Dionora. Para uma Arquitectura Menor \ Patrício del Real



___
Dionora. Para uma
Arquitectura Menor
Patrício del Real


Não deve surpreender-nos que num mundo assim, onde os mais belos jovens tinham sido reproduzidos nus e num tamanho gigantesco, por todos os lados, se desencadeasse uma virulenta febre de ninfomarmáticos e ninfomarmóreas.
Reinaldo Arenas

Dionora domina o terraço do seu edifício. Há muito já que se mudou para a açoteia de uma antiga construção de Habana Vieja: "Fui a primeira moradora", diz com uma voz forte e segura, "deste 'palácio', antes da Revolução" - em Havana, todas as casas velhas se transformam em palácios. Ostentando uma atitude senhorial, conta como "alargou ao terraço" o seu espaço "depois de a moradora se ter ido embora do país". Defensora das conquistas da Revolução, admite também os seus malogros, mas adverte-me que não pense que o estado ruinoso do edifício se deve à negligência, que não vá dizer "lá fora" que o que aqui se vê é sinal de um fracasso colectivo. Dionora é combativa; vive há muito tempo já uma batalha quotidiana: litígios com os vizinhos devidos às infiltrações constantes; negociações no mercado negro enquanto procura materiais para prosseguir a sua expansão permanente sobre as açoteias de Havana. Dionora combate para conservar o seu pequeno estado matriarcal. Embora defendida por um sistema legal e ético, Dionora luta contra uma cidade colonial que está a ser objecto de saneamento e posta ao serviço do turismo internacional desde que foi declarada pela UNESCO, em 1982, Património da Humanidade. As recentes transformações do Estado cubano, a legalização da propriedade privada em finais de 2010, com o objectivo da inserção do espaço urbano num mercado imobiliário nascente, geram novos conflitos para aqueles que, como os construtores de barbacoas [i] vivem intensamente o património histórico da nação cubana; por detrás das pressões do mercado internacional perfila-se a geografia económica nacional e consolida-se a imagem do "cubano" através de uma arquitectura colonial consumida por turistas.
No Rio de Janeiro, a batalha pela cidade assumiu dimensões olímpicas. Recentemente, o presidente do Comité Olímpico Internacional, Jacques Rogge, reclamou a "urbanização" das favelas do Rio. Rogge declarou que um grande investimento em infra-estruturas seria qualquer coisa de "fantástico" [1]. Por detrás da soma delirante, calculada em mais de cinco mil milhões de dólares, de um projecto fantasista, esconde-se o ditame de urbanizar - ou seja, de produzir um sujeito urbano. Os recentes projectos de arquitectura e urbanismo no Rio revelam uma cidade sequestrada pelo Olimpo, na qual os mecanismos internacionais são usados para expulsar ("relocalizar", na boa gíria burocrática) sujeitos incivilizados em operações menos espectaculares do que as recentes incursões paramilitares em favelas transformadas, através da imprensa e da televisão, em baluartes do tráfico internacional de drogas. Os construtores de favelas já não têm apenas de combater quotidianamente situações e organismos locais; hoje, é-lhes necessário ainda inserirem-se em circuitos internacionais e defenderem, através de organismos como a Organização dos Estados Americanos, reivindicações locais, não esquecendo que tais instituições possuem os seus próprios mecanismos de ofuscação [2]. A situação relocalizou as favelas do Rio, uma vez que o olhar internacional as deslocou para o sector dos desportos. A visão das favelas, apresentada nas páginas internacionais e de desporto, produz uma ofuscação populista entre espectáculos de violência real e violência ritualizada. Este modo de apresentar a questão, que tenta conter e localizar o problema como sendo o da existência de focos de intensidade urbana malsã, faz-nos esquecer que é o sujeito urbano, que Rogge deseja, que materializa o tráfico de drogas, e que as supostas redes internacionais têm a sua contrapartida nos consórcios internacionais das empresas farmacêuticas que possibilitam os escândalos olímpicos do doping.
"You don't need these", dizia Encarnación num inglês refinado aos agentes da polícia da cidade de Nova York; "não faço mal a ninguém", continuava, entregando-lhes as algemas que, deslizando, lhe tinham caído das mãos pequenas. Há mais de dez anos que Encarnación vende tamales a um dólar em Harlem, a trabalhadores, a estudantes, ao autor deste texto, a menos de um quarteirão de distância de um McDonalds, onde se fala espanhol. Encarnación vivia no Estado de Guerrero, no México, "com um telhado de folhas de palma e paredes de adobe", e, como muitos, veio para os Estados Unidos para melhorar a vida dos que ficaram no seu país [3]. Encarnación também melhorou Harlem; a sua pequena banca móvel (um carrinho de supermercado) à boca da estação de metro, junto a um pequeno parque, acabou por desenvolver ao longo de muitos anos uma pequena zona comercial efémera, onde, dependendo do dia e do tempo, se podem encontrar fruta, flores, bijutaria e até mesmo artigos de segunda mão. Esta forma de pressão sobre o uso correcto e oficial da cidade provocou a acção policial directamente sofrida por Encarnación, mais como um aviso destinado a lembrar quem realmente manda do que da efectividade de um poder que tem de negociar com uma economia estratificada e, assim, usar múltiplas estratégias de cooptação. As acções urbanizadoras da polícia de Nova Iorque não são tão espectaculares como as do Rio - as detenções efectuadas pela polícia da cidade são, em geral, bastante silenciosos. Menos violenta ainda é a política oficial de beneficiação estética da cidade (Arts in the Parks Program), que instala, temporária mas ruidosamente, esculturas nos parques da cidade, urbanizando assim uma cidade já urbana e que, em certas ocasiões, se sobre-urbaniza. As ovelhas de bronze do escultor Peter Woytuk, que disputam agora com Encarnación o pequeno parque, não serão, sem dúvida, detidas [4].


1. “Par de Ovelhas”, Escultura de bronze. Peter Woytuk na Broadway, Harlem, Nova Iorque (Via Flickr).

Em Havana, Rio de Janeiro e Nova Iorque, nestas três cidades tão diferentes, como em tantas outras, entretecem-se relações de poder no espaço urbano que desdobram um leque de desejos locais e internacionais, sob uma globalização que mobiliza e põe a produzir todos os estratos sociais e económicos. Pequenas acções, como vender um tamal a um dólar, mobilizam estratégias que revelam mercados paralelos em Nova Iorque (evitemos andar por aí a dizer que o mercado negro só existe no Terceiro Mundo), que, como em Havana ou no Rio, melhoram um certo número de vidas. O desejo de uma vida melhor transformou-se num imaginário colectivo que, nas suas pulsações globais, transcende qualquer geografia. As infiltrações contra que Dionora batalha na sua açoteia, manifestam um mundo de fendas através do qual a informação se globaliza e se democratiza. Este uso intenso do espaço urbano revela uma cidade conectada, articulada em redes internacionais, tanto legais como alheias à realidade oficial, activadas por um sujeito local que navega essas intensidades segundo os seus desejos e necessidades, produzindo múltiplas cidades dentro e fora dela. A cidade é uma zona de contacto intenso e expansivo onde o desejo encontra a sua forma. Surge aqui uma clara contradição, porque a intensificação dos contactos e a expansão das redes manifestam uma heterogeneidade que fragmenta a totalidade implícita na ideia de cidade. É, portanto, necessário falar, não de cidade, mas de cidades. Esta necessidade de falar no plural, assinalada há já algum tempo por Michel de Certeau, entre outros, e de romper com a ideologia da universalidade na qual se esconde ainda a táctica de reduzir "o outro", continua a ser um obstáculo para os que tentam articular meta-geografias, como a que a noção de Ibero-América supõe. Esta noção, e a relação histórico-cultural iniciada pela colonização espanhola e portuguesa a que a noção implicitamente se refere, articula um território possível de diferença e resistência, mas que se dilui com Encarnación, que articula outra comunidade, que não é só aquela que vive nos Estados Unidos, mas a que vive nos fluxos migratórios de uma força de trabalho "liberalizada". Inserir trabalhadores deslocados no quadro de geografias culturais particularistas parece ser um acto comprometedor, uma vez que os nigerianos na Península Ibérica, que não participam dos benefícios culturais de uma ideologia ibero-americanista, por exemplo, sofrem do mesmo modo que os equatorianos que hipoteticamente poderão mobilizar uma suposta cultura comum como se fosse uma carta de chamada. A mobilização do termo e da ideia de uma comunidade ibero-americana pode ser um acto de reivindicação, mas a ideia esconde uma consagração implícita de valores e tradições que reclamam unidade de espírito e transformam a história e a cultura em essências, por mais que as fragmentemos em pluralidades. A noção de Ibero-América depende da ideia de território; esta convergência entre espírito e território manifesta-se hoje como sintoma de retracção e alargamento do Estado frente ao mercado internacional. Deve ter-se presente que o imaginário luso-tropicalista do brasileiro Gilberto Freyre, que serviu para exaltar as bondades do colonialismo e da ditadura num momento de debilidade democrática no chamado Terceiro Mundo, serve como advertência perante qualquer meta-geografia que insista em articular oposições e exclusões. Creio ser hoje mais importante falar de uma rede de cidades do que de territórios, uma vez que a crescente urbanização agenciada actualmente pela expansão do mercado internacional reclama de nós novos imaginários geográficos. A chamada comunidade transnacional ibero-americana exerce as suas próprias exclusões, e se há alguma coisa que da globalização devamos recuperar, é precisamente a sua força de inclusão. Assim, devemos menorizar a Ibero-América.


2. Biblioteca de Espanha no Bairro de Santo Domingo, em Medellin, Colómbia. Projecto de Giancarlo Mazzanti, 2005-2007  (via wikipédia)

Hoje, ranchos como os de Caracas [ii], que antes não figuravam nos mapas, são cadastrados e incorporados na cidade; no Rio de Janeiro, pode fazer-se um circuito turístico pelas favelas; as barriadas de Lima integram-se plenamente no mercado imobiliário, de acordo com o ideário do economista peruano Hernando de Soto. As acções de uma "linguagem imperial" de "urbanização" passaram ultimamente a tomar por objecto lugares anteriormente inexistentes, excluídos ou demonizados. A cidade é rearticulada hoje enquanto corpo orgânico, quer dizer, como um total diferenciado, não desprovido de conflitos, mas necessariamente funcional sob a globalização. Esta rearticulação, ainda em processo, manifesta-se a diferentes escalas. Em Bogotá, Caracas e Rio, os bairros pobres de Santo Domingo, San Agustín e Alemão respectivamente, foram incorporadas no tecido urbano através de elegantes teleféricos, e, em certos círculos de arquitectura da Ibero-América, encontramos um interesse pontual e renovado pelos processos ditos informais, que dão origem a favelas, ranchos, villas miserias, barbacoas, barriadas, tapancos, chabolas, pueblos jóvenes, shanty towns, slums, bidonvilles, etc. Estabelecem-se assim momentos de contacto, de fascínio e de desejos, entre o marginal e a arquitectura.
A constante luta dos habitantes das favelas do Rio de Janeiro esforçando-se por melhorarem as suas vidas é uma fonte de admiração e estupefacção para arquitectos que propõem intervenções críticas e para ateliers de escolas de arquitectura que tentam introduzir novos temas, com o objectivo de promoveram a renovação de uma disciplina já comprometida com o poder e de uma profissão cega por uma espectacularização sob a tutela dos star architects. Das condições extremas - extremadas pela intensidade daqueles que as vivem e pela distância daqueles que não a sofrem -, os arquitectos recuperam um agenciamento inventivo do presente e do agora, executado por sujeitos marginais investidos de uma certa inocência e de uma criatividade intensa. O desdobrar-se de estratégias construtivas ad hoc, deste bricolage material e produtivo, solicita o interesse e a admiração, e mobiliza um estranho humanismo que reclama a nossa compaixão e a nossa inveja, revelando a profunda transformação conceptual que os ranchos sofreram. Se antes as villas miserias eram cancros a ser extirpados, são hoje imaginados como padrões urbanos alternativos, construções sociais de onde emergem propostas vernaculares de um "lugar" possível contraposto ao espaço abstracto da cidade moderna. Hoje os processos de construção das barbacoas revelam novos procedimentos de projecto para uma arquitectura sobrecarregada pela tecnologia e reduzida à subjectividade do seu autor. Nestes espaços marginais, alguns descobrem um processo de construção de comunidade enquanto acto social reivindicativo e processo de projecto de resistência; aos dois níveis, social e pessoal, surge aqui como que uma alternativa aos discursos hegemónicos da globalização. A sedução em causa não é nova, possui uma já longa tradição, que, desde o século XIX, tenta reintegrar uma tradição enraizada nas forças descontextualizantes da modernização: trata-se da luta que encontramos em Dionora, quando, armada com baldes de cimento e pequenas vigas de ferro, madeiras e pás, menoriza a subjectividade de género do "construtor", que a própria linguagem prefigura como sujeito masculino. Como já observou a crítica Eve Kosofsky Sedgwick, dos Estados Unidos, a recuperação do não-oficial liberta um fluxo de desejos escondidos. As incursões paramilitares nas favelas do Rio revelam os complexos combates de género de um lugar já altamente politizado. As intervenções dos arquitectos nos ranchos desarticularão os desejos de masculinidade da arquitectura?
A dualidade persistente entre tradição e modernidade foi forjada na arquitectura por um modernismo que desejava ser a linguagem oficial do moderno. Os bairros degradados não podem ser reduzidos a sonhos românticos, a espaços vernaculares de sociabilidade pré-capitalista, numa tentativa visando reproduzir lugares de resistência ao mercado internacional; também não podem ser reduzidos a espaços de um capitalismo selvagem dominados e espectacularizados pela violência; não são lugares de resistência ou espaços de violência, mas constituem âmbitos nos quais descobrimos resistências e violências; por outras palavras, são lugares reais e actuais, não imagens para deleite ou horror de um consumidor afectuoso ou hostil, embora nos dois casos igualmente distante. Neste sentido, qualquer tentativa de articular uma relação entre uma urbanidade intensa de emergência e uma arquitectura emergente na Ibero-América requer a identificação de um momento de inflexão histórica. A valorização de espaços produzidos à margem, ainda que sempre ligados ao mercado, à cidade, à arquitectura, marca a nossa particularidade histórica. Trata-se de uma postura sintomática de um mundo heterogéneo, e também de uma mudança cultural, em que já não vemos, nas suas vastas extensões urbanas, o "atraso da nação", como se dizia nos anos 50 a propósito dos ranchos de Caracas, mas o seu futuro. A capitalização da cidade tornou-se extensiva; mas se se valoriza a experiência vivida pelos residentes dos bairros pobres, se se valorizam os processos de construção, o uso dos materiais que aponta para uma criatividade do sujeito marginal, devemos perguntar também onde terminam os contornos desta valorização. A coincidência dos valores de mercado e dos valores produzidos nos ranchos está ainda em gestação. As narrativas anteriores, que descreviam a injustiça social no interior de um quadro nacional de cidadania, são hoje reformuladas no quadro da economia, duplicando-se a todos os níveis, da gestão dos recursos naturais (ecologia) à correcta administração do doméstico (oeconomia) e do pessoal.


3. Small Scale, Big Change: New Architectures of Social Engagement (October 3, 2010–January 3, 2011), Moma. Página web da exposição.

É importante, por isso, perguntar que valores hoje aqui descobrem os arquitectos. A obra persistente de Jorge Mario Jáuregui - insistindo durante quinze anos sobre as favelas do Rio através do Programa Favela-Bairro - obteve ressonância e constituiu-se como modelo para a Ibero-América. Trata-se, contudo, de um trabalho que causa também desorientação, uma vez que, sem menosprezo da magnífica e necessária obra realizada, depende da figura do arquitecto como profissional-especialista que reconcilia os desejos dos moradores dos bairros com o poder. A capitalização da arquitectura social, embora não completamente consolidada, efectuou-se já na Sétima Bienal de Veneza sob o título Less Aestethics, More Ethics - Menos estética, mais ética, e, mais recentemente, no Museu de Arte Moderna de Nova York, com a exposição Small Scale, Big Change. O que estou a tentar articular aqui são os limites tanto do fascínio que hoje exerce sobre os arquitectos a necessidade sofrida pelos construtores de tapancos [iii] como os limites de um olhar que responde a uma pergunta tautológica, uma vez que, nesse fascínio e nesse olhar, os arquitectos ou se descobrem a si próprios, ou se descobrem arquitectos "menores", e deparamos aqui com um impasse. A pergunta é unidireccional - de quem olha quem - tentando abrir assim um espaço teórico. Porque aquilo que importa, se quisermos continuar a reclamar benefícios das barracas, não é vermos como os construtores de pueblos jóvenes [iv] são arquitectos em ponto pequeno, mas como as suas acções menorizam a arquitectura. É fácil descobrir arquitectura nas shanty towns [v], mas é mais difícil descobrir shanty towns na arquitectura. Proponho que retomemos o processo de capitalização efectuado em Veneza, no sentido em que o limite da valorização das favelas - quer dizer, o que não se trata de valorizar nas favelas - deve ser precisamente a estética que exibem. Daí que, em Veneza, se tenha insistido mais na ética, a fim de prevenir o colapso da arquitectura sob os seus próprios valores estéticos.
As recentes e magníficas arquitecturas de Bogotá e de Medellín - como, por exemplo, a Biblioteca España de Giancarlo Mazzanti, na segunda destas cidades - abrem um diálogo complexo que mobiliza os contrastes: uma clara estética arquitectónica de elite sobrepõe-se à estética convulsa do slum [vi] de Medellín. Articula-se assim uma arquitectura cívica de elevado valor, tanto financeiro como estético. Em Santiago do Chile, Alejandro Aravena, com o concurso das soluções de construção ELEMENTAL, integra estratégias de crescimento gradual, incorporando assim uma temporalidade presente nos bidonvilles e estratégias de construção elaboradas durante a década de 1950, por exemplo, no Norte de África sob o regime colonial francês. Mas o que importa é perguntar se as estratégias e os discursos fluem nas duas direcções: quer dizer, se podemos descobrir na arquitectura de Aravena ou de Mazzanti essa informalidade que hoje exerce tanto fascínio; descobrir os ranchos nas Torres Siamesas do Campus San Joaquín da Pontificia Universidad Católica do Chile; se podemos descobrir as villas miserias num dos bastiões do poder na Ibero-América; se a estética da emergência aparece na arquitectura ibero-americana emergente - uma arquitectura que começa a transbordar do seu limite geográfico, não como curiosidade do momento, mas como arquitectura menor.


4. Conjunto habitacional Quinta Monroy, Chile, Elemental, 2003-05. Fotografia Cristóbal Palma (Elemental).

As incursões de arquitectos nas barbacoas menorizaram a arquitectura. A polivalência material, a utilização de diversos materiais tradicionalmente precários, como o tijolo e a madeira; a revalorização dos processos de construção informais ou primitivos, como o adobe - como na Escuela de Artes Visuales de Oaxaca, no México, de Mauricio Rocha -, revelam as atitudes da arquitectura emergente. A preferência por estratégias informais é condicionada por uma tendência já bem estabelecida para a experimentação material em arquitectura. Assim, a articulação material não é necessariamente uma menorização da arquitectura. Talvez seja, portanto, mais produtivo tornarmos a insistir no campo da estética, uma vez que a estética de elite resiste a incorporar a emergência. Se examinarmos a produção arquitectónica que se contém na casa unifamiliar da Ibero-América, descobriremos que nada nela emerge. A casa unifamiliar revela-se como o grande baluarte de uma classe social tradicionalista hoje protegida por um cuidado e sufocante minimalismo estético. As múltiplas versões daquilo a que podemos chamar "a gaiola" de vidro, cimento ou madeira - muitas vezes desvirtuada por combinações de materiais ou geometrias decorativas postiças - exprimem o tédio, a leviandade intelectual e a ausência de valores comunitários dos seus proprietários. Estes cubículos da versão estética oficial, espaços de abstracção minimalista, são máquinas de fuga potenciadas pelos arquitectos - pois, quem desejará viver num estado de constante fragmentação como o das barriadas? Mas são também espaços de poder, onde se reproduzem os valores de uma sociedade desigual e tradicionalista no pior sentido da palavra, como é o caso com o ainda muito vincado paternalismo da região. O elitismo que circula com insistência nas revistas de arquitectura e a compartimentação das construções informais no interior de uma emergência que não vê a sua contribuição estética, não fazem mais do que confirmar que a região continua a ser a mais desigual do mundo. Após as repetidas incursões no mundo da informalidade, a arquitectura na Ibero-América não foi capaz de articular um projecto coerente de arquitectura menor. E se a incursão nas favelas radica somente na capitalização de uma economia de valores imobiliário e humanitário, reduz-se consequentemente a valorização e o efeito saudável que aquelas podem ter sobre uma arquitectura que depende ainda da estética do poder.
Mas a resposta não está nem nos proprietários, defensores dos seus próprios interesses, nem nos arquitectos, porque ao fim e ao cabo o simples construir já é suficientemente difícil: o problema radica na ausência da crítica da arquitectura - mas que arquitecto ou proprietário deseja que a sua obra e o seu investimento financeiro e estético seja desvirtuado por subtilezas intelectuais que, embora também difíceis de construir, a poucos interessam? Não devemos esquecer que só o meritório merece ser criticado, pois o que interessa é a crítica produtiva, a crítica que trabalha. Como tantas outras casas difundidas por revistas ibero-americanas, a elegante Casa Poli dos arquitectos Pezo von Ellrichshausen (PvE), instaura, numa falésia da costa chilena, a convergência de uma casa de férias com um centro cultural, que, como um cubo caído do céu, tenta fazer esquecer o preço ecológico que estas arquitecturas implicam - não só devido aos processos de construção que alteram o ambiente, mas também, e em primeiro lugar, pela contaminação abstracta que a sua capitalização estética exerce sobre o quadro natural. A estética da paisagem, tão elegantemente elaborada pela equipa chileno-argentina de arquitectos através das elegantes vistas sobre o Oceano Pacífico que perfuram o cubo, articula uma manipulação visual que insiste na definição artístico-estética da palavra paisagem - uma definição que esquece por força a sua relação com um terreno que o camponês trabalhou arduamente, sem contemplação, mas com a sua própria naturalidade estética. O império do visual desdobra-se na imagem, produzindo uma arquitectura facilmente capturada pelas revistas. A estética do camponês já foi capturada pelo romantismo no século XIX, e hoje, na Ibero-América, resiste a esta nova forma de incorporação.


5. Casa Poli, Pezo von Ellrichshausen, 2003-2005. (PvE)

A partir da convergência entre o visual e o terreno, do confronto entre a paisagem e o camponês, da união entre o olhar do autor e a mão da sua antítese, do contraste máximo entre a obra na falésia dos arquitectos PvE e a açoteia de Dionora, podemos elaborar uma tentativa de arquitectura menor. Devemos começar por recusar qualquer tentativa de definir as favelas como arquitectura, uma vez que essa incorporação  discursiva esconde a hierarquia operacional de valores estéticos ainda bem instalada na arquitectura, e desarticula qualquer tentativa possível de elaborar uma arquitectura menor, uma vez quer, se seguirmos Deleuze, ela só poderá ser a prática menor no interior de uma linguagem maior. Se considerarmos a produção construtiva por volume da cidade ibero-americana, veremos que são os arquitectos que produzem a menor quantidade de estruturas e de espaço construído da cidade, enquanto são os construtores dos bairros que produzem a maior parte. Assim, a operacionalidade da arquitectura como linguagem a menorizar radica principalmente em acções críticas sobre os seus valores estéticos - quer dizer, na sua relação com o poder, ou, como diriam os modernistas brasileiros, com a bão tradição, com essa tradição que delineia os contornos da boa sociedade. Se os arquitectos podem aprender alguma coisa com os construtores de favelas é o modo como estas permanecem frágeis, sem que isso seja fraqueza: a fragilidade construtiva que faz da favela uma obra em surgimento constante é qualquer coisa que os arquitectos começam já a incorporar, ainda que de modo insuficiente. Estando em construção permanente, as barriadas exibem as suas contradições à flor da pele e revelam uma construção estética colectiva, uma montagem expressiva sem autor a que a arquitectura resiste. O caminho a percorrer é difícil, uma vez que a ideologia do estilo unitário e representativo da mão do "arquitecto" como criador singular e autoritário está tão enraizada que um artefacto tão complexo como um edifício, um artefacto que requer uma equipa de pessoas e profissionais, precisa ainda de ser identificado e reduzido a um único arquitecto. Objectar-se-á que, sem esta força homogeneizadora e controladora o resultado seria uma vaga desordenada de kitsch numa sinfonia sem tom nem harmonia. Talvez, mas temos de nos dar conta de que, por detrás de tais argumentos contra a dissonância e a heterogeneidade, se esconde a produção de simples objectos de consumo imediato, de uma arquitectura capitalizada pelo mercado e não por arquitectos.
___
Notas da tradução
i. As barbacoas — por vezes consideradas como "favelas interiores" — são plataformas ou tablados construídos aproveitando os "pés direitos" muito altos de velhas casas, cujo resultado é subdividir e reordenar os espaços interiores, fornecendo alojamento a um grande número de elementos da população de Cuba.
ii. Um rancho, na Venezuela, é uma construção improvisada, utilizando materiais usados e pobres, como as que encontramos nos chamados "bairros de lata". Este tipo de construção proliferou em Caracas, sobretudo a partir da década de 1960
iii. O tapanco designa originalmente, no México, um piso que se constrói sob o telhado, por cima do tecto ou falso tecto das outras divisões
iv. Designação peruana de aglomerações de construções precárias, que surgem na periferia das cidades, e cuja população é composta quase integralmente por negros, índios e ex-camponeses mestizos.
v. Bairro precário e muitas vezes clandestino, como o "bairro de lata", o bidonville, os pueblos jóvenes, a favela, a barriada, etc.
vi. Ver a N.d.T. anterior
___
Referências
2. Por exemplo, é impossível encontrar a referência a estes conflitos na página web da OEA, organismo que pretende defender tanto os direitos privados como humanos. Ver: http://www.cidh.oas.org e http://www.usatoday.com/sports/olympics/2011-02-23-rio-de-janeiro-slums-humans-rights-2016-Olympics_N.htm 
4. Ver http://www.nycgovparks.org/art Estas esculturas são efémeras, o que significa que não são permanentes; no momento em que escrevo este ensaio, encontram-se no parque duas ovelhas de bronze, Sheep Pair, do escultor Peter Woytuk. Ver http://www.woytuk.com/archives/gallery/the-new-york-sculptures/ 
___
Nota de edição
Este artigo faz parte do Dossier «Devir menor» coordenado por Susana Caló e publicado na íntegra no Punkto. Foi publicado originalmente na Revista Lugar Comum, 41, Brasil, Universidade Nômade. Tradução do espanhol por Miguel Serras Pereira
___
Patrício del Real
Realizou o doutoramento em História da Arquitectura e Teoria na Universidade de Columbia em Nova Iorque e o mestrado em Arquitectura pela Universidade de Harvard. É co-editor da antologia Latin American Modern Architectures: Ambiguous Territories, publicado pela Routledge, 2012, e actualmente trabalha no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

Post-scriptum sobre as condições de possibilidade de uma política da literatura \ Eduardo Pellejero


___
Post-scriptum sobre as
condições de possibilidade
de uma política da literatura
Eduardo Pellejero


Se falamos da inscrição da literatura nos corpos individuais, ou se assinalamos a possibilidade de uma desincorporação a respeito dos corpos colectivos através da escrita; se constatamos, de forma geral, um devir-menor das poéticas latino-americanas de cujos efeitos políticos ainda não tirámos todas as consequências, devemos pressupor que a ficção e a realidade se tocam em algum lugar, sobrepõem-se ou, melhor, entram numa zona de indiscernibilidade.
Mais geralmente, a possibilidade de uma relação efectiva entre estética e política remete a um plano comum, a uma ordem imanente cuja lógica tem sido diversamente abordada pelo pensamento contemporâneo, nomeadamente na tentativa de pensar as formas de intervenção da criação artística. Remeter a questão a uma estética primeira (Rancière) ou a um plano de imanência (Deleuze) são algumas das formas contemporâneas de dar conta dessa condição de possibilidade, cuja determinação é uma exigência para qualquer filosofia que pretenda inscrever a arte no contexto de uma pragmática alargada.
Tomemos o caso de Gilles Deleuze. Na ideia de que a literatura é ou pode chegar a ser algo mais que uma sublimação dos nossos desejos falidos, na ideia de que a literatura é um objecto entre outros objectos, máquina entre máquinas, e que o escritor “emite corpos reais” [1]. Deleuze desenvolve uma ontologia da expressão. Esta ontologia conhece diferentes formas na sua obra, mas ganha uma consistência ímpar através do conceito de agenciamento de desejo, enquanto unidade de análise que articula estrategicamente uma série de elementos heterogéneos (discursos, instituições, arquitecturas, regulamentos, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, etc.). Alternativa conceptual ao sujeito e à estrutura, o agenciamento de desejo permite a Deleuze refundar uma teoria da expressão eliminando qualquer traço representativo. Relacionando os fluxos semióticos com os fluxos extra-semióticos e as práticas extra-discursivas, para além das relações de significante a significado, de representante a representado, o agenciamento é uma relação de implicação recíproca entre a forma do conteúdo (regime de corpos ou maquínico) e a forma da expressão (regime de signos ou de enunciação). Neste sentido, assinala Deleuze, qualquer agenciamento tem duas caras: “Não há agenciamento maquínico que não seja agenciamento social de desejo, não há agenciamento social de desejo que não seja agenciamento colectivo de enunciação (...) E não basta dizer que o agenciamento produz o enunciado como o faria um sujeito; ele é em si mesmo agenciamento de enunciação num processo que não permite que nenhum sujeito seja atribuído, mas que permite por isso mesmo marcar com maior ênfase a natureza e a função dos enunciados, uma vez que estes não existem senão como engrenagens de um agenciamento semelhante (não como efeitos, nem como produtos). (...) A enunciação precede o enunciado, não em função de um sujeito que o produziria, mas em função de um agenciamento que converte a enunciação na sua primeira engrenagem, junto com as outras engrenagens que vão tomando o seu lugar paralelamente” [2]. Noutras palavras, os corpos e os enunciados, as palavras e as coisas, são parte de um mesmo regime de expressão, de uma mesma configuração do desejo (sempre aberta, por outra parte, a novas configurações, na medida em que qualquer agenciamento compreende pontas de desterritorialização, linhas de fuga por onde se desarticula e se metamorfoseia). É a partir dessa ontologia que, retomando a noção bergsoniana de fabulação para dar-lhe um sentido político, Deleuze restitui toda a sua potência à literatura. A máquina de projectar da escrita não é separável do movimento da política: subjectiva, a escrita remete à subjectividade dos grupos onde começa a fazer sentido como expressão, onde deixa de ser um mero devaneio da imaginação para passar a formar parte de um agenciamento colectivo de enunciação (“a força de projecção de imagens é inseparavelmente política, erótica e artística” [3]). A literatura é uma engrenagem (a) mais, uma formação suplementar, lado a lado com os equipamentos do saber e do poder, as configurações da subjectividade e as canalizações do desejo que dão consistência a uma sociedade; e, nessa mesma medida, concorre na articulação (sempre inconclusa) do comum.
Mais perto de nós, Jacques Rancière propõe que arte e política não são duas realidades separadas cuja relação estaria em causa, mas duas formas de partilha do sensível dependentes de uma estética primeira: espécie de a priori histórico que determina regimes específicos de identificação (do público e do privado, do individual e do colectivo, da arte e do trabalho, etc.) [4]. Deste ponto de vista, a política compreende uma estética, na medida em que estabelece montagens de espaços, sequências de tempo, formas de visibilidade, modos de enunciação que constituem o real da comunidade política. Ao mesmo tempo, a arte compreende uma política pela distância que guarda a respeito dessas funções, pelo tipo de tempo e de espaço que estabelece, pela forma em que divide esse tempo e povoa esse espaço. O que liga a prática da arte à questão do comum, o laço entre estética e política, é a constituição, ao mesmo tempo material e simbólica, de um determinado espaço-tempo (no qual se redistribuem as relações entre os corpos, as imagens, as funções, etc.), produzindo certa ambiguidade em relação às formas ordinárias da experiência sensível (o próprio da arte, segundo Rancière, consiste em praticar novas formas de articulação dessa experiência). “A relação entre estética e política é a relação entre a estética da política e a política da estética, isto é, a forma em que as práticas e as formas de visibilidade da arte intervêm na partilha do sensível e na sua reconfiguração, no qual recortam espaços e tempos, sujeitos e objectos, o comum e o particular. A estética tem a sua política própria que não coincide com a estética da política senão na forma do compromisso precário. Não há arte sem uma determinada partilha do sensível que a liga a uma determinada forma de política (a estética é essa partilha). A tensão das duas políticas ameaça o regime estético da arte, mas é ao mesmo tempo aquilo que o faz funcionar.” [5]. A literatura pode momentaneamente colaborar na conformação política de um corpo social, mas a escrita – no seu regime estético, isto é, tal como a praticamos, a lemos e a pensamos hoje – tende a produzir uma desincorporação em relação às identificações imaginárias disponíveis, tende a interromper as coordenadas normais da experiência sensorial e, a partir desta, a percepção ordinária da partilha do sensível (e as suas coordenadas políticas). Qualquer política da poética contemporânea não pode ser para Rancière senão uma política do dissenso (com o risco de anular-se como poética), e não pelas intenções que projectamos sobre a literatura, mas pela forma na qual – nos nossos dias – vemos, fazemos e pensamos a arte.
As tentativas de pensar as relações entre estética e política não se limitam aos dois casos que mencionámos (nem esses casos desconhecem problemas de ordem teórica e prática). Como dizia Blanchot, a resposta autêntica é sempre a vida da pergunta, e esta é uma pergunta que nos inquieta e nos inquietará quiçá por muito tempo. Nem toda a obra redefine a arte, da mesma forma que nem todo o nascimento recria o mundo, mas vibra nestes dois acontecimentos seminais a esperança de um outro mundo possível, de um outro homem, do devir (menor) da consciência.
___
Referências
1. Deleuze, Pourparlers, Paris, Minuit, 1990; p. 183.
2. Deleuze-Guattari, Kafka: Pour une litterature mineur, Paris, Minuit, 1975; pp. 147-152.
3. Deleuze, Critique et clinique, Paris, Minuit, 1993; p. 148.
4. Cf. Rancière, A partilha do sensível: estética e política, tradução portuguesa de Mônica Costa Netto, São Paulo, Ed. 34, 2005; pp. 15-26.
5. Rancière, Sobre políticas estéticas, tradução espanhola de Manuel Arranz, Barcelona, Servei de Publicacions de la Universitat Autónoma de Barcelona, 2005; p. 33; cf. p. 51: “O regime estético da arte implica uma determinada política, uma determinada reconfiguração da partilha do sensível. Essa política divide-se originalmente ela própria, como tentei mostrar, nas políticas alternativas do devir-mundo da arte e da reserva da forma artística rebelde, deixando em aberto que os opostos possam recompor-se de diversos modos para constituir as formas e as metamorfoses da arte crítica”.
___
Imagens
1. Alejandro Thornton, America, 2010.
___
Nota de edição
Este artigo é um post-scriptum ao texto “O sul também (não) existe?” e faz parte do Dossier «Devir menor» coordenado por Susana Caló e publicado na íntegra no Punkto. Foi publicado originalmente na Revista Lugar Comum, 41, Brasil, Universidade Nômade. Tradução do espanhol por Susana Guerra.
___
Eduardo Pellejero
Graduado em Filosofia na Faculdade de Filosofia da Universidade do Salvador (Argentina, 2000) e doutorado em Filosofia Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Portugal, 2006). Desde 2009 é professor de Estética na Universidade Federal de Rio Grande do Norte (Brasil). Faz parte dos Programas de Pós-graduação em Estudos da Linguagem e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da mesma universidade. Actualmente desenvolve uma pesquisa no domínio da filosofia (política) da arte.

O sul também (não) existe \ Eduardo Pellejero



___
O sul também (não) existe
A arquitectura ficcional da América Latina
Eduardo Pellejero


Que classe de ser histórico é o que chamamos de América? Não é uma região geográfica, nem um passado, nem, quiçá, um presente. É uma ideia, uma invenção do espírito europeu.
Octavio Paz, O labirinto da solidão

mas aqui embaixo, abaixo,
a fome disponível
recorre ao fruto amargo
do que outros decidem
enquanto o tempo passa
e passam as paradas
e fazem-se outras coisas
que o Norte não proíbe.
Com a sua esperança dura
o Sul também existe.
Mario Benedetti, O sul também existe


Entre outras tantas aventuras intelectuais, o século XIX reservava à Europa o cansaço da cultura e a tristeza da carne, contaminando os sonhos dos seus poetas com fantasias de evasão [1]. A ilusão de uma vida simples, sem as contradições que dilaceravam as cidades modernas, levaria alguns a fazerem-se ao mar (muitas vezes para desaparecer), mas sobretudo levantaria no vazio da literatura da época a utopia de um mundo virgem, de um mundo onde tudo ainda estava por ver, por nomear e por fazer. [2]
Essa utopia finissecular não era nova. A América nascera de uma fantasia similar [3]. A imaginação europeia projectara durante séculos a imagem de um paraíso terreno sobre os despojos da conquista, sobrepondo uma topografia intelectual e fantástica ao território real, perpetuando a ficção de um mundo novo, puro, sem falhas. Os mares do sul não eram neste contexto um simples tropo literário, eram assunto de Estado.
Signo do valor atribuído a esta ficção pelo poder são as numerosas disposições coloniais através das quais Espanha pretendeu proibir, a partir do século XVI, a publicação e importação de qualquer material romanesco na colónia. Visando fundamentalmente o controlo ideológico do novo mundo, a metrópole tentava deste modo impor limites à imaginação americana [4]. Os inquisidores compreendiam muito bem que a proliferação não regrada das imagens e dos discursos à qual dá lugar a ficção literária constituía uma ameaça (real) para a fundação (ficcional) do novo mundo [5].
Espanha procurava assegurar o monopólio da força assegurando o monopólio da ficção. Com o argumento (platónico) de que os romances eram disparatados e absurdos (isto é, mentirosos), com o argumento de que podiam ser prejudiciais para a saúde espiritual dos cidadãos, durante trezentos anos os americanos foram privados do direito à sua leitura, ou, melhor, foram forçados a lê-los de contrabando, de tal modo que o primeiro romance que se publicou sob essa figura na América hispânica só apareceu depois da independência [6].
§
Trezentos anos é muito tempo. Há costumes que se enraízam. Quero dizer que depois de viverem tantos anos envolvidas numa ficção, as nações nascentes necessitariam da ficção para viver. O sul, que até então fora uma projecção fantasmática do norte, um espaço onde as topografias reais e imaginárias se encontravam indissoluvelmente ligadas, arriscava a desagregar-se enquanto lugar simbólico a golpes de realidade (guerras civis, conflitos fronteiriços, fluxos migratórios, etc.). Libertada finalmente do controlo espanhol, era hora da imaginação americana dar consistência a um território que aparecia dividido e depredado. E numa época em que a experiência religiosa (e as suas fábulas associadas) definhava enquanto fundamento do vínculo social, a literatura haveria de responder a essa necessidade espiritual e política, assumindo a tarefa de produzir o sucedâneo de uma experiência partilhada, de uma memória comum.
Poetas e políticos confluiriam nesta empresa. Assim, por exemplo, em 1847, o futuro presidente da Argentina, Bartolomé Mitre, introduzia no prólogo do seu romance Soledad, uma espécie de manifesto com o qual pretendia suscitar a produção de romances que fizessem as vezes de cimento para a nova nação. No espírito de Schiller, considerando que a revolução política só era possível a partir de uma reforma cultural [7], Mitre estava convencido de que os romances de qualidade promoveriam o desenvolvimento do país; os romances ensinariam a população sobre a sua história incipiente, sobre os seus costumes apenas formulados, sobre ideias e sentimentos políticos e sociais, oferecendo uma representação sensível da sua transformação em curso, do seu devir histórico imediato [8].                                
Resultado de invasões violentas e de divisões forçadas, de pactos desiguais e alianças improváveis, as novas nações careciam de qualquer tipo de coesão. As identificações imaginárias que a literatura era capaz de suscitar apareciam portanto como uma alternativa efectiva. Nesse sentido, intelectuais e governantes alentaram a fabricação de ficções compensatórias para preencher um mundo cheio de vazios [9].
Exemplo: Em Amalia [10] (1844), de José Mármol, Eduardo Belgrano (portenho) é ferido quando tenta fugir de Buenos Aires para somar-se à resistência ao governo de Rosas; Daniel Bello salva-o e oferece-lhe refúgio na casa da sua prima tucumana, Amalia. A paixão entre Eduardo e Amalia inflama a paixão política, e leva os primos a fingir-se partidários do regime para secretamente lutar contra Rosas. Na véspera da inevitável fuga de Buenos Aires, Eduardo e Amalia casam, mas morrem na tentativa às mãos das tropas de Rosas, fechando um pacto que já não poderá ser desfeito. Na prosa de Mármol, a história de amor funciona ao mesmo tempo como impulso para uma nova ordem política; projecta, num contexto de divisão social e na ausência de um poder legítimo (tal é a perspectiva de Mármol), o tipo de cópula entre a capital e as províncias capaz de estabelecer uma família pública de direito.
O caso de Amalia é representativo de um género que conheceu uma tradição prolífica, cujo objecto era conciliar as diferenças entre etnias, classes e regiões, postulando os antigos inimigos como futuros aliados. Romance erótico/político, onde a metáfora do matrimónio (conquistado com grandes esforços) ou da união de fato (minada por todo o tipo de condicionamentos materiais, sociais e culturais), se desdobra como metonímia de consolidação nacional [11]. Os amantes desejam-se apaixonadamente ao mesmo tempo que desejam o nascimento de uma nova ordem política, uma ordem capaz de tornar possível a sua união; cada obstáculo que os amantes encontram intensifica o amor – o das personagens e o dos leitores –, pelo surgimento de uma nação onde a paixão possa ser consumada [12]. A ficção literária é politicamente fundacional: não implica directamente uma organização nova do social, mas dá lugar a um novo agenciamento colectivo de enunciação, que apela aos leitores presos nos mesmos impasses que narra para o tornarem seu. Palavra impessoal à espera de um corpo (político) que lhe dê voz, a ficção fundacional pressupõe um sujeito paradoxal, que coloca em causa (e redefine) as distinções entre o público e o privado, o individual e o colectivo, o particular e o universal.
Balzac dizia que «o romance é a história privada das nações», mas o que acontece na América é demasiado; os termos invertem-se: as biografias familiares da literatura são as que dão lugar à história nacional. Não há separação entre o nacionalismo épico e a sensibilidade íntima; os romances da época fornecem alegorias nacionais (Fredric Jameson), articulando, num nível simbólico, comunidades imaginadas (Benedict Anderson) [13]. Enquanto na Europa os escritores exploram as falhas da sociedade burguesa e projectam a fantasia de um novo começo nos mares do sul, na América os escritores tentam balizar a imaginação desse território em ebulição à imagem e semelhança dos Estados do norte. E, enquanto a literatura europeia reconhece na crítica a sua autêntica forma de intervenção, a literatura americana da época parece definir-se politicamente por uma função substitutiva: oferece um horizonte de sentido (sobre um território fragmentado), preenche vazios (identitários), cobre distâncias (étnicas, sociais, políticas). Sem nenhum fundamento moral, filosófico ou religioso, os romances fundacionais são ficções que se fazem passar por verdade, criando um espaço – ilusoriamente estável – para novas formas de aliança política.
Identificar-se na leitura com a paixão dos amantes para consumar o seu desejo, era já assumir um programa político. Por exemplo, o da eliminação das diferenças sociais, étnicas ou culturais, numa sociedade dada, isto é, o da produção de uma identidade cívica nacional capaz de se impor sobre essas formas conflituosas de identidade tradicional [14]. (Evidentemente, estes programas políticos nem sempre pressupunham a igualdade e, do mesmo modo que os romances, implicavam a subordinação de uma parte à outra – da mulher ao homem, do índio ao mestiço, do campo à cidade, etc.)



O certo é que a fundação da América Hispânica é em boa medida um exercício de fabulação [15]. Um singular exercício de fabulação, que tem o homem americano apenas por sujeito dos enunciados (nos enunciados assistimos, de fato, à sua criação como personagem de uma história sem memória), mas do ponto de vista do sujeito da enunciação pressupõe o homem europeu (inclusive se cruzou o Atlântico, se se amancebou, se leva já nas suas veias sangue novo). É neste sentido que temos que entender o problema levantado por Octavio Paz em El laberinto de la soledad (1950): a América é uma ideia, invenção do espírito europeu, mas enquanto ser autónomo, a América vê-se confrontada com essa ideia e é capaz de opor-lhe uma resistência imprevisível [16].
A América é uma complexa trama ficcional reconjugada pela evolução da própria literatura americana. O novo mundo não é tão novo assim. Começo que já é uma repetição, ocupa de facto um espaço duplamente fictício: um fornecido pela tradição europeia e reelaborado pelos escritores americanos, que tentam reinventar-se a si próprios e à América num movimento sem fim [17].
Assim, a fundação mítica ou ficção originária, que se postulava de forma dogmática, passa a ser lida com diversos graus de cepticismo. E a literatura, correlativamente, deixa de aspirar à totalização imaginária da realidade para passar a assinalar as suas brechas, os seus desajustamentos, as suas possibilidades desapercebidas; passa a compreender-se e a expressar-se como divergência fundamental, como desvio, como dispersão. Assim, em Rayuela (1963), Cortázar escreve: “Se o volume ou o tom da obra podem levar a crer que o autor tentou uma summa, apressar-se a assinalar que está ante a tentativa contrária, a de uma subtracção[18].
Os grandes romances contemporâneos re-escrevem ou des-escrevem as ficções fundacionais latino-americanas. Opõem formas de desincorporação literária às identificações imaginárias forjadas durante o século XIX (e não só), isto é, colocam em causa, segundo um deslocamento estratégico da perspectiva, essa política ficcional que não logrou reconciliar as classes em luta, nem aproximar o campo à cidade, nem unir os pais europeus com as mães da terra (ou que só logrou essa reconciliação subordinando, silenciando ou eliminando um dos termos).
Então, como assinala Doris Sommer, os amores fundacionais próprios dos romances do século XIX revelam a sua intrínseca violência, e as mentiras piedosas aparecem como estratégias para controlar conflitos raciais, regionais e económicos que ameaçavam o desenvolvimento das novas nações (na sua evolução burguesa e capitalista, claro). Esses romances aparecem como parte do projecto da burguesia para conquistar (para assegurar) a hegemonia desta cultura que se encontrava em estado de formação (uma cultura que, idealmente, seria uma cultura acolhedora, que ligaria as esferas pública e privada, dando lugar a todos, desde que todos soubessem qual o seu lugar).
Sommer propõe como exemplo deste último tipo de ficções La muerte de Artemio Cruz (1964), de Carlos Fuentes. Entre batalhas, Artemio e Regina lembram a conversa amorosa do seu primeiro encontro, sentados na praia, contemplando as suas imagens reflectidas na água. Uma lembrança dourada para encobrir a cena original da violação (que foi o que efectivamente tivera lugar). Fuentes escreve: “essa ficção... inventada por ela para que ele se sentisse limpo, inocente, seguro do seu amor... essa bela mentira... Não era verdade. Ele não entrara na sua aldeia, como em tantas outras, procurando a primeira mulher que passasse desprevenida pela rua. Não era verdade que aquela rapariga de dezoito anos tinha sido subida à força num cavalo e violada em silêncio no dormitório comum dos oficiais, longe do mar. [19]



De alguma forma, os escritores, antes alentados a preencher os vazios de uma história que contribuía para legitimar o nascimento de uma nação e impulsionar essa história no sentido de um futuro ideal, procuram dizer agora o não dito nas ficções fundacionais, tentam reintroduzir a contingência no passado, destruindo as estruturas imaginárias e materiais sobre as quais assenta o presente, propiciando a resistência e a abertura de novos espaços de possível.
Exemplo: Em El siglo de las luces [20] (1962), de Alejo Carpentier, três adolescentes – Sofía e Carlos, irmãos, e Esteban, o seu primo – perdem o pai e o tio, ficando sozinhos numa enorme casa da Cuba colonial, até que um dia chega um estranho visitante – Víctor Hugues, comerciante e partidário dos novos ideais políticos do século XVIII – que abre a casa ao mundo e à época, implicando-os nos movimentos revolucionários. Mas as ideias de liberdade, fraternidade e igualdade – e a declaração universal dos direitos do homem, enquanto ficção fundacional ou constituinte –, são colocadas em questão numa história difícil para as personagens, revelando a traição da revolução francesa aos levantamentos dos negros do Caribe. Sofía, que se apaixona por Víctor e pelas suas ideias (e se entrega a ambos), acaba por se desenganar: Víctor, o mesmo que trouxera à América o decreto da abolição da escravidão, acaba comprometido num falido intento de genocídio da população negra [21]. Ou seja, o romance, longe de fundar alguma coisa, des-funda uma narrativa hegemónica na qual se espera (ainda) que venham a alinhar-se as nações latino-americanas [22].
Exemplo: Em Conversación en La Catedral (1969), de Mario Vargas Llosa, Santiago e Ambrosio mantêm uma conversa num bar chamado La Catedral, durante a ditadura do general Odría, da qual resulta uma exploração profunda das razões da corrupção e da desídia dos dirigentes, assim como da resignação e da impotência dos peruanos. Isto é, Vargas Llosa não nos oferece (mais) uma ficção fundacional para o Peru, mas, pelo contrário, aplica-se à destruição (à desconstrução) de um estado de coisas insustentável, que as ficções fundacionais pretendem passar por alto. De facto, o romance de Vargas Llosa começa assim: “Da porta de La Crónica, Santiago olha para a avenida Tacna, sem amor: carros, edifícios desiguais e descoloridos, esqueletos de anúncios luminosos na névoa, o meio-dia cinzento. Em que momento se tinha lixado o Perú?” [23]. A pergunta não tem resposta, ou, melhor, não tem apenas uma resposta. Cada resposta (cada história) levanta novas questões, cada questão dá lugar a novas histórias, e assim. Não há verdade fundacional, apenas ficções que na tentativa de articular o sentido do presente redeterminam (ou simplesmente apagam) o passado [24].
Exemplo: Em Yo, el supremo [25] (1974), Augusto Roa Bastos reconstrói, utilizando indiferenciadamente elementos históricos e fictícios, a biografia política de José Gaspar Rodríguez de Francia (também conhecido como Doutor Francia, Karaí Guazú, e «el Supremo»), ditador do Paraguai durante 26 anos (1814-1840). A biografia estrutura-se sob a forma de uma espécie de discurso ditado, estrategicamente pontuado pelos comentários (sediciosos) do seu secretário pessoal, multiplicando as vozes de tal modo que a ficção mística sobre a qual se fundava o poder de Francia aparece atravessada de contradições, de inconsistências e de mentiras. O ditador dita, mas o secretário adenda, omite, repete, e em geral faz gaguejar o discurso. O escritor empreende um trabalho de segunda mão, não funda nada, não pre-escreve nada com a sua escrita, simplesmente re-escreve uma versão anterior. Sobre a literatura já não repousa nada (não pode), mas no seu movimento desregrado a escrita pode fazer tremer (e em última instância derruir) qualquer construção (cultural, social ou política) que assente sobre bases ficcionais.
Exemplo: Em Respiração Artificial [26] (1980), Ricardo Piglia trama, a partir de fragmentos de cartas, monólogos, diálogos e documentos, um romance que, contra o monopólio narrativo que tendem a impor as ficções estatais, procura restaurar a polifonia de vozes silenciadas pela ditadura. Renzi (um dos protagonistas) recebe os papéis (até então em posse do seu tio, Marcelo Maggi) de um dos seus antepassados, Enrique Osório, dando origem à descoberta de uma história não oficial, de uma história dos derrotados, ou, melhor, de uma memória sem história. A sua reconstrução tem por resultado uma versão sem pretensões de institucionalização, que nas margens de um país das margens, torna possível (vivível) a desincorporação das personagens (e dos leitores) em relação aos horizontes instituídos de sentido. Renzi compreende com Tardewski (e nós compreendemos com ele) que o grande mérito de um escritor não é a fundação do comum, mas a capacidade de ouvir a sua própria época, de ouvir e fazer ouvir o murmúrio silenciado pela história oficial, de trazer à luz a palavra dos esquecidos, mesmo se se trata da palavra da derrota, da claudicação ou do desespero. A sociedade é para Piglia uma trama de relatos, um conjunto de histórias que circulam entre as pessoas, pelo que traçar o mapa ficcional da sociedade constitui a tarefa mais importante do escritor, remetendo as ficções hegemónicas a uma região específica do plano, e assinalando os lugares onde algo é dito e não é ouvido, algo é pensado e não é considerado, algo é feito e não é visto [27].
Exemplo: Em Zama (1956) de Antonio Di Benedetto, o romance fundacional é invertido através de uma paródia do romance histórico. A estrutura de Zama é aparentemente simples: o protagonista narra, na primeira pessoa, dez anos da sua vida; anos cruciais, nos quais o protagonista experimenta os sintomas da sua decadência física e moral (é, portanto, a história de um perdedor, com o qual muda já o sujeito da história em relação ao sujeito heróico das ficções fundacionais). Por outro lado, Di Benedetto não repete as velhas crónicas familiares do romance burguês do século XIX, nem divide a realidade em nações, não pretende ser a summa de nenhuma classe ou território, mas, pelo contrário, multiplica as histórias, as alegorias e as metáforas, anulando a ilusão biográfica e historicista. Essa fragmentariedade, que contamina o livro, dispõe, aí onde as ficções fundacionais pressupunham a identidade, a continuidade e a coerência no desenvolvimento, a heterogeneidade, as diferenças, os acidentes, os acontecimentos mais insignificantes ou mais refractários ao sentido [28]. Consideremos a passagem a seguir, onde esta espécie de contra-história aparece de forma ímpar. Zama está a cruzar ingloriamente a selva paraguaia quando dá com uma estranha tribo, que caminha pelas veredas abertas no mato, guiada por crianças que levam os adultos pela mão. Zama diz: “Cegos. Todos os adultos eram cegos. As crianças não. (...) Eram vítimas da ferocidade de uma tribo mataguaya. Tinham-nos cegado com facas ao rubro. (...) Não viam e tinham eliminado deles o olhar dos outros. (...) Quando a tribo se habituou a viver sem olhos foi mais feliz. Cada um podia estar só consigo próprio. Não existiam a vergonha, a censura, a culpa; não eram necessários os castigos. Acudiam uns aos outros para actos de necessidade colectiva, de interesse comum: caçar um animal, reparar o telhado duma cabana. O homem procurava a mulher e a mulher procurava o homem para o amor. Para se isolarem mais, alguns batiam nos ouvidos até partir os ossos. Mas quando os filhos alcançaram certa idade, os cegos compreenderam que os filhos podiam ver. Então foram penetrados pelo desassossego. Não conseguiam estar em si mesmo. Abandonaram as cabanas e internaram-se nos bosques, nas pradarias, nas montanhas... Algo os perseguia. Era o olhar das crianças, que ia com eles, e por isso não conseguiam deter-se em parte nenhuma” [29]. Na sua austeridade e o seu laconismo, Zama não representa a condição profunda da América, não é mais uma imagem da nossa fragilidade e da nossa contingência (mesmo que isso possa ser reconfortante). Se o romance de Di Benedetto evita qualquer exaltação patriótica, se recusa qualquer tentação de historicismo ou de cor local, não o faz em nome de nenhuma nova identificação. A agonia do seu protagonista, o seu inevitável declínio, é apenas metonímia da desorientação e da falta de sentido (histórico) do tempo no qual Di Benedetto escreve a sua história. E nesse sentido Saer tem razão: Zama propõe-nos, não uma evasão do presente, mas um trabalho (necessariamente paciente) sobre a sua irresolução e a sua problematicidade, sendo o afastamento metafórico em direcção ao passado apenas um mecanismo para a sua irrealização. Na sua leitura desconhecemo-nos enquanto sujeitos de uma história que acreditávamos ser nossa, estranhamo-nos de nós próprios, isto é, colocamos em causa os fundamentos da nossa identidade e os alicerces das construções imaginárias às quais a nossa identidade se encontra associada (simplesmente, já não nos sentimos parte).
Poderíamos multiplicar os exemplos indefinidamente. As obras de Felisberto Hernández, Haroldo Conti, José Donoso, Alfredo Bryce Echenique, Manuel Puig, José Revueltas, Ernesto Sabato, Osvaldo Soriano, Juan José Saer, Roberto Bolaño, e boa parte da literatura da americana hispânica permitem uma leitura deste tipo, e compreendem uma relação problemática, difícil, irresoluta, com as fábulas fundacionais que demarcam o território ficcional no qual se movem.
Durante séculos, o norte impôs ao sul a sua espada e a sua pena. Cavou, no vazio da sua própria dispersão, um lugar ficcional a partir do qual pretendia afirmar-se apesar de todas as suas diferenças, das suas falhas e contradições. O sul era uma miragem: a ilusão mínima necessária para manter as coisas a funcionar (outro mundo é possível, mas do outro lado do mundo, elusivo, inatingível, proibido).
Os poetas, os loucos e os desesperados procuraram-no de diversas formas, e de diversas formas o encontraram, mas não como paraíso perdido nem como território virgem (nem, certamente, como terra da liberdade). 
“Com a sua fome disponível (...) e a sua esperança dura” [30], o sul insinua-se nas margens das línguas e do imaginário que chegaram do norte, mas não existe, pelo menos não como lugar de identificação.
Se o sul é alguma coisa, é uma diferença, ou, melhor, a promessa (sempre diferida) de uma diferença. A diferença, sempre conflituosa, entre a representação que a Europa fazia de nós, a representação que os fundadores das nações americanas faziam de nós, e as representações que nós próprios fazemos de nós. Uma diferença que a literatura frequenta de forma clandestina. Uma diferença na qual não se joga destino nenhum, mas em virtude da qual resiste aquilo que mantém viva a imaginação daquilo que ainda não somos, daquilo que ainda não dissemos nem sonhámos, daquilo que apenas nos atrevemos a pensar.
Entre as fábulas da sua origem e uma origem sempre por fabular [31], entre as identificações imaginárias que dão forma ao horizonte da sua história e as desincorporações estéticas que relançam continuamente o devir da sua consciência, o sul debate-se por esta diferença sem modelo, isto é, pela utopia desrazoável de uma liberdade sem determinação.
É, claro, um sonho de loucos, de desesperados e de poetas. Que outra coisa podem ser os mares do sul? Que mais?
___
Referências
1. “La chair est triste, hélas! et j'ai lu tous les livres. / Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres / D'être parmi l'écume inconnue et les cieux! / Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux / Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe / O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe / Sur le vide papier que la blancheur défend / Et ni la jeune femme allaitant son enfant. / Je partirai! Steamer balançant ta mâture, / Lève l'ancre pour une exotique nature! / Un Ennui, désolé par les cruels espoirs, / Croit encore à l'adieu suprême des mouchoirs! / Et, peut-être, les mâts, invitant les orages / Sont-ils de ceux qu'un vent penche sur les naufrages / Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots... / Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!!” (Mallarmé, «Brise marine», 1887)
2. As mesmas contradições que inspiravam fantasias, por outra parte, davam lugar na mesma época a outra utopia, esta vez imanente e materialista, que afirmava que o mundo estava por ver, pensar e fazer em todas partes e a todo o momento.
3. Sobre a fundação ficcional da América, cf. Todorov, «Fictions et vérités », in: L'Homme, Volume 29, Numéro 111 , Paris, 1989, pp. 7-33; cf. Octavio Paz, El laberinto de la soledad, Madrid, Fondo de Cultura Económica, 1998; p. 71: “A América é uma utopia, isto é, é o momento no qual o espírito europeu se universaliza, se desprende das suas particularidades históricas e se concebe como uma ideia universal que, quase milagrosamente, encarna e afiança-se numa terra e num tempo preciso: o porvir. Na América a cultura europeia concebe-se como unidade superior”; cf. Dieter Richter, El sur. Historia de un punto cardinal. Un recorrido cultural a través del arte, la literatura y la religión,  tradução espanhola de María Condor , Madrid, Ediciones Siruela, 2011; p. 30: “Com a descoberta da América, o «Novo Mundo», o Ocidente converte-se em terra verdadeira de promissão. (…) A chave mais importante deste ocidente será o ouro. A ideia de «El Dorado» (uma lenda índia que chegou aos ouvidos dos espanhóis no século XVI), deu asas à fantasia e à cobiça dos europeus. O Ocidente passará a ser – a partir das expedições dos conquistadores do século XVI até à «quimera do ouro» californiana na época posterior a 1848 –, o ponto cardeal dos caçadores de tesouros. (…) Mas o Ocidente converte-se em terra promisionis também em sentido político. Durante séculos, a América constituirá a meta de inúmeros emigrantes que, abandonando as estreitas e opressivas condições europeias, procuravam no «dourado Ocidente» liberdade individual, independência e riqueza, ou – como os padres peregrinos, os quáqueres e muitos outros grupos – queriam tornar realidade, com a fundação de novas comunidades, uma ordem social ideal”.
4. Para uma visão mais apurada da questão da ficção na América colonial, cf. Antonio Antelo, «Literatura y sociedad en la América Española del siglo XVI: Notas para su estudio», in: Thesaurus, tomo XXVIII, nº 2, 1973. Como seria de esperar, e apesar da repetição dos editais, os documentos sobreviventes da época registam uma animada circulação de romances proibidos, demonstrando que a censura da coroa nunca conseguira instaurar-se totalmente; cf. Doris Sommer, Ficciones fundacionales, tradução espanhola de José Leandro Urbina e Ángela Pérez, FCE, Bogotá, 2004; p. 27.
5. Espanha aspirava controlar totalmente a vida nas colónias americanas, e pretendia portanto deter também o monopólio da ficção. É difícil de compreender, contudo, que tenha tentado submeter a literatura a uma forma tão sistemática de censura. O certo é que se o poder pretende, por um lado, enclausurar ou expulsar a ficção (pensem na expulsão dos poetas da república platónica, que inaugura esta história de exílios que se estende tristemente até aos nossos dias), por outro lado, o poder também procura apropriar-se da potência da ficção para os seus próprios fins (lembrem também, neste sentido, que na República, Platão funda a divisão do trabalho numa ficção ou num mito: o da implantação do ouro, da prata, do bronze e do ferro nas almas dos homens). A associação imediata, claro, é 1984, de George Orwell: “Quem domina o presente, domina o passado. Quem domina o passado, domina o futuro”. Cf. Mario Vargas Llosa, La verdad de las mentiras, Buenos Aires, Alfaguara, 2002; pp. 15-16.
6. Trata-se do romance de José Joaquín Fernández de Lizardi, El periquillo sarniento, publicado no México, em 1816.
7. A interpretação que Mitre faz de Schiller pode ser posta em causa, mas certamente Mitre afeta a sua influência, chegando a utilizar, no Prólogo, as categorias de homem moral e homem fisiológico.
8. “É por isso que gostaríamos que o romance criasse raízes no solo virgem de América. O povo ignora a sua história, os seus costumes apenas formulados não foram filosoficamente estudados, e as ideias e sentimentos modificados pelo modo de ser político e social não foram apresentadas sob formas vivas e animadas copiadas da sociedades na qual vivemos. O romance popularizaria a nossa história apelando aos acontecimentos da conquista, da época colonial, e das memórias da guerra da independência. Como Cooper no seu Puritano e o espía, pintaria os costumes originais e desconhecidos dos diversos povos deste continente, que tanto se prestam a ser poetizados, e dariam a conhecer as nossas sociedades tão profundamente agitadas pela desgraça, com tantos vícios e tantas grandes virtudes, representando-as no momento da sua transformação, quando a crisálida se transforma em brilhante borboleta. Tudo isto faria o romance, e é a única forma sob a qual podem apresentar-se estes diversos quadros tão cheios de ricas cores e movimento.” (Bartolomé Mitre, Soledad, Buenos Aires, Tor, 1952).
9. Deste modo, na América Latina, os romances, do mesmo modo que as constituições e os códigos civis, vinham legislar sobre os costumes modernos. A literatura fornecia uma espécie de «código» civilizador, que tinha por objecto erradicar a barbárie, e de uma forma tão certa como os códigos civis promulgados muitas vezes pelos mesmos autores; cf. Julio Ramos, Desencuentros de la modernidad en América Latina: Literatura y Política en el siglo XIX, México, FCE, 1989.
10. José Marmol, Amalia, Madrid, Cátedra, 2000.
11. Enquanto, por exemplo, na França, os romances de Balzac expunham as tensões e as brechas da família burguesa, os latino-americanos tentavam reparar essas fissuras, com a vontade de projectar histórias idealizadas que apontavam, ora ao passado (enquanto espaço legitimador), ora ao futuro (enquanto meta nacional).
12. Cf. Doris Sommer, Ficciones fundacionales, pp. 41-65.
13. Frederic Jameson, «Third-World Literature in the Era of Multinational Capitalism», Social Text, nº 15, 1986.
14. Não se trata apenas de uma forma arcaica de funcionamento. A literatura, o cinema, a televisão, conheceram sempre e continuam a conhecer um valor substitutivo similar, sempre mais ou menos polarizado pelas apostas do poder. Também não se trata de um fenómeno meramente local, uma deformação terceiro-mundista da arte (atribuível, por exemplo, ao hipotético populismo latino-americano). Nos Estados Unidos, por exemplo, Robert Burgoyne retoma o tema das ficções dominantes enquanto imagens de consenso social e o seu papel central na construção de uma identidade nacional por parte do cinema norte-americano do tipo The birth of a nation. Fabulação nacionalista que opera «de cima» (isto é, propiciada ou dirigida pelos poderes instituídos), e para a qual o cinema clássico teria constituído uma mediação fundamental, criando uma imagem da sociedade imediatamente acessível a todas as classes.
15. Borges seria um dos primeiros a assinalar a impostura dos mitos da fundação («Fundação mítica de Buenos Aires»), reconhecendo (criticamente) a superioridade da potência política da poesia sobre o espírito das leis (Evaristo Carriego). Cf. Jorge Luis Borges, Obras Completas, Barcelona, Emecé Editores, 1989.
16. Cf. Lelia Madrid, La fundación mitológica de América Latina, Madrid, Espiral Hispano Americana, 1989; p. 8.
17. Cf. Roberto González Echeverría, Alejo Carpentier: The pilgrim at Home, Cornell University Press, New York, 1977; p. 28.
18.Julio Cortázar, Rayuela, Buenos Aires, Sudamericana, 1983.
19. Carlos Fuentes, La muerte de Artemio Cruz, México, D.F., Fondo de Cultura Económica, 1967.  Cf. Doris Sommer, Ficciones fundacionales, p. 45.
20. Alejo Carpentier, El siglo de las luces, Barcelona, Seix Barral, 1985.
21. No fim, procurando expiar a culpa ou conquistar a redenção, Sofia viaja para Madrid, onde se faz matar (corajosamente, desesperadamente) num levantamento popular contra Napoleão.
22.A proximidade de Carpentier à Revolução Cubana (1959) e a data de publicação de El siglo de las luces (1962), podem transmitir a ideia de que Carpentier escreve o seu livro na senda da revolução e que a sua crítica da narrativa da revolução francesa é solidária deste acontecimento, mas a verdade é que Carpentier declarou ter terminado de escrever o livro em 1958.
23. Mario Vargas Llosa, Conversación en La Catedral, Buenos Aires, Sudamericana - Planeta, 1981.
24. Nesse sentido, Vargas Llosa não se limita conduzir a sua genealogia até o momento da conquista, mas reconhece, nos próprios «povos originários» (concretamente, nos Incas), o mesmo mecanismo mistificador de ficcionalização total da realidade. (Mario Vargas Llosa, La verdad de las mentiras, pp. 25-28) Historicamente fiel ou não, a proposição de Vargas Llosa é um princípio de interpretação: qualquer ficção fundacional é a apropriação violenta de uma ficção anterior, não sendo possível, por um exercício de regressão, dar com nenhuma palavra verdadeira (o mito é um mito, dirá Jean-Luc Nancy); logo, não há comunidade originária, apenas ficções da comunidade.
25. Augusto Roa Bastos, Yo, el Supremo, Buenos Aires, Sudamericana, 1985.
26. Ricardo Piglia, Respiración artificial, Buenos Aires, Sudamericana, 1988.
27.  «Que estrutura têm essas forças fictícias?»: talvez este seja o centro da reflexão política de qualquer escritor” (Ricardo Piglia, Crítica y ficción, Buenos Aires, Seix Barral, 2000; p. 43).
28. Cf. Juan José Saer, Prólogo, in: Antonio Di Benedetto, Zama, Buenos Aires, Adriana Hidalgo, 2000.
29. Antonio Di Benedetto, Zama, pp. 171-172.
30. Mario Benedetti, «El sur también existe», in: Mario Benedetti, Preguntas al azar, Buenos Aires, Sudamericana, 2000.
31. Os produtos da ficção são particulares e arbitrários, mas a faculdade de produzir ficções é universal e necessária.
___
Imagens
1. O magnífico mapa de América de Diego Gutiérrez (1562)
2. Alejandro Thornton, America, 2010.
3. Alejandro Thornton, AeA, 2012.
___
Nota de edição
Este artigo faz parte do Dossier «Devir menor» coordenado por Susana Caló e publicado na íntegra no Punkto. Foi publicado originalmente na Revista Lugar Comum, 41, Brasil, Universidade Nômade. Tradução do espanhol por Susana Guerra.
___
Eduardo Pellejero
Graduado em Filosofia na Faculdade de Filosofia da Universidade do Salvador (Argentina, 2000) e doutorado em Filosofia Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Portugal, 2006). Desde 2009 é professor de Estética na Universidade Federal de Rio Grande do Norte (Brasil). Faz parte dos Programas de Pós-graduação em Estudos da Linguagem e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da mesma universidade. Actualmente desenvolve uma pesquisa no domínio da filosofia (política) da arte.