As duas mortes de Odair Moniz • Pedro Levi Bismarck



Ao longo dos últimos anos, temos assistido a vários casos de violência policial: as agressões a Cláudia Simões, o homicídio de Odair Moniz e os casos de violência, tortura e humilhação, na Esquadra do Rato contra imigrantes. De uma forma ou de outra estes casos revelam duas coisas: primeiro, que há um racismo institucionalizado na polícia e, segundo, que há, em vários níveis, conivência das estruturas dirigentes da polícia com esse racismo e com essa violência.

O caso de Odair Moniz é, de facto, muito grave: não apenas porque se matou um cidadão à queima-roupa sem que este representasse um perigo para qualquer um dos agentes, mas também porque, de forma a tentar ilibar o agente e a confundir a investigação posterior, foi plantada uma arma na cena do crime, imputando a Odair Moniz, portanto, a responsabilidade da sua própria morte.

E isso é um exercício de uma perversidade e de uma violência atroz. Odair Moniz foi sujeito a uma dupla violência: da sua morte física, propriamente dita, e da sua morte moral — que a sua família e amigos tiveram de defender, contra todos os pré-juízos e pré-conceitos raciais que a notícia logo desencadeou, revirando e expondo a vida privada e íntima de Odair. Pelo contrário, do agente que matou Odair quase nem sabemos o seu nome.

Há uma perversidade muito burguesa que a comunicação social reflecte morbidamente nestes casos em que a sua sede pelas imagens de violência nos bairros e de coisas a arder, se cruza com uma objectualização quase safárica do «outro» enquanto «outro», do outro-negro, do outro-imigrante, que serve para confirmar e garantir a manutenção de todos os estereótipos, de todos os preconceitos, sem que se chegue a interrogar as razões da violência e reconhecer as responsabilidades políticas na construção de uma sociedade que discursa sobre Universalismo, Igualdade, Direito, Justiça, mas cuja base, base material da sua organização social e urbana, é a exclusão.

E, neste sentido, o bairro social é não apenas a unidade mínima, mas a imagem-reflexo de uma sociedade que se constrói segundo um princípio de exclusão, de segregação, de guetização, da invisibilização da pobreza e da miséria para não ferir as almas burguesas mais susceptíveis e garantir a ficção de que tudo está no bom caminho deixando que a caridade do Banco Alimentar cumpra o seu caminho de redenção moral da sociedade.

E aqueles que foram atirados para a miséria, para os bairros sociais, são também objecto de uma dupla violência: da miséria em que vivem e da criminalização da sua própria miséria — criminalização da imigração, criminalização racial; criminalizados por serem do bairro, criminalizados por serem negros e imigrantes, criminalizados por não terem saído da sua situação de miséria, criminalizados por aparecerem, por serem a imagem daquilo que a sociedade portuguesa prefere não ver e não quer saber: perpetuação da desigualdade social, perpetuação do racismo, perpetuação da herança colonial, mas ainda, a perpetuação da violência e a perpetuação da dissimulação da violência.

E é aí que o caso de Odair Moniz é tão paradoxal, porque ele é o reflexo quase mimético de toda uma história colonial racista de violência e de dissimulação da violência: da violência exercida sobre o negro e da permanente dissimulação dessa violência, plantando uma arma, isto é, imputando ao imigrante, ao negro, a culpa do seu próprio destino, a culpa da sua própria morte. É a história do colonialismo que a morte de Odair Moniz escreve, expõe, de forma tão paradoxal e evidente.

Odair Moniz foi assassinado por ser negro, mas não apenas porque ele é o corpo onde está inscrito todo esse conjunto de pré-conceitos que a sociedade no seu todo não cessa de traçar e impor: o negro violento, o negro traficante, o negro imoral, o negro inconfiável, o negro incivilizado. Odair Moniz foi assassinado pelo agente da PSP porque em Odair o agente Bruno Pinto viu a representação de si mesmo, porque aquilo que Bruno Pinto viu em Odair foi o horror da sua própria violência, com a qual é incapaz de lidar e que só pode lidar com mais e mais violência. Bruno Pinto não teve medo de Odair, nem poderia ter medo de um homem desarmado, teve medo de si mesmo, daquilo que viu de si em Odair.

E essa é também a história do Colonialismo e do Ocidente.

 

 

 

Pedro Levi Bismarck

Editor da revista Punkto, investigador, crítico e ensaísta, publicou o livro O Mito de Israel. O Ocidente, a Política, a Morte (Documenta, 2025).

 

Ficha técnica

As duas mortes de Odair Moniz • Pedro Levi Bismarck

Data de publicação • 26.06.2026

 Edição #46 • Verão — Outono 2026