O Triunfo do Liberal-Fascismo • Pedro Levi Bismarck




No dia 18 de Janeiro, primeira volta das eleições presidenciais de 2026, o regime político neoliberal cumpriu o objectivo da estratégia que vem paulatinamente levando a cabo: reduzir a esquerda à margem mínima e à pura insignificância política. BE, PCP e Livre, somadas as três candidaturas, não conseguiram somar 5% dos votos. Esta eleição é a esse nível um marco histórico. Pedro Pinto do Chega disse-o, logo no início da noite, com visível satisfação.

Qual é a estratégia? Retirar à esquerda (parlamentar) o papel de força organizadora do descontentamento social que a social-democracia lhe conferiu no equilibro de forças que saiu do 25 de Abril e do PREC. O dispositivo político de gestão do descontentamento deixou de ser a esquerda — algo que a participação na geringonça tornou simplesmente mais fácil —, passando esse papel para o Chega, que foi quem, nos últimos anos, passou a força mobilizadora de um eleitorado descontente, mas também politicamente desideologizado.

A aliança liberal-fascista é hoje o grande dispositivo que domina a política. Ventura, Cotrim e Montenegro não são adversários políticos mas parceiros de uma aliança cuja proeza maior foi transformar as vítimas directas das suas políticas nos seus maiores adeptos, foi ter convertido o descontentamento social provocado pelas suas próprias políticas numa ampla massa-amálgama eleitoral desideologizada, lutando por mitos e migalhas, atacando imigrantes e defendendo avidamente uma economia de mercado que longe de lhe conferir a sua tão preciosa «liberdade» a devora lentamente e a consigna à penúria.

A esquerda não morreu, mas morreu uma certa forma de fazer e pensar a política à esquerda. A esquerda não pode senão romper com a social-democracia e o seu corpo moribundo. Esta última não é outra coisa que a face «adorável» do consenso fascista-liberal que precisa ainda, no grande teatro de sombras da política, do sorriso afável de António José Seguro, para dar «esperança» e continuar a caricaturar a vertigem sem fim do pluralismo democrático. Mas não será certamente com Seguro que o combate contra a aliança fascismo-neoliberalismo se fará. Seguro não é a solução, mas parte integrante do problema.

A política tem de recomeçar. Mas esta nunca foi ou esteve apenas no Parlamento. Justamente o contrário. Talvez o fim seja apenas um momento do início.

 

 

Pedro Levi Bismarck

Editor da revista Punkto, crítico e ensaísta. Publicou o livro O Mito de Israel. O Ocidente, a Política, a Morte (Documenta, 2025).

 

Ficha técnica

O Triunfo do Liberal-Fascismo • Pedro Levi Bismarck

Data de publicação • 20.01.2026

 Edição #45 • Inverno — Primavera 2026