Há
uma narrativa em curso segundo a qual a Europa deve acordar perante a ameaça
que Donald Trump representa. Mas será que Trump assinala efectivamente uma
diferença? Não se limita este a fazer o que todos os outros presidentes
americanos fizeram ao longo da história? Nada de novo sob o sol: é o mesmo
imperialismo de sempre, a mesma estratégia militar de intervenção e despossessão
colonial, com a cumplicidade estratégica da União Europeia, que a única coisa
que não suporta é que algo seja feito sem recorrer ao manto diáfano retórico
dos seus eternos e universais «valores ocidentais».
No
entanto, neste aspecto, Trump parece assinalar uma diferença, pelo menos face a
um passado recente. De facto, não houve cantigas de embalar sobre a necessidade
de expandir a «tarefa civilizadora» da democracia americana. E Trump, ao
contrário de outras campanhas anteriores, disse logo ao que ia: tomar as
imensas reservas de petróleo que a Venezuela detém, colocando-as a render para
as petrolíferas americanas. O fim do cinismo americano dos «valores» parece, de
facto, estar de acordo com as características específicas da personalidade de
Trump. Mas talvez devêssemos ver nesse facto uma mudança estrutural.
O decisivo
da intervenção na Venezuela não está no facto de esta ter sido realizada à
margem do Direito internacional, mas no facto de ter operado um corte decisivo no
eixo estratégico dos «valores ocidentais» que unia os Estados Unidos da América e
a União Europeia. Aquilo que a postura de Trump relativamente à Ucrânia já
tinha demonstrado, é agora reafirmado de forma clara. A fase imperialista que
os Estados Unidos inauguram no dia três de Janeiro de dois mil e vinte seis estabelece
um corte decisivo com a Europa. É justamente isso que a Europa ainda não
conseguiu compreender, celebrando de forma tão pueril a queda de Maduro sem reconhecer
que aquilo que está em jogo é o espectro da sua própria dissolução futura. Não
é só a doutrina Monroe e o estabelecimento de uma política de áreas de
influência em que a América Latina (e não só) volta a ser o quintal dos Estados
Unidos da América: é o corte ideológico, militar e estratégico, de cooperação aliada
com a União Europeia, a partir da função englobalizadora e globalizante dos «valores
ocidentais».
Neste
sentido, pode-se dizer que o ataque à Venezuela
e o rapto de Nicolás Maduro não são uma acção de «política externa», mas de «política
interna». É, aliás, de narcotráfico que Maduro é acusado. É desse ponto de
vista que devemos ver a intervenção americana na Venezuela (que, na verdade,
não depôs, pelo menos para já, o governo, nem produziu um golpe de Estado, nem
uma mudança de regime): como um gesto de pura política interna. É óbvio que todas
as intervenções militares americanas foram sempre, de uma maneira ou de outra, operações
de política interna, não apenas do ponto de vista da gestão eleitoral do
público americano, mas da afirmação dos interesses próprios da economia
americana. Mas há aqui uma afirmação absoluta da política externa como pura política
interna, nos métodos e objectivos, que inaugura qualquer coisa de paradigmático.
E é
justamente porque estamos no âmbito da política interna, de uma política
interna que submeteu totalmente a política externa e alargou as suas fronteiras
terrestres e geográficas de influência — da Venezuela à Gronelândia —, que o dispositivo
mundializador retórico euro-atlântico dos valores do Ocidente, caiu e se tornou
obsoleto. Ao estabelecer a forma agressiva de um novo «lebensraum» («espaço
vital») que entra em conflito com as fronteiras políticas não apenas da América
Latina mas da Europa, nomeadamente da Gronelândia (elencada uma e outra vez como
objectivo territorial de primeira linha de Trump), aquilo que é preciso é,
antes de mais, desmantelar o discurso retórico e universal que produziu não
apenas o Direito internacional, mas a unidade dos valores ocidentais que deu
forma ao mundo do século XX. Já várias vezes se decretou o fim do século XX,
ora, o dia três de Janeiro de dois mil e vinte seis, pode perfeitamente entrar
para o conjunto das efemérides que assinalam, justamente, a chegada do futuro.
Para
a política de Trump a Venezuela é um fim em si mesmo, mas é também uma espécie
de ensaio geral. A ironia desse futuro por vir será, porventura, esta: a Europa
que sempre pôs e dispôs do Direito internacional a seu bel-prazer, a Europa que
celebra, ainda hoje, o ataque americano à Venezuela, independentemente de todas
as questões legais — como fazia questão de escrever o primeiro-ministro grego —
pode bem encontrar-se, muito brevemente, na posição de vítima, diante da realidade
de um conceito político (o Direito internacional) que, ela própria, se
encarregou de destruir e esvaziar de todo e qualquer sentido.
•
Pedro Levi Bismarck
Editor da revista Punkto,
investigador, crítico e ensaísta, publicou o livro O Mito de Israel. O
Ocidente, a Política, a Morte (Documenta, 2025).
Imagem
Louis Dalrymple, Doutrina Monroe,
1905.
Ficha técnica
Venezuela, ensaio geral • Pedro Levi Bismarck
Data de publicação • 05.01.2026
Edição #45 • Inverno — Primavera 2025


