“Ouça. Ouça. As crianças da noite fazem sua música. Meu
jovem… Você é como os aldeões que não conseguem sentir a alma do caçador”.
— Nosferatu:
Phantom der Nacht. Werner Herzog
1. De Laurence
Sterne diziam que, ao ajustar o início de um texto, entregava a Deus o que
vinha a seguir. “Tenho a certeza de que é o método mais religioso — escrevo a
primeira linha e ao Todo-Poderoso dou a segunda”. Se o romance enquanto género
literário nos dizia algo sobre o carácter diverso do mundo, onde as vozes
valorizavam um universo em certo sentido comum a partir do testemunho que se
ancorava na experiência, hoje, de longe, ouvimos as altas e baixas frequências
numa única sintonia, que é a do Terror. Favela da Penha e do Alemão, Gaza,
Minneapolis, são um único coro fúnebre de diferentes humores entre vencedores e
massacrados. A cultura, que servia a recomposição da tessitura interna do
indivíduo dilacerado pela reificação do mundo burguês, [1] já parece não
prometer nem a mera ideologia na acepção ortodoxa, isto é, engodo; só uma lenta
preparação do aparelho cognitivo para uma catástrofe que no seu momento
decisivo se torna a cada ano adiada, restando o pó sublime desses universos
apocalípticos fornecidos pela indústria do entretenimento — o mundo acelera
enquanto, incapazes do mesmo desempenho, congelamos. [2] A
insensibilidade em que se cria o humano no momento actual é a pedagogia da
indiferença, a impossibilidade de viver o comum. É desse deserto que o fascismo
emerge não só como reacção a uma crise sem volta do sistema, mas enquanto
horizonte propositivo, enquanto fábrica geradora de mitos [3] que, num
vislumbre, reascende a luz de um mundo sem deus: o fascismo é uma das respostas
a nossa incapacidade narrativa, uma proposição sobre um comum para poucos.
1. Herbert Marcuse,
Sobre o Caráter Afirmativo da Cultura [1937], Cultura e Sociedade, v. 1.
São Paulo, Paz e Terra, 2006.
2. Paul Virilio, A inércia polar, Publicações
Dom Quixote, Lisboa, 1993.
3. Pedro Levi Bismarck, O Mito de Israel –
O Ocidente, a Política, a Morte, Documenta, Lisboa, 2025.
2. O novo fascismo
é fruto do deslocamento estatal das fronteiras da soberania e da crise do
trabalho, crise da substância do valor. É diferente do fascismo histórico lá
onde é anárquico, não-arregimentador — trata-se menos de integrar as massas num
grande projecto arquitectónico onde o trabalho expande-se até à indústria da
morte dos campos de concentração, e mais na criação de técnicas de caça e
expulsão dos elementos ilegais, excedentes. Se não só o Terceiro Reich, mas o
próprio Welfare state, podem ser classificados enquanto momentos do socialismo
do capital, isto é, hiper-estatismo, militarização do trabalho, fordismo
político; a partir dos anos 70 e 80, naquilo em que começaria a ser descrito
como “neoliberalismo”, o que se observou foi justamente a realização, pelo
capital, do que prometia o comunismo [4] (extinção do
trabalho, do Estado, justaposição das esferas da sociedade que antes cumpriam
funções “separadamente”): a vitória do comunismo do capital foi a
realização catastrófica do horizonte comum.
4. Paolo Virno, Tesis sobre el
nuevo fascismo europeo.
3. A comunização
da violência desterritorializadora do capital gerou uma miséria que é hoje
transversal. O empobrecimento da cultura intelectual e material dá-se
justamente no momento de aburguesamento generalizado, de mutação
antropológica [5], de expansão da pedagogia última do homo
economicus: a indiferença. O círculo da violência e da morte encurta-se,
entretanto. O espaço colonial, laboratório da brutalização humana e escola do
fascismo histórico, foi expandido por Hitler para o próprio espaço europeu —
eis a sua grande heresia. Nem os colonos estariam assegurados. E a incorporação
da mão-de-obra migrante, a criação de uma subcategoria de cidadania e a
dinâmica de uma colonização permissiva, cindiu competitivamente uma classe
trabalhadora ainda muito dedicada ao progresso da nação.
5. Pier Paolo
Pasolini. Escritos corsários, Editora 34, São Paulo, 2020.
4. A promessa do
fascismo contemporâneo é o restabelecimento de fronteiras no interior de uma
sociedade onde o próprio capital as havia rompido. Com o fim dos guetos, onde
se erguia todo uma legislação, uma cultura, uma sensibilidade diversa em
relação aos desígnios homogeneizadores do Estado; onde, enfim, se erigiu uma
espécie de Estado paralelo [6], as fronteiras internas ao espaço
nacional tornaram-se cada vez mais flexíveis. Coube à polícia a contenção dos
elementos excedentes da crise do trabalho, além da criação de todo um aparato
de vigilância interna onde prédios confundem-se com câmaras, estações de metro
são meios de identificação, aeroportos são campos de desaparecimento. A
contra-revolução é o segredo da História diante de um espectro comunista
declinante, onde a imagem da maré revolucionária foi substituída pelos
inúmeros fantasmas paranóicos acerca do invasor — que também não deixa de
assumir a sua feição marítima quando lembramos de Alan Kurdi ou das embarcações
migratórias que não cessam de “morrer na praia”. [7]
6. Loïc Wacquant, As
duas faces do gueto, São Paulo, Boitempo, 2008.
7. Franco “Bifo”
Berardi, A democracia não é
possível na Europa, Punkto nº 16, 2017.
5. A utopia
fascista é a retomada do homem caçador. Refazer as fronteiras territoriais é
definir aquilo que é extrapolítico, o que está nesse espaço onde a vida pode
ser retirada sem dolo ou castigo. Se na hipótese do fascismo clássico os judeus
ricos tornaram-se os caçadores de homens que a aristocracia outrora foi, cabia
uma desforra, agora, pelos arianos, ao reencarnarem seu arcano caçador. “Uma
bela história… a Grande Época Averna…”, dizia Céline ao rememorar um suposto
massacre realizado pelos gauleses contra os romanos.
6. A exclusão não
gera apenas espaços e indivíduos desintegrados do corpo soberano, portanto
expostos a morte pela mão de um qualquer. A crise do trabalho enquanto elemento
central de integração social criou uma massa que se deve lançar às mais
diversas práticas de sobrevivência — ou mesmo num horizonte em que nem o
trabalho assalariado garante a reprodução mínima da vida —, onde condições
globais passam a assemelhar-se negativamente, suprimindo o fosso que separavam
os países atrasados dos desenvolvidos naquilo que veio a se
chamar brasilianização [8], uma espécie de integração
desintegradora passível, ainda assim, de captura pelo poder: “Excluídos dos
modos jurídicos de pertença, desqualificados para a cidadania, eles estão ao
mesmo tempo activamente ‘qualificados’ para a vida ilegal”. [9]
8. Paulo Arantes. A fratura
brasileira do mundo – Visões do laboratório brasileiro da mundialização.
9. Grégoire
Chamayou. As caças ao Homem – História e filosofia do poder cinegético, Antígona,
Lisboa, 2023.
7. O sublime
apocalíptico propagado pela cultura actual impede a figuração da nova
sensibilidade que vem sendo gestada nessa vida ilegal, que talvez seja o
único horizonte comum do qual dispomos. Hipnotizados com o desmoronamento de
uma normalidade que nunca existiu, a matéria dessa nova condição passa-nos ao
lado enquanto o nosso repertório artístico e cultural encontra-se aquém da
própria realidade. A ficção tornou-se uma fraqueza. O fim dos guetos e o
empobrecimento do que era antes o meio termo e a substância das sociedades
democráticas, a classe média, são indícios do espraiamento dessa nova condição.
Hoje, nos EUA, por exemplo, que elemento, que família está isenta da caça
policial? Aquilo que as filmagens têm mostrado é como toda uma inserção na
cidade é partilhada por americanos e estrangeiros: colegas de trabalho, de
prédio, de pobreza. Sendo que é a própria entreajuda de vizinhos um elemento
crucial na protecção dos indivíduos mais vulneráveis. Contra a imposição
estatal, o que se ouve muito nos depoimentos e reportagens, é a mobilização do
termo comunidade como forma de contrariar a barbárie promovida pelo ICE.
[10] É em oposição à violência contra esta comunidade
que os vizinhos se têm mobilizado. Parecem ter intuído que o círculo do
sacrifício, quando estabelecido pelo elemento caçador, torna o cão sedento
incapaz de largar a sua vítima até que ceda completamente à morte, até que toda
a oposição do seu corpo esteja aniquilada. O cão está cego. Todos os corpos lhe
são indistintos. Cheiram a carne animal.
10. Se a ideia de
community é um elemento transversal às classes e culturas americanas,
Minneapolis, pelo menos a nível simbólico, parece ter sido escolhida como alvo
privilegiado das últimas acções justamente por ser um espaço onde um certo nível
de solidariedade entre trabalhadores foi forjado ao longo dos séculos até os
mais recentes protestos a partir do assassinato de George Floyd. “Em primeiro
lugar, trata-se de uma conhecida cidade “santuário”, onde trabalhadores
imigrantes têm sido historicamente acolhidos e protegidos por redes
institucionais e comunitárias. Além disso, Minneapolis possui uma rica tradição
de activismo trabalhista, tendo sido o epicentro de um dos mais importantes
ciclos grevistas da história do país”. (Ruy Braga. Os grevistas de
Minneapolis.)
•
Ricardo Menezes
Ricardo Menezes é escritor e fotógrafo. Membro da Revista Zero à
Esquerda e do colectivo Bandung Ghosts
Ficha técnica
Notas sobre a caça e a vida ilegal • Ricardo
Menezes
Data de publicação • 18.03.2026
Edição #45 • Inverno — Primavera 2026


