Esquerda: impasse e dissolução • Tomás Nery




Aquilo que a esquerda não pode senão fazer, é aquilo que ela não pode, de todo, fazer: romper. Não só com este mundo que temos de abandonar, mas, em primeiro lugar, consigo mesma, enquanto esquerda.

Aqui reside, parece-me, o impasse insuperável da sua condição. O espectro de uma erosão eleitoral sempre-iminente — enquanto reflexo mediado do neoliberalismo como estratégia de adiamento da crise  —, que tem vindo a pairar sobre os partidos de esquerda ao longo das últimas décadas, aqui como em qualquer canto do mundo, é essa impossibilidade ontológica de atravessar um espaço de inflexão a partir do qual cessa qualquer possibilidade de retorno: espaço esse que a esquerda não poderá cruzar sem se des-identificar consigo mesma. A única possibilidade de sobrevivência da esquerda habitará, portanto, na forma como escolher abraçar a sua dissolução.

A incapacidade crónica em compreender o terreno-em-movimento sobre o qual actua não augura nada de bom: ao invés da des-identificação indutora de um presente porvir, a esquerda irá optar pela aceleração rumo ao abismo da sua sobre-identificação mitológica. Dir-me-ão: bem, o extremo-centro, a extrema-direita, em suma, o regime, faz disso o seu ganha-pão. No entanto, há, entre ambos, uma diferença fundamental. As condições de possibilidade de qualquer re-actualização mitológica da esquerda há muito se dissolveram. Por um lado, ainda bem.

Convoco aqui, brevemente, um excerto de Global China, Global Crisis, de Phil Neel:

«(...) como Smith aponta, o rápido crescimento do emprego impulsionado por um crescimento da produção superior ao crescimento da produtividade permitiu uma “correlação entre o crescimento dos salários reais e a produtividade do trabalho” garantida por “uma partilha constante da renda entre o capital e o trabalho”, o que então permitiu que um “equilíbrio dinâmico” se formasse, ligando o aumento das taxas de lucro ao aumento dos salários (...) No entanto, é essencial compreender correctamente a causalidade aqui, porque as teorias desta época, que enfatizam a dissociação entre salários e produtividade, devido à vitória política do capital sobre o trabalho (ou seja, a teoria do “neoliberalismo”, evidente em Shaikh ou D. Harvey), implicam que essa ligação poderia ser restaurada se o poder político do trabalho fosse reconstruído (através do aumento da sindicalização, do crescimento renovado do sector público, etc.). Mas Smith aponta o erro básico dessa lógica: “se os ganhos de produtividade que, por si só, proporcionam a ‘base material’ para as reivindicações no local de trabalho estiverem ausentes, mesmo as organizações de trabalhadores mais combativas irão deparar-se com condições materiais e limites proibitivos».

Abandonar a crença na autonomia do político — e, portanto, abdicar da projecção de si mesmo enquanto sujeito da Vontade — será, assim, um primeiro passo imprescindível para superar, positivamente, o impasse dissolutivo em que a esquerda se encontra. Só assim poderá emergir a consciência da impossibilidade lógica de todo o seu programa: não há como dominar a besta: ou a superamos, ou perecemos. Como a realidade se esforça por demonstrar, não se trata de uma hipérbole.

Por fim, um desejo: «que nunca mais o espectro de uma oposição conciliável venha planar no espírito daqueles que se sabem inadequados ao funcionamento capitalista.» (Convocação, Língua Morta, 2024)

 

 

Tomás Nery

Nasceu no Porto em 2002. Sociólogo.

 

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Greve Geral de 11 de Dezembro de 2025. 

Ficha técnica

Esquerda: impasse e dissolução • Tomás Nery

Data de publicação • 21.01.2026

 Edição #45 • Inverno — Primavera 2026