Ao
longo dos últimos anos, temos assistido a vários casos de violência policial: as
agressões a Cláudia Simões, o homicídio de Odair Moniz e os casos de violência,
tortura e humilhação, na Esquadra do Rato contra imigrantes. De uma forma ou de
outra estes casos revelam duas coisas: primeiro, que há um racismo
institucionalizado na polícia e, segundo, que há, em vários níveis, conivência das
estruturas dirigentes da polícia com esse racismo e com essa violência.
O
caso de Odair Moniz é, de facto, muito grave: não apenas porque se matou um
cidadão à queima-roupa sem que este representasse um perigo para qualquer um
dos agentes, mas também porque, de forma a tentar ilibar o agente e a confundir
a investigação posterior, foi plantada uma arma na cena do crime, imputando a
Odair Moniz, portanto, a responsabilidade da sua própria morte.
E
isso é um exercício de uma perversidade e de uma violência atroz. Odair Moniz foi
sujeito a uma dupla violência: da sua morte física, propriamente dita, e da sua
morte moral — que a sua família e amigos tiveram de defender, contra todos os
pré-juízos e pré-conceitos raciais que a notícia logo desencadeou, revirando e
expondo a vida privada e íntima de Odair. Pelo contrário, do agente que matou
Odair quase nem sabemos o seu nome.
Há
uma perversidade muito burguesa que a comunicação social reflecte morbidamente
nestes casos em que a sua sede pelas imagens de violência nos bairros e de coisas
a arder, se cruza com uma objectualização quase safárica do «outro» enquanto
«outro», do outro-negro, do outro-imigrante, que serve para confirmar e
garantir a manutenção de todos os estereótipos, de todos os preconceitos, sem
que se chegue a interrogar as razões da violência e reconhecer as
responsabilidades políticas na construção de uma sociedade que discursa sobre Universalismo,
Igualdade, Direito, Justiça, mas cuja base, base material da sua organização
social e urbana, é a exclusão.
E,
neste sentido, o bairro social é não apenas a unidade mínima, mas a imagem-reflexo
de uma sociedade que se constrói segundo um princípio de exclusão, de
segregação, de guetização, da invisibilização da pobreza e da miséria para
não ferir as almas burguesas mais susceptíveis e garantir a ficção de que tudo
está no bom caminho deixando que a caridade do Banco Alimentar cumpra o seu
caminho de redenção moral da sociedade.
E
aqueles que foram atirados para a miséria, para os bairros sociais, são também
objecto de uma dupla violência: da miséria em que vivem e da criminalização da
sua própria miséria — criminalização da imigração, criminalização racial; criminalizados
por serem do bairro, criminalizados por serem negros e imigrantes, criminalizados
por não terem saído da sua situação de miséria, criminalizados por aparecerem,
por serem a imagem daquilo que a sociedade portuguesa prefere não ver e
não quer saber: perpetuação da desigualdade social, perpetuação do
racismo, perpetuação da herança colonial, mas ainda, a perpetuação da violência
e a perpetuação da dissimulação da violência.
E é
aí que o caso de Odair Moniz é tão paradoxal, porque ele é o reflexo quase
mimético de toda uma história colonial racista de violência e de dissimulação
da violência: da violência exercida sobre o negro e da permanente dissimulação
dessa violência, plantando uma arma, isto é, imputando ao imigrante, ao negro,
a culpa do seu próprio destino, a culpa da sua própria morte. É a história do
colonialismo que a morte de Odair Moniz escreve, expõe, de forma tão paradoxal
e evidente.
Odair
Moniz foi assassinado por ser negro, mas não apenas porque ele é o corpo onde
está inscrito todo esse conjunto de pré-conceitos que a sociedade no seu todo não
cessa de traçar e impor: o negro violento, o negro traficante, o negro imoral,
o negro inconfiável, o negro incivilizado. Odair Moniz foi assassinado pelo
agente da PSP porque em Odair o agente Bruno Pinto viu a representação de si
mesmo, porque aquilo que Bruno Pinto viu em Odair foi o horror da sua
própria violência, com a qual é incapaz de lidar e que só pode lidar com mais e
mais violência. Bruno Pinto não teve medo de Odair, nem poderia ter medo de um
homem desarmado, teve medo de si mesmo, daquilo que viu de si em Odair.
E
essa é também a história do Colonialismo e do Ocidente.
•
Pedro Levi Bismarck
Editor da revista Punkto,
investigador, crítico e ensaísta, publicou o livro O Mito de Israel. O
Ocidente, a Política, a Morte (Documenta, 2025).
Ficha técnica
As duas mortes de Odair Moniz • Pedro Levi Bismarck
Data de publicação • 26.06.2026
Edição #46 • Verão — Outono 2026


