Um estado da arte • Pedro Levi Bismarck




Com Nuno Faria — afastado recentemente da direcção do Museu da Cidade por Rui Moreira — o Porto teve, pela primeira vez e em muitos anos, uma programação cultural radicalmente diferente. Embora complexa e abrangente, já que envolvia instituições museológicas municipais que estavam há muito mumificadas e dispersas, esta foi uma estratégia que mobilizou um conjunto muito heterogéneo de iniciativas. A própria ideia de reunir os diversos espaços museológicos num mapa-circuito parecia prometedora e uma forma de animar estes espaços num dimensionamento capaz de superar a fragmentação do espaço urbano do Porto.

O fim deste projecto teve uma razão política e ideológica, naquilo que se refere ao papel da cultura e das suas instituições. Com habilidade e subtileza, Nuno Faria soube construir um discurso de atenção relativamente a todo um conjunto de processos que atravessam o nosso quotidiano social e político, mas soube construir também um discurso de crítica relativamente ao papel dos próprios museus na e com a cidade. A dimensão rizomática do museu pode ter revelado algumas desvantagens, mas teve a vantagem de fazer emergir uma miríade de discursos e práticas experimentais, fortemente ligadas ao tecido cultural do Porto.

O programa que Nuno Faria desenhou para a cultura não poderia ser mais distinto daquele que a Câmara do Porto transportava consigo desde os tempos de Paulo Cunha Silva. E não é por acaso que Rui Moreira pretenda reanimar iniciativas lançadas pelo seu primeiro e único vereador da cultura. É todo um outro modelo político e ideológico de cultura. A iniciativa «Um Objecto e os Seus Discursos» que Rui Moreira quer reabilitar exprime bem esse modelo de cultura enquanto cabinet de curiosités. A programação de Nuno Faria era mais subterrânea, mas desenhava no horizonte um sem fim de outras potencialidades. Por sua vez, a crise em torno do programa expositivo do Museu do Romântico exprime bem o que estava em causa: por um lado, uma ideia de cultura como reunião do conjunto de materiais históricos acumulados e fossilizados como elementos de celebração do passado, por outro lado, uma ideia de cultura como possibilidade de explodir esses materiais históricos e mobilizar as formas de um pensamento crítico — obrigando neste processo as próprias instituições a verem-se ao espelho e a exporem a sua própria função ideológica.

Se Nuno Faria sai, é porque o seu modelo de cultura não cabe no modelo de Rui Moreira. Para este último, a instituição cultural — entre outras funções — deve ter o papel fundamental de institucionalizar as práticas culturais e artísticas, de as submeter aos seus critérios e protocolos — e, sobretudo, estas devem ter lugares e tempos precisos, isto é, facilmente controláveis e determináveis pelo poder. Nuno Faria interrompeu essa lógica e procurou fazer das práticas culturais e artísticas modos de desinstitucionalizar as instituições. O seu modelo rizomático de museu implicava uma dificuldade no controlo dessas linhas de fuga que o museu lançava em múltiplas direcções. É por isso que Rui Moreira realça tão peremptoriamente a necessidade de voltar a articular e centralizar os diversos espaços museológicos e é também por isso que contrata um «gestor cultural» e não um «director artístico».

O silêncio em torno da saída de Nuno Faria é sintomático. Mas revela a todos os níveis que há um combate por um modelo de cultura que permanece por fazer e que os agentes dispostos a lançar esse combate são cada vez menos e que as condições são cada vez mais difíceis. Se nas instituições privadas a lógica do mercado reina soberana, nas instituições públicas as coisas nem por isso são muito diferentes.



A programação cultural — ou, pelo menos, uma certa ideia de programação cultural — está morta e por duas razões: primeiro, porque num mercado altamente competitivo de curadores e programadores, ansiosos por fazerem uma carreira, só sobrevivem aqueles que estão dispostos a submeter-se acriticamente às exigências das instituições; segundo, porque do ponto de vista das instituições, a penúria de financiamento público ou a imposição das regras do mercado privado esvazia de sentido e possibilidade qualquer programação cultural que tenha de arriscar no encontrar de outras formas de exposição.

Seria das instituições públicas que poderíamos esperar a defesa de um modelo de cultura radicalmente diferente. E, no entanto, também aqui se exprime um provincianismo tão tipicamente nacional. Mas não só. O regime fundacional de instituições como a Casa da Música, realça bem onde foi parar o projecto democrático da cultura. De casa de todas as músicas, a CdM passou a casa de todos os negócios, como demonstra a notícia que saiu no Jornal Público. Abandonando qualquer ideia básica de programação musical, a CdM transformou-se numa central de negócios em que os fundos públicos alimentam incessantemente os negócios que os privados fazem em redor da administração da cultura. Se a lógica cultural de mercado corresponde a uma mercantilização da cultura, é precisamente porque há todo um negócio invisível que passa pela produção cultural e que mobiliza milhões de euros de fundos públicos. É inconsolável observar a penúria actual das instituições públicas da cultura, as condições precárias da construção de discursos e práticas culturais e, ao mesmo tempo, olhar o rol infinito de negócios realizados em torno da CdM entre accionistas, mecenas e as suas mulheres e os seus comércios de flores, movendo milhares de euros. Para que serve afinal o modelo fundacional, o modelo da parceria público-privada? É a própria estrutura legal do regime das fundações que permite toda uma zona escura e opaca impenetrável. E, no entanto, o crivo da ética liberal, tão eloquente nas suas críticas ao Estado, raramente parece incomodado com estes casos, limitando-se a elogiar a natureza teórica de um modelo que na prática — como vimos em tantos sectores — serve para delapidar dinheiros públicos, mas que serve, também, neste caso específico, para delapidar as próprias condições de liberdade e autonomia da produção artística, cultural e intelectual.

 


 


Pedro Levi Bismarck

Co-editor do Jornal Punkto, arquitecto, crítico e ensaísta, investigador no CEAU (Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto).

 

Imagem

1. Imagem do site do Museu da Cidade do Porto.

2. Maquete da Casa da Música. Fotografia de Philippe Ruault. 2005 [Via archdaily]

 

Nota da edição

Artigo publicado no Jornal Público a 28 de Outubro de 2022.

 

Ficha Técnica

«Um estado da arte» • Pedro Levi Bismarck

Data de publicação: 03.11. 2022

Edição #36 • Outono 2022 •

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