Projecto-em movimento ▬▬ Paulo Ávila







Este texto serve como comentário crítico ao texto «Dá-me um revólver e farei mover todos os edifícios» de Bruno Latour e Albena Yaneva


1.
Em que sentido se pode comparar a “vida” de um edifício ao voo de uma gaivota? No texto de Bruno Latour e Albena Yaneva, «Dá-me um revólver e farei mover todos os edifícios», destaca-se a incompletude com que ambos se apresentam perante o nosso olhar. No caso da gaivota, apesar de podermos, com os nossos olhos, compreender o seu voo enquanto fluxo, somos incapazes de discernir cada fase desse movimento. Por outro lado, ao olharmos para um edifício deparamo-nos com a dificuldade inversa: a de o compreender enquanto fluxo, quando o que observamos são apenas fases estáticas da sua evolução.

Tal como reconhecem os autores, foi-se estabelecendo a noção, particularmente entre os arquitectos, de que um edifício não é um objecto estático, mas antes um “projecto em movimento”. Isto implica admitir que aquilo que apreendemos, quando olhamos para um edifício, ou para a sua representação, é apenas uma pequena fracção das dimensões que o definem enquanto projecto. Não são apenas as infra-estruturas e os materiais que compõe o interior das paredes que escapam à nossa apreensão quando encaramos um edifício a olho nu, são também a evolução dos seus materiais ao longo do tempo, a actividade que os seus espaços suportam, as ambições e as negociações que geraram a sua construção, o impacto que provocou naquele lugar e nas pessoas que o habitam, entre muitos outros factores. No entanto, esta noção não parece ter qualquer efeito na forma como os edifícios continuam a ser divulgados, estudados ou concebidos.

No espaço euclidiano – ao qual continuamos a recorrer para conceber e representar os edifícios – é impossível reproduzir a maioria dessas dimensões que os definem enquanto projectos em movimento. Podemos recorrer às três dimensões convencionais (altura, profundidade, largura) para conceber um objecto abstracto; podemos representá-lo em perspectiva, tornando a sua visualização mais próxima do nosso ponto de vista real; podemos ornamentá-lo com sombras, texturas e cores, ou povoá-lo com objectos e personagens; podemos, enfim, adicionar o movimento, simulando a “quarta dimensão” – o tempo. No entanto, no que toca à aproximação da complexidade real que envolve a construção e à "vida" de um edifício, esse instrumento permanecerá irrealista, e nunca nos permitirá ir muito além do que nos permitiu durante o Renascimento, quando foi inventado o espaço perspéctico.

E não é apenas quanto à reprodução das dimensões “subjectivas” que, segundo os autores, o espaço euclidiano se revela limitado enquanto instrumento de concepção e de representação. Eles vão mais longe ao questionar a sua própria eficiência na reprodução do chamado mundo “material”. Isto significa que, nesse espaço, o “edifício” não é apenas depurado das suas implicações humanas; ele também aparece desprovido da sua natureza material. A matéria que o constitui encontra-se no mesmo mundo complexo, instável e imprevisível em que vivemos; ela nunca se encontra nessa condição estática que procuramos reproduzir através de pontos, de linhas e de planos, no espaço euclidiano. Pelo contrário, ela move-se, reage a uma multiplicidade de estímulos e transforma-se continuamente.

2.
Nada disto é novo. Reconhecer que a matéria se transforma, que não é estática, que existe no nosso mundo complexo, e que não pode ser representada em todas as suas dimensões, tal como não o pode um edifício enquanto “projecto em movimento”, parece simples. No entanto, continuamos a tratar as qualidades formais e construtivas dos edifícios, e as suas dimensões humanas, sociais e políticas, como se elas ocupassem planos de existência distintos; como se não estivessem intimamente relacionadas, e se pudesse delimitar rigorosamente quais as que devem, ou não, fazer parte das preocupações dos arquitectos.

Essa separação entre dimensões “objectivas” e “subjectivas” é evidente, por exemplo, quando se assume que a história da experiência arquitectónica se pode compreender estritamente através da compilação e análise tipológica e estilística de objectos arquitectónicos; isto é, quando entendemos que um conjunto de edifícios isolados das suas circunstâncias e agrupados conforme critérios formais nos pode dizer algo relevante sobre a evolução do nosso ambiente construído, ou sobre a complexidade intrínseca à  prática da arquitectura. Para além de insistir na separação entre as dimensões que definem os edifícios enquanto objectos abstractos e as que os definem enquanto "projectos em movimento", essa compreensão gera uma clara hierarquia entre elas; e isto traduz-se necessariamente numa visão limitada daquilo que pode ser a arquitectura.

Por sua vez, esta visão não pode ser dissociada da crescente oposição entre “teoria” e “prática”. No caso do ensino da arquitectura, o progressivo abandono da teoria – ou a sua conversão num espaço isolado de especulação – não seria possível sem essa divisão artificial entre as dimensões "objectivas" e "subjectivas” dos edifícios. É apenas compreendendo-os enquanto objectos isolados, situados num espaço abstracto, que podemos prescindir de qualquer fundamentação teórica na sua concepção. Na ausência de linhas discursivas e de processos de pensamento que estruturem o desencadeamento das decisões, a prática tenderá sempre a oscilar entre a especulação formal e a formatação, restando-lhe poucos apoios para além da acumulação de preconceitos formalistas.

Apesar da sua crise quanto à relação com a prática, não consta que a teoria tenha subitamente deixado de ser importante para se fazer arquitectura. É, no entanto, compreensível que ela se tenha tornado obsoleta dentro de um modelo da prática que a reduz à concepção especializada de objectos habitáveis. Cabendo-lhe apenas adicionar as «“dimensões” histórica, filosófica, estilística e semiótica a uma concepção do edifício que não se moveu um centímetro» [1], é de esperar que a teoria seja empurrada para uma posição marginal e irrelevante para a prática.
1.Bruno Latour e Albena Yaneva, Dá-me um revólver e farei mover todos os edifícios.

Por outro lado, uma prática "sem teoria" não está, por isso, mais próxima da realidade concreta onde intervém, nem revela uma lucidez particular em relação aos problemas que envolvem a construção ou a "vida" dos edifícios. Pelo contrário, é precisamente por não se apoiar num ponto de vista analítica e politicamente claro e fundamentado, que ela se torna mais susceptível à alienação, adaptando-se facilmente a um modelo que não é mais do que a resposta especializada aos preceitos funcionais e estéticos do mercado. A teoria enquanto oposição à ideologia – isto é, enquanto «construção de um ponto de vista analítico e político claro baseado no chão sólido de categorias conceptuais concretas» [2] – transforma-se rapidamente num incómodo para uma prática que não tem nenhuma ambição para além da sua integração no mercado.
2. Pier Vittorio Aureli, The Project of Autonomy: Politics and Architecture within and against Capitalism. Buell Center/ FORuM Project e Princeton Architectural Press, 2008.  p.55.

3.
É neste contexto que a proposta de Bruno Latour e de Albena Yaneva resulta tão pertinente. A sua proposta não implica que tenhamos de inventar mais instrumentos tecnológicos, desenvolver softwares mais sofisticados ou inventar novas formas de representação gráfica. É precisamente à teoria da arquitectura que eles colocam o desafio de transformar a nossa concepção dos edifícios, de modo a compreendê-los enquanto “projectos em movimento”. Isto faz dela o equivalente – voltando à comparação inicial do edifício com a gaivota – ao revólver fotográfico de Marey, que lhe permitiu finalmente observar cada fase do voo da gaivota. Para esse fim, não é suficiente insistir na sua manutenção enquanto espaço isolado de reflexão, mas, pelo contrário, como dispositivo que nos permita finalmente reunir, no mesmo "espaço óptico", as múltiplas dimensões que definem um edifício no mundo real, e que não podem ser reproduzidas em espaços abstractos, como é o espaço euclidiano.

Só assim podemos evitar o erro de reduzir os edifícios a objectos aos quais nos cabe atribuir significados, e passar a compreendê-los enquanto "territórios contestados”; que materializam uma extensa ecologia de relações invisíveis, motivadas por interesses diversos e contrastantes. O nosso objecto de análise deixa assim de se restringir às ideias do autor, aos desenhos finais, ou às fotografias do edifício recém-construído e vazio; passando a estender-se a toda a sua existência enquanto fluxo de transformações e de acontecimentos, partindo dos processos e negociações que acompanham a sua concepção e construção, passando pelos diferentes usos, apropriações, reacções, interpretações e transformações, até chegar ao seu eventual desaparecimento.

Aquilo que os autores nos propõem – quando escrevem que é preciso gerar «discussões terrestres dos edifícios e processos de concepção, e descobrir a pluralidade de entidades concretas nos espaços-tempos específicos da sua coexistência» [3] – é que nos re-aproximemos da realidade concreta onde os edifícios são construídos e onde são vividos, e que recuperemos uma compreensão mais holística da prática arquitectónica que a excessiva especialização impossibilita. É neste sentido que questões tão diversas como o comportamento da esferovite nas maquetas, as negociações envolvidas na construção, as reacções que um edifício provoca, tal como a resistência dos seus materiais ao uso e ao clima, dizem todas respeito ao âmbito disciplinar da arquitectura, sendo igualmente relevantes para descrever e para estudar os edifícios. Para alcançar essa compreensão, não podemos continuar a encarar a história da arquitectura como se ela se resumisse à evolução do desenho de um conjunto restrito de edifícios, ou do pensamento de um conjunto restrito de autores.
3. Bruno Latour e Albena Yaneva, Dá-me um revólver e farei mover todos os edifícios.

Nenhum arquitecto será capaz de negar que um edifício é diferente daquilo que está no desenho, e que a matéria que o constitui existe e se transforma no mesmo mundo onde decorrem a nossa vida, os nossos movimentos e a nossa própria transformação. Resta-nos reconhecer que a nossa prática não é isolada; que se insere nesse mesmo mundo de relações e de conflitos; e que somos, através dela, agentes activos dessa transformação. Se a arquitectura reivindica o conhecimento relativo aos edifícios, à cidade e ao território; ao ignorar grande parte das suas dimensões, estará inevitavelmente a contribuir para a sua progressiva irrelevância e, consequentemente, para a sua própria extinção enquanto disciplina.


Notas de edição
Este artigo serve como comentário-crítico ao texto «Dá-me um revólver e farei mover todos os edifícios» de Bruno Latour e Albena Yaneva, traduzido por Paulo Ávila e Pedro Levi Bismarck e publicado no Punkto em Junho de 2017.

Imagens
Julien David Le Roy, “Les ruines des plus beaux monuments de la Grece, considérées du côté de l'histoire et du côté de l'architecture”, 1770.

Paulo Ávila
Nasceu em Angra do Heroísmo, 1994. Frequenta o curso de mestrado integrado em Arquitectura, na FAUP, desde 2012. Vive no Porto.

Ficha Técnica
Data de publicação: 27.06.2017