Unarchitecture \ Rui Pedro Bordalo




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Unarchitecture
Proposta de criação de espaço para arquitectos







(clicar para ampliar imagens)
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Rui Pedro Bordalo
Guarda, 1977. Recorrendo ao seu background em arquitectura (Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto) quando fotografa edifícios, casa, ruas, estradas, lugares e não lugares, explora o potencial da fotografia para documentar as dimensões formais e simbólicas da arquitectura, da cidade e do território, em busca de definições de uma paisagem alterada pelo homem.

Os analfabetos do presente \ Pedro Bismarck




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Os analfabetos
do presente
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Pedro Levi Bismarck

“O analfabeto do futuro, disse alguém, será aquele que não sabe ler as fotografias, e não o iletrado”.
Walter Benjamin

O facto do «Passeio dos Clérigos» (projecto dos arquitectos Balonas&Menano para a Praça de Lisboa, no Porto) ter sido promovido à passerelle da fotogenia nacional (o site «últimas reportagens», do fotógrafo/arquitecto Fernando Guerra) é não apenas constrangedor, mas sintomático da actual condição da arquitectura: entregue, como está, ao registo caleidoscópico das imagens e da ditadura do espectáculo. O site «últimas reportagens», essa lente olho de peixe por onde desfila como num carnaval toda a arquitectura nacional, transformou-se desde há muito num não-lugar, uma terra devastada onde tudo cabe e onde tudo, mesmo o mais medíocre dos projectos, pode aparecer. Aquilo que não pode ser esquecido de modo nenhum é que um site como este não é uma publicação de arquitectura, onde texto e fotografia se cruzam para construir uma crítica de obra. A única lei que aqui impera é a do negócio, a única que permite, aliás, como num suplemento imobiliário, que lado a lado convivam uma obra de Álvaro Siza e este «Passeio dos Clérigos». Nenhum critério arquitectónico, nem estético, nem político. Na fórmula de Debord, simplesmente, “o que é bom aparece, o que aparece é bom”.
Mas porque é que sobre tudo isto paira um certo perigo? Porque aquilo que aparece perante nós (apesar de todas as ilusões) já não é obra de arquitectura, mas simplesmente, imagem de arquitectura – a imagem como entidade autónoma, desligada de qualquer contexto ou sentido, de qualquer critério que não seja o seu próprio brilho. Voltando ao exemplo do «Passeio dos Clérigos». Ele é, enquanto obra arquitectónica, no seu processo de construção, na sua linguagem, na sua relação com a cidade, lugar de uma prática neoliberal de venda e concessão de espaço público, de um autoritarismo decisório da Câmara Municipal do Porto, de um processo que não fez mais que desprezar a arquitectura enquanto prática profissional e social. Mas enquanto imagem fotográfica, nos seus clichés pacientemente estudados e calculados (que chegam, aliás, a anular a elevada pendente de uma das ruas adjacentes), o «Passeio dos Clérigos» é o lugar da cidade cosmopolita, global, turística, alegre movida de uma cidade triunfante e de sucesso. Nessa imagem fotográfica, todas as contradições da obra são anuladas, todo o significado é suspenso, ela brilha como entidade autónoma, não dá satisfações a ninguém, exibe-se triunfalmente pelo mundo fora e, por fim, ri-se assustadoramente de nós. Porque ela, a imagem, já não fala de arquitectura, nem da cidade, já nem fala de nós, homens, mas desse mundo onde já não temos lugar e de onde estamos excluídos. Não são utopias, nem janelas abertas do progresso a maravilhar o futuro da humanidade, são simplesmente simulacros de um real inexistente que nos arrastam para um sono profundo. Não somos nós que sonhamos, é o capital que sonha por nós (os seus negócios, os seus números).
Estas imagens, que correm hoje pela volúpia quotidiana, são como esse súbito instante em que sentimos o perfume de alguém que passou por nós na rua, ainda levantamos esperançadamente o olhar mas já só vemos a multidão informe. Poderá ser o perfume de um belo e cativante rosto, mas também poderá ser, simplesmente, uma certa senhora de idade exageradamente maquilhada.

Não é possível compreender a crise do nosso tempo sem criticar as formas de mediação que nos envolvem e o modo como nos deixamos conduzir por elas em direcção à terra devastada sem ética nem poética do espectáculo. Criticam-se as políticas neoliberais, lamenta-se o subsumir da nossa vida ao paradigma do económico e, entre nós, a ausência de reconhecimento do arquitecto na sociedade, mas somos os primeiros a participar nessa mobilização geral que nos arrasta sem sabermos. Participamos numa ironia generalizada. Perdemos muito tempo a percorrer a passerelle diária das «últimas reportagens» e do «archdaily» e pouco tempo a ler jornais ou a ler sobre arquitectura, sobre filosofia ou sociologia. Não se trata de saber mais ou menos sobre esta ou aquela disciplina, mas tentar compreender um pouco que seja deste tempo do qual fazemos parte. Somos vítimas da nossa própria apatia perante um espectáculo que, enquanto afirma o direito à nossa opinião, reduz a migalhas todo os espaços do pensamento e da crítica; que afirma constantemente a liberdade e a democracia, quando esta todos os dias nos foge pelos dedos das mãos e a pretexto de tantas coisas. Trata-se de estar à altura do nosso tempo, isto é, procurar encontrar ainda as respostas para esta época de crise. Mas estas não estarão certamente no reduto fechado da prática nem do consumo individual das imagens, mas na nossa capacidade de ter ainda algo a dizer sobre aquilo que fazemos, de falar já não em nome próprio, mas arriscar falar com os outros.

É por isso que um outro autor, Walter Benjamin, alertava já nos anos trinta para os perigos da estetização das imagens – operada, à época, pela reportagem fotográfica da chamada «Nova Objectividade», que, nas palavras do autor alemão, chegava a fazer da própria miséria um objecto de prazer. Uma estetização cujo destino estava já traçado: o território propagandístico do fascismo alemão. Também os futuristas italianos estetizaram a guerra, fizeram dela imagem e perfume. E, ao encerrarem-se no seu maravilhamento, deixaram-se cair num sono profundo que só terminou com os estrondos da Primeira Guerra Mundial. O problema é sempre esse: aqueles que se deixam iludir pelo perfume da imagem serão também aqueles que, como escreveu Benjamin, irão acabar por “viver a sua própria aniquilação como um prazer estético”. E contra isso, contra esse sono, contra essa estetização generalizada da política (apanágio do fascismo), só há uma resposta: a politização da arte.
Só essa politização, isto é, esse gesto de sacar das imagens a sua legibilidade, poderá permitir fugir do território estetizado do espectáculo para onde somos arrastados diariamente e desvelar as relações de força, as dinâmicas, que operam constantemente sobre a nossa vida quotidiana. Para Walter Benjamin, citando alguém (Baudelaire?), o analfabeto do futuro será não o iletrado, mas aquele que não souber ler as fotografias. E perguntava logo de seguida: “Mas não será praticamente um analfabeto o fotógrafo que não sabe ler as suas próprias fotografias? Não se tornará a legenda parte essencial da fotografia?”. Mas essa legenda, essa legibilidade, não significa simples ornamentação da imagem ou imposição de significado, mas sim, questionamento, perturbação. Uma relação crítica onde as palavras desvelam as imagens e onde as imagens dão às palavras esse seu brilho de vida. Sem essa relação crítica, como escreve Didi-Huberman, as imagens e as palavras são reduzidas a quase nada que preste: estereótipos onde tudo pode caber. Só esse exercício crítico nos poderá permitir ver nessas imagens brilhantes do «Passeio dos Clérigos», não apenas o seu perfume sensual (a sua forma, o seu estilo, o cliché), mas o seu verdadeiro rosto. Um rosto que, se queremos ainda salvar o nosso tempo, será muito provavelmente aquele que teremos de aprender a reconhecer como o nosso mais terrível inimigo.
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Créditos:

Balonas e Menano
Passeio dos Clérigos, Porto - Portugal
© Fernando Guerra, FG+SG Architectural Photography
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Links:
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Portogallo, L'architettetura che affoga \\ Attilio Fiumarella





Attilio Fiumarella
Portogallo, l'architettura che affoga
(PT)
Lembro-me da última vez que estive na Casa do Chá da Boa Nova foi em Novembro de 2011. Naquela tarde, despedimo-nos de um casal de amigos que foram viver para a Suíça. Aqui já não conseguiam ver um futuro, quer para eles quer para a sua pequena filha. Mas isso é outra história, ele é um arquitecto espanhol, ela uma fotógrafa italiana, os dois tinham encontrado no Porto um lugar agradável para viver por algum tempo, mas a incerteza ditada pela crise levou-os a mudar de vida novamente. Alguns meses mais tarde, um artigo de André Tavares na Domus causou espanto pelo estado de abandono em que se encontravam alguns dos melhores trabalhos dos dois Pritzker Portugueses, Eduardo Souto de Moura e Álvaro Siza. O artigo abre com uma imagem da Casa de Chá e fala da falta de manutenção dos edifícios públicos, apesar de terem sido construídas grandes obras nos últimos anos em Portugal que duplicaram desnecessariamente a existência de equipamentos já edificados. Na Páscoa de 2012 os meus pais vieram-me visitar. Entusiasmado, por querer mostrar um dos mais belos projectos de Álvaro Siza, fomos à Boa Nova, mas fomos recebidos por uma decepção total. A Casa de Chá tinha sido esvaziada de todo o seu mobiliário e já mostrava alguns sinais de degradação a nível estrutural. Que tristeza…Publico algumas fotos que tirei naquele dia: a comunidade indignada na web. Pouco depois chegaram rumores que a casa tinha sido fechada para ser restaurada e que seria transformada num restaurante de estrela Michelin, bom vamos esperar …O tempo passa e nada acontece, poeira e detritos acumulam-se no chão de madeira, até colocaram um daqueles projectores de obra para iluminar o interior. Parece que algo está a ser feito, e até colocam na porta de entrada um bilhete a dizer algo como "Desculpe o transtorno, estamos a trabalhar para si"...Até que mais nada, de novo…a imprensa nacional reporta o caso nos jornais e o Siza queixa-se sobre a falta de manutenção. O edifício está localizado em frente ao mar e é constantemente atacado pelo ar salgado e pela chuva. Há poucos dias uma tempestade assolou Portugal. Várias árvores caíram e houve danos em quase toda a parte, devido aos ventos fortes que ultrapassaram os 100 km / h. Lembrei-me de ir à Boa Nova, mais uma vez um golpe para o coração. Desta vez, o edifício desenhado por Siza em 1963 tinha as janelas arrombadas. Estado avançado de deterioração, muitas infiltrações, telhas levantadas, o cobre das cantoneiras nem a sombra. No interior, grandes poças de água afogavam o belo espaço, todas as partes de metal e circuitos retirados ou roubados, as casas de banho vandalizadas. No exterior, o chão parecia ter sido forçado para poder retirar as lajes de pedra. Alguns lenços no chão indicavam que alguém já usou essa grande obra de arquitectura para fazer digestão. Que futuro foi reservado para este belo edifício e que será de Portugal? Cada dia estou mais convencido que essas duas questões estão inevitavelmente ligadas, e talvez serei obrigado a fazer, mais tarde ou mais cedo, a mesma escolha desses dois amigos que tiveram que ir embora daqui.
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(IT)
Ricordo che l'ultima volta che sono stato a Casa do Chá de Boa Nova é stato nel Novembre del 2011. In quel pomeriggio salutammo una coppia di amici che andavano a vivere in Svizzera. Qui ormai non riuscivano a vedere un futuro, né per loro, né per la loro piccola figlia. Ma questo é un altro discorso, lui un architetto spagnolo, lei una fotografa italiana, avevano trovato a Porto un bel posto dove vivere qualche tempo, ma poi l'insicurezza dettata dalla crisi li portò a cambiare di nuovo vita. Qualche mese dopo, l'articolo di André Tavares su Domus, suscita scalpore per lo stato d'abbandono in cui si trovano alcune delle più belle opere dei due Pritzker portoghesi, Eduardo Souto de Moura e Alvaro Siza. L'articolo apre con una foto di Casa do Chá. Si parlava di assenza di manutenzione per alcuni edifici pubblici a dispetto di grandi opere che erano state costruite negli ultimi anni in Portogallo (ed altre in progetto) e che probabilmente duplicavano inutilmente l'esistenza di strutture già costruite. A Pasqua del 2012 i miei genitori vengono a trovarmi. Entusiasta nel volergli mostrare uno dei più bei progetti di Alvaro Siza, ci recammo a Boa Nova ma veniamo accolti dalla delusione più totale, la Casa do Chá era stata svuotata di tutti i suoi mobili e mostrava già alcuni segni di degrado a livello strutturale. Che amarezza... Pubblico qualche scatto che avevo fatto quel giorno: la comunità incredula sul web. Poco dopo si comincia a vociferare che la Casa era stata chiusa per essere messa a posto e che l'avrebbero trasformata in un ristorante da stella Michelin, beh aspettiamo.. Passa il tempo e nulla accade, polvere e calcinacci si accumulano sul pavimento in legno, in quanto posizionano uno di quei proiettori da cantiere per illuminare gli interni. Sembra che qualcosa si muova, addirittura affiggono alla porta d'entrata un biglietto del tipo “scusate il disagio, stiamo lavorando per voi”... Poi nulla, il vuoto di nuovo.. la stampa nazionale riporta il caso e lo stesso Siza si lamenta per l'assenza di manutenzione. L'edificio si trova proprio di fronte all'oceano, ed é continuamente aggredito dalla salsedine e dalle piogge. Qualche giorno fa un temporale ha fatto molti danni in Portogallo. Sono caduti tantissimi alberi e ci sono stati danni un pò dappertutto dovuti alle forti raffiche di vento che oltrepassavano i 100 Km/h. Mi sono ricordato di passare a Boa Nova, di nuovo un colpo al cuore. Questa volta l'edificio progettato da Siza nel 1963 aveva i vetri sfondati. Lo stato di degrado avanzatissimo, tante infiltrazioni, tegole divelte, del rame delle scossaline neanche più una traccia. All'interno grandi pozze d'acqua affogavano quel bellissimo spazio, tutte le parti metalliche e i circuiti ritirati o rubati, i bagni vandalizzati. All'estero il pavimento sembrava essere stato forzato per poterne portare via le lastre di pietra. Qualche fazzoletto a terra indicava che qualcuno ormai usava questa grande opera d'architettura per fare digestione. Quale futuro sarà riservato a questo splendido edificio e cosa ne sarà del Portogallo? Ogni giorno mi convinco sempre di più che queste due domande siano sempre più connesse tra di loro, e forse sarò obbligato a fare presto la stessa scelta di quei due miei amici che sono dovuti andare via da qui.










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Attilio Fiumarella nasceu em Nápoles, Itália, em 1978. Frequentou a Faculdade de Arquitectura Federico II de Nápoles. Em 2006 Forma-se em arquitectura na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Em 2010 Especializa-se (Master) em arquitectura da cidade histórica na Faculdade de Arquitectura Federico II de Nápoles. Em 2011 frequenta o Curso Profissional de Fotografia no Instituto Português de Fotografia e inicia a sua actividade como fotografo no "atelier de fotografia". Desde 2002 vive no Porto, efectuando trabalhos entre Portugal e Itália. Realiza, entre outros, trabalhos de fotografia de arquitectura, paisagem, jornalismo, retratos. A partir de 2011 começa a publicar em algumas revistas e livros dedicados à arquitectura: