Sobre
a mais recente capa do Público acerca do rapto de Nicolás Maduro: mais
importante ainda do que discutir a forma como circulam as imagens, a forma como
elas são geradas ou a sua veracidade (uma imagem é sempre real, seja fake
ou não), torna-se cada vez mais urgente saber discutir essas mesmas imagens
partindo da consciência de que cada um de nós cumpre um papel decisivo nesse
processo.
Aisha al-Kurd é a mulher palestiniana que segura o seu filho numa pose ensaiada por Micha Kirshner em 1988. Aisha, que perdeu um olho num ataque israelita — o olho que nos é velado pelo contraste do preto e branco —, tinha também perdido a sua casa, demolida pelas autoridades israelitas, remetendo-a para o campo de refugiados de Khan Yunis com o seu marido e os cinco filhos, depois de vários meses em cativeiro na prisão. Esta fotografia, que levantou uma enorme discussão à volta da estetização da dor, serviu de mote para Ariella Azoulay reclamar a urgência da imaginação num momento em que a autora considera viver um clima de devastação do regime (o livro, Imaginação Civil — Uma Ontologia Política da Fotografia, foi publicado em 2010). Recusando, desde logo, dividir a fotografia entre o seu carácter político e a sua dimensão estética, a autora alerta para armadilha que um certo desleixo intelectual se instala nessa dicotomia. O que este livro aponta em primeiro lugar é para a forma como nos meandros da imaginação política se reservaram lugares para um grupo de privilegiados a quem é dada a possibilidade de assistir ao desastre. Ou seja, o escândalo não deveria residir na beleza da fotografia em si, ou no processo de montagem, mas sim no facto de ser permeável ao nosso olhar e, ainda sim, continuar vulnerável à violenta invasão dos cidadãos israelitas. É este paradoxo entre a força estética de Aisha e seu filho e a aparente transparência da catástrofe que os assola que reflecte o desastre deste regime. Aquilo que a autora refere como mau funcionamento civil é, precisamente, a forma como estes «desastres de regime» foram adoptados pelas instituições do Estado democrático, configurando não um acontecimento fortuito mas sim um plano organizado por uma máquina de destruição em nome da Democracia. Perante este plano de regime, torna-se fundamental evoluir num discurso civil que rejeite identificar a vítima com a sua tragédia e retirá-la do lugar de mera representação, como se determinados sujeitos nascessem já fazendo parte do cenário da sua própria marginalização e o arrastassem consigo ataque atrás de ataque.
Em Imaginação
Civil — Uma Ontologia Política da Fotografia, Ariella Azoulay
trabalha a necessidade de refundarmos a nossa relação com as imagens
fotográficas que nos rodeiam e que determinam a maneira como agimos no mundo.
Para isso, a autora israelita propõe a Fotografia como um evento público,
rejeitando (ou pelo menos relativizando) uma ideia de mera representação (e
representatividade). Do fotógrafo ao sujeito fotografado, do editor ao
divulgador, e, sobretudo, o espectador, todos eles são agentes activos das
imagens, tornando cada imagem num evento contínuo de participação, fazendo de
todos nós membros de uma cidadania da fotografia.
É
por isso que capas (entre tantas outras) como a que o Público fez do
rapto de Maduro não deve passar sem debate. Ao apresentar a fotografia de um
homem preso, vendado, privado de qualquer controlo sobre a sua própria imagem,
os jornalistas ecoaram o gesto brutal perpetrado pelos EUA. Não se trata aqui
apenas do incumprimento da Lei Internacional ou do jogo de simpatias ou
antipatias pelos personagens em questão. Trata-se de nos tornar cúmplices do
discurso da autoridade, do poder pela força, que expõe o melhor ou o pior dos
homens a uma dimensão infra-humana. Ao aceitarmos as regras que permitem a
degradação humilhante de alguém privado da sua imagem, estamos a permitir que
essa mesma degradação balize e polua todos os discursos mais ou menos
interessantes, mais ou menos justos, sobre (aqui) a questão da Venezuela, (ali)
a questão da Palestina, enfim, do nosso próprio degredo.
Quanto
melhor entendermos que cada imagem resulta não só numa cadeia de acontecimentos
mas que também progride numa cadeia de agentes, tão melhor defenderemos os
princípios pelos quais julgamos ser possível viver. Seja para salvar a mais
bela mãe de Khan Younis ou para derrubar o mais terrível dos ditadores, é
através da forma como nos posicionamos perante as imagens que conseguiremos
escapar à imposição do mundo e, aí sim, estaremos aptos a transformá-lo.
•
Frederico Martinho
Frederico Martinho (1988,
Coimbra) é arquitecto e tem desenvolvido a sua prática artística nos campos da
fotografia, escrita e cultura rave. Faz parte do colectivo Volúpia, é membro da
Revista OSSO e das edições Pathos Bravos.
Imagem
Aisha El-Kord, campo de
refugiados de Khan Younis, Micha Kirshner, 1988.
Ficha técnica
Diante das imagens • Frederico Martinho
Data de publicação • 13.01.2026
Edição #45 • Inverno — Primavera 2025


