O vazio já tem nome • Duarte Viana




Passaram sete dias desde as eleições presidenciais. O tom latente é de um apelo já conhecido ao voto útil, reduzido a sondagens afectas à intenção de voto e às tendências, cuidadosamente calculadas, do eleitoralismo. Num espaço exógeno, um universo díspar e conflituante, insistia-se numa direcção em sentido oposto, mas diametralmente ligada ao anterior. Argumentava-se a existência de um deserto para o qual fomos impelidos, inscrevendo-se a impossibilidade de encetar a organização de um ou qualquer movimento «nestes termos».

«Nestes termos» será talvez a fórmula que consiga, sucintamente, operar uma condensação de um campo atomizado e heterogéneo, que vê nos conceitos e nas desvantagens estruturais, lidas sobre complexas fórmulas da economia e da filosofia política, projecções de um nada consagrado por décadas de esvaziamento e supressão dos ciclos de luta e das experiências colectivas de emancipação. Uma terra amargurada e estéril, onde apenas coabitam forças latentes e esquecidas, que nos obrigaram a percorrer uma diáspora no deserto onde já nada floresce.

É a partir desse diagnóstico do vazio que reside a tese dominante dos resultados eleitorais dessa esquerda onde assentam, para muitos, as possibilidades da organização de um novo corpo político enquanto fórmula de mobilização. É a partir das suas ruínas em decadência que se projectam novas alternativas e possibilidades de futuro. E é sobre o lugar que é atribuído a esse vazio que devemos deter a atenção, decalcando novas feições, para além do mero diagnóstico casuístico e intelectual que nos contamina de desencanto.

Assumir o vazio e o deserto como pontos de partida da nossa práxis política (ou outra fórmula que se lhe queira atribuir) é assumir que o nosso destino floresce de um vazio imposto de forma totalizante por uma esquerda que livremente nos empurrou para o abismo, com a nossa conivência, e a partir da qual pretendemos precipitar novas formas de acção. É um processo que Bruno Latour designa, em Jamais Fomos Modernos, como o paradoxo dos modernos:

«O paradoxo dos modernos (e dos antimodernos) é o de terem aceitado, desde o início, explicações cognitivas ou psicológicas gigantescas para explicar efeitos igualmente gigantescos, enquanto, em todos os outros domínios científicos, procuravam pequenas causas com grandes consequências. [...] A nossa mitologia é exactamente a de nos imaginarmos radicalmente diferentes, antes mesmo de termos procurado pequenas diferenças e grandes divisões»

Talvez isso seja um facto consumado para uma parte de nós, enquanto mito constitutivo de um imaginário radicalmente diferente, mas não para aqueles que, nesse vazio, «no ridículo, na truculência, na ironia, nos pequenos actos de incumprimento, no arrastar das raízes, na dissimulação, na mutualidade resistente, na descrença nas homilias elitistas, nos esforços constantes e esmerados para se manter contra as adversidades — um espírito e uma prática que evitam o pior e prometem algo melhor». [James C. Scott, Weapons of the Weak]

Aqueles que, através de uma economia moral e da infrapolítica, assumidas de formas várias, viram nos pequenos actos formas de acção política directa: as guerras entre freguesias minhotas, transmontanas e alentejanas; os bairros, onde a solidariedade reside nas formas mais simples de sociabilidade — os pequenos-almoços de café e as cervejas com martini da manhã; o próprio eleitoralismo, onde, circunstancialmente, a corrida às urnas e os resultados espelham uma forte mobilização popular, quer pela redução das taxas de abstenção, quer pela pulsão das ruas; o cruzar de fronteiras reais ou fictícias, padrão de acção que foge, ainda, às formas imanentes do Capital e da modernidade, assemelhando-se ao gesto do operariado recém-constituído do século XVIII, em que a política nunca foi um campo autónomo da experiência colectiva, entre a emergência da modernidade e os destroços de um mundo irresoluto que o indivíduo era incapaz de acomodar. Gestos que, embrionariamente, se manifestaram no contexto da greve geral e têm permitido uma nova pungência do movimento através dessa sociabilidade prefigurada.

Mapeemos o conjunto das lutas sociais nos bairros, nas aldeias e nas vilas, as economias morais de um conjunto de pessoas abandonadas pelo discurso político e ausentes do nosso esforço de crítica que, com cinismo, se lança sobre a sua própria decadência através de diagnósticos dos vazios e desertos. Eles são, verdadeiramente, aqueles que há muito habitam, sem destino, no deserto e, acompanhados de um vocabulário próprio, criaram soluções há muito prevalentes. Essas formas pouco conspícuas, entregues pelo vazio que já tem nome, pelas flores que pairam no deserto de onde sonhamos sair.

 


 


Duarte Viana

Duarte Costa Viana é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde actualmente frequenta o mestrado em História Contemporânea. A sua investigação incide sobre a história política e social da década de 1930, em particular no contexto da Guerra Civil de Espanha, dedicando especial atenção à actividade portuguesa no conflito. Escreve também sobre memória, Fascismo e culturas políticas do primeiro terço do século XX.

 

Imagem

Pormenor da gravura de John Slack, A view of St. Peters Place (Manchester, 16 de Agosto 1819) no dia do Massacre de Peterloo.

 

Ficha técnica

O vazio já tem nome • Duarte Viana

Data de publicação • 27.01.2026

 Edição #45 • Inverno — Primavera 2026