A cidade contra o mercado • Pedro Levi Bismarck

 


Na madrugada de 15 de Outubro, a polícia lançou uma violenta e injustificada carga contra os manifestantes acampados na Praça D. João I, num protesto pela habitação, que resultou em mais de trinta feridos. O resultado: uma das maiores manifestações que o Porto já viu na última década e o regresso em força da acampada à Praça D. João I, bem como uma nova acampada montada em pleno Rossio, em Lisboa. Na manhã desta terça-feira, ambas as acampadas foram violentamente desmontadas pelas forças policiais nas primeiras horas da manhã, numa repetição do mesmo gesto de autoritarismo anti-democrático.

Ao longo dos últimos dias, fomos obrigados a ouvir com estupefacção vários responsáveis políticos e da polícia vir a público justificar o injustificável, minimizar aquilo que não podia ser minimizado, procurando colocar a responsabilidade da violência sobre manifestantes que, até então, tinham organizado um protesto inteiramente pacífico. Ao mesmo tempo, o Presidente da República, em representação do regime de vulgaridade política instalado, não se coibiu de repetir a ladainha do costume em torno da «defesa das causas justas» «dentro do cumprimento estrito da lei», sem nunca enfatizar que quem violou a lei, a lei básica do regime democrático vigente, foi a própria polícia e os responsáveis políticos. As cargas policiais não foram lançadas contra os manifestantes; foram lançadas contra a própria Constituição da República; contra os fundamentos do regime democrático.

Posto isto, há três reflexões que estamos obrigados a fazer. Primeiro: aquilo que todos estes acontecimentos revelam é uma absoluta falta de cultura democrática. O exercício de vitimização que Luís Montenegro encenou a propósito da intervenção de um manifestante numa das assembleias que decorria no Porto é, provavelmente, o momento mais ridículo da semana passada. Até alguém insuspeito, como Henrique Raposo, teve de dizer: «É uma manifestação! O que é que o primeiro-ministro queria, um poema?» Há uma candura perigosa que o governo encena permanentemente que dissimula um profundo autoritarismo. Mas, de qualquer modo, aquilo que grande parte do espectro político da direita e do centro revelou não foi apenas um desprezo pelas reivindicações — urgentes e justíssimas — dos protestos; foi um desprezo absoluto pela própria democracia.

Porque é que Pedro Duarte e Carlos Moedas não se dignaram a ir às respectivas acampadas ouvir e falar com os manifestantes? Há uma espécie de horror, um ódio absoluto à democracia, ao exercício da participação democrática. Ora, a democracia faz-se na rua. E parece ser preciso voltar a lembrar, cinquenta anos depois do 25 de Abril, que os direitos de que ainda gozamos foram conquistados na rua. Ao contrário do que afirma Paulo Núncio, esse grande humanista representante da democracia-cristã, os manifestantes não são os «arruaceiros»; são cidadãos no pleno exercício de um direito e de uma condição política democrática. A desordem e a violência foram da inteira responsabilidade de Pedro Duarte, Carlos Moedas e Luís Montenegro. Eles são os «arruaceiros». E, neste momento, tornou-se claro: já não é apenas a habitação que está em causa, é a própria democracia. Mas também aqui estamos obrigados a perguntar: que democracia é esta em que é preciso vir reivindicar o direito à democracia?

Segundo aspecto: uma sociedade que aceita e tem até um certo prazer mórbido com este nível de violência institucional indiscriminada, como se tem visto, é já uma sociedade fascista ou em processo de fascização. Anos e anos de despolitização da sociedade, de apagamento do pensamento crítico nas escolas e nas universidades, de transformação da cultura num entretenimento, de transformação da comunicação social num espectáculo permanente de variedades e a degradação sem fim do jornalismo; mas também anos e anos de propaganda empreendedora neoliberal, de extremo individualismo e de naturalização da lógica do mercado com a expropriação de qualquer valor de solidariedade comum, não construíram apenas uma sociedade civil apática e medíocre, mas construíram as condições para um processo de fascização da sociedade no seu todo.

Há muito que a política desapareceu. A democracia transformou-se num espectáculo degradante. A política não é a administração corrente do Estado, nem a aprovação do orçamento do Estado; nem é o consenso ecuménico de António José Seguro. A política é a decisão e a luta sobre a forma como podemos viver colectivamente. E o que temos hoje é, justamente, a consciência de uma impotência da política, o que leva a um ressentimento que é, ainda para mais, aproveitado e instrumentalizado pela extrema-direita e pela direita. O «autoritarismo sem medo» de Pedro Duarte — um dos lemas da sua campanha — é, justamente, a forma de dar a uma classe média, moralmente e economicamente falida, não apenas a ilusão de um último gesto de estabilidade e de grandeza nesse seu pequeno mundo prestes a desintegrar-se, mas dar-lhe como compensação o prazer último pelo exercício da autoridade e da violência, mesmo que seja contra os mais pobres e os mais frágeis, mesmo que seja contra os seus próprios filhos.

E isso leva-nos ao terceiro aspecto: um Estado que usa indiscriminadamente a autoridade e a violência é um Estado que não tem respostas nem soluções. E que nem quer ter: porque é um Estado cuja única tarefa é continuar a proteger o processo em curso de privatização dos serviços públicos e de extracção de renda urbana e de rendimentos. E é um Estado que, perante qualquer contestação, não hesitará em recorrer à violência e em agravar o conflito social se for preciso, mesmo que isso signifique desintegrar a própria sociedade, para continuar a proteger o processo de expropriação e de acumulação de riqueza que o Mercado continua a operar, para continuar a salvaguardar não os interesses colectivos, mas os lucros sem fim da máquina expropriadora do Mercado. No final de contas, o que tudo isto nos mostra não é apenas o triunfo absoluto de um Mercado que capturou totalmente a democracia e os nossos direitos fundamentais da habitação à saúde, mas é um Mercado que se dá agora ao direito de exercer a sua violência de forma totalmente arbitrária e impune.

O Fascismo é, hoje, o Mercado, o triunfo do Mercado, a autoridade sem medo. Pelo contrário, a acampada foi e é uma verdadeira lição sobre o que é e o que pode ser a democracia, sobre o que é e o que pode ser a prática política de uma forma colectiva de estar-em-cidade. Foi isso que a acampada fez nascer e tornou evidente: o direito à habitação é o direito à cidade. E sem estes não há democracia possível. É isso que está doravante em jogo: a cidade contra o mercado. Democracia ou fascismo.


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Pedro Levi Bismarck

Editor da revista Punkto, crítico e ensaísta

 

Imagem

Egídio Santos, Porto, 2026.

 

Ficha técnica

A cidade contra o mercado • Pedro Levi Bismarck

Data de publicação • 20.10.2026

 Edição #46 • Verão — Outono 2026