Corpos Desintegrados e a Vida sem Valor em Gaza • Diogo Almeida





No dia 10 de Fevereiro de 2026, a Al Jazeera noticiou que Israel usou na Faixa de Gaza um conjunto de armas térmicas e bombas de vácuo que fizeram desaparecer milhares de Palestinianos. Em poucos segundos estas armas têm a capacidade de desintegrar os corpos humanos reduzindo a sua existência a meras cinzas. Sem corpos para velar, milhares de famílias palestinianas deparam-se com a mesma realidade que as persegue há décadas: as suas vidas estão tão subtraídas de valor que até a capacidade de recordar os seus entes queridos torna-se num acto de resistência. Posto isto, que implicações é que o uso deste tipo de armamento tem para o sujeito palestiniano?

 

Quando o luto não é possível

Mohammad Mansour (Al Jazeera) escreveu que em Gaza pelos menos 2842 palestinianos pereceram vítimas deste tipo de armamento. [1] Os únicos vestígios dos massacres são pequenas manchas de sangue ou pedaços de carne que resistiram à explosão. O horror do cenário promovido por estas bombas é inimaginável. Há, no entanto, para além do crime cometido uma lógica subjacente que alimenta o uso deste tipo de armamento: se não há corpo então não há vida a ser relembrada. E se não há corpo para ser velado é porque o que foi desintegrado não foi uma vida, mas sim algo diferente, algo abjecto que não merece ser inserido na lógica da subjectividade.

1. Mohammad Mansour, “Israel used weapons in Gaza that made thousands of Palestinians evaporate”, Al Jazeera, 10 de Fevereiro de 2026.

Neste aspecto, devemos recorrer à obra da filósofa Judith Butler para dar sentido a este raciocínio. Butler introduziu ao longo da sua carreira académica a noção de precariedade para definir a ideia de que a vida não é um dado adquirido, mas sim algo de bastante ténue. [2] Ser precário significa que, de certa forma, o meu corpo e a minha existência estão dependentes das minhas interacções com os outros e com as estruturas que compõem a sociedade. A diferença reside no facto de algumas vidas serem, efectivamente, mais precárias que outras. Uma vida mais precária é uma vida que está mais exposta à doença, ao abandono, à violência ou à morte.

2. Judith Butler, Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence, Verso, London, 2006.

Para além do mais, Butler refere que quanto mais precária é uma vida, menos valor tem o seu luto perante a sociedade. [3] Assim sendo, algumas vidas são tão desprovidas de valor que o seu luto se torna impossível. Um bom exemplo desta lógica é a forma como no “Ocidente” reagimos à perda de vidas civis na Ucrânia e em Gaza. Às primeiras é nos sugerido o luto e a reprovação da violência que as vitimou. Às segundas contam-nos histórias de como as mortes são um infortúnio resultado de um mero acaso, ou como estas eram inevitáveis. A capacidade de representar uma vida como velável é uma boa forma de reflectirmos no valor que lhe foi atribuído.

3. Judith Butler, Frames of War: When Is Life Grievable?, Verso, London, 2009.

Vidas sem valor

O que é que isto tem então a ver com o relatado pela Aljazeera? O acto de pôr término a outra vida é por si só um complexo exercício de desvalorização da existência do “Outro”. Todavia, desintegrar um corpo revela uma operacionalização da política da morte mais profunda. O encontro com o corpo de outro indivíduo traz ao de cima a fragilidade e a humanidade do sujeito que um bombardeamento abafa pela distância. Isto não significa que atrocidades não se cometam quando o encontro é directo. Indagar sobre essa dimensão não é o objectivo deste ensaio. O que realmente interessa é que tanto a um palmo de distância como a milhares de pés de altitude, a capacidade de evaporar um corpo é guiada por um profundo exercício de desvalorização da vida.

Quando Israel decide largar este tipo de bombas sobre uma população é porque encara aqueles a quem estas são dirigidas como algo que não está ao nível da categoria de sujeito. São vidas desprovidas de valor que não serão veladas porque a posteriori não restará nada para velar, e porque a priori nem sujeitos são para se relembrar. Apenas vida profundamente precária sem qualquer tipo de protecção perante um poder soberano que dita quem deve ou não morrer. [4] O exercício de desumanização posto em prática é de tal ordem nefasto, que desintegrar um corpo deixa de ser um acto impensável para se tornar uma realidade aplicável a milhares de Palestinianos.

4. Achille Mbembe, Necropolitics, Public Culture, v. 15 (1). Duke University Press, 2003.

Luto Impossível

Para os Palestinianos, velar aqueles que foram vitimados por Israel raramente é um evento pacífico. Em Gaza, o luto é particularmente complexo pela situação precária onde este é feito. Questões como o facto de grande maioria dos locais onde se recordam os mortos terem sido terraplanados, o receio de ajuntamento causado pelos constantes bombardeamentos, ou a recorrente perda de familiares e amigos associada à chacina israelita, são apenas algumas das nuances que dificultam o luto.

Se a capacidade de velar uma vida é indicativa do valor que esta tem, então quando esta capacidade é activamente limitada por Israel, a mensagem é clara: o sujeito palestiniano — profundamente desumanizado em vida — não é para ser relembrado. A sua existência é um erro histórico. Relembrá-lo na hora da sua despedida é uma tarefa proibida.

Com o uso de bombas térmicas e bombas de vácuo a lógica do luto impossível atinge um novo patamar de perversidade. A desintegração do corpo impede que haja um último encontro final entre o defunto e os seus entes queridos: um momento final de despedida que permita à família confrontar-se com a dor da perda irreversível. No seu lugar, Israel presenteia a já precária população palestiniana com o horroroso espectáculo do seu poder tecnológico. O corpo é substituído por matéria desintegrada e alguns pedaços de carne do que outrora fora uma vida vibrante.

O encontro final é então marcado pela ausência: de sujeito, de vida, de Humanidade. É uma cicatriz profunda numa sociedade há décadas em luta pela sua existência que com isto vê o seu opressor a extremar ainda mais a sua máquina de desumanização.

 

Subjectividade

Acima de tudo, o uso deste tipo de armamento significa que o sujeito palestiniano é apenas uma espécie de sombra, um corpo deambulante cuja desintegração não é uma anormalidade, mas sim uma prática recorrente. À luz do que é o olhar do agressor, estas 2842 vidas são meros números num ecrã, uma contagem de corpos horrorosa, um dado estatístico para uma série de generais e executivos se vangloriarem das capacidades bélicas do arsenal israelita.

O sujeito palestiniano é cada vez mais empurrado para o fundo do precipício da subjectividade. No fundo deste não sabemos o que lhes espera, mas sabemos o que é que este significa agora. Sempre que somos confrontados com este tipo de notícia e não nos indignamos, estamos a contribuir para este processo. Somos cúmplices da remoção da sua Humanidade. 

Conseguir velar o corpo perante a violência israelita é então um acto profundamente revolucionário. É o reclamar de uma vida e de uma subjectividade cujas bombas tentaram abafar. No “Ocidente”, o dever de qualquer pessoa que não se conforma com a realidade começa por não deixar que a memória destas vidas seja também ela apagada.

 

Em memória dos milhares de crianças, mulheres e homens que Israel massacrou.

 

 

 

Diogo Almeida

Diogo Almeida é mestrando em Relações Internacionais pela FEUC (Universidade de Coimbra) e ensaísta. Escreve sobre necropolítica, o estado de excepção e a questão da Palestina

 

Imagem

Malak Mattar (Palestina), Gaza, 2024.

 

Ficha técnica

Corpos Desintegrados e a Vida sem Valor em Gaza • Diogo Almeida

Data de publicação • 05.05.2026

 Edição #45 • Inverno — Primavera 2026