66 dias • Joshua Clover





Contam-se 66 dias desde a primeira ordem de confinamento até à primeira insurreição. Ao lado da absoluta revolta pela morte de George Floyd, podemos também assinalar um pequeno sentimento de esperança de ainda ser possível que as pessoas lutem contra uma disposição do mundo que é, para elas, uma contínua fonte de violência, que lutem pela própria possibilidade de prosperarem, que lutem juntas e nas ruas. É certo que, durante esse intervalo, a hipótese de este potencial ter sido eclipsado atormentou toda a gente que conheço. Isso não aconteceu.
Os eventos ainda se estão a desenrolar e não pretendo extrair conclusões simplistas. Devia haver uma verdadeira humildade no reconhecimento de que toda a teoria vem da luta, de que esta não a precede e, muito menos, a finge dirigir. Para aqueles de entre nós que não podem estar lá fora, parece importante estar atento ao que é intoleravelmente familiar: o assassinato pela polícia de uma pessoa negra, a mentira de que a polícia estava a agir em autodefesa, a revelação de que a mais crua das mentiras encobre um linchamento. A familiaridade deste facto não diminui de nenhum modo a sua intensidade. A execução extrajudicial de pessoas negras é central na ordem da sociedade dos EUA, central não apenas no modo como o poder se mantém, mas no modo como este se reconhece. E a legitimidade e necessidade da revolta negra é, em parte, uma tentativa de sobreviver a esta ordem, de construir uma contra-ordem. Apesar das lamúrias desesperadas dos meios de comunicação e dos políticos em torno do caos nas ruas, há desordem apenas no sentido mais literal: uma tentativa de desmantelar a ordem fundada na violência racializada. 
Este enquadramento da desordem, além do mais, pertence a uma tradição de longa data — infelizmente presente tanto à esquerda quanto à direita — de decidir o que é válido enquanto política. Grupos manifestamente regularizados, com hierarquias claras e votos e estruturas de financiamento e organogramas e um gabinete algures: sim, definitivamente política. Mas motins nem tanto, invariavelmente descartados como respostas espasmódicas e irreflectidas à imediatez do sofrimento comunitário. Isto acompanha a ideia perniciosa do agitador externo, uma ideia segundo a qual todos os aspectos de um protesto para lá da simples comunicação são secretamente organizados por oportunistas vindos de um lugar misterioso, que tiram partido do caos, da revolta e do sofrimento legítimos, sentimentos aos quais eles são supostamente indiferentes, para impor os seus objectivos políticos particulares. Todas estas fantasias têm apenas uma função: excluir os negros do domínio do político, recusar o reconhecimento do motim como uma das mais básicas e antigas formas de acção colectiva. Enquanto o Estado leva a cabo acções cada vez mais violentas, a imagem projectada tanto pelos meios de comunicação como pelos quadros de governantes aterrorizados é de um mundo que está de cabeça para baixo: o sentimento é a única política legítima, enquanto a acção é, de algum modo, uma outra coisa.
Estas tácticas de desmobilização são desmoralizantemente familiares. Contra isto, há vislumbres do novo, construído como sempre a partir dos fragmentos do antigo. Mesmo que a resposta ao SARS-CoV-2 tenha surgido como promessa de crescimento de um estado-de-vigilância já musculado, o colapso de todas as leis anti-máscara (do género das que Trump et al. tentaram endurecer durante a grande crise da Antifa de 2017) parece, pelo menos, alargar a margem para o antagonismo público. Certamente, o reconhecimento de que o estado-de-vigilância ainda não superou todas as suas barreiras, de que o seu desejo pela consciência total da informação pode ser contestado, tem sido para muitos uma experiência restauradora. Com a integração das máscaras numa nova normalidade nos EUA, como já aconteceu noutros lugares há bastante tempo, o equilíbrio de forças será alterado por algum tempo.
Entre os acontecimentos mais bizarros deste intervalo de 66 dias, estiveram as manifestações a que poderíamos chamar anti-greves: reivindicações colectivas e violentas pelo regresso ao trabalho, independentemente dos salários e das condições disponibilizadas. Estas manifestações foram de muitos modos patrocinadas por fontes dissimuladas, expressões, não do trabalhador imaginado, mas do empresário tentando fazer com que a máquina do dinheiro volte a funcionar. Se, neste sentido, estas pantomimas eram falsas, elas não deixam de exprimir a verdade sobre a incapacidade do capitalismo para enfrentar esta situação. Quando o salário significa sobrevivência, o que fazer numa situação em que a função do trabalho de manter os proletários vivos é subitamente contrariada pelo facto de o trabalho poder efectivamente resultar na morte de um número suficiente de proletários para que o capitalismo deixe de funcionar? Teria sido gratificante assistir aos porta-vozes oficiais e não-remunerados do capital contorcendo-se nesta armadilha se as circunstâncias não tivessem sido tão horríveis e mortais para as pessoas que conhecemos e amamos. O governo, cujo papel enquanto servo do capital nunca foi tão claro, assumiu a tarefa de calcular como seriam exactamente estabelecidos os parâmetros do trabalho e da produção num equilíbrio necessário para fazer sobreviver a economia à custa de quantas vidas fosse necessário, um ajuste que foi adoptado como a única tarefa do vasto aparelho estatal até este ter sido forçado a voltar a sua atenção para o Minnesota, e subitamente para todo o lado.
Todo este cenário teve o efeito colateral de fazer a propriedade parecer estranha. A revelação do primeiro de Abril, de que se pode simplesmente… não pagar a renda, foi seguramente um rasgão importante no véu ideológico; o colapso historicamente sem precedentes até uma taxa de participação no trabalho de apenas 50%, rasgou ainda mais o véu. E deu-se então a experiência da própria mercadoria, a mais naturalizada das coisas. Quando as pessoas começam a limpar as suas compras com lixívia, isso torna-estranho. Quando se descobre que todo o sector encarregue de transformar o dinheiro das pessoas em mercadoria é essencial, do mesmo modo que os trabalhadores da saúde, e se torna evidente que estes trabalhadores devem arriscar as suas vidas para que essa transformação ocorra, isso torna-se estranho. Quando o governo admite abertamente que, contra todos os seus hábitos e predilecções, pagará às pessoas para que estas comprem coisas e salvem a economia, isso torna-se estranho como tudo.
É preciso questionar se isto não terá alterado um pouco a dinâmicas das pilhagens. Os reaccionários do costume dirão as coisas do costume, mas a situação peculiar em que nos encontramos, em que a questão do modo como os bens básicos passam das mãos dos capitalistas para a casa dos proletários nunca foi tão enfatizada, em que a acumulação de bens nunca foi tão obviamente reconhecida como o açambarcamento da riqueza social necessária — isto talvez seja algo novo. A partida das pilhagens de bairros empobrecidos para os Crystal Valleys de Melrose e SoHo despertou, sem dúvida, um temor no coração dos próprios comentadores que há muito reclamavam esse salto, condenando a “destruição da própria comunidade” (como se uma comunidade pudesse alguma vez ser feita de mercadorias). Encurralados na sua própria má-fé, resta-lhes apenas encenar uma autoridade moral que augura contra a tomada de qualquer coisa de valor, mesmo que o objectivo óbvio seja o de re-vender pelo dinheiro necessário à sobrevivência, uma vez que isto supostamente abandona qualquer reivindicação pela necessidade (como se fossem alguma vez defender a pilhagem de leite e de fraldas). Nada disto deve ser levado a sério por nenhum observador, pois estamos todos conscientes de que estas criaturas angustiadas defenderão a pilhagem apenas na circunstância singular de esta ser conduzida por um Bezos, grande ou pequeno. Os saqueadores são aqui, evidentemente, os actores de boa fé, envolvendo-se no plebiscito em torno da sobrevivência. Isto é apenas uma das formas através das quais os motins de 2020 eclipsam a outra estrela política do ano. Talvez a revelação de 2020 não seja “uau, um quase-socialista esteve perto de se tornar um nomeado à presidência”, mas “ah, nunca nos livraremos da polícia pelo voto”, e também “ah, as barreiras de acesso a bens essenciais de sobrevivência são absurdas e inaceitáveis”, e por fim “ah, estes dois factos são o mesmo”.
A imagem impressionante, em Minneapolis, de um posto policial a ser invadido, abandonado pelas suas forças e incendiado, é inteiramente nova na memória moderna. Pensemos no saque da Terceira Esquadra Policial de Minneapolis como a nossa viragem internacionalista; afinal, há nove anos no Egipto, 99 postos policiais foram incendiados numa única noite. Chega de excepcionalismo americano. Assistir às imagens dos bairros, após a expulsão integral da polícia, oferece a memória de que o bloqueio e a barricada — tão fundamentais para os motins e outras formas de luta de circulação — pretendem deixar de ser apenas interrupções do tráfego ou do comércio, para se converterem numa questão de defesa do território. Um eco pairando sobre a noite de Minnesota, a 28 de Maio, talvez tenha sido a insistência em curso, pelos povos Oglala Sioux e Cheyenne River Sioux, de formar e manter postos de controlo para proteger os territórios tradicionais, chegando mesmo a banir efectivamente a entrada do governador de Dakota do Sul. Enquanto a justificação para os postos de controlo é medicamente clara e legalmente persuasiva, não é difícil ver também a imagem posterior dos postos de controlo que protegiam território não cedido pelos Wetʼsuwetʼen após a incursão da RCMP [Royal Canadian Mounted Police] a mando do petro-estado canadiano no início deste ano, e antes deles uma série de lutas semelhantes. Nick Estes e Glenn Sean Coulthard recordaram-me noutra noite que o Movimento Indígena Americano foi fundado em Minneapolis e começou, tal como o Partido dos Panteras Negras para Auto-Defesa, com patrulhas comunitárias. Esta história, de uma luta pela autogestão fundada na disputa territorial, que deve começar pelo assentamento contra a polícia, pairava em torno do incêndio da Terceira Delegacia. Se alguma vez houve um tempo para constituir um bairro enquanto comuna autónoma, auto-gerida e sem referência ao estado colonial, foi este. Ou quase. Todos sabíamos que mais rufias chegariam com armas de fogo e bandeiras bordadas, enquanto o presidente sonha o seu sonho imperial da lei marcial. Mas devemos também suspeitar que este salto para a afirmação de um processo colectivo que deixe de fora a violência do estado, e que não é novo, mas tornado mais visível pelas lutas indígenas, permanece em cima da mesa se o objectivo for acabar com os homicídios policiais e começar qualquer tipo de autonomia colectiva.
É importante que estas compreensões do estado actual e da natureza da propriedade privada já existam, mais para uns do que para outros — as classes desfavorecidas e racializadas, mais propriamente as pessoas cujas famílias já foram propriedade, devem suportar, entre outras coisas, o pesado reconhecimento de que o sistema de propriedade é morte, e que os polícias, enquanto guardiões desse sistema, são os guardiões da morte. Nenhum outro veredicto sobre a instituição é possível. O sistema da propriedade atravessa linhas raciais e outras, para ser rigoroso, e é de recordar que a crescente onda de encarceramento é aumentada em condados maioritariamente brancos, especialmente nos territórios mais afectados pela crise opióide. Uma maneira de explicar o papel do canal polícia-prisão é no seu papel de dispersão social e supressão salarial. Um artigo recente de Adam D. Reich e Seth J. Prins, “The Disciplining Effect of Mass Incarceration on Labor Organization”, é apenas o último a demonstrar como aquilo que é politicamente designado como “exposição ao sistema de justiça criminal” serve para debilitar a colectividade e, finalmente, os salários. Isto será dizer, entre outras coisas, que os polícias extraem capital. São ferramentas extractivas. Ele é arrancado dos pobres, ainda que de modos díspares e, em parte, através dessas disparidades — mais uma razão pela qual seria bizarro imaginar que uma insurreição nacional contra a polícia seria racialmente monolítica. Mas isto não quer dizer que todas as partes se encontrem na mesma posição. No meio da imobilidade forçada da pandemia, e agora com o toque de recolher obrigatório selectivamente imposto pelo país, a história do capturador de escravos que diz que é permitida a circulação de alguns humanos e não de outros, é inescapável. Está presente na própria imagem do joelho de Derek Chauvin sobre o pescoço de George Floyd.
Vale a pena mencionar uma última novidade, entre as muitas que permanecerão por dizer. Tem sido comum, ao longo de décadas recentes de acontecimentos horrorosamente semelhantes, que os motins aconteçam localmente quando a polícia comete os seus assassinatos, e que depois se alarguem a nível nacional (e além-fronteiras) quando a polícia não é condenada, ou não é acusada de todo. Este foi o padrão após o espancamento de Rodney King, e após o assassinato de Michael Brown, as duas sequências com maior alcance desde os verões de 1967 e 1968. Esta semana foi marcadamente diferente, com tumultos que se estenderam rapidamente nos dias após o assassinato. Não pretendo oferecer nenhuma explicação fácil para este desenvolvimento. Os eventos ainda se estão a desenrolar, e é importante observar e aprender. Parece possível que parte da explicação se prenda com o assassinato de Ahmaud Arbery na Georgia, apenas alguns meses antes, em toda a sua particularidade e horror. Devíamos dizer o seu nome, o de Breonna Taylor e o de muitos outros. Quando George Floyd foi assassinado, o problema do linchamento contemporâneo já estava lançado para alguns e, para outros, pressionado contra os seus corações como um estilhaço de vidro.
Algo que se destaca em relação ao linchamento que matou Arbery é o facto de não ter sido executado por polícias. Não exactamente. Os três homens brancos estavam ligados à polícia, Gregory McMichael, um ex-polícia, Travis, o seu filho, e Roddie Bryan, o vizinho entusiasticamente cúmplice. Assassinaram colectivamente Ahmaud Arbery por causa de um alegado roubo, bem mais falsificado do que qualquer nota de vinte dólares. Ecos, claro, de George Zimmerman vivendo o seu sonho frustrado de se tornar polícia ao executar Trayvon Martin, de 17 anos. Ainda mais devastador é o facto de pelo menos uma pessoa na vizinhança ter sido previamente aconselhada pela polícia, no caso de algum distúrbio, a contactar Gregory McMichael, que actualmente é apenas um tipo reformado. Trata-se de uma série nauseante de ligações na qual os diagramas de Venn da branquitude e do policiamento se tornam cada vez mais intrincados pela regra da propriedade, e o nome do seu terreno comum é Licença para Matar.
Mas talvez algo seja visível nisto. Tenho-me esforçado, no meu próprio trabalho, para ensinar o conceito de racismo estrutural; todos nós somos tão infinitamente impulsionados a compreender más acções como consequência de más ideias tidas por indivíduos corrompidos. Mas a intitulação casual de Gregory McMichael e, na verdade, de todas as pessoas brancas naquela vizinhança, é a melhor lição. Quando o assassinato de nove minutos de George Floyd foi posto em circulação, talvez uma parte da sua força não tenha sido a sua excepcionalidade, mas o oposto  —  talvez todos tenham percebido que isto é o que está sempre a acontecer, mais ou menos subitamente, mas sempre de modo tão óbvio e tão brutal, sem resistência, sem movimentos súbitos, sem qualquer tentativa de alcançar uma suposta arma. Talvez finalmente se tenha tornado claro que os seus executores foram aqueles quatro polícias, mas os seus assassinos foram também a ordem do capitalismo racial como tal, a propriedade como tal, a polícia como tal. Quando finalmente tomamos consciência disto, é inevitável o desejo pela justiça individual, mas é difícil imaginar que possamos esperar que a justiça colectiva seja alcançada através dessas medidas.


Joshua Clover
Joshua Clover é ensaísta, poeta e professor de literatura e de teoria crítica na Universidade de California Davis.

Nota de edição
Texto publicado no blog da editora inglesa Verso e traduzido para português por Paulo Ávila, com revisão de João Paupério.

Imagem
Incêndio numa esquadra de Minneapolis.

Ficha Técnica
Data de publicação: 09.06.2020
Edição #27 • Primavera 2020 •


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