Poesia, Publicidade ou sobrevivência • Hugo Miguel Santos




Recentemente foi anunciada uma campanha publicitária da Visit Portugal, nomenclatura anglófila atribuída ao Turismo de Portugal, que liga a poesia à indústria vínica: refiro-me a Pairing Portugal. Trata-se de um projecto, segundo explica o estúdio de design Poets and Painters no seu texto de divulgação, cuja «curadoria passa por criar uma relação entre a origem (ou razão cúmplice) da geografia de cada poeta, relacioná-lo com o local específico, e o vinho dessa região». Daí resulta, acrescentam, «uma antologia diversa do ponto de vista geográfico, paritária do ponto de vista do género, e sensível às diferentes línguas de Portugal».

Antes de mais, convém saudar o facto de a lusa pátria continuar a ser uma pungente nação de poetas, como comprova o facto de termos, pelo menos, cem poetas capazes de se deixar inspirar pelos eflúvios criativos da poção vínica que já havia servido de mote para um célebre poema de Baudelaire. A lista de nomes é, sem dúvida, plural, ampla e diversificada, não só a respeito do género e da geografia, mas também do ponto de vista da relação de cada poeta com a poesia: há na lista apresentada, de facto, três ou quatro poetas que o são de pleno direito, assim como há vários poetas em potência, poetas de fim de semana, poetas de cerimónia, poetas em conserva e, não menos importantes, poetas criados para o efeito.

Para o caso, não será de grande interesse desfiar os motivos que poderão ter levado cada autor a aceitar o convite que lhe foi lançado, já que esse tipo de reflexões costuma desembocar no mais raso moralismo. Mas não deixa de ser tentador aproveitar este episódio para reflectir em torno daquele que é um dos maiores desafios que se apresentam à arte poética: refiro-me, claro, à relação entre linguagem poética e propaganda. E, sobretudo, desde o fim do Muro de Berlim e do desaparecimento do bloco soviético, à relação entre a poesia e o discurso publicitário.

De certa forma, esvaziada das suas matrizes e divisões ideológicas, a propaganda política tem vindo paulatinamente a reduzir-se às estratégias das mais medíocres campanhas publicitárias. O mesmo, aliás, se tem passado com os diferentes meios de comunicação social. Entre o político, o jornalista e o publicitário existe um acordo tácito acerca das regras que devem acertar o compasso do discurso e da comunicação. Também o artista, na medida em que tende a não viver afastado do seu meio envolvente, vê-se, em muitos casos, impelido a participar e comungar do mesmo jogo de linguagem. Aliás, se passarmos em revista a generalidade das páginas pessoais dos mais variados poetas, músicos, cineastas e artistas plásticos — desde sites, redes sociais e afins —, rapidamente percebemos que o modelo de comunicação utilizado é exactamente o mesmo que serve para empresários, políticos, etc. O modelo é o influencer, claro, num jogo de reciprocidade entre artista/político/comerciante e o seu público: trata-se não só de influenciar e seduzir o espectador, mas também de adivinhar os seus gostos e desejos. Ou seja, é preciso saber interpretar os anseios da plateia e, simultaneamente, convencê-la de que lhe está a ser oferecido algo completamente novo, diferenciado e urgente.

Quanto ao poeta, na medida em que este participa da mesma realidade dos seus concidadãos, não é de espantar que ceda na sua vida pública e activa — vida, essa, que se resume cada vez mais às suas interacções na web — aos mesmos tiques e tendências da época. Assim, o Lord Byron ou o Fernando Pessoa dos nossos tempos é impelido a partilhar os seus poemas, ainda em fase de rascunho, com os seus seguidores, a manifestar intenções de voto, a inquiri-los acerca do seu dia-a-dia, mas, sobretudo, a partilhar o seu próprio quotidiano — banal e corriqueiro, como é próprio de todos os seres humanos, sejam eles poetas ou mercenários. E este simples facto torna ainda mais relevante a incontornável evidência que se deveria apresentar a todo e qualquer poeta mais ou menos inteligente: o facto de a matéria-prima dos seus poemas, ou seja, as palavras, ser a mesma de que ele dispõe para as mais diversas formas de comunicação e, neste caso, de divulgação e comércio das suas ideias e, muitas vezes, da sua própria personalidade.

É possível que muitos dos poetas que aceitaram participar nesta manobra publicitária o tenham feito por razões económicas e de subsistência — uma vez mais, a precariedade neste país chega a todos e os poetas não são excepção. E, como já dissemos, seria muito pouco producente ajuizar sobre o comportamento e as escolhas individuais de cada um. Pelo contrário, importa este simples caso para chamar a atenção para uma discussão mais ampla e pertinente em torno do estatuto autónomo do poema. E não precisamos, por certo, para este efeito, de tentar reclamar uma qualquer aura poemática perdida. Tão-pouco precisamos de convocar, uma vez mais, o nome de Walter Benjamin. Não é sequer relevante saber ou não se o poeta se caricatura a si mesmo enquanto poeta revolucionário ou poeta de esquerda, como vários dos poetas que aceitaram participar nesta iniciativa. Tais etiquetas, inseridas no jogo de comunicação do marketing literário, limitam-se a cumprir a sua função comercial: servem para que o poeta-em-público ou poeta-em-persona se distinga enquanto bem de transacção ou CEO da sua empresa unipessoal de versificação.

Importa, então, lembrar ao cada vez mais reduzido meio literário que, tal como advertia Alfonso Berardinelli, em 2008: «(...) actualmente, as regras que governam a produção jornalística e os media são mais complexas do que aquelas que governam os textos poéticos» {Alfonso Berardinelli, Poesia non Poesia, p. 28}. E, portanto, que, ao aceitar participar neste jogo mediático, os textos tornam-se completamente incapazes de se defenderem a si mesmos enquanto tais: poemas. Destarte, é cada vez mais urgente recordar que um poema enquanto parte de um esquema publicitário como este, seja o Pairing Portugal ou outro qualquer, deixa inevitavelmente de o ser, na medida em que perde toda e qualquer autonomia desejável. Quando o poema se vê inscrito na esfera da publicidade e da propaganda, ele deixa de ser um fim em si mesmo para se configurar como ilustração de um conceito que lhe deveria ser estranho: neste caso, o turismo.

Lembrando a definição de Charles Altieri, a autonomia é «um princípio pelo qual os artistas reclamam o direito a definir os elementos da sua herança reequilibrando as energias e tensões que são exemplificadas no mútuo envolvimento entre autoria, audiência, obra e mundo» {apud Rosa Maria Martelo, Devagar, a Poesia, p. 16}. Assim sendo, defender o estatuto autonómico da poesia face às mais diversas esferas comunicacionais, sejam elas ideológico-partidárias ou publicitárias, é a única forma possível de defender cada poema enquanto tal. Isto não implica qualquer «processo de evasão ou sistema de indiferença ao valor social e político da obra» , como explica Rosa Maria Martelo, antes é a única forma de defender a importância social e política desta arte enquanto «ideia de resistência ao senso comum pela inquirição auto-reflexiva e pela experiência discursiva» {ibidem, p. 16-17}.

No discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura, em 1975, Eugenio Montale debate-se abertamente com a seguinte pergunta: «Poderá a poesia sobreviver no universo das comunicações de massa?» e, pouco depois, expande a questão nos seguintes termos:

«Na actual civilização consumista que vê chegar à história novas nações e novas linguagens, na civilização do homem robot, qual será a sorte da poesia? Existem inúmeras respostas. A poesia é a arte tecnicamente à disposição de mais gente: basta uma folha de papel e um lápis e o jogo está feito. Só numa segunda etapa é que surgem os problemas de publicação e difusão. [...]

Diversa é a questão quando se refere à revivescência espiritual de um velho texto poético, à sua reactualização, à sua abertura a novas interpretações. E, por conseguinte, é sempre difícil perceber dentro de que limites e confins é que ainda estamos a falar de poesia. Uma boa parte da poesia actual exprime-se em prosa. Muitos versos, hoje em dia, não são senão prosa, e má prosa. [...] Poderíamos multiplicar as perguntas, chegando à conclusão de que não só a poesia, mas todo o mundo da expressão artística [...] entrou numa crise que está estritamente ligada à condição humana, à nossa existência enquanto seres humanos, à nossa certeza ou ilusão de que somos seres privilegiados, os únicos que julgam ser donos da sua própria sorte e depositários de um destino do qual mais nenhuma criatura se pode vangloriar» [Eugenio Montale, Sulla Poesia, pp. 13 e 14].

À entrada do segundo quartel do século XXI, as questões de Montale tornam-se ainda mais pertinentes. E não se trata simplesmente de nos confrontarmos com os limites da linguagem poética — confronto, aliás, absolutamente incontornável, na medida em que todo e qualquer poema o actualiza. Sendo a poesia, muito provavelmente, a mais pobre das artes e, nessa medida, a mais democrática, de que forma é que a podemos preservar, reinventar e defender enquanto tal? Parece-me que esta pergunta é tão importante que não deve ser respondida, mas, sim, mantida como uma espécie de horizonte próximo. Apresentar uma só resposta, reduzirmo-nos à mais pueril assertividade, implicaria uma nova cedência às regras do comentário televisivo e dos opinion makers de Instagram.

É por isso, por exemplo, que a questão da utilidade da poesia se revela quase sempre irrelevante ou até bacoca. Recordando o título de um ensaio de Paul Valéry, mais estimulante seria debater a necessidade da poesia. Cada poeta deveria ser capaz de perguntar a si mesmo porque é que ela lhe é necessária — duvido, naturalmente, que o seja para a generalidade dos autores que aceitaram colaborar nesta campanha de marketing. Mas será certamente para alguns dos eleitos. E são esses que se devem recordar que, conforme defende Giorgio Agamben, um poema não é senão «uma operação linguística que consiste em tornar a língua inoperativa, em desactivar as suas funções comunicativas e informativas, para a abrir a um novo possível uso» {Giorgio Agamben, «Arte, inoperatividade, política», in Crítica do Contemporâneo: Política, p. 44} Ou seja, um poema pensado na qualidade de veículo de comunicação publicitária é um mero oxímoro destituído de qualquer potencial lírico ou artístico. Defender a autonomia e a inoperância do discurso poético — ou seja, a sua necessidade — é a única forma de tornar possível a sua sobrevivência, não só enquanto domínio estético mas também político.

           

 


Hugo Miguel Santos

Hugo Miguel Santos (1995) é licenciado em Filosofia e mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes pela Universidade do Porto. Actualmente, é doutorando do Programa em Teoria da Literatura da FLUL, bolseiro da FCT e membro do CEComp. Publicou dois livros de poesia: Prelúdio e Fuga em Português Suave (2022) e Ballarò e Outros Motetos (2024) e organizou a antologia de poesia argentina Por Alguma Razão (2024).

 

Imagem

Vasari, Seis Poetas Toscanos, 1544.

 

Ficha técnica

Poesia, Publicidade ou sobrevivência • Hugo Miguel Santos

Data de publicação • 11.02.2026

 Edição #45 • Inverno — Primavera 2026