Tactear o vazio • Diogo Duarte




Parafraseando o antropólogo Roberto DaMatta, poder-se-ia dizer que cada um tem o movimento que merece: os pessimistas vêem nos movimentos sociais a inconsequência ou o vazio, os românticos encontram nele a expressão romântica do seu desejo, os paranóicos ou mais cínicos vêem inimigos em todo o lado, e por aí fora [1]. Não há muito como fugir ao facto de que o nosso percurso, experiências ou até estado de espírito condicionam a forma como interpretamos o terreno em que nos movemos.

1.  A citação de Roberto da Matta é: «cada antropólogo tem o nativo que merece, de modo que, para antropólogos paranóicos, existem tribos paranóicas; a estudiosos místicos, correspondem sociedades crentes e, last but not the least, a etnólogos incompetentes nativos do mesmo teor».

Mas é possível matizar essas leituras, para que o nosso vazio ou excesso de entusiasmo não contaminem indelevelmente a nossa percepção. Por isso mesmo, devem ser lidas com precaução as reflexões, conversas e reacções em torno de alguns dos episódios que destoaram da coreografia habitual durante a greve geral. Justiça seja feita, não creio que nenhum desses textos (que podem ser lidos aqui, aqui e aqui) peque por especial excesso ou se apresente com a pretensão de oferecer diagnósticos fechados ou sequer de apontar linhas programáticas. O seu maior interesse reside aí. Mesmo assim, nas suas páginas encontramos o vai-e-vem, que se tem tornado habitual, entre o deslumbramento, com a novidade disruptiva que se revela num episódio delimitado no tempo e no espaço, e a frustração, perante o deserto de que partem, e para onde parecem ir, as lutas que os movimentos sociais têm pela frente. Apontam-se impasses, o esgotamento desses gestos no momento do próprio gesto ou até — talvez prenunciando uma ambição mais programática — a ausência de soluções. Mas faz parte. Se, onde nada acontece, qualquer faísca que quebre com a monotonia parece uma explosão, é também verdade que a ressaca do dia seguinte, com o regresso à normalidade, pesa muito mais. Seja como for, serviram para abrir um diálogo. E, como diálogo, não são apenas exposições de um cansaço, frustração e revolta difusos que se auto-devoram, mas sim a forma de descobrir afinidades e — melhor que nada — que a estagnação e desorientação que muitos sentem não decorre de uma particularidade individual. Já é qualquer coisa.

Esse diálogo — e o próprio significado da greve — foi suspenso pela campanha para as presidenciais. Quase como se nada tivesse acontecido. Mas empurrados para uma escolha presidencial em que uma opção parece prometer continuar a fazer tudo como se fez até agora, prosseguindo o definhamento das últimas décadas, e a outra promete destruir tudo pelo paradoxo de tornar tudo ainda mais o que já era, é inevitável que ressurjam todas essas sensações de quem continua a ser obrigado a jogar um jogo feito para perder. Assim, no seguimento das eleições, o que se manifestava nesses textos sobre a greve, estendeu-se, mais ou menos explicitamente, para alguns dos textos pós-eleitorais que se seguiram. Num desses textos, Esquerda: impasse e dissolução, de Tomás Nery, reiterou-se a necessidade de uma ruptura completa, com o mundo mas, também, com aquilo que é a própria esquerda: «A única possibilidade de sobrevivência da esquerda habitará, portanto, na forma como escolher abraçar a sua dissolução». Isto sem deixar de se reconhecer, no mesmo texto, a maior probabilidade do caminho inverso: «a incapacidade crónica em compreender o terreno-em-movimento sobre o qual actua não augura nada de bom: ao invés da des-identificação indutora de um presente porvir, a esquerda irá optar pela aceleração rumo ao abismo da sua sobre-identificação mitológica».

Num texto que surgiu em parte como resposta a esse, O vazio já tem nome, por Duarte Viana, vem justamente a matiz ao que é em parte o cenário desolador, de tudo ou nada, para que se parece resvalar. Nas palavras do autor, «assumir o vazio e o deserto como pontos de partida da nossa práxis política (…) é assumir que o nosso destino floresce de um vazio imposto de forma totalizante por uma esquerda que livremente nos empurrou para o abismo, com a nossa conivência, e partir da qual pretendemos precipitar novas formas de acção». Ou seja, o que sugere é que o vazio que projectamos sobre o presente denuncia, ainda, uma prisão ao próprio percurso da esquerda que se deseja enterrar. Como se esse deserto não fosse tanto o resultado do que vemos mas mais do que escolhemos não ver e acabássemos, por isso, a reproduzir o mesmo viés que essa mesmo esquerda impôs ao seu olhar: a incapacidade, ou mesmo a recusa, de encontrar possibilidades de transformação noutros sujeitos e lutas que não aquelas que reflectem os seus repertórios de acção ou quadros ideológicos pré-determinados. (Neste diálogo, entra também o texto de Luís Cristóvão em que se sugere uma abertura semelhante a este último texto, mas, mais conciliador ou optimista, mantendo o diálogo com a esquerda sem propor a sua dissolução.)

Os textos podem, na verdade, complementar-se e oferecer essa matiz que nos permite não ficar presos ao movimento «que merecemos». A dissolução da esquerda (ou o mais provável acelerar em direcção ao abismo) implica saber mapear (para pegar no termo que usa Duarte Viana) outras lutas e formas de sociabilidade que não encaixam directamente nos moldes ou idealizações que compõem uma certa mitologia de esquerda — seja porque existem embrionariamente, porque são contraditórios, ou outra coisa qualquer — mas que não deixam de indiciar focos de resistência, não deixam de desafiar as lógicas totalizantes que procuram subjugar todas as dimensões da vida, não deixam, enfim, de destoar desse deserto que alastra.

Não se trata tanto de ocupar o olhar com as práticas infrapolíticas ou as «formas quotidianas de resistência» que James C. Scott identifica, procurando preencher assim o vazio com gestos simbólicos e invisíveis que operam muitas mais como técnicas de respiração individual do que como sopros colectivos. As formas de resistência que o historiador E. P. Thompson estudou, entre elas as formas de «economia moral» que Duarte Viana convoca, e que chocavam directamente com a «condescendência da posteridade», que ora excluía tais lutas da memória dos movimentos populares da esquerda pelo seu conservadorismo, ora as reduzia a meras reacções mecânicas e espasmódicas resultantes do sufocar da vida material, podem oferecer-nos outras pistas para contornar esse viés que consagra uns e deita fora outros, até nada restar.

Reconhecendo-se, porém, o tempo diferente em que vivemos. Se na «economia moral» estava em causa a resistência a uma arrancada da expansão do capital com o fim de devorar todos os modos de vida e costumes que constrangessem a sua marcha, hoje o ponto em que nos encontramos é distinto. O capital está em todo o lado, subsumiu tudo, contaminou e subordinou aos seus próprios termos todas as relações sociais. O seu impulso totalizador foi mais forte (apesar de essa não ser uma história linear e redutível a uma teleologia). Por difícil que seja de aceitar, até por parecer contraditório — e a esquerda não dá sequer o menor sinal de compreender essa possibilidade —, foi pela social-democracia, e pelos termos em que esta possibilitou a melhoria nas condições materiais de vida, que se deu essa totalização do capital. Aquilo que um dia foi, e ainda é, visto como uma vitória, foi, na verdade, a condição da nossa derrota. Resistir-lhe não se fará, certamente pela recuperação dessa social-democracia, como se pretende, mas sim pela ruptura, como aponta Pedro Levi Bismarck noutro desses textos. O deserto que habitamos, é, afinal, o resultado dessa totalização.

O que essa reticularidade totalizante do capital torna possível, de resto, é que a resistência também possa surgir em todo o lado, em todas as dimensões da vida, alastrando quando menos se espera. E perante o esgotamento desse quadro e, portanto, das condições que permitiram essa expansão incessante e insidiosa do capital, as fissuras revelam-se. A multiplicação de lutas, até a sua dispersão, por vezes sem aparente relação entre si e quase sempre sem comunicarem, não é somente a expressão de uma certa desorientação, mas também do lugar onde se revelam essas fissuras que surgem com o esboroar do presente. Não é preciso, aliás, fazer um grande esforço para identificar domínios onde cada vez mais se manifestam antagonismos, a um nível localizado ou isolado, que resultam dessas fissuras estruturais (na habitação, no clima, na imigração, nas periferias, entre outros); o esforço está, sim, em superar a distância que ainda mantêm desses antagonismos muitas das nossas práticas, movimentos sociais e contínuas reflexões e diagnósticos, tantas vezes amarrados a densos a priori e perdidos em escalas tão grandes que tudo o que se consegue ver parece diluído num nada sem fim.

Nas palavras de dois historiadores e sindicalistas italianos, Federico Bozzini e Maurizio Carbognin, num contexto em que as incertezas no campo político e no da investigação social se contaminavam mutuamente com especial intensidade, o que se pretende é «reencontrar a sintonia entre as nossas cabeças e as nossas mãos. (...) o campo de realidade ao qual queremos prestar atenção é aquele coberto pelo comprimento dos nossos braços. Se o grande, o geral, é tudo aquilo que começa para além da ponta dos nossos dedos, tudo aquilo em relação ao qual somos impotentes e ineficientes, então apenas o pequeno, o parcial, pode ser um bom ponto de partida»[2]. Talvez seja, então, onde chega a ponta dos nossos dedos que podemos começar por abrir e estender essas fissuras e criar o espaço por onde o deserto será engolido.

2. Tradução adaptada a partir de Henrique Espada-Lima, em A Micro-História Italiana (2006, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira); original em Federico Bozzini & Maurizio Carbognin, «La gente, la storia e la politica» (in Diece Interventi di Storia Sociale, 1981, Torino: Rosenberg & Sellier, pp. 45-6).

 

 


Diogo Duarte

Antropólogo, historiador e tradutor. Escreveu «O anarquismo e a arte de governar - Portugal (1890-1930)», publicado pela editora Fora de Jogo.

 

Imagem

Pormenor de Le Martyre de Saint Denis, de Léon Bonnat, c. 1880.

 

Ficha técnica

Tactear o vazio • Diogo Duarte

Data de publicação • 30.01.2026

 Edição #45 • Inverno — Primavera 2026