Horror à democracia • Pedro Levi Bismarck




No passado sábado, dia 10 de Outubro, na sequência de uma manifestação em torno do direito à habitação e do aumento do custo de vida, vários manifestantes organizaram uma acampada na Praça D. João I, no Porto. No entanto, logo na segunda-feira de manhã, os manifestantes foram obrigados pela polícia municipal a desmontar as tendas, isto é, foram despejados pela própria câmara municipal, que tinha oferecido garantias de que não tinha qualquer intenção de desmobilizar um protesto que estava a ser inteiramente pacífico.

Na quarta-feira, ao final da tarde, as várias centenas de pessoas reunidas em assembleia decidiram voltar a montar a acampada. E na madrugada de quinta-feira, pelas três da manhã, as forças policiais intervieram violentamente sobre os manifestantes, já depois de estes terem começado a desmontar as tendas, provocando um total de 37 feridos.

Em poucos dias, o presidente da câmara municipal do Porto, Pedro Duarte, enquanto falava eloquentemente de democracia e de liberdade, decidiu exercer um brutal e, sobretudo, cobarde gesto de pura violência, pela calada da noite, aproveitando a ausência dos jornalistas, sobre uma manifestação inteiramente pacífica, sobre cidadãos que aquilo que fizeram foi unicamente exercer um direito constitucionalmente garantido em torno de um direito, o da habitação, que está (ou deveria estar) também ele garantido pela Constituição. (Este pequeno livro, que Pedro Duarte certamente desconhecerá, pode ser facilmente adquirido em qualquer livraria: existem algumas ainda no Porto…).

A violenta carga policial que a polícia exerceu ontem, pela madrugada, não foi contra os manifestantes; foi contra a própria Constituição da República, foi contra os fundamentos do regime democrático. Estas pessoas não foram apenas despejadas, uma e outra vez, do seu direito à habitação, foram despejadas, ontem mesmo, da sua própria condição política democrática. Elas e nós, diga-se.

Ora, o que tudo isto demonstra é, na verdade, a extrema falta de cultura democrática das nossas instituições, o desprezo absoluto, que é também o medo, o horror, perante aqueles que decidem levar avante o exercício radical da sua condição política e democrática. Quase poderíamos dizer que a democracia tolera tudo, menos a própria democracia. A democracia tem horror à democracia.

Mas este acontecimento foi igualmente a constatação de duas coisas: por um lado, a cobardia de um presidente da câmara que não se dignou a ouvir os manifestantes e a reconhecer a validade das suas reivindicações em torno de um direito básico e sobre uma situação que é hoje amplamente reconhecida pela sociedade portuguesa como uma tragédia, preferindo ordenar uma carga policial durante a madrugada; por outro lado, que perante a crise habitacional que o país vive há demasiado tempo a única resposta que os partidos da direita e Pedro Duarte têm para dar (para lá do novo pacote legislativo que apenas agudiza a situação existente) é apenas uma: a bastonada.

O Porto vive, há 25 anos, desde Rui Rio, passando por Rui Moreira e agora com Pedro Duarte, uma política permanente de rentabilização do património edificado da cidade. Com Rui Moreira e a marca «Porto.» a cidade tornou-se numa central de negócios imobiliários e de especulação, transformando a habitação num activo financeiro para gáudio da finança internacional e de toda uma oligarquia de proprietários, sem que tivessem sido implementadas um mínimo de políticas públicas capazes de contrariar a turistificação e a gentrificação acelerada da cidade que expulsou grande parte dos moradores do centro e transformou esta zona da cidade num parque temático para turistas.

O resultado destas políticas, que destruíram, além disso, um património arquitectónico e urbano único e exemplar, foi fazer da cidade do Porto uma espécie de cadáver embalsamado. Rui Rio, Rui Moreira, Pedro Duarte, juntamente com o seu exército de cínicos burocratas e vereadores — incluindo os da cultura que, de uma maneira ou de outra, tentaram retocar as pinturas desse cadáver moribundo, vendendo a miragem kitsch de um Porto pseudo-cosmopolita literato e cultural — são todos cúmplices de uma política que aquilo que fez foi destruir a forma e a vida de uma cidade.

Durante esta última década, a câmara municipal retirou-se de praticamente tudo o que tinha a ver com política pública: das infra-estruturas aos equipamentos públicos, dos jardins à mobilidade urbana, da habitação pública ao apoio social. No Porto, o Mercado não se limitou a triunfar: ele dá-se ao direito de exercer a sua violência de forma totalmente impune e arbitrária.

A manifestação, que certamente continuará, já não é apenas sobre o direito à habitação, já não é apenas sobre a ausência de políticas públicas de habitação, é uma manifestação pela própria democracia. Uma manifestação contra aqueles que, tendo sido democraticamente eleitos, aquilo que não suportam é observar o exercício pleno e livre da participação democrática. Numa democracia digna desse nome, com instituições propriamente democráticas, Pedro Duarte neste momento só teria uma possibilidade: a demissão. A questão que fica, no entanto, é esta: que democracia é esta em que é preciso vir reivindicar o direito à democracia?

Mas há ainda um outro aspecto relevante nesta equação. Já na primeira acção de despejo da acampada, a Câmara Municipal do Porto e a polícia referiram que a questão não era o protesto em si, mas «a ocupação do espaço público». Ora, esta afirmação lapidar e lacónica encerra em si todos os paradoxos dessa entidade supra-metafísica que é o «espaço público», que é, ao mesmo tempo, na sua abstracção conceptual garantia inviolável da democracia e da liberdade de expressão, mas, na prática, é uma espécie de figura kafkiana à qual nunca ninguém consegue verdadeiramente aceder.

Se aquilo que, mais uma vez, ficou patente foi o absoluto vazio conceptual dessa noção de «espaço público», por outro lado, é claro que o verdadeiro desígnio político que nos é colocado, perante a dissolução absoluta da democracia que está em curso, é romper com esta ficção idílica do «espaço público», com esta ideologia do «espaço público» onde toda a condição política nascente vem para morrer.

O «espaço público» não é, nem nunca foi, o lugar do exercício pleno da política, mas é o instrumento maior de neutralização da própria política. Em suma: o verdadeiro gesto político é aquele que destrói, ou que começa por destruir, a inviolabilidade sagrada do espaço público.

 

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Pedro Levi Bismarck

Editor da revista Punkto, investigador, crítico e ensaísta, publicou o livro O Mito de Israel. O Ocidente, a Política, a Morte (Documenta, 2025).

 

Ficha técnica

Horror à democracia • Pedro Levi Bismarck

Data de publicação • 15.10.2026

 Edição #46 • Verão — Outono 2026