Aquilo
que a esquerda não pode senão fazer, é aquilo que ela não
pode, de todo, fazer: romper. Não só com este mundo
que temos de abandonar, mas, em primeiro lugar, consigo mesma, enquanto esquerda.
Aqui
reside, parece-me, o impasse insuperável da sua condição. O
espectro de uma erosão eleitoral sempre-iminente — enquanto reflexo mediado do
neoliberalismo como estratégia de adiamento da crise —, que tem vindo a pairar sobre os partidos de
esquerda ao longo das últimas décadas, aqui como em qualquer canto do mundo, é
essa impossibilidade ontológica de atravessar um espaço de inflexão a partir do
qual cessa qualquer possibilidade de retorno: espaço esse que a esquerda não
poderá cruzar sem se des-identificar consigo mesma. A única
possibilidade de sobrevivência da esquerda habitará, portanto, na forma como
escolher abraçar a sua dissolução.
A
incapacidade crónica em compreender o terreno-em-movimento sobre o qual actua
não augura nada de bom: ao invés da des-identificação indutora
de um presente porvir, a esquerda irá optar pela aceleração rumo ao abismo da
sua sobre-identificação mitológica. Dir-me-ão: bem, o
extremo-centro, a extrema-direita, em suma, o regime, faz disso o seu
ganha-pão. No entanto, há, entre ambos, uma diferença fundamental. As condições
de possibilidade de qualquer re-actualização mitológica da
esquerda há muito se dissolveram. Por um lado, ainda bem.
Convoco
aqui, brevemente, um excerto de Global
China, Global Crisis, de Phil Neel:
«(...) como
Smith aponta, o rápido crescimento do emprego impulsionado por um crescimento
da produção superior ao crescimento da produtividade permitiu uma “correlação
entre o crescimento dos salários reais e a produtividade do trabalho” garantida
por “uma partilha constante da renda entre o capital e o trabalho”, o que então
permitiu que um “equilíbrio dinâmico” se formasse, ligando o aumento das taxas
de lucro ao aumento dos salários (...) No entanto, é essencial compreender
correctamente a causalidade aqui, porque as teorias desta época, que enfatizam
a dissociação entre salários e produtividade, devido à vitória política do
capital sobre o trabalho (ou seja, a teoria do “neoliberalismo”, evidente em
Shaikh ou D. Harvey), implicam que essa ligação poderia ser restaurada se o
poder político do trabalho fosse reconstruído (através do aumento da
sindicalização, do crescimento renovado do sector público, etc.). Mas Smith
aponta o erro básico dessa lógica: “se os ganhos de produtividade que, por si
só, proporcionam a ‘base material’ para as reivindicações no local de trabalho
estiverem ausentes, mesmo as organizações de trabalhadores mais combativas irão
deparar-se com condições materiais e limites proibitivos».
Abandonar
a crença na autonomia do político — e, portanto, abdicar da projecção
de si mesmo enquanto sujeito da Vontade — será, assim, um primeiro passo
imprescindível para superar, positivamente, o impasse dissolutivo em que a
esquerda se encontra. Só assim poderá emergir a consciência da impossibilidade
lógica de todo o seu programa: não há como dominar a besta: ou a superamos, ou
perecemos. Como a realidade se esforça por demonstrar, não se trata de uma
hipérbole.
Por
fim, um desejo: «que nunca mais o espectro de uma oposição conciliável venha
planar no espírito daqueles que se sabem inadequados ao funcionamento
capitalista.» (Convocação, Língua Morta, 2024)
•
Tomás Nery
Nasceu no Porto em 2002. Sociólogo.
Imagem
Greve Geral de 11 de Dezembro de 2025.
Ficha técnica
Esquerda: impasse e dissolução • Tomás Nery
Data de publicação • 21.01.2026
Edição #45 • Inverno — Primavera 2026


