A coluna / Juan José Lahuerta

 

___________

A coluna

Juan José Lahuerta

San Giacomo dell’Orio, fundada ao que parece no século IX, é uma das igrejas mais antigas de Veneza, embora aquilo que hoje podemos observar seja uma construção do século XIII modificada em muitos momentos, feita e refeita sobre si mesma por vezes de forma maravilhosa, como é o caso do tecto de madeira do século XV, quilha ou casco de navio, vítima no século XIX desses restauros que tanto irritavam aquele amante de pedras enferrujadas chamado John Ruskin, as quais, grandes empreitadas de limpeza, se esforçavam por apagar as peugadas que a má saúde do tempo foi deixando aqui e ali, rastros fogosos, sem ordem nem concerto, mofo e verbas, ainda que, será preciso dizê-lo, sem consegui-lo totalmente, de modo que a igreja ficou, como tantas outras edificações gloriosas desta cidade inventada, com um ar, mais que antigo, velho, e mais ainda que velho, desarranjado.
É certo que agora a entrada é paga e que o turista pode inclusive comprar um passe combinado que permite percorrer não sei se dez ou doze igrejas venezianas a um preço mais económico, o qual, é preciso reconhecê-lo, é muito duro, e é certo, também, que uma qualquer florescente cigarra possa cair de uma das suas vigas, mas isto não deve impedir que, uma vez ambientados à sombria atmosfera das suas naves, sentido já nos ossos o frio do pavimento e a humidade dos estuques salpicados, não nos possamos surpreender admirando alguns quadros que caiem quase de qualquer maneira, mais poeirentos que as próprias paredes: este de Lorenzo Lotto, aqueles três do Veronês, aqueloutro de Palma o Jovem, que não são as melhores obras, nem sequer as medianas. Embora não sentido porventura grande elevação estética por eles, pelo seu verniz demasiado espesso e moldura, amarelados, silenciosos, ainda despertam em nós, pobres, distantes do destino miserável de toda esta abundância, órfãos de uma arte que mesmo na expressão ínfima e decrépita da sua pura quantidade, nada mais, nunca nos despertou nem de perto nem de longe, uma qualquer triste inveja.
Arte frágil e desarmada riqueza, ao mesmo tempo, excessivas e impotentes imagens, e mais ainda em Veneza, em que tudo, até a pedra mais pesada, se torna água, se dissolve e se esquece: que tinhas que nos dizer ou que tínhamos nós que perguntar? Mas ainda nessa mesma igreja de San Giacomo dell’Orio, no meio da sua arquitectura achacosa, irregular e torcida, no transepto ao lado da epístola, levanta-se solitariamente, contrastando, a coluna mais admirável e pura, uma pristina coluna jónica trazida, dizem as crónicas, de algum velho templo em ruínas ou, provavelmente, de alguma desmembrada obra bizantina, saque de guerra precioso, estranho a essa rude Veneza que ainda fundava as suas igrejas na ilha dos lobos, que saqueava Bizâncio e que exibia, no orgulho bárbaro de ser capaz de se fazer com semelhantes trofeus, o triunfo do cristianismo sobre o paganismo, mas que não deixava de admirar aquele resto pagão, o qual, detendo o tempo no mínimo nítido clarão do seu mármore polido, venceria sempre, cavalgando depois de morto e sem necessidade de cães que lhe ladrassem, os exércitos inteiros de cristãos.
Se aquilo que se adquire nos rastros acumulados na igreja é uma temporalidade necessariamente adoentada, a coluna pelo contrário, resto tão-somente daquilo que foi, mostra-se como um impressionante signo de um tempo puro e de perfeição invicta. Assim que….pequeno saque! No capitel de mármore branco, umas mãos hábeis deram forma quem sabe quando e onde, quem sabe para quê, ao ábaco delicado, às volutas com os seus listelos talhados com sulcos profundos, aos rolos enrolando em redor de um olho “vegetal”, ao equino de óvulos e flechas encadeadas e ao cordão fino do seu bocel, e, na base, de mármore branco também, aos astrágalos, aos lábios apertados entre o listedo e o filete dos dois toros e das duas escócias. Numa qualquer oficina, enfim – e há-que imaginar o ruído, o pó e a desordem da oficina cheia de escombros – uns homens minuciosos escolheram as suas ferramentas para lavrar essas molduras que, ainda hoje, depois de séculos e viagens inverosímeis, parecem a proclamação da maestria, de um primor moderado nas suas arestas sem falha.
Para não falar da tensa entasis, do mármore verde do fuste, verde antico, monolítico, listrado, palpitante mas polido até à exaustação, táctil, pois, mas frio, como todo o mármore, portanto, maravilhosa, sedutora, perfeita, de facto, pedra sepulcral. Mas, dou-me agora conta do que estou a escrever, é certo que umas mãos amáveis talharam essa coluna, ainda que fossem mãos livres de artesão eram também mãos de escravos condenadas a satisfazer a fome dos deuses, e que, é certo também, outras mãos, igualmente amorosas mas saqueadoras, as carregaram num barco e as transportaram até Veneza como saque admirável de uma guerra para servir mais nada senão deuses novos.
Ao contrário do que ocorre nas fendas dessa desarranjada igreja, não rebentará nunca nas pregas cortantes das molduras da coluna uma fila de erva, nem as superfícies polidas de verde antico se irão cobrir de bolor. Essa obra de arte, absoluta e perfeita, é como o obelisco ou a esfinge, polidos também, opacos e impenetráveis, dominadores e vácuos. Nas ruínas sobrevive o monstruoso, que se defende com a beleza impassível e sem tempo, enquanto os homens, pelo contrário, como as ervas e o bolor, sobrevivem na sã decrepitude do tempo. Contemplemos admirados o verde que cresce fugaz nas fissuras dessas ruínas, secando-se e reverdecendo sem cessar apesar dos cuidados dos conservadores de monumentos, abrindo com as suas pequenas raízes fissuras novas e aumentando lentamente as velhas, até converter as ruinas na terra apetecível, pó e areia, sobre a qual os homens se possam deitar um dia a dormir tranquilamente à sombra de uma árvore.

Nota bibliográfica
Quem visitar hoje, às horas permitidas pela pertinente Direcção Geral de Monumentos essa imensa ladrilheira e cantaria limpa de pó e de palha que é o Coliseu, consulte a obra de Richard Deakin, Flora of the Colosseum, de 1855, na qual se catalogavam e ilustravam as mais de 420 espécies de árvores e plantas de todo tipo, que cresciam no seu interior e cujos mínimos rebentos são agora sistemática e minuciosamente exterminados pelos empregados da limpeza pública.




------
Legenda
1.         Coluna da Igreja de San Giacomo dell’Orio (Foto do autor).
2.        Ilustração do livro de Richard Deakin, Flora of the Colosseum of Rome, or, Illustrations and Descriptions of Four Hundred and Twenty Plants Growing Spontaneously upon the Ruins of the Colosseum of Rome, 1855 (Smithsonian Institution Libraries).
------
Tradução
Pedro Levi Bismarck (agradecimento a Professor José Miguel Rodrigues)
------
Juan José Lahuerta é arquitecto e professor de História de Arte e Arquitectura na ETSAB. Foi membro do Collegio Docenti della Scuola Dottorati del Istituto Universitario di Architettura (IUAV) de Veneza, tendo ocupado igualmente a Cátedra de Cultura e Civilização Espanhola Rei D. João Carlos I, na Universidade de Nova Iorque.