pessoas (expressão que não designa entidades políticas) que participam e que partilham (expressão corrente no mundo morno e leviano do livro das faces) em eventos devidamente registados para depois prolongarem artificialmente o seu ciclo de vida até se dissolverem no éter voraz da informação e dos acontecimentos.  Por isso o passado é tão calmo e reconfortante. É ainda melhor que o futuro porque já aconteceu e por isso teve lugar. É só contar como foi em tempo mais que perfeito, de preferência pelas partes envolvidas porque assim o legitimam como testemunhas encantadas, a cores e ao vivo em 3D para lá do aborrecimento mudo das fontes mortas.
O sistema está sofisticado. A grande narrativa das causas e dos princípios absolutos decompôs-se em labirintos. Qualquer enunciado sobre qualquer coisa, qualquer massa de milhões imediatamente é capturada por este dispositivo multifunções que tudo separa em porções menores, relações instáveis, expressões vagas, e equações diversas. Mil planaltos. A função é a dissipação: dissolver sólidos e evaporá-los.
Siga pois a função. Não se esqueçam, porém, que outros são os tempos e que não se enchem angústias e perplexidades de hoje com comidas requentadas e vol-au-vent. Porque os abismos são terríveis e muitas as inseguranças, queremos mentiras novas, como está escrito nas paredes. É que as utopias, sobretudo as reais, podem ser tóxicas se esconderem atrás da sua celebração o que as moveu e ainda move.  
Oh deixai de edificar
tantas câmaras dobradas
mui pintadas e douradas
que é gastar sem prestar.
Alabardas, alabardas
espingardas, espingardas
nam queirais ser genoeses
senam muito portugueses
e  morar em casas pardas.
Gil Vicente (1514), Auto da Exortação da Guerra



__
Pedro Levi Bismarck
Walter Benjamin escreveu algures em Parque Central que “o souvenir é a relíquia secularizada”. Acrescentando logo a seguir que “nele reflecte-se a crescente auto-alienação do indivíduo que faz o inventário do seu passado como haveres mortos”. Se a relíquia vinha do cadáver (dos santos), diz Benjamin, o souvenir procede da experiência morta, ou daquilo a que se chama eufemisticamente a vivência. O comércio dos souvenirs sucede assim ao comércio das relíquias. Por exemplo: os souvenirs que coleccionamos vindos de Paris, da Grécia ou do Tibete, são os substitutos dessa experiência que o turista anseia profundamente mas que nunca consegue realizar. São os emblemas de uma experiência morta, impossível, de uma vivência que irá certamente compor maravilhosamente bem os álbuns ou as clouds fotográficas, mas que pouco poderá acrescentar ao turista no seu tempo do ócio. O souvenir nada tem para dizer a não ser que não pode dizer nada. Ele é o emblema que está em vez da experiencia que não se teve e por isso é um fetiche, recompensa o turista da sua eterna insatisfação e entrega-o, enfim, ao reino das mercadorias.
Que algo se tenha transformado em souvenir significa que deixou de pertencer à topologia das coisas no quotidiano, que deixou de ter precisamente um “valor de uso” (o pártenon souvenir, a Veneza souvenir). Mas também significa que a relação que se estabelece com esse objecto já só é possível através do “valor de exposição”. Isto é que a nossa relação com as coisas já só se concebe a partir de um olhar estético e não a partir de um olhar histórico. A visão desinteressada do turista é o olhar estético. Não procura nada mais que o objecto que tem à sua frente, não procura extrair dele nenhum conhecimento, nenhuma história, nenhuma razão. A sua relação é a da empatia e do gosto.
O turista é hoje a figura preponderante do museu. O objecto de consumo pode ser de outro grau, mas a relação que se estabelece é a da vivência e da empatia de um domingo bem passado, em família, e ainda por cima, libertando a consciência para esse fim bem burguês e elevado que é o da contemplação desinteressada. Não é por acaso que na grande parte dos museus a loja dos souvenirs adquiriu já um espaço assinalável. Também é certo que os museus têm procurado contrariar essa relação, promovendo serviços educativos e acções paralelas que procuram estabelecer um outro tipo de ligação e conhecimento com a obra em exposição. Umas com mais sucesso que outras.
A consagração do SAAL à categoria de objecto de exposição teria obviamente de se haver com esse limbo dramático onde caminham os museus e os seus objectos actualmente. O facto do título da exposição ser o “Processo SAAL” abria, porém, uma janela de esperança. O envolvimento de alguns dos intervenientes e a expectativa de amostragem de um espólio valioso, o facto de a tónica ser posta no processo parecia admitir a possibilidade de um modo de apresentar e de expor capaz de responder às exigências de um processo que apesar de curto no tempo foi bastante complexo e heterogéneo, tendo inúmeras implicações e sequelas. Tanto no que diz respeito às políticas da habitação em Portugal, como no que diz respeito à própria visibilidade da arquitectura portuguesa e da Escola do Porto.
E, contudo, nenhuma dessas questões parece ter sido endereçada pela curadoria da exposição. A queda do SAAL no maravilhoso mundo dos souvenirs é imediata mal se entra na primeira sala, entre os ruídos nostálgicos de gravações e os cartazes de intervenção pendurados melodramaticamente nas paredes brancas do museu. As vitrinas guardando as relíquias desse tempo passado acentuam mais ainda essa distância convertendo-as em curiosidades bric-à-brac, as cópias heliográficas arranhadas, os projectores de slides à “época” e a parede funerária com os nomes inscritos dos participantes nos vários projectos adquire aquele último suspiro de homenagem e louvor aos mortos pela grande batalha da habitação social em Portugal. Mas tudo sem grandes distinções e requintes. A pobreza ascética dos meios disponíveis, dos elementos expostos, das próprias impressões, está entre a expectativa do low cost e do retro, da escassez e do precário. O “processo”, a chave de leitura do que foi o SAAL, está ausente, mas também a própria arquitectura e os seus moradores. Nem um deles teve direito a figurar nas encomendas fotográficas, sem desprimor para os fotógrafos. Talvez seja que essa ausência diga muito mais do que tudo o resto. Mas nada disso é relevante, no final tudo se dissipa numa atmosfera nebulosa e esbranquiçada de desenhos, maquetes, fotografias, que não chegam sequer a cumprir aquela inicial vaga promessa de estetização que pelo menos os museus e as curadorias tão habilmente aprenderam a fazer.
Esgotada e não cumprida a transformação do SAAL em objecto museológico, a sua estetização e elevação à categoria de relíquia sagrada, ficou por cumprir aquele que de facto poderia ter sido o grande objectivo deste projecto expositivo e curatorial. E qual era? Pois é precisamente isso que fica por saber. Mas não será de todo impossível considerar que os limites desta exposição sejam já os limites da interpelação feita pela equipa curatorial ao “Processo SAAL”. Talvez o problema se coloque precisamente no tipo de questão que se endereçou ao objecto em causa, no tipo de objectivos que motivaram e orientaram essa incursão pelo “Serviço de Apoio Ambulatório Local”. Neste sentido, a verdadeira questão que podemos dirigir não será tanto a pergunta-homenagem, a inquirição historicista e nostálgica que procura saber «o que foi o SAAL?» ou «onde está o SAAL?». Não se trata de interpelar os sonhos ou a memória esquecida do “Processo SAAL”, de o classificar e enterrar num gabinete de curiosidades como relíquia santificada, vendida enquanto indulgência para salvar a consciência da disciplina na sua progressiva conversão em prática burocratizada, tecnocrática e despolitizada. A potência do gesto SAAL só poderá ser passível de ser compreendida e, por isso, actualizável, não na homenagem, não na celebração que nos remete nostalgicamente e esteticizadamente para o seu tempo, para a sua época, como lembrança de um passado ao qual jamais se poderá voltar, mas no movimento contrário. Não se trata de o interrogar, mas deixar que seja o SAAL a interpelar-nos, a interrogar a nossa contemporaneidade. Mas também não se trata de instrumentalizar o SAAL ou de simplesmente o trazer para o “presente”, mas de o colocar numa relação directa e íntima com o fazer e o pensar da arquitectura na actualidade, na sua relação com a cidade e com a sociedade, com aquilo que somos e fazemos enquanto arquitectos hoje. Em suma: nem homenagens, nem lições. Talvez algo que seja preciso voltar a aprender. Algo que tem a ver com o ser arquitecto e o fazer-se arquitectura. E aí talvez seja possível voltar a encontrar a potência do gesto SAAL, certamente não (apenas) no museu, mas nas escolas e nos currículos de arquitectura, nos ateliês e no debate arquitectónico.
___
Nota da edição
Ver também crítica de Ana Catarina Costa ao Simpósio “SAAL: em retroprospectiva”, organizado a 10 de Maio de 2014 em Serralves.
___
Imagens
Exposição “O Processo SAAL: Arquitectura e Participação, 1974-1976”. Museu de Serralves.
© José Carlos Melo Dias (Flickr)


Dionora. Para uma Arquitectura Menor \ Patrício del Real



___
Dionora. Para uma
Arquitectura Menor
Patrício del Real


Não deve surpreender-nos que num mundo assim, onde os mais belos jovens tinham sido reproduzidos nus e num tamanho gigantesco, por todos os lados, se desencadeasse uma virulenta febre de ninfomarmáticos e ninfomarmóreas.
Reinaldo Arenas

Dionora domina o terraço do seu edifício. Há muito já que se mudou para a açoteia de uma antiga construção de Habana Vieja: "Fui a primeira moradora", diz com uma voz forte e segura, "deste 'palácio', antes da Revolução" - em Havana, todas as casas velhas se transformam em palácios. Ostentando uma atitude senhorial, conta como "alargou ao terraço" o seu espaço "depois de a moradora se ter ido embora do país". Defensora das conquistas da Revolução, admite também os seus malogros, mas adverte-me que não pense que o estado ruinoso do edifício se deve à negligência, que não vá dizer "lá fora" que o que aqui se vê é sinal de um fracasso colectivo. Dionora é combativa; vive há muito tempo já uma batalha quotidiana: litígios com os vizinhos devidos às infiltrações constantes; negociações no mercado negro enquanto procura materiais para prosseguir a sua expansão permanente sobre as açoteias de Havana. Dionora combate para conservar o seu pequeno estado matriarcal. Embora defendida por um sistema legal e ético, Dionora luta contra uma cidade colonial que está a ser objecto de saneamento e posta ao serviço do turismo internacional desde que foi declarada pela UNESCO, em 1982, Património da Humanidade. As recentes transformações do Estado cubano, a legalização da propriedade privada em finais de 2010, com o objectivo da inserção do espaço urbano num mercado imobiliário nascente, geram novos conflitos para aqueles que, como os construtores de barbacoas [i] vivem intensamente o património histórico da nação cubana; por detrás das pressões do mercado internacional perfila-se a geografia económica nacional e consolida-se a imagem do "cubano" através de uma arquitectura colonial consumida por turistas.
No Rio de Janeiro, a batalha pela cidade assumiu dimensões olímpicas. Recentemente, o presidente do Comité Olímpico Internacional, Jacques Rogge, reclamou a "urbanização" das favelas do Rio. Rogge declarou que um grande investimento em infra-estruturas seria qualquer coisa de "fantástico" [1]. Por detrás da soma delirante, calculada em mais de cinco mil milhões de dólares, de um projecto fantasista, esconde-se o ditame de urbanizar - ou seja, de produzir um sujeito urbano. Os recentes projectos de arquitectura e urbanismo no Rio revelam uma cidade sequestrada pelo Olimpo, na qual os mecanismos internacionais são usados para expulsar ("relocalizar", na boa gíria burocrática) sujeitos incivilizados em operações menos espectaculares do que as recentes incursões paramilitares em favelas transformadas, através da imprensa e da televisão, em baluartes do tráfico internacional de drogas. Os construtores de favelas já não têm apenas de combater quotidianamente situações e organismos locais; hoje, é-lhes necessário ainda inserirem-se em circuitos internacionais e defenderem, através de organismos como a Organização dos Estados Americanos, reivindicações locais, não esquecendo que tais instituições possuem os seus próprios mecanismos de ofuscação [2]. A situação relocalizou as favelas do Rio, uma vez que o olhar internacional as deslocou para o sector dos desportos. A visão das favelas, apresentada nas páginas internacionais e de desporto, produz uma ofuscação populista entre espectáculos de violência real e violência ritualizada. Este modo de apresentar a questão, que tenta conter e localizar o problema como sendo o da existência de focos de intensidade urbana malsã, faz-nos esquecer que é o sujeito urbano, que Rogge deseja, que materializa o tráfico de drogas, e que as supostas redes internacionais têm a sua contrapartida nos consórcios internacionais das empresas farmacêuticas que possibilitam os escândalos olímpicos do doping.
"You don't need these", dizia Encarnación num inglês refinado aos agentes da polícia da cidade de Nova York; "não faço mal a ninguém", continuava, entregando-lhes as algemas que, deslizando, lhe tinham caído das mãos pequenas. Há mais de dez anos que Encarnación vende tamales a um dólar em Harlem, a trabalhadores, a estudantes, ao autor deste texto, a menos de um quarteirão de distância de um McDonalds, onde se fala espanhol. Encarnación vivia no Estado de Guerrero, no México, "com um telhado de folhas de palma e paredes de adobe", e, como muitos, veio para os Estados Unidos para melhorar a vida dos que ficaram no seu país [3]. Encarnación também melhorou Harlem; a sua pequena banca móvel (um carrinho de supermercado) à boca da estação de metro, junto a um pequeno parque, acabou por desenvolver ao longo de muitos anos uma pequena zona comercial efémera, onde, dependendo do dia e do tempo, se podem encontrar fruta, flores, bijutaria e até mesmo artigos de segunda mão. Esta forma de pressão sobre o uso correcto e oficial da cidade provocou a acção policial directamente sofrida por Encarnación, mais como um aviso destinado a lembrar quem realmente manda do que da efectividade de um poder que tem de negociar com uma economia estratificada e, assim, usar múltiplas estratégias de cooptação. As acções urbanizadoras da polícia de Nova Iorque não são tão espectaculares como as do Rio - as detenções efectuadas pela polícia da cidade são, em geral, bastante silenciosos. Menos violenta ainda é a política oficial de beneficiação estética da cidade (Arts in the Parks Program), que instala, temporária mas ruidosamente, esculturas nos parques da cidade, urbanizando assim uma cidade já urbana e que, em certas ocasiões, se sobre-urbaniza. As ovelhas de bronze do escultor Peter Woytuk, que disputam agora com Encarnación o pequeno parque, não serão, sem dúvida, detidas [4].


1. “Par de Ovelhas”, Escultura de bronze. Peter Woytuk na Broadway, Harlem, Nova Iorque (Via Flickr).

Em Havana, Rio de Janeiro e Nova Iorque, nestas três cidades tão diferentes, como em tantas outras, entretecem-se relações de poder no espaço urbano que desdobram um leque de desejos locais e internacionais, sob uma globalização que mobiliza e põe a produzir todos os estratos sociais e económicos. Pequenas acções, como vender um tamal a um dólar, mobilizam estratégias que revelam mercados paralelos em Nova Iorque (evitemos andar por aí a dizer que o mercado negro só existe no Terceiro Mundo), que, como em Havana ou no Rio, melhoram um certo número de vidas. O desejo de uma vida melhor transformou-se num imaginário colectivo que, nas suas pulsações globais, transcende qualquer geografia. As infiltrações contra que Dionora batalha na sua açoteia, manifestam um mundo de fendas através do qual a informação se globaliza e se democratiza. Este uso intenso do espaço urbano revela uma cidade conectada, articulada em redes internacionais, tanto legais como alheias à realidade oficial, activadas por um sujeito local que navega essas intensidades segundo os seus desejos e necessidades, produzindo múltiplas cidades dentro e fora dela. A cidade é uma zona de contacto intenso e expansivo onde o desejo encontra a sua forma. Surge aqui uma clara contradição, porque a intensificação dos contactos e a expansão das redes manifestam uma heterogeneidade que fragmenta a totalidade implícita na ideia de cidade. É, portanto, necessário falar, não de cidade, mas de cidades. Esta necessidade de falar no plural, assinalada há já algum tempo por Michel de Certeau, entre outros, e de romper com a ideologia da universalidade na qual se esconde ainda a táctica de reduzir "o outro", continua a ser um obstáculo para os que tentam articular meta-geografias, como a que a noção de Ibero-América supõe. Esta noção, e a relação histórico-cultural iniciada pela colonização espanhola e portuguesa a que a noção implicitamente se refere, articula um território possível de diferença e resistência, mas que se dilui com Encarnación, que articula outra comunidade, que não é só aquela que vive nos Estados Unidos, mas a que vive nos fluxos migratórios de uma força de trabalho "liberalizada". Inserir trabalhadores deslocados no quadro de geografias culturais particularistas parece ser um acto comprometedor, uma vez que os nigerianos na Península Ibérica, que não participam dos benefícios culturais de uma ideologia ibero-americanista, por exemplo, sofrem do mesmo modo que os equatorianos que hipoteticamente poderão mobilizar uma suposta cultura comum como se fosse uma carta de chamada. A mobilização do termo e da ideia de uma comunidade ibero-americana pode ser um acto de reivindicação, mas a ideia esconde uma consagração implícita de valores e tradições que reclamam unidade de espírito e transformam a história e a cultura em essências, por mais que as fragmentemos em pluralidades. A noção de Ibero-América depende da ideia de território; esta convergência entre espírito e território manifesta-se hoje como sintoma de retracção e alargamento do Estado frente ao mercado internacional. Deve ter-se presente que o imaginário luso-tropicalista do brasileiro Gilberto Freyre, que serviu para exaltar as bondades do colonialismo e da ditadura num momento de debilidade democrática no chamado Terceiro Mundo, serve como advertência perante qualquer meta-geografia que insista em articular oposições e exclusões. Creio ser hoje mais importante falar de uma rede de cidades do que de territórios, uma vez que a crescente urbanização agenciada actualmente pela expansão do mercado internacional reclama de nós novos imaginários geográficos. A chamada comunidade transnacional ibero-americana exerce as suas próprias exclusões, e se há alguma coisa que da globalização devamos recuperar, é precisamente a sua força de inclusão. Assim, devemos menorizar a Ibero-América.


2. Biblioteca de Espanha no Bairro de Santo Domingo, em Medellin, Colómbia. Projecto de Giancarlo Mazzanti, 2005-2007  (via wikipédia)

Hoje, ranchos como os de Caracas [ii], que antes não figuravam nos mapas, são cadastrados e incorporados na cidade; no Rio de Janeiro, pode fazer-se um circuito turístico pelas favelas; as barriadas de Lima integram-se plenamente no mercado imobiliário, de acordo com o ideário do economista peruano Hernando de Soto. As acções de uma "linguagem imperial" de "urbanização" passaram ultimamente a tomar por objecto lugares anteriormente inexistentes, excluídos ou demonizados. A cidade é rearticulada hoje enquanto corpo orgânico, quer dizer, como um total diferenciado, não desprovido de conflitos, mas necessariamente funcional sob a globalização. Esta rearticulação, ainda em processo, manifesta-se a diferentes escalas. Em Bogotá, Caracas e Rio, os bairros pobres de Santo Domingo, San Agustín e Alemão respectivamente, foram incorporadas no tecido urbano através de elegantes teleféricos, e, em certos círculos de arquitectura da Ibero-América, encontramos um interesse pontual e renovado pelos processos ditos informais, que dão origem a favelas, ranchos, villas miserias, barbacoas, barriadas, tapancos, chabolas, pueblos jóvenes, shanty towns, slums, bidonvilles, etc. Estabelecem-se assim momentos de contacto, de fascínio e de desejos, entre o marginal e a arquitectura.
A constante luta dos habitantes das favelas do Rio de Janeiro esforçando-se por melhorarem as suas vidas é uma fonte de admiração e estupefacção para arquitectos que propõem intervenções críticas e para ateliers de escolas de arquitectura que tentam introduzir novos temas, com o objectivo de promoveram a renovação de uma disciplina já comprometida com o poder e de uma profissão cega por uma espectacularização sob a tutela dos star architects. Das condições extremas - extremadas pela intensidade daqueles que as vivem e pela distância daqueles que não a sofrem -, os arquitectos recuperam um agenciamento inventivo do presente e do agora, executado por sujeitos marginais investidos de uma certa inocência e de uma criatividade intensa. O desdobrar-se de estratégias construtivas ad hoc, deste bricolage material e produtivo, solicita o interesse e a admiração, e mobiliza um estranho humanismo que reclama a nossa compaixão e a nossa inveja, revelando a profunda transformação conceptual que os ranchos sofreram. Se antes as villas miserias eram cancros a ser extirpados, são hoje imaginados como padrões urbanos alternativos, construções sociais de onde emergem propostas vernaculares de um "lugar" possível contraposto ao espaço abstracto da cidade moderna. Hoje os processos de construção das barbacoas revelam novos procedimentos de projecto para uma arquitectura sobrecarregada pela tecnologia e reduzida à subjectividade do seu autor. Nestes espaços marginais, alguns descobrem um processo de construção de comunidade enquanto acto social reivindicativo e processo de projecto de resistência; aos dois níveis, social e pessoal, surge aqui como que uma alternativa aos discursos hegemónicos da globalização. A sedução em causa não é nova, possui uma já longa tradição, que, desde o século XIX, tenta reintegrar uma tradição enraizada nas forças descontextualizantes da modernização: trata-se da luta que encontramos em Dionora, quando, armada com baldes de cimento e pequenas vigas de ferro, madeiras e pás, menoriza a subjectividade de género do "construtor", que a própria linguagem prefigura como sujeito masculino. Como já observou a crítica Eve Kosofsky Sedgwick, dos Estados Unidos, a recuperação do não-oficial liberta um fluxo de desejos escondidos. As incursões paramilitares nas favelas do Rio revelam os complexos combates de género de um lugar já altamente politizado. As intervenções dos arquitectos nos ranchos desarticularão os desejos de masculinidade da arquitectura?
A dualidade persistente entre tradição e modernidade foi forjada na arquitectura por um modernismo que desejava ser a linguagem oficial do moderno. Os bairros degradados não podem ser reduzidos a sonhos românticos, a espaços vernaculares de sociabilidade pré-capitalista, numa tentativa visando reproduzir lugares de resistência ao mercado internacional; também não podem ser reduzidos a espaços de um capitalismo selvagem dominados e espectacularizados pela violência; não são lugares de resistência ou espaços de violência, mas constituem âmbitos nos quais descobrimos resistências e violências; por outras palavras, são lugares reais e actuais, não imagens para deleite ou horror de um consumidor afectuoso ou hostil, embora nos dois casos igualmente distante. Neste sentido, qualquer tentativa de articular uma relação entre uma urbanidade intensa de emergência e uma arquitectura emergente na Ibero-América requer a identificação de um momento de inflexão histórica. A valorização de espaços produzidos à margem, ainda que sempre ligados ao mercado, à cidade, à arquitectura, marca a nossa particularidade histórica. Trata-se de uma postura sintomática de um mundo heterogéneo, e também de uma mudança cultural, em que já não vemos, nas suas vastas extensões urbanas, o "atraso da nação", como se dizia nos anos 50 a propósito dos ranchos de Caracas, mas o seu futuro. A capitalização da cidade tornou-se extensiva; mas se se valoriza a experiência vivida pelos residentes dos bairros pobres, se se valorizam os processos de construção, o uso dos materiais que aponta para uma criatividade do sujeito marginal, devemos perguntar também onde terminam os contornos desta valorização. A coincidência dos valores de mercado e dos valores produzidos nos ranchos está ainda em gestação. As narrativas anteriores, que descreviam a injustiça social no interior de um quadro nacional de cidadania, são hoje reformuladas no quadro da economia, duplicando-se a todos os níveis, da gestão dos recursos naturais (ecologia) à correcta administração do doméstico (oeconomia) e do pessoal.


3. Small Scale, Big Change: New Architectures of Social Engagement (October 3, 2010–January 3, 2011), Moma. Página web da exposição.

É importante, por isso, perguntar que valores hoje aqui descobrem os arquitectos. A obra persistente de Jorge Mario Jáuregui - insistindo durante quinze anos sobre as favelas do Rio através do Programa Favela-Bairro - obteve ressonância e constituiu-se como modelo para a Ibero-América. Trata-se, contudo, de um trabalho que causa também desorientação, uma vez que, sem menosprezo da magnífica e necessária obra realizada, depende da figura do arquitecto como profissional-especialista que reconcilia os desejos dos moradores dos bairros com o poder. A capitalização da arquitectura social, embora não completamente consolidada, efectuou-se já na Sétima Bienal de Veneza sob o título Less Aestethics, More Ethics - Menos estética, mais ética, e, mais recentemente, no Museu de Arte Moderna de Nova York, com a exposição Small Scale, Big Change. O que estou a tentar articular aqui são os limites tanto do fascínio que hoje exerce sobre os arquitectos a necessidade sofrida pelos construtores de tapancos [iii] como os limites de um olhar que responde a uma pergunta tautológica, uma vez que, nesse fascínio e nesse olhar, os arquitectos ou se descobrem a si próprios, ou se descobrem arquitectos "menores", e deparamos aqui com um impasse. A pergunta é unidireccional - de quem olha quem - tentando abrir assim um espaço teórico. Porque aquilo que importa, se quisermos continuar a reclamar benefícios das barracas, não é vermos como os construtores de pueblos jóvenes [iv] são arquitectos em ponto pequeno, mas como as suas acções menorizam a arquitectura. É fácil descobrir arquitectura nas shanty towns [v], mas é mais difícil descobrir shanty towns na arquitectura. Proponho que retomemos o processo de capitalização efectuado em Veneza, no sentido em que o limite da valorização das favelas - quer dizer, o que não se trata de valorizar nas favelas - deve ser precisamente a estética que exibem. Daí que, em Veneza, se tenha insistido mais na ética, a fim de prevenir o colapso da arquitectura sob os seus próprios valores estéticos.
As recentes e magníficas arquitecturas de Bogotá e de Medellín - como, por exemplo, a Biblioteca España de Giancarlo Mazzanti, na segunda destas cidades - abrem um diálogo complexo que mobiliza os contrastes: uma clara estética arquitectónica de elite sobrepõe-se à estética convulsa do slum [vi] de Medellín. Articula-se assim uma arquitectura cívica de elevado valor, tanto financeiro como estético. Em Santiago do Chile, Alejandro Aravena, com o concurso das soluções de construção ELEMENTAL, integra estratégias de crescimento gradual, incorporando assim uma temporalidade presente nos bidonvilles e estratégias de construção elaboradas durante a década de 1950, por exemplo, no Norte de África sob o regime colonial francês. Mas o que importa é perguntar se as estratégias e os discursos fluem nas duas direcções: quer dizer, se podemos descobrir na arquitectura de Aravena ou de Mazzanti essa informalidade que hoje exerce tanto fascínio; descobrir os ranchos nas Torres Siamesas do Campus San Joaquín da Pontificia Universidad Católica do Chile; se podemos descobrir as villas miserias num dos bastiões do poder na Ibero-América; se a estética da emergência aparece na arquitectura ibero-americana emergente - uma arquitectura que começa a transbordar do seu limite geográfico, não como curiosidade do momento, mas como arquitectura menor.


4. Conjunto habitacional Quinta Monroy, Chile, Elemental, 2003-05. Fotografia Cristóbal Palma (Elemental).

As incursões de arquitectos nas barbacoas menorizaram a arquitectura. A polivalência material, a utilização de diversos materiais tradicionalmente precários, como o tijolo e a madeira; a revalorização dos processos de construção informais ou primitivos, como o adobe - como na Escuela de Artes Visuales de Oaxaca, no México, de Mauricio Rocha -, revelam as atitudes da arquitectura emergente. A preferência por estratégias informais é condicionada por uma tendência já bem estabelecida para a experimentação material em arquitectura. Assim, a articulação material não é necessariamente uma menorização da arquitectura. Talvez seja, portanto, mais produtivo tornarmos a insistir no campo da estética, uma vez que a estética de elite resiste a incorporar a emergência. Se examinarmos a produção arquitectónica que se contém na casa unifamiliar da Ibero-América, descobriremos que nada nela emerge. A casa unifamiliar revela-se como o grande baluarte de uma classe social tradicionalista hoje protegida por um cuidado e sufocante minimalismo estético. As múltiplas versões daquilo a que podemos chamar "a gaiola" de vidro, cimento ou madeira - muitas vezes desvirtuada por combinações de materiais ou geometrias decorativas postiças - exprimem o tédio, a leviandade intelectual e a ausência de valores comunitários dos seus proprietários. Estes cubículos da versão estética oficial, espaços de abstracção minimalista, são máquinas de fuga potenciadas pelos arquitectos - pois, quem desejará viver num estado de constante fragmentação como o das barriadas? Mas são também espaços de poder, onde se reproduzem os valores de uma sociedade desigual e tradicionalista no pior sentido da palavra, como é o caso com o ainda muito vincado paternalismo da região. O elitismo que circula com insistência nas revistas de arquitectura e a compartimentação das construções informais no interior de uma emergência que não vê a sua contribuição estética, não fazem mais do que confirmar que a região continua a ser a mais desigual do mundo. Após as repetidas incursões no mundo da informalidade, a arquitectura na Ibero-América não foi capaz de articular um projecto coerente de arquitectura menor. E se a incursão nas favelas radica somente na capitalização de uma economia de valores imobiliário e humanitário, reduz-se consequentemente a valorização e o efeito saudável que aquelas podem ter sobre uma arquitectura que depende ainda da estética do poder.
Mas a resposta não está nem nos proprietários, defensores dos seus próprios interesses, nem nos arquitectos, porque ao fim e ao cabo o simples construir já é suficientemente difícil: o problema radica na ausência da crítica da arquitectura - mas que arquitecto ou proprietário deseja que a sua obra e o seu investimento financeiro e estético seja desvirtuado por subtilezas intelectuais que, embora também difíceis de construir, a poucos interessam? Não devemos esquecer que só o meritório merece ser criticado, pois o que interessa é a crítica produtiva, a crítica que trabalha. Como tantas outras casas difundidas por revistas ibero-americanas, a elegante Casa Poli dos arquitectos Pezo von Ellrichshausen (PvE), instaura, numa falésia da costa chilena, a convergência de uma casa de férias com um centro cultural, que, como um cubo caído do céu, tenta fazer esquecer o preço ecológico que estas arquitecturas implicam - não só devido aos processos de construção que alteram o ambiente, mas também, e em primeiro lugar, pela contaminação abstracta que a sua capitalização estética exerce sobre o quadro natural. A estética da paisagem, tão elegantemente elaborada pela equipa chileno-argentina de arquitectos através das elegantes vistas sobre o Oceano Pacífico que perfuram o cubo, articula uma manipulação visual que insiste na definição artístico-estética da palavra paisagem - uma definição que esquece por força a sua relação com um terreno que o camponês trabalhou arduamente, sem contemplação, mas com a sua própria naturalidade estética. O império do visual desdobra-se na imagem, produzindo uma arquitectura facilmente capturada pelas revistas. A estética do camponês já foi capturada pelo romantismo no século XIX, e hoje, na Ibero-América, resiste a esta nova forma de incorporação.


5. Casa Poli, Pezo von Ellrichshausen, 2003-2005. (PvE)

A partir da convergência entre o visual e o terreno, do confronto entre a paisagem e o camponês, da união entre o olhar do autor e a mão da sua antítese, do contraste máximo entre a obra na falésia dos arquitectos PvE e a açoteia de Dionora, podemos elaborar uma tentativa de arquitectura menor. Devemos começar por recusar qualquer tentativa de definir as favelas como arquitectura, uma vez que essa incorporação  discursiva esconde a hierarquia operacional de valores estéticos ainda bem instalada na arquitectura, e desarticula qualquer tentativa possível de elaborar uma arquitectura menor, uma vez quer, se seguirmos Deleuze, ela só poderá ser a prática menor no interior de uma linguagem maior. Se considerarmos a produção construtiva por volume da cidade ibero-americana, veremos que são os arquitectos que produzem a menor quantidade de estruturas e de espaço construído da cidade, enquanto são os construtores dos bairros que produzem a maior parte. Assim, a operacionalidade da arquitectura como linguagem a menorizar radica principalmente em acções críticas sobre os seus valores estéticos - quer dizer, na sua relação com o poder, ou, como diriam os modernistas brasileiros, com a bão tradição, com essa tradição que delineia os contornos da boa sociedade. Se os arquitectos podem aprender alguma coisa com os construtores de favelas é o modo como estas permanecem frágeis, sem que isso seja fraqueza: a fragilidade construtiva que faz da favela uma obra em surgimento constante é qualquer coisa que os arquitectos começam já a incorporar, ainda que de modo insuficiente. Estando em construção permanente, as barriadas exibem as suas contradições à flor da pele e revelam uma construção estética colectiva, uma montagem expressiva sem autor a que a arquitectura resiste. O caminho a percorrer é difícil, uma vez que a ideologia do estilo unitário e representativo da mão do "arquitecto" como criador singular e autoritário está tão enraizada que um artefacto tão complexo como um edifício, um artefacto que requer uma equipa de pessoas e profissionais, precisa ainda de ser identificado e reduzido a um único arquitecto. Objectar-se-á que, sem esta força homogeneizadora e controladora o resultado seria uma vaga desordenada de kitsch numa sinfonia sem tom nem harmonia. Talvez, mas temos de nos dar conta de que, por detrás de tais argumentos contra a dissonância e a heterogeneidade, se esconde a produção de simples objectos de consumo imediato, de uma arquitectura capitalizada pelo mercado e não por arquitectos.
___
Notas da tradução
i. As barbacoas — por vezes consideradas como "favelas interiores" — são plataformas ou tablados construídos aproveitando os "pés direitos" muito altos de velhas casas, cujo resultado é subdividir e reordenar os espaços interiores, fornecendo alojamento a um grande número de elementos da população de Cuba.
ii. Um rancho, na Venezuela, é uma construção improvisada, utilizando materiais usados e pobres, como as que encontramos nos chamados "bairros de lata". Este tipo de construção proliferou em Caracas, sobretudo a partir da década de 1960
iii. O tapanco designa originalmente, no México, um piso que se constrói sob o telhado, por cima do tecto ou falso tecto das outras divisões
iv. Designação peruana de aglomerações de construções precárias, que surgem na periferia das cidades, e cuja população é composta quase integralmente por negros, índios e ex-camponeses mestizos.
v. Bairro precário e muitas vezes clandestino, como o "bairro de lata", o bidonville, os pueblos jóvenes, a favela, a barriada, etc.
vi. Ver a N.d.T. anterior
___
Referências
2. Por exemplo, é impossível encontrar a referência a estes conflitos na página web da OEA, organismo que pretende defender tanto os direitos privados como humanos. Ver: http://www.cidh.oas.org e http://www.usatoday.com/sports/olympics/2011-02-23-rio-de-janeiro-slums-humans-rights-2016-Olympics_N.htm 
4. Ver http://www.nycgovparks.org/art Estas esculturas são efémeras, o que significa que não são permanentes; no momento em que escrevo este ensaio, encontram-se no parque duas ovelhas de bronze, Sheep Pair, do escultor Peter Woytuk. Ver http://www.woytuk.com/archives/gallery/the-new-york-sculptures/ 
___
Nota de edição
Este artigo faz parte do Dossier «Devir menor» coordenado por Susana Caló e publicado na íntegra no Punkto. Foi publicado originalmente na Revista Lugar Comum, 41, Brasil, Universidade Nômade. Tradução do espanhol por Miguel Serras Pereira
___
Patrício del Real
Realizou o doutoramento em História da Arquitectura e Teoria na Universidade de Columbia em Nova Iorque e o mestrado em Arquitectura pela Universidade de Harvard. É co-editor da antologia Latin American Modern Architectures: Ambiguous Territories, publicado pela Routledge, 2012, e actualmente trabalha no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.