Notas sobre a caça e a vida ilegal • Ricardo Menezes





“Ouça. Ouça. As crianças da noite fazem sua música. Meu jovem… Você é como os aldeões que não conseguem sentir a alma do caçador”.

Nosferatu: Phantom der Nacht. Werner Herzog

 

1. De Laurence Sterne diziam que, ao ajustar o início de um texto, entregava a Deus o que vinha a seguir. “Tenho a certeza de que é o método mais religioso — escrevo a primeira linha e ao Todo-Poderoso dou a segunda”. Se o romance enquanto género literário nos dizia algo sobre o carácter diverso do mundo, onde as vozes valorizavam um universo em certo sentido comum a partir do testemunho que se ancorava na experiência, hoje, de longe, ouvimos as altas e baixas frequências numa única sintonia, que é a do Terror. Favela da Penha e do Alemão, Gaza, Minneapolis, são um único coro fúnebre de diferentes humores entre vencedores e massacrados. A cultura, que servia a recomposição da tessitura interna do indivíduo dilacerado pela reificação do mundo burguês, [1] já parece não prometer nem a mera ideologia na acepção ortodoxa, isto é, engodo; só uma lenta preparação do aparelho cognitivo para uma catástrofe que no seu momento decisivo se torna a cada ano adiada, restando o pó sublime desses universos apocalípticos fornecidos pela indústria do entretenimento — o mundo acelera enquanto, incapazes do mesmo desempenho, congelamos. [2] A insensibilidade em que se cria o humano no momento actual é a pedagogia da indiferença, a impossibilidade de viver o comum. É desse deserto que o fascismo emerge não só como reacção a uma crise sem volta do sistema, mas enquanto horizonte propositivo, enquanto fábrica geradora de mitos [3] que, num vislumbre, reascende a luz de um mundo sem deus: o fascismo é uma das respostas a nossa incapacidade narrativa, uma proposição sobre um comum para poucos.

1. Herbert Marcuse, Sobre o Caráter Afirmativo da Cultura [1937], Cultura e Sociedade, v. 1. São Paulo, Paz e Terra, 2006.

  2. Paul Virilio, A inércia polar, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1993.

  3. Pedro Levi Bismarck, O Mito de Israel – O Ocidente, a Política, a Morte, Documenta, Lisboa, 2025.

2. O novo fascismo é fruto do deslocamento estatal das fronteiras da soberania e da crise do trabalho, crise da substância do valor. É diferente do fascismo histórico lá onde é anárquico, não-arregimentador — trata-se menos de integrar as massas num grande projecto arquitectónico onde o trabalho expande-se até à indústria da morte dos campos de concentração, e mais na criação de técnicas de caça e expulsão dos elementos ilegais, excedentes. Se não só o Terceiro Reich, mas o próprio Welfare state, podem ser classificados enquanto momentos do socialismo do capital, isto é, hiper-estatismo, militarização do trabalho, fordismo político; a partir dos anos 70 e 80, naquilo em que começaria a ser descrito como “neoliberalismo”, o que se observou foi justamente a realização, pelo capital, do que prometia o comunismo [4] (extinção do trabalho, do Estado, justaposição das esferas da sociedade que antes cumpriam funções “separadamente”): a vitória do comunismo do capital foi a realização catastrófica do horizonte comum. 

4. Paolo Virno, Tesis sobre el nuevo fascismo europeo.

3. A comunização da violência desterritorializadora do capital gerou uma miséria que é hoje transversal. O empobrecimento da cultura intelectual e material dá-se justamente no momento de aburguesamento generalizado, de mutação antropológica [5], de expansão da pedagogia última do homo economicus: a indiferença. O círculo da violência e da morte encurta-se, entretanto. O espaço colonial, laboratório da brutalização humana e escola do fascismo histórico, foi expandido por Hitler para o próprio espaço europeu — eis a sua grande heresia. Nem os colonos estariam assegurados. E a incorporação da mão-de-obra migrante, a criação de uma subcategoria de cidadania e a dinâmica de uma colonização permissiva, cindiu competitivamente uma classe trabalhadora ainda muito dedicada ao progresso da nação.

5. Pier Paolo Pasolini. Escritos corsários, Editora 34, São Paulo, 2020.

4. A promessa do fascismo contemporâneo é o restabelecimento de fronteiras no interior de uma sociedade onde o próprio capital as havia rompido. Com o fim dos guetos, onde se erguia todo uma legislação, uma cultura, uma sensibilidade diversa em relação aos desígnios homogeneizadores do Estado; onde, enfim, se erigiu uma espécie de Estado paralelo [6], as fronteiras internas ao espaço nacional tornaram-se cada vez mais flexíveis. Coube à polícia a contenção dos elementos excedentes da crise do trabalho, além da criação de todo um aparato de vigilância interna onde prédios confundem-se com câmaras, estações de metro são meios de identificação, aeroportos são campos de desaparecimento. A contra-revolução é o segredo da História diante de um espectro comunista declinante, onde a imagem da maré revolucionária foi substituída pelos inúmeros fantasmas paranóicos acerca do invasor — que também não deixa de assumir a sua feição marítima quando lembramos de Alan Kurdi ou das embarcações migratórias que não cessam de “morrer na praia”. [7]

6. Loïc Wacquant, As duas faces do gueto, São Paulo, Boitempo, 2008.

7. Franco “Bifo” Berardi, A democracia não é possível na Europa, Punkto nº 16, 2017.

5. A utopia fascista é a retomada do homem caçador. Refazer as fronteiras territoriais é definir aquilo que é extrapolítico, o que está nesse espaço onde a vida pode ser retirada sem dolo ou castigo. Se na hipótese do fascismo clássico os judeus ricos tornaram-se os caçadores de homens que a aristocracia outrora foi, cabia uma desforra, agora, pelos arianos, ao reencarnarem seu arcano caçador. “Uma bela história… a Grande Época Averna…”, dizia Céline ao rememorar um suposto massacre realizado pelos gauleses contra os romanos.

6. A exclusão não gera apenas espaços e indivíduos desintegrados do corpo soberano, portanto expostos a morte pela mão de um qualquer. A crise do trabalho enquanto elemento central de integração social criou uma massa que se deve lançar às mais diversas práticas de sobrevivência — ou mesmo num horizonte em que nem o trabalho assalariado garante a reprodução mínima da vida —, onde condições globais passam a assemelhar-se negativamente, suprimindo o fosso que separavam os países atrasados dos desenvolvidos naquilo que veio a se chamar brasilianização [8], uma espécie de integração desintegradora passível, ainda assim, de captura pelo poder: “Excluídos dos modos jurídicos de pertença, desqualificados para a cidadania, eles estão ao mesmo tempo activamente ‘qualificados’ para a vida ilegal”. [9]

8. Paulo Arantes. A fratura brasileira do mundo – Visões do laboratório brasileiro da mundialização.

9. Grégoire Chamayou. As caças ao Homem – História e filosofia do poder cinegético, Antígona, Lisboa, 2023.

7. O sublime apocalíptico propagado pela cultura actual impede a figuração da nova sensibilidade que vem sendo gestada nessa vida ilegal, que talvez seja o único horizonte comum do qual dispomos. Hipnotizados com o desmoronamento de uma normalidade que nunca existiu, a matéria dessa nova condição passa-nos ao lado enquanto o nosso repertório artístico e cultural encontra-se aquém da própria realidade. A ficção tornou-se uma fraqueza. O fim dos guetos e o empobrecimento do que era antes o meio termo e a substância das sociedades democráticas, a classe média, são indícios do espraiamento dessa nova condição. Hoje, nos EUA, por exemplo, que elemento, que família está isenta da caça policial? Aquilo que as filmagens têm mostrado é como toda uma inserção na cidade é partilhada por americanos e estrangeiros: colegas de trabalho, de prédio, de pobreza. Sendo que é a própria entreajuda de vizinhos um elemento crucial na protecção dos indivíduos mais vulneráveis. Contra a imposição estatal, o que se ouve muito nos depoimentos e reportagens, é a mobilização do termo comunidade como forma de contrariar a barbárie promovida pelo ICE. [10] É em oposição à violência contra esta comunidade que os vizinhos se têm mobilizado. Parecem ter intuído que o círculo do sacrifício, quando estabelecido pelo elemento caçador, torna o cão sedento incapaz de largar a sua vítima até que ceda completamente à morte, até que toda a oposição do seu corpo esteja aniquilada. O cão está cego. Todos os corpos lhe são indistintos. Cheiram a carne animal.

10. Se a ideia de community é um elemento transversal às classes e culturas americanas, Minneapolis, pelo menos a nível simbólico, parece ter sido escolhida como alvo privilegiado das últimas acções justamente por ser um espaço onde um certo nível de solidariedade entre trabalhadores foi forjado ao longo dos séculos até os mais recentes protestos a partir do assassinato de George Floyd. “Em primeiro lugar, trata-se de uma conhecida cidade “santuário”, onde trabalhadores imigrantes têm sido historicamente acolhidos e protegidos por redes institucionais e comunitárias. Além disso, Minneapolis possui uma rica tradição de activismo trabalhista, tendo sido o epicentro de um dos mais importantes ciclos grevistas da história do país”. (Ruy Braga. Os grevistas de Minneapolis.)

 

 

 

Ricardo Menezes

Ricardo Menezes é escritor e fotógrafo. Membro da Revista Zero à Esquerda e do colectivo Bandung Ghosts

 

Ficha técnica

Notas sobre a caça e a vida ilegal • Ricardo Menezes

Data de publicação • 18.03.2026

 Edição #45 • Inverno — Primavera 2026