Venezuela: ensaio geral • Pedro Levi Bismarck




Há uma narrativa em curso segundo a qual a Europa deve acordar perante a ameaça que Donald Trump representa. Mas será que Trump assinala efectivamente uma diferença? Não se limita este a fazer o que todos os outros presidentes americanos fizeram ao longo da história? Nada de novo sob o sol: é o mesmo imperialismo de sempre, a mesma estratégia militar de intervenção e despossessão colonial, com a cumplicidade estratégica da União Europeia, que a única coisa que não suporta é que algo seja feito sem recorrer ao manto diáfano retórico dos seus eternos e universais «valores ocidentais».

No entanto, neste aspecto, Trump parece assinalar uma diferença, pelo menos face a um passado recente. De facto, não houve cantigas de embalar sobre a necessidade de expandir a «tarefa civilizadora» da democracia americana. E Trump, ao contrário de outras campanhas anteriores, disse logo ao que ia: tomar as imensas reservas de petróleo que a Venezuela detém, colocando-as a render para as petrolíferas americanas. O fim do cinismo americano dos «valores» parece, de facto, estar de acordo com as características específicas da personalidade de Trump. Mas talvez devêssemos ver nesse facto uma mudança estrutural.

O decisivo da intervenção na Venezuela não está no facto de esta ter sido realizada à margem do Direito internacional, mas no facto de ter operado um corte decisivo no eixo estratégico dos «valores ocidentais» que unia os Estados Unidos da América e a União Europeia. Aquilo que a postura de Trump relativamente à Ucrânia já tinha demonstrado, é agora reafirmado de forma clara. A fase imperialista que os Estados Unidos inauguram no dia três de Janeiro de dois mil e vinte seis estabelece um corte decisivo com a Europa. É justamente isso que a Europa ainda não conseguiu compreender, celebrando de forma tão pueril a queda de Maduro sem reconhecer que aquilo que está em jogo é o espectro da sua própria dissolução futura. Não é só a doutrina Monroe e o estabelecimento de uma política de áreas de influência em que a América Latina (e não só) volta a ser o quintal dos Estados Unidos da América: é o corte ideológico, militar e estratégico, de cooperação aliada com a União Europeia, a partir da função englobalizadora e globalizante dos «valores ocidentais».

Neste sentido, pode-se dizer que  o ataque à Venezuela e o rapto de Nicolás Maduro não são uma acção de «política externa», mas de «política interna». É, aliás, de narcotráfico que Maduro é acusado. É desse ponto de vista que devemos ver a intervenção americana na Venezuela (que, na verdade, não depôs, pelo menos para já, o governo, nem produziu um golpe de Estado, nem uma mudança de regime): como um gesto de pura política interna. É óbvio que todas as intervenções militares americanas foram sempre, de uma maneira ou de outra, operações de política interna, não apenas do ponto de vista da gestão eleitoral do público americano, mas da afirmação dos interesses próprios da economia americana. Mas há aqui uma afirmação absoluta da política externa como pura política interna, nos métodos e objectivos, que inaugura qualquer coisa de paradigmático.

E é justamente porque estamos no âmbito da política interna, de uma política interna que submeteu totalmente a política externa e alargou as suas fronteiras terrestres e geográficas de influência — da Venezuela à Gronelândia —, que o dispositivo mundializador retórico euro-atlântico dos valores do Ocidente, caiu e se tornou obsoleto. Ao estabelecer a forma agressiva de um novo «lebensraum» («espaço vital») que entra em conflito com as fronteiras políticas não apenas da América Latina mas da Europa, nomeadamente da Gronelândia (elencada uma e outra vez como objectivo territorial de primeira linha de Trump), aquilo que é preciso é, antes de mais, desmantelar o discurso retórico e universal que produziu não apenas o Direito internacional, mas a unidade dos valores ocidentais que deu forma ao mundo do século XX. Já várias vezes se decretou o fim do século XX, ora, o dia três de Janeiro de dois mil e vinte seis, pode perfeitamente entrar para o conjunto das efemérides que assinalam, justamente, a chegada do futuro.

Para a política de Trump a Venezuela é um fim em si mesmo, mas é também uma espécie de ensaio geral. A ironia desse futuro por vir será, porventura, esta: a Europa que sempre pôs e dispôs do Direito internacional a seu bel-prazer, a Europa que celebra, ainda hoje, o ataque americano à Venezuela, independentemente de todas as questões legais — como fazia questão de escrever o primeiro-ministro grego — pode bem encontrar-se, muito brevemente, na posição de vítima, diante da realidade de um conceito político (o Direito internacional) que, ela própria, se encarregou de destruir e esvaziar de todo e qualquer sentido.

 

 

Pedro Levi Bismarck

Editor da revista Punkto, investigador, crítico e ensaísta, publicou o livro O Mito de Israel. O Ocidente, a Política, a Morte (Documenta, 2025).

 

Imagem

Louis Dalrymple, Doutrina Monroe, 1905.

 

Ficha técnica

Venezuela, ensaio geral • Pedro Levi Bismarck

Data de publicação • 05.01.2026

 Edição #45 • Inverno — Primavera 2025