A DERIVA NA INTERNACIONAL LETRISTA: PARA UMA CRÍTICA RADICAL DO URBANISMO (1954-2017) ▬▬ Maria Ramalho






Mais de sessenta anos passados das derivas parisienses realizadas por um pequeno grupo de membros da Internacional Letrista, que resta desses locais e dessa cidade?
A Internacional Letrista, surgida em 1952, foi, nas palavras do seu principal fundador, Guy Debord, «a organização da esquerda letrista» proveniente do conflito com Isidore Isou [1], por quem, no entanto, Debord se teria sentido encantado um ano antes. A Internacional Letrista afirmava-se, a partir de então, como um «movimento novo que deveria levar rapidamente a uma reunificação da criação cultural vanguardista e da crítica revolucionária da sociedade» [2]. Evidenciava-se, assim, o espírito do grupo relativamente ao letrismo como uma rejeição da visão da arte separada da vida e uma afirmação da vontade de «superar a arte» realizando-a no quotidiano, nomeadamente através da prática da dérive.
1. Isidore Isou, de nacionalidade romena, foi o fundador do movimento artístico criado em Paris, em 1945, intitulado Letrismo. Segundo as suas próprias palavras, este movimento destinava-se a criar um novo género de poesia e de música não convencionais. Ver aqui.
2. Tradução da autora. Potlatch, nº 3, 6 de Julho de 1954. In Potlatch 1954-1957, apresentação de Guy Debord, Gallimard, 1996, p. 8.

Tendo por base os trinta números de Potlatch (1954-1957) [3], boletim do grupo francês da Internacional Letrista [4], revisitaram-se alguns dos locais eleitos em Paris como os mais recomendados para a prática da deriva, observando-se as mutações urbanísticas e sociais ocorridas e de que modo essas mudanças nos falam de um modelo hegemónico de cidade, que se impõe a todos como reflexo de um sistema capitalista cujo desenvolvimento é a desagregação. O que vemos em Paris repete-se por toda a parte como resultado de um sistema que assenta numa infindável especulação imobiliária e na segregação espacial e social, mas que, ao mesmo tempo, encena sobre estes mesmos processos discursos sedutores. De facto, o modo de olhar para o que estava a acontecer na cidade de Paris por parte dos membros da Internacional Letrista e, mais tarde, pelos que integraram a Internacional Situacionista (1957-1972), sua continuadora, revela-se-nos hoje de uma actualidade surpreendente.
3. O potlatch («presente»), palavra de origem chinook, língua do povo ameríndio cujas terras ancestrais se situavam na nascente do rio Colúmbia, no Canadá, e hoje sedeado no estado de Washington, generalizou-se entre outros povos autóctones da costa noroeste do Pacífico, na América do Norte, com o significado de festa cerimonial (festim, banquete) em que se procede a uma exaustiva distribuição de prendas. O governo do Canadá chegou a ilegalizá-lo, entre 1884 e 1951, por considerá-lo contrário aos «valores civilizados» da acumulação de bens, mas o potlatch nunca perdeu a sua vitalidade. Como lembra Debord no seu prefácio à reedição de Potlatch na editora Gérard Lebovici (1985), o boletim era enviado gratuitamente a quem desejasse recebê-lo e nunca foi vendido.
4. Em 2006 foi publicada pela Fenda Edições uma colectânea do Potlatch em português, no entanto a autora não teve atempadamente conhecimento desta edição, sendo as traduções contidas no presente texto da sua responsabilidade.





1. «Potlatch tem o público mais inteligente do mundo?» [5]
Um dos pormenores que por vezes escapam na análise da actividade das Internacionais Letrista e Situacionista é que durante dois anos estes movimentos coexistiram. Quando o último número de Potlatch foi editado (15 de Julho de 1959) a revista Internationale situationniste já existia desde Junho do ano anterior. A ligação entre as duas publicações foi muito forte, desde logo na partilha de temas e ideias, tendo sido frequente que os autores colaborassem em ambos estes títulos. O boletim Potlatch, bem mais singelo, era dactilografado e copiografado em simples folhas de papel de 21x31 cm, de início distribuídas todas as terças-feiras e, depois, mensalmente. A Internationale situationniste, com periodicidade geralmente anual, era claramente uma revista, ostentando aliás, uma notória sofisticação visual, tendo ficado célebres as suas capas de variados tons metalizados.
5. Título final do nº 8 de Potlatch, 10 de Agosto de 1954, op. cit., p. 61

O pequeno tamanho do boletim Potlatch (duas páginas, em média), facilitava o seu envio para diferentes locais do mundo, tendo sido identificadas algumas das pessoas que o recebiam (André Breton, Jean Cocteau, René Magritte) [6]. Na abertura do n.º 1, a redacção declara: «Potlatch é a publicação mais comprometida do mundo: nós trabalhamos para o estabelecimento consciente e colectivo de uma nova civilização.» [7] Precursor da chamada «edição selvagem», esteve, de facto, na origem de temas a que depois os situacionistas deram continuidade nas suas publicações. Da consulta dos trinta números editados ressalta a forma como são frequentemente abordados assuntos relacionados com o urbanismo e a arquitectura, expondo três conceitos fundamentais: a Psicogeografia, a Deriva e o Urbanismo Unitário. [8] Desses números, dezanove abordam directamente estes temas, sendo as ideias desenvolvidas por diversos autores, em particular por Guy Debord, Michèle Bernstein, Asger Jorn e Mohamed Dahou. Para apresentar as suas concepções o grupo recorreu não só aos artigos que publicava no boletim, mas também a exposições, «instalações» e até a filmes. Curiosamente, à medida que os anos passam e percorrendo os doze números da revista Internationale situationniste, que acabou por suceder ao Potlatch e cuja última edição é de Setembro de 1969 (apenas um ano depois do mais importante acontecimento político reconhecido pelos seus membros, Maio de 68), estes temas vão desaparecendo, dando lugar a um maior envolvimento político e social do grupo, ou do que dele sobrou.
6. «Ligne de Communication: Potlatch, Bulletin d’Information de l’Internationale Lettriste». In Guy Debord, Un Art de la guerre, Paris, Gallimard, 2013, p. 71.
7. Potlatch, nº 1, 22 de Junho de 1954, ibidem, p. 11.
8. Estes conceitos foram definidos pela primeira vez, de forma detalhada, no nº 1 da revista Internationale situationniste, Junho de 1958, p. 13, quando o boletim Potlatch continuava ainda a ser publicado.






2. A deriva, uma «caligrafia pedestre» [9]

«A fórmula para o derrube do mundo não a fomos procurar nos livros, demos com ela vagueando. Era uma deriva de longos longos dias, em que nada se parecia com aquilo que a véspera mostrara; e que nunca cessava».
Guy Debord [10]


A deriva, uma das ocupações preferidas dos membros da Internacional Letrista, consistia, segundo as suas próprias palavras, num modo de deslocação na cidade sem objectivo, baseando-se apenas na influência do ambiente envolvente [11]. Reconheciam-se, assim, os efeitos de natureza psicogeográfica dos ambientes urbanos, mas opondo-se esta prática aos conceitos de passeio ou viagem [12]. Tratava-se, efectivamente, de uma espécie de jogo, um jogo levado a cabo em meio urbano e que poderia ser praticado tanto a pé, como de táxi. Esse modo muito particular de contacto com a cidade tinha antecedentes, sobretudo nos surrealistas, mas também, em parte, na flânerie de que fala Walter Benjamin. Michael Löwy lembra-o com grande clareza: «A deriva, inventada pelos surrealistas […] e sistematizada pelos situacionistas, é uma maneira de percorrer as ruas de uma cidade sem qualquer objectivo particular. De forma lúdica e irreverenciosa, rompe com os princípios mais sacrossantos da modernidade capitalista, com as leis implacáveis do utilitarismo e com as regras omnipresentes do que Max Weber chamava a Zweckrationalität, a racionalidade-com-vista-a-um-fim.» Acrescentando Löwy: «Sem objectivo e sem razão, sem Zweck e sem rationalität, é esta, em suma, a significação profunda da deriva, que tem o dom misterioso de nos devolver, de repente, o sentido da liberdade. A experiência da liberdade no decurso de uma deriva suscita uma espécie de ebriedade, uma exaltação, um verdadeiro “estado de graça”. Revela uma face escondida da realidade – e da nossa própria realidade. As ruas, os objectos, os transeuntes, subitamente sem a tampa de chumbo do razoável, surgem a outra luz, tornam-se estranhos, inquietantes – Unheimlich, diria Freud – e, às vezes, pândegos. Podem causar-nos angústia, mas também jubilação.» [13]
9. Thierry Paquot, «Dérives nocturnes», in Les Situationnistes en Ville. Infolio, 2015, p. 101.
10. Guy Debord, Movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo, Fenda, Lisboa, 1995, p. 49.
11. Potlatch, nº 14, 30 de Novembro de 1954, ibidem, p. 91.
12. Guy Debord, «Théorie de la derive», publicado pela primeira vez na revista Les Lèvres nues, nº 9, Antuérpia, Novembro de 1956. Esta revista trimestral, de um humor terrífico (1954-1958, doze números), criada por Marcel Mariën, escritor e artista surrealista, com Paul Nougé, Jane Graverol, Louis Scutenaire e outros surrealistas belgas, foi uma das mais importantes publicações revolucionárias do seu tempo e nela colaboraram alguns letristas.
13. Michael Löwy, «Éloge de la dérive», Médiapart, 16-11-2017.

Caminhar sem destino (à deriva), deixando-se apenas guiar pelo desejo de descobrir os recantos «surreais» da cidade de Paris, os bares, os cafés cheios de vida, os habitantes mais pobres e rebeldes, num jogo inebriante com o tempo que passava sem compromissos e em que a falta de dinheiro favorecia a aventura empurrando os «jogadores» para zonas cada vez mais marginais. Segundo Michèle Bernstein, a deriva de táxi permitia uma extrema liberdade na escolha de trajectos, facilitando a modificação automática de cenários por não prender o viajante a determinado percurso, pois o táxi poderia ser apanhado ao acaso e abandonado num sítio qualquer, numa deslocação que se desejava sempre imprevista [14].
14. Potlatch, nº 9, 10 e 11, 17 a 31 de Agosto de 1954, ibidem, p. 65.





3. A arquitectura deve ser emocionante

«L´obligation de l´ordre. Le tracé régulateur est une assurance contre l’arbitraire. Il procure la satisfaction de l´esprit.»
Le Corbusier, Vers une Architecture, 1923

«La poésie est dans la forme des villes. Nos allons donc en construire de bouleversantes.
La beauté nouvelle sera DE SITUATION, c’est-à-dire provisoire et vécue.»
Potlatch, nº 5, 1954

Depois dos planos de renovação da cidade de Paris ditados por Georges Haussmann na segunda metade do século XIX, consubstanciando uma das mais eficazes formas de controlo urbano, de higienização e expulsão das classes mais pobres do centro, os anos 50 trouxeram novamente um desejo de modernização acompanhado pela necessidade de alojar populações deslocalizadas do campo, uma arquitectura que se desejava útil e funcional. Aos poucos foi-se assim criando uma obsessão pelo ordenamento do território, imposição esta que se vem acentuando nos dias de hoje, não deixando de conter, muito pelo contrário, um forte carácter ideológico, neste caso até com laivos de ditadura, algo que os letristas e os situacionistas compreenderam muito bem logo nos anos 50. Tratando-se de um grupo profundamente urbano, centrado em Paris, fica claro que a mudança em questão teria de partir de uma crítica total ao urbanismo emergente, à forma de viver a arquitectura e a própria cidade. Importa destacar que a época das derivas parisienses dos letristas é precisamente o momento em que se assiste, não só ao início da expulsão de muitos habitantes do interior da cidade, mas também à demolição de áreas antigas. Em apenas vinte anos, entre 1954 e 1974, 24 % da área construída de Paris desapareceu, dando lugar a outro tipo de edifícios, ao mesmo tempo que 550.000 pessoas eram transferidas para as periferias [15].
15. David Pinder, «Old Paris is No More»: geographies of spectacle and anti-spectacle, Antipode, 2000, p. 366.

É igualmente nesta época que é construído o primeiro «péripherique» (1956), via circular urbana que irá facilitar, não só essa transferência, mas também o impulsionamento do novo bem de consumo que doravante passará a dominar as cidades – o automóvel.  Analisando os textos de Potlatch podemos ter uma ideia do que era uma cidade em mutação, a Paris que no rescaldo do pós-guerra se queria moderna, rejeitando por isso as vielas, os bairros populares, os mercados, enfim, tudo o que lembrasse a pobreza e a miséria de outros tempos. Interrogamo-nos como seria estar contra esse desejo de «modernização» e quão difícil seria não alinhar com políticas de higienização, ordenamento e renovação dos espaços urbanos depois de tudo o que a Europa tinha passado. Se hoje vemos que é difícil enfrentar esta tendência hegemónica de tudo ordenar sem direito a contestação, como deveria ser estranha uma tal postura em meados dos anos 50. Talvez esta seja uma das principais razões para a publicação do presente artigo, mostrar que este sentimento de despertença terá tido a sua origem exactamente ali, quando, pela primeira vez, um grupo de amigos encara frontalmente a sociedade do espectáculo em plena aplicação no tipo de urbanismo que se ia instalando nas cidades. Este urbanismo crescia, e cresce, a par e passo com as tropas bem alinhadas do capitalismo que desta forma vai conquistando todo o território, usando para isso um arsenal que talvez até hoje ninguém como Debord tenha identificado e desmascarado tão bem.

As construções que se implantavam cada vez mais nos arredores de Paris, aqueles edifícios de grandes dimensões tão elogiados pelos arquitectos e urbanistas de meados dos anos 50, eram apelidados de «barracas» pelos letristas. Denunciam os letristas que apesar de a utilização do cimento armado se prestar a formas flexíveis, as habitações que surgiam eram desinteressantes, criticando assim frontalmente os arquitectos: «[…] nas suas obras desenvolve-se um estilo que define os padrões de pensamento e a civilização ocidental […]. É o estilo “caserna” e a casa de 1950 é uma “caixa”.»  O fascínio do discurso precursor contido nas páginas de Potlatch é precisamente por ser um testemunho directo do que estava a acontecer nas cidades, mas também por ser certamente a última vez que um movimento de vanguarda artística acreditou que, para transformar o mundo, será não só necessário revolucionar o nosso quotidiano, mas também o ambiente que nos rodeia, reconhecendo o efeito que ele exerce no comportamento humano. A casa, para os letristas, deveria ser emocionante [16], referindo-se dois casos [17] com origens completamente diferentes mas que, no entanto, partilhavam esse ideal de «superação da arquitectura», uma liberdade total à escala do sonho e do homem.
16. Potlatch, nº 3, 6 de Julho de 1954, ibidem, pp. 25 e 26.
17. Idem, ibidem, pp. 32 e 33.

Um destes casos é o «Palácio Ideal», um edifício erguido dia e noite por Ferdinand Cheval, um simples carteiro de Hauterives, comuna francesa da região de Auvergne, homem obstinado e apaixonado que conseguiu levar a cabo uma fantástica construção, executada sem plano nem modelo, sendo apenas o resultado da sua imaginação [18]. Um texto de Potlatch de Julho de 1954 aborda a obra com eloquência: «Este Palácio barroco que desvia as formas de diversos monumentos exóticos, e de uma vegetação de pedra, serve apenas para nos perdermos. Em breve, a sua influência será imensa» [19]. Outros projectos elogiados pelos letristas no mesmo texto são os «delirantes palácios factícios» de Luís II da Baviera, enaltecendo-se, por exemplo, a integração na própria construção de um rio subterrâneo, que era, ao mesmo tempo, um teatro, assim como a inclusão de estátuas de gesso nos jardins. 
18. Os surrealistas (designadamente André Breton, a partir de 1931), foram os primeiros a interessar-se e a defender a obra de Ferdinand Cheval.
19. Potlatch, nº 4, 13 de Julho de 1954, ibidem, pp. 32 e 33.

Num outro texto de 1955 [20] surgem vários exemplos do que defendiam os letristas para a cidade de Paris, um conjunto de propostas destinadas ao seu embelezamento, considerando que, entre outras coisas, em vez de se pensar apenas nas questões construtivas, seria urgente pensar nas clareiras urbanas. Lançam neste artigo algumas ideias concretas, como, por exemplo, que se passeasse sobre os telhados de Paris, que os portões das praças ajardinadas não fossem fechados à noite, que os candeeiros das ruas fossem munidos de interruptores à disposição do público…
20. «Projet d’embellissements rationnels de la ville de Paris», Potlatch, nº 23, 1955, ibidem, p. 203.

Outras ideias igualmente subversoras são lançadas pelo grupo, como quando Guy Debord propõe a demolição de todos os edifícios religiosos, independentemente das suas confissões, permitindo assim que esses espaços fossem depois utilizados de outro modo, ou quando Gil J Wolman defende que se conservem as igrejas, mas tratando-as como edifícios comuns, esvaziando-as de todos os conceitos religiosos e deixando as crianças brincar dentro delas. Michèle Bernstein, com a sua habitual ironia, propõe que sejam destruídas apenas parcialmente de modo que as ruínas não deixem adivinhar qual o seu uso inicial, concluindo, no entanto, que o ideal seria mesmo demolir completamente as igrejas e, no seu lugar, reconstruir ruínas.
Sobre as estações de comboios, pelo contrário, todos concordavam que deveriam ser conservadas tal como estavam, considerando que «[a] sua fealdade comovente faz aumentar muito a atmosfera de passagem que constitui a delicada atracção destes edifícios» [21]. Wolman, no entanto, reclamava que deveriam ser suprimidas todas as indicações de chegadas e partidas, para se fomentar a deriva nesses locais. Todos concordavam, sem reservas, que era necessário acentuar o ambiente sonoro das estações de comboios através da difusão de sons de outras gares e também de certos portos. Neste mesmo texto foi igualmente proposta a supressão dos cemitérios, a destruição total dos cadáveres e desse género de memórias, a abolição dos museus e a distribuição de obras-primas da arte pelos bares. Defendia-se, ainda, o livre acesso de toda a gente às prisões, abolindo o sistema carcerário, e a destruição dos monumentos cuja feiura não permitia extrair deles nenhum proveito, devendo, por isso, dar lugar a outras construções. O mesmo se propunha para as estátuas que já não possuíssem qualquer significado.
21. Idem, ibidem, p. 205

Um dos principais alvos da crítica dos membros da Internacional Letrista foi o arquitecto, urbanista e artista Le Corbusier (1887-1965), depreciativamente apelidado Corbusier Sing-Sing [22], um homem que desde essa altura tem sido sempre idolatrado, mas que os letristas, completamente contra a corrente, consideravam repugnante, destacando o carácter policial da sua acção e o facto de ele ser, segundo sustentavam, o símbolo de uma sociedade que continuava a viver sob a influência da repressão. Curiosamente, em 2015, por ocasião do cinquentenário da morte de Le Corbusier e da retrospectiva que foi dedicada à sua obra em França, vieram a público as especiais simpatias do famoso arquitecto pelo regime fascista de Vichy [23], não sendo possível dissociar a sua obra de uma certa visão totalitarista da sociedade. Os projectos mais criticados pelos letristas foram as célebres Unidades de Habitação, entre as quais a de Marselha que ficou conhecida com o nome paradoxal de «Cidade Radiosa», um conjunto de imensos blocos de habitação em altura, que os letristas comparavam a guetos, morgues ou prisões. Criticavam, igualmente, a moral cristã que transparecia dessa nova arquitectura: «É preciso ser muito tolo para ver nisto uma arquitectura moderna. Isto não passa de um regresso em força do velho mundo cristão mal enterrado.» [24]
22. Sing-Sing é uma prisão de alta segurança, construída em 1826 no estado de Nova Iorque e ainda existente.
23. Ver artigo. Ver livros de François Chaslin, Un Corbusier (Seuil, 2015) e de Xavier de Jarcy, Le Corbusier, un fascisme français (Albin Michel, 2015)..
24. Potlatch, nº 5, Julho de 1954, ibidem, p. 39.

Outra das críticas de Potlatch ao urbanismo dos anos 50 centrava-se na forma como os projectos, ao imporem um ordenamento das envolventes com o desenho de grandes espaços ajardinados e abertos, colocavam em causa a rua, algo que, como veremos, é essencial à prática da deriva tão amada pelos letristas. Como Debord dirá mais tarde, «[o] esforço de todos os poderes estabelecidos, desde as experiências da Revolução Francesa, para aumentar os meios de manter a ordem na rua, culmina finalmente na supressão da rua» [25]
25. Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Antígona, Lisboa, 2012, p. 108.

Os membros da Internacional Letrista foram ainda dos primeiros a ver (em tempo real) como este novo urbanismo promovia uma vida enclausurada e resignada em ilhas fechadas e vigiadas, o contrário daquilo que acreditavam ser o mais importante: a capacidade de insurreição, o jogo e os encontros como forma de contrariar a imposição da nova ordem urbana. Citando o livro do místico contra-revolucionário oitocentista Pierre-Simon Ballanche, La Ville des Expiations, «cujas descrições prefiguram as “cidades radiosas”», os letristas lembravam: «A Cidade das Expiações deve ser uma imagem viva da lei monótona […] é preciso que nela tudo advirta que nada é estável e que a vida do homem é uma viagem numa terra de exílio.» [26]
26. Potlatch, nº 5, 20 de Julho de 1954, ibidem, p. 39.

No nº 15 do Potlatch, de 22 de Dezembro de 1954, num curto, mas muito interessante texto intitulado «Uma arquitectura da vida», Asger Jorn [27], artista dinamarquês membro da I.L., afirma: «[…] Os funcionalistas ignoram a função psicológica dos ambientes […]. Os racionalistas funcionalistas, devido às suas ideias de estandardização, imaginaram que se poderia chegar às formas definitivas, ideais, dos diversos objectos que interessam ao homem. A evolução dos nossos dias mostra que esta concepção estática é errónea. Devemos alcançar uma concepção dinâmica das formas, olhar de frente esta verdade: toda a forma humana se encontra em estado de transformação contínua. Não devemos, como os racionalistas, evitar essa transformação.» Concluindo: «A arquitectura é sempre a derradeira realização de uma determinada evolução mental e artística; é a materialização de um estádio económico. A arquitectura é a última parte da realização de qualquer tentativa artística, porque criar uma arquitectura significa construir um ambiente e fixar um modo de vida.» [28]
27. Asger Jorn, grande amigo pessoal de Debord, foi um dos mais relevantes membros da Internacional Letrista e, depois, da I.S. Artista dinamarquês de grande talento, Jorn partilhou as posições mais críticas formuladas contra a sociedade de então, tendo sido um pioneiro na abordagem do tema da psicogeografia e da recusa da arquitectura funcionalista. Curiosamente Jorn trabalhou com Le Corbusier quando era muito novo, num projecto de decoração, nutrindo para com ele sentimentos contraditórios de admiração e de rejeição, quer pela sua postura ideológica quer pelos projectos que considerava desumanos e mercantilistas. Cf. Jérôme Duwa, Asger Jorn et Le Corbusier – L’art en architecture
28. Potlatch, nº 15, 22 de Dezembro de 1954, ibidem, p. 95 e 96.

A ideia de que o urbanismo deveria proporcionar aventuras, um urbanismo concebido como técnica de criação de ambientes propícios ao jogo livre e apaixonante dos encontros inesperados, levou a que se equacionasse a questão de duas formas: o urbanismo existente que deveria ser vivido (as unidades de ambiência preferenciais existentes na cidade) e o que poderia um dia ser criado de novo – o Urbanismo Unitário –, que, na definição da revista Internationale situationniste (nº 1, 1958, (contemporânea do Potlatch), era considerado como a «teoria da utilização global de artes e técnicas que concorrem para a construção integral dum meio ambiente em ligação dinâmica com experiências de comportamento». [29]
29. Internacional Situacionista – Antologia, ibidem, p. 27.

Por sua vez, a psicogeografia proponha o estudo das leis exactas e dos efeitos precisos do meio ambiente geográfico, conscientemente organizado ou não, que age directamente sobre o comportamento afectivo dos indivíduos» [30]. Ou seja, considerava-se que as cidades continham distintas «atmosferas psíquicas», áreas que seriam atraentes e outras que causariam repulsa, sendo para tal necessário percorrer esses espaços avaliando as razões de tais efeitos. A partir desta análise poderiam até produzir-se mapas psicogeográficos dos locais frequentados, de modo a servir de guias a futuras derivas.
30. Apesar de não se encontrar no Potlatch uma definição do termo psicogeografia, optou-se por incluir aqui a explicação de Debord numa outra publicação da mesma época: «Introduction à une critique de la géographie urbaine», Les Lèvres nues, nº 6, Setembro de 1955.

No âmbito do que os letristas (e depois os situacionistas) consideravam mais interessante na região de Paris do ponto de vista psicogeográfico, encontravam-se, entre outros locais, a cidade contígua (industrial e operária) de Aubervilliers, localizada a norte da metrópole, e várias localizações mais ou menos centrais de Paris: Bairro Chinês, Bairro Judeu, Les Halles (nome do principal mercado abastecedor de Paris e respectivo bairro), Square des Missions Étrangères, Rue Sauvage. Podemos desde logo observar que o ambiente urbano que liga entre si estes espaços é o facto de serem áreas antigas e populares, fora dos circuitos das elites de então, chegando os letristas a afirmar que certas zonas, tais como os bairros 6º e 15º, os Champs-Elysées, L’Opéra ou Montmartre, entre outras, deveriam ser evitadas. [31]
31. Potlatch, nº 24, 1955, ibidem, p. 208.





4. Vão destruir a Rua Selvagem!

O primeiro alerta de que estavam a acontecer alterações profundas na cidade surge no Potlatch de Agosto de 1954, num artigo que aborda a iminente destruição da Rua Selvagem, considerada um dos mais belos locais «espontaneamente psicogeográfico» de Paris, aquele que apresentava uma das melhores perspectivas nocturnas da capital, implantado entre a via-férrea da Gare de Austerlitz e um bairro da margem do Sena onde havia terrenos baldios. Nesse local iriam ser construídos edifícios «debilitantes como os que são alinhados nos subúrbios para alojar pessoas tristes» [32], esclarecendo os autores que não eram adeptos das ruínas – «Mas as casernas civis erguidas em seu lugar têm uma fealdade gratuita que reclama a vontade de as dinamitar.» [33] De facto, se hoje visitarmos a zona em questão, podemos constatar, apesar de terem passado mais de sessenta anos, continua a ser levado a cabo o mesmo processo já então criticado pela Internacional Letrista, a implantação de um urbanismo agressivo e hostil que tem vindo a transformar o território numa área descaracterizada, de prédios gigantescos, vazia de pessoas durante o dia mas onde à noite abundam festas a bordo de embarcações tradicionais de transporte (as péniches), transformadas em bares. Foi aqui também, como não podia deixar de ser, que se ergueu um grande e moderno «equipamento cultural», a Cité de la Mode et du Design, destinado a dourar e a disfarçar o que é na verdade um processo de pura especulação imobiliária. Entretanto, a lindíssima Gare de Austerlitz e as edificações anexas, depois de um abandono prolongado, são agora sujeitas a uma dura operação cosmética destinada a integrar os centenários edifícios nos actuais conceitos de «modernidade», vendendo a ideia que a área sairá valorizada por mais um megaprojecto imobiliário de 20.000 m2, o projecto «Austerlitz Gare». Quanto aos sinais da mais visível miséria ali existente, as centenas de tendas de refugiados que por ali abundam, as autoridades tratarão rapidamente de os apagar, não vá essa visão afectar os preços dos apartamentos de luxo destinados a outro tipo de inquilinos. O que realmente fica na memória de quem por ali passa atento aos sinais é a propaganda que por todo o lado apregoa as virtudes de empreendimentos que dizem vir trazer vida a uma zona que, efectivamente, já há muito morreu.
32. Potlatch, nº 7, 3 de Agosto de 1954, ibidem, p. 55.
33. Idem, ibidem.





5. Aubervilliers: um vasto bairro popular

A já referida Aubervilliers é outra zona exaltada pelos letristas pelo seu ambiente popular, pela sua ligação ao rio (Canal Saint-Denis), pelos bares frequentados por marginais e emigrantes, entre os quais a célebre Taverne des Révoltés, onde se reuniam os anti-franquistas. Ainda hoje, o que é notório nesta cidade, onde vivem muitos emigrantes, é o seu índice de pobreza, que continua a ser um dos maiores da região. Não por acaso, foi precisamente nesta cidade, no dia 7 de Dezembro de 1952, no âmbito de uma conferência [34] realizada por um grupo de companheiros das derivas, que nasceu a Internacional Letrista. Hoje, a pobreza de Aubervilliers não será impedimento para a integração desta zona num dos mais cobiçados negócios imobiliários que Paris jamais conheceu, o megalómano projecto intitulado «Le Grand Paris». Trata-se de um plano, nas palavras da empresa que o gere, destinado a «pensar a cidade do amanhã, sustentável, inventiva e solidária», fazendo da Ilha de França uma metrópole atractiva para o século XXI… Os números são de facto impressionantes: nos territórios abrangidos pelas novas linhas de metro está prevista a construção de 70.000 fogos por ano até 2030…Com tais planos no horizonte, podemos ter a certeza de que o fim de Aubervilliers como cidade popular, pobre, mas viva, está a aproximar-se. Curiosamente foi dado há pouco tempo o nome de Guy Debord a uma pequena alameda situada nesta zona à beira-rio, concluindo-se, uma vez mais, que o grande sistema autofágico tudo integra.





6. Square des Missions Étrangères: uma praça parisiense

Outro dos locais exaltados pelo seu ambiente urbano foi o Square des Missions Étrangères, a praça que Michèle Bernstein, em 1955, viu como «um bom local para receber amigos que viessem de longe, para ser tomada de assalto à noite e para diversos outros fins psicogegráficos» [35]. Trata-se de um espaço onde o tipo de vegetação e os muros altos que o rodeiam, que mais não são que as traseiras cegas dos edifícios de habitação, lhe conferem, ainda hoje, um ambiente estranho, recatado e agradável. Será porventura este um dos poucos locais referidos no Potlatch que ainda conserva qualquer coisa da atmosfera urbana elogiada pelo grupo da deriva letrista. 
35. Potlacht, nº 16, 26 de Janeiro de 1955, ibidem, p. 110.




7. Les Halles, Bolhão e Mercado da Ribeira: à conquista de espaço para «consumidores exigentes»

Segundo os letristas, o mercado de Les Halles era também um lugar a frequentar. Este enorme espaço, que, na altura, ainda se mantinha activo como principal mercado abastecedor de Paris (foi definitivamente demolido em 1973), situava-se no bairro a que deu o nome, em pleno centro de Paris, e era um dos locais mais simbólicos da cidade. Desde a sua longínqua origem medieval, este mercado foi sempre uma zona muito concorrida e popular, o coração da cidade, ou o seu ventre, como lhe chamou Émile Zola num dos seus mais célebres romances, local que o próprio Napoleão I desejou transformar no «Louvre do Povo» [36]. No mercado de Les Halles aglomeravam-se vendedores e compradores oriundos de todas as partes, tendo esta comunidade conseguido resistir até aos planos de Haussman, que se viu obrigado a mantê-lo em actividade, não deixando, no entanto, de o transformar, através de um novo projecto em vidro e ferro inaugurado em 1854. Com o passar do tempo e a afirmação da economia capitalista do pós-guerra, este mercado começou aos poucos a ser considerado «um problema para a cidade», tanto pelos incómodos causados pelo excesso de tráfego, como, certamente, pelo tipo de população que o frequentava, acabando mesmo por fechar em 1969, na sequência de uma decisão datada de 6 de Janeiro de 1959, sendo a sua importante actividade transferida para outra localização em Paris (Parque de La Villette) e para a cidade limítrofe de Chevilly-Larue (Parque de Rungis), onde entretanto já teria de rivalizar com as primeiras grandes superfícies comerciais. Entre 1975 e 1989, apesar de vários protestos da população, Les Halles e o seu bairro foram objecto de enormes transformações. Não tardou que ali surgissem dois novos e enormes edifícios, o Forum des Halles, um grande centro comercial inaugurado em 1979, e, como não podia deixar de ser, um pós-moderno centro de arte, o Centre Pompidou, inaugurado em 1977, associando-se, uma vez mais, a arte e a cultura aos projectos imobiliários como a melhor fórmula de «calar protestos». O Forum des Halles foi recentemente alvo de um renovado projecto de arquitectura e urbanismo, destinado a «adaptá-lo aos novos tempos e aos novos negócios». De notar que estes novos equipamentos surgem também recheados de boas intenções culturais, como a inclusão de uma Mediateca, uma Casa de Práticas Artísticas Amadoras, etc., embrulhando assim em elevados desígnios a sua verdadeira estratégia: ser a mais moderna e gigantesca catedral de consumo desta metrópole.  Os argumentos utilizados pelo poder para justificar a substituição de qualquer mercado ou zona antiga numa cidade são sempre os mesmos. 

Em Portugal, nos últimos anos, também temos vindo a assistir ao saque dos mercados tradicionais e à sua privatização, descaracterização e transformação em «espaços comerciais gourmets» como é o caso do Mercado da Ribeira em Lisboa, baseando-se quase sempre os promotores na necessidade de renovação por questões higiénicas; o papão da ASAE serve bem estes propósitos. As áreas são sempre consideradas degradadas e desactualizadas perante as «novas necessidades de uma população exigente». Este processo transporta consigo quase sempre a exclusão de actividades e grupos sociais que aí se mantinham há muitos anos, remetendo-os para longe do olhar dos novos inquilinos – os muito prestáveis e jovens empreendedores e seus clientes. Foi assim no mercado de Les Halles e será assim no Bolhão, como já antes foi em tantos mercados por esse país fora, surgindo deste modo uma nova realidade cenográfica, «a geografia do espectáculo». É bom aqui lembrar as palavras de Debord: «Urbanismo é esta tomada de posse do meio ambiente natural e humano pelo capitalismo, que, ao desenvolver-se logicamente como dominação absoluta, pode e deve agora refazer a totalidade do espaço como seu próprio cenário.» [37]
37. A Sociedade do Espectáculo, op. cit., p. 108.

A intervenção da Internacional Letrista sobre a destruição das zonas mais antigas das cidades não se limitou à França. Em 1955, três dos seus membros mais envolvidos na crítica do novo urbanismo enviaram o seguinte protesto à redacção do Times contra a demolição do Bairro Chinês de Londres:
«Senhor, o “Times” acabou de anunciar o projecto de demolição do Bairro Chinês de Londres./Nós protestamos contra tais ideias moralistas no planeamento da cidade, ideias que, obviamente, vão tornar Inglaterra ainda mais aborrecida do que tem sido nos últimos anos [...]. Consideramos que o chamado planeamento moderno da cidade recomendado por si é tolo, idealista e reaccionário. O único fim da arquitectura é servir as paixões do homem […]. Finalmente, se a modernização lhe parece ser, tal como a nós, historicamente necessária, aconselhamo-lo a dirigir o seu entusiasmo para áreas mais necessitadas dele, isto é, para as suas instituições políticas e morais.
Atenciosamente Michèle Bernestein, G.-E Debord, Gil J Wolman». [38]
38. Potlatch, nº 23, 13 Outubro de 1955, ibidem, pp. 196 e 197.



O Urbanismo Unitário não é uma doutrina do urbanismo, é uma crítica do urbanismo [39]

«É inútil (…) procurar nas nossas teorias sobre a arquitectura ou a deriva outros motivos que não sejam a paixão do jogo.»
Debord, Potlatch, nº 20, 1955

A cidade antiga representa uma possibilidade de fuga ao presente totalitário a melhor forma de nos perdermos num imenso labirinto exaltado pelos letristas e situacionistas como a forma ideal de um urbanismo oposto a todas as formas de controlo, uma cidade favorável ao jogo e ao acaso. Esta sim era a tão desejada cidade revolucionária e libertária, um território cujo carácter ficava exposto sem subterfúgios em cada uma das suas vielas sujas, em cada parede arruinada, em cada café exaltante de gente à margem e onde tudo podia acontecer. A irresistível atracção pela aventura e pelo risco, associados a um enorme desejo de liberdade, afastava-se por inteiro dos objectivos utilitaristas dos políticos, urbanistas e arquitectos de então (e de agora), sempre desejosos de criar espaços onde as marcas da história social não se façam notar: «Neste exacto lugar nunca acontecerá nada e nunca nada aqui aconteceu. É evidentemente porque a história que é preciso libertar nas cidades ainda ali não foi libertada que as forças da ausência histórica começam a compor a sua própria paisagem exclusiva.» [40]
39. Internacional Situacionista – Antologia, op. cit., p. 52.
40. A Sociedade do Espectáculo, op. cit., p. 111.

No entanto, apesar da admiração pela cidade histórica manifestada pelos letristas, a edição do boletim termina, paradoxalmente, com a apresentação de dois importantes textos onde é exposta a necessidade de se criar um urbanismo totalmente novo. O primeiro artigo, não assinado, intitula-se «Primeiras maquetas para um novo urbanismo», fazendo referência a uma exposição das obras de Constant Nieuwenhuys [41] no Museu Stedelijk de Amesterdão e às suas trinta «construções espaciais» destinadas a explicar o que se entendia por Urbanismo Unitário. Constant foi, de facto, o único situacionista que ousou desenvolver uma ideia de cidade completamente revolucionária – a Nova Babilónia [42] – utilizando maquetas e desenhos exemplificativos. Essas maquetas representavam, segundo o autor do texto em questão, «objectos-projectos», uma valorização que se queria mais complexa do que simples «objectos-mercadorias auto-suficientes e feitos unicamente para contemplar». Esses «objectos-projectos» deveriam apelar a uma acção a levar a cabo, uma acção de qualidade superior por dizer respeito à totalidade da vida. [43]
41. Constant, pintor holandês, ficou célebre pela abordagem que fez às questões do urbanismo e da arquitectura na última fase da I.L. Posteriormente fez parte da secção holandesa da I.S.A Sociedade do Espectáculo, op. cit., p. 111.
42. Cf. Maria Ramalho, «Uma outra cidade para uma outra vida – Constant», revista electrónica Punkto,
43. Potlatch, nº 30, p. 287, ibidem.

O segundo artigo do derradeiro número de Potlatch, da autoria do próprio Constant, intitula-se «O grande jogo que está para vir». Constant refere que o problema do urbanismo nessa época era que os urbanistas profissionais se preocupavam apenas com o estudo das questões do alojamento e da circulação como problemas isolados. A seu ver, a falta de soluções lúdicas na organização da vida social impedia o urbanismo de se elevar ao nível da criação, sendo disso testemunho o aspecto morno e estéril da maior parte dos bairros novos. Pelo contrário, segundo a noção de urbanismo dos situacionistas (a nova designação do grupo), identificados como agentes exploratórios e «especialistas» do jogo e do lazer, o aspecto visual das cidades não conta se não estiver em relação directa com os efeitos psicológicos que esta pode produzir. Por outro lado, defende ainda Constant, o urbanismo deveria ser encarado como uma concepção dinâmica e experimental, dando o exemplo da possibilidade de animar uma rua com construções efémeras que transformassem rapidamente o ambiente dos locais e dos bairros. Para tal era necessário criar «planos e maquetas de tipo imaginista», o que, segundo Constant, se poderia apelidar de «ficção-científica da arquitectura». Associada a esta noção, Constant anunciava, neste último número do boletim, a importância das inovações técnicas na criação de atmosferas nas cidades do futuro, dando o exemplo da televisão, do cinema, da rádio, bem como das deslocações e comunicações rápidas. Essas inovações poderiam vir a ter um importante papel cultural e lúdico, sendo, por isso, consideradas como tarefas mais urgentes no sentido da criação de um Urbanismo Unitário à escala do que a sociedade do futuro exigiria.
No entanto, pouco tempo depois da realização dessa exposição em Amesterdão e da defesa de tais ideias, Constant foi expulso da Internacional Situacionista e viu-se alvo de duras críticas (como era habitual neste grupo), nomeadamente pela sua exagerada crença no desenvolvimento técnico e no híper-modernismo, a que não será alheio, uma vez mais, o gosto especial que tiveram os letristas e depois os situacionistas pela cidade antiga, pela presença viva da história social nela acumulada. Mas a contradição entre esse gosto «romântico» e «nostálgico» por tudo o que proporciona a cidade histórica e a necessidade de uma proposta radicalmente nova não deixará de estar presente no espírito dos situacionistas, pelo menos até à primeira metade dos anos 60.
O significado da cisão com Constant é exposto por Asger Jorn num texto de 1960 (não publicado na altura): […] Contant, que nunca compreendeu a ambivalência de cada revolução, que é, ao mesmo tempo, o salto para um estádio superior e uma queda para um estádio anterior; este último aspecto da revolução leva o verdadeiro revolucionário a nunca inscrever a revolução na óptica evolucionista e unilateral». [44]
44. «Sur l’antisituation d’Amsterdam», manuscrito de Asger Jorn, 1960. Arquivos do Museu Jorn-Silkeborg.


Notas da autora
A autora agradece o trabalho cuidadoso e amigo de Júlio Henriques na revisão deste texto. O mesmo texto será brevemente editado na Revista «Flauta de Luz», coordenação de Júlio Henriques, distribuição da Editora Antígona.

Imagens
1. Folheto da Internacional Letrista. Fundo da Biblioteca Nacional de França.
2 a. Número 1 de Potlatch.
2 b. Uma das capas da revista Internationale situationniste.
3 a. Café Moineau em Paris. Michèle Bernstein ao centro com camisa branca. Foto de Ed van der Elsken, 1956, Nederlands Fotomuseum Rotterdam.
3 b. Fotomontagem de Anne Lefebvre (cortesia da autora).
4 a. Ilustração inserida no nº 9 da revista Internationale situationniste (1964).
4 b. Palácio Ideal de Ferdinand Cheval.
5 a. Antigos edifícios da Gare de Austerlitz em processo de transformação e acampamento de refugiado. Maria Ramalho 2017.
5 b. Placa de propaganda ao projecto urbanístico -  interpretação da historia local. Maria Ramalho 2017
 6 a. Guy Debord com a antiga moagem de Pantin- Aubervilliers em segundo plano. Esta fábrica foi construída no século XIX e garantiu a distribuição de farinha à cidade de Paris até ao seu encerramento em 2001.
6 b. A mesma fábrica convertida em apartamentos e escritórios.
7 a. Square des Missions Étrangères. Maria Ramalho 2017.
7 b.  Square des Missions Étrangères. Maria Ramalho 2017.
8 a. Forum des Halles. Maria Ramalho 2017.
8 b. Número da revista «Charlie Hebdo» de 1971.
9. Poster de uma exposição de Constant em Estocolmo sobre o projecto «Nova Babilónia».

Maria Ramalho
Formada em História pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa, Mestre em Arqueologia Medieval pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Como investigadora dedica-se sobretudo à Arqueologia da Arquitectura praticando, no entanto, uma deriva pessoal e apaixonada pelos legados do movimento Letrista e Situacionista, particularmente este último com interessantes ligações a Portugal. É autora do artigo «Realizar a Poesia
Guy Debord e a Revolução de Abril», publicado no Jornal Punkto (edição online).

Ficha Técnica
Data de publicação: 06.04.2018