[Black Archive #03] Dilúvios: criação (.) destruição




BLACK ARCHIVE
Quintas-Feiras Negras | Arquitectura e destruição
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Sessão #03 | Dilúvios
Álvaro Domingues
Miguel Leal
LIVRARIA LEITURA-CEUTA| 20.10.2011
"No ano seiscentos da vida de Noé, no mês segundo, aos dezassete dias do mês, naquele mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas dos céus se abriram. E houve chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites" [Génesis 7]
A sessão 3 do ciclo 'Quintas-Feiras Negras', vai molhar os pés nas águas frias e tumultuosas dos dilúvios, com a presença do Professor Álvaro Domingues [FAUP] e do artista Miguel Leal [FBAUP].
Criação ou destruição? Vida ou morte? Há sempre uma serpente original e terrível que é preciso matar para que a civilização possa avançar, ou antes, para que possa sempre recomeçar. Será, como diz Hölderlin, que "onde está o perigo cresce também aquilo que salva"?

arquivo vídeos
imagens
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Turner, The Morning after the Deluge



[Black Archive#03] L'Après-Midi, Bombardement \ Miguel Leal



Miguel Leal
L'après-midi, bombardement:
uma breve história sobre a (re)mediação da paisagem
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Miguel Leal  (Porto, 1967)
Artista plástico. Vive e trabalha no Porto. Membro fundador da VIROSE, uma estrutura interdisciplinar dedicada aos media e ao estudo das relações entre arte tecnologia. É professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), onde orienta trabalho de atelier e lecciona cadeiras de arte e cultura contemporâneas. http://ml.virose.pt

[Black Archive#03] Ctrl-Alt-Dilúvio \ Álvaro Domingues


Álvaro Domingues
 Ctrl-Alt-Dilúvio
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Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

[Black Archive#03] Dilúvios \ Pedro Bismarck




Pedro Levi Bismarck
Dilúvios
Perigo e Salvação
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A construção é aquilo a que os homens se dedicam desde que foram expulsos do Paraíso Eterno. Construímos não porque somos mortais, mas porque sabemos que somos mortais, e sobretudo, como diz Pedro Azara, edificamos para aprender a morrer. Caim mata Abel, isto é, ganha consciência da sua condição humana, conhece a morte e, por isso, parte, erra pelo deserto fundando essas “máquinas da urbe”. Só quem tem consciência da morte, só quem “viu” a morte, e por isso mesmo, “viu” a vida pode, de facto, construir. Como Caim, Rómulo ou Cadmo, e como esse herói da epopeia babilónica de Gilgamesh, Utnapishtim, o único sobrevivente do dilúvio, e cujo nome significa, literalmente, “aquele que viu a vida”.
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i
Gostaria de começar por lançar algumas coordenadas para situar o tema da sessão de hoje: dilúvios. Mas também partilhar algumas notas acerca deste ciclo de conversas, imagens e discussões, que temos vindo a apresentar sobre ‘arquitectura’ e ‘destruição’. Isto é, sobre a relação in-tempestiva que se opera entre esse acto de construir e de destruir. Não apenas no circuito daquilo que é puramente tectónico, mas de todo e qualquer acto criativo, e de toda a constelação quotidiana da nossa vida.
Foi isso que, num primeiro momento, procuramos fazer com este número dois da Revista Punkto, que contou com um artigo introdutório (em forma de editorial) de Walter Benjamin, escrito em 1931, “O carácter destrutivo”, e com artigos de José Bártolo (filósofo, professor na ESAD): “Destruição: Uma obra em processo”; Álvaro Domingues (Geógrafo, professor na FAUP): “Destruição: registos do trauma da perda do Portugal Rural”; Tiago Lopes Dias (Arquitecto, actualmente a fazer doutoramento em Barcelona): “Vell Poble Nou”; David Knight e Cristina Monteiro (Arquitectos e professores em Londres): “Plotting”. A estas contribuições juntamos quatro entradas, a que chamamos atlas: atlas um – “Matta-Clark: destruição como memória”; atlas dois – “DGEMN (1929-60): destruição como restauro”; atlas três – “Auschwitz: depois da destruição: o testemunho” e, por último, “O Grande Atlas dos Edifícios Destruídos”.
Tanto estes artigos, e estes atlas, como também este ciclo de conversas, não procuram construir exactamente aquilo que poderíamos convocar como uma listagem ou um inventário de abordagens possíveis ao tema da destruição, mas antes, procuram, seguindo o conteúdo em causa, e citando Giorgio Agamben, fazer uma destruição da destruição: ou melhor, das aparências que tendem a encobrir o que esta palavra nomeia: um território tão aberto quanto inexplorável, que não se reduz à simples oposição: construção/destruição nem ao simples pré-juízo: construção – positivo; destruição – negativo.
Se estamos aqui é, sobretudo, porque há ainda algo mais a dizer sobre essa relação que, simultaneamente, separa e une ‘arquitectura’ e ‘destruição’. Mas não se trata de uma questão de estilo, nem de uma apologia da destruição (apesar dos tempos actuais talvez pedirem respostas radicais), nem uma apologia de certo tipo de práticas artísticas ou arquitectónicas, mas apenas o reconhecimento que estas palavras não nomeiam territórios exactamente opostos, mas fazem parte de um mesmo processo, de uma mesma dobra: onde o construir é sempre um destruir e onde o destruir é já um construir.
ii.
Assim, compreender a sismografia dessa relação in-tempestiva é o objectivo desta série de quintas-feiras negras, que são também a possibilidade de identificar que este processo de construção/destruição, não é um problema que diz respeito apenas à prática disciplinar artística ou arquitectónica, nem é um problema específico da contemporaneidade (destruição do ecossistema, ou das cidades, ou dos centros históricos), mas atravessa universalmente a nossa história, ou melhor, faz a história, faz a história da humanidade, das civilizações que nasceram e morreram, floresceram e se extinguiram. Mas faz também aquilo que está para além dela, a pré-história e a pós-história, ou dito de um outro modo: o início e o fim.
Isto é, começamos e terminamos sempre com uma espécie de evento destrutivo primordial que paradoxalmente assinala a criação, seja o dilúvio (em termos míticos) ou o big bang (em termos mais científicos). A humanidade e o universo parecem iniciar-se sempre a partir de uma destruição primordial e sempre em direcção a uma outra hipotética destruição, uma destruição destinada e inevitável. Na origem (- o dilúvio) e no fim (- o juízo final) está sempre qualquer coisa como um evento destrutivo, mas que nunca indica o, ou um fim, mas apenas um recomeço, um outro recomeço.
Quer seja com Adão, ou com Noé, ou na vinda do Messias, trata-se sempre da necessidade de um re-começar, que implica sempre um destruir para poder re-construir. E um re-começar para poder ser melhor do que aquilo que se foi. Vivemos entre ciclos de destruição e criação, entre vida e morte, e essa é a nossa natureza, somos qualquer coisa como seres-entre-dilúvios, mas onde há sempre uma “arca” algures no futuro ou no passado, pronta a (res)guardar aqueles que irão ser salvos.
iii.
Essa constelação inusitada que conjuga criação, destruição e salvação está presente, não apenas, no tema mítico do dilúvio (que atravessa todas as culturas desde a Suméria à Babilónia (por exemplo Gilgamesh – o dilúvio primordial), da Grécia (o mito do dilúvio de Deucalião) à China (a lenda de Fu Xi, o primeiro povoador a seguir ao grande dilúvio), mas também no horizonte mitológico que acompanha a fundação das cidades da Antiguidade. Como escreve Pedro Azara, num livro chamado “Castelos no Ar”, os fundadores de cidades eram quase sempre criminosos, como Caim (segundo a Bíblia o primeiro construtor, que matou o seu irmão Abel), como Rómulo (fundador de Roma, que matou Remo) ou o mítico Dédalo (desterrado em Creta, por ter morto o seu sobrinho). Mas também, Cadmo, o herói grego, que teve que matar o dragão ancestral para alcançar a fonte à volta da qual iria fundar Tebas (a primeira de todas as cidades gregas). É como se no início houvesse sempre uma serpente que é preciso matar, não por ser um símbolo de um qualquer mal, mas por representar as forças indomáveis e selvagens da natureza que é preciso aniquilar, para então dar início à civilização. Só aquele que confronta e derrota essa ordem anterior poderá saber construir, poderá saber re-começar, poderá traçar um novo território ordenado e justo, como escreve Pedro Azara.
Mas sobretudo, não se trata tanto de ver Rómulo ou Caim, ou a figura do arquitecto-fundador, como um simples criminoso que mata, mas como aquele homem que, pela primeira vez, se confronta com a morte, isto é, tem consciência da morte. E matar aqui (em termos míticos) é, sobretudo, isso: o reconhecimento dessa mortalidade própria do homem e da humanidade. A passagem do Paraíso e da Idade de Ouro, para a Idade dos Homens. Como escreve Félix de Azúa:
«Na ordem cósmica, só o primeiro assassino podia inventar um remédio contra a morte, a qual é um assunto única e exclusivamente humano já que é tão somente a consciência da morte. Os animais, os vegetais e os minerais não morrem, como não morre nada exterior à cidade, desagregam-se, desintegram-se, desfazem-se em partes orgânicas e inorgânicas…Só nós os humanos morremos e fazemo-lo desde que ganhamos a consciência de estar condenados a morrer. Morrer é ter consciência de morrer, nada mais. E Caim, a primeira consciência da morte, protegeu o seu descobrimento com as grandes máquinas da urbe. Frente à natureza eterna, infatigável, inextinguível, edificou-se a partir de então a cidade da morte e da consciência. O lugar dos mortais. O nosso lugar.»
Assim, a construção é aquilo a que os homens se dedicam desde que foram expulsos do Paraíso Eterno. Construímos não porque somos mortais, mas porque sabemos que somos mortais, e sobretudo, como diz Pedro Azara, edificamos para aprender a morrer. Caim mata Abel, isto é, ganha consciência da sua condição humana, conhece a morte e, por isso, parte, erra pelo deserto fundando essas “máquinas da urbe”. Só quem tem consciência da morte, só quem “viu” a morte, e por isso mesmo, “viu” a vida pode, de facto, construir. Como Caim, Rómulo ou Cadmo, e como esse herói da epopeia babilónica de Gilgamesh, Utnapishtim, o único sobrevivente do dilúvio, e cujo nome significa, literalmente, “aquele que viu a vida”.
iv
Ora, talvez seja à luz desta inusitada constelação, que possamos ler o sentido enigmático das palavras de Hölderlin (poeta alemão), segundo o qual “onde existe perigo, cresce também aquilo que salva”. Isto é, só aquele que se aproxima do perigo poderá chegar a ser salvo. E aquele que procura recomeçar tem necessariamente de se colocar em perigo. Mas talvez seja útil lembrar que perigo (em latim periculum) e experiência (em latim ex-periri) têm uma origem etimológica comum: o grego peria (que significa tentativa, mas também, limite). E, nesse sentido, se ex-peri-ência implica sempre qualquer coisa como atravessar um limite, um ir através de…, perigo é, precisamente, esse gesto de tocar e cruzar um limite (péras). Não pode haver experiência sem perigo, não há salvação, isto é, recomeço e construção senão houver perigo.
É portanto, neste limiar onde perigo, experiência e salvação se encontram que podemos compreender toda esta mitologia criminal que junta construtores e arquitectos, e talvez compreender, que esta disciplina a que chamamos arquitectura, não só comporta um certo perigo, como ela é propriamente perigo, isto é, experiência e limite, atravessamento e risco. Para construir é preciso estar em perigo, aventurar-se, ir até ao limite, tocar um limite e, depois, atravessá-lo. E só quem tiver a capacidade de arriscar, literalmente, de correr para o perigo, estará de facto, apto a riscar. Todo o risco, todo o gesto de riscar, comporta o seu próprio risco.
Por isso, aquele que funda cidades, aquele que constrói, é aquele que se aventura até esse limite extremo da vida, para salvar a própria vida. É aquele que se pôs em perigo e regressou (salvou-se), que destruiu para poder criar, porque sem destruição, isto é, sem matar a serpente e sem ter consciência da morte, não é possível construir. E tal como na epopeia babilónica, só aquele que “chegou a ver a vida”, como Utnapishtim, poderá, de facto, fazer qualquer coisa como construir, como criar. E, sobretudo, só assim poderá re-começar.
v.
Assim, não só podemos compreender a frase de Picasso, no qual “qualquer acto de criação é, antes de mais, um acto de destruição”, mas também o seu contrário, “qualquer acto de destruição é também um acto de criação”. Como dizia, Alexandre Alves Costa, numa das suas aulas de história, a construção da Abadia de Cluny marca um momento essencial da história da arquitectura, mas a sua destruição, durante a revolução francesa, também, e talvez um outro, muito mais importante.
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Texto de apresentação do ciclo “Quintas-Feiras Negras: Arquitectura e Destruição”, 20 de Outubro de 2011, Livraria Leitura-Ceuta, Porto.
Imagem: Gustave Courbet, Auto-retrato, “O homem desesperado”, 1844-45
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Pedro Levi Bismarck (Porto, 1983)
Arquitecto pela FAUP. Estudou e trabalhou em Berlim. Bolseiro da FCT, está actualmente a desenvolver a sua tese de doutoramento na FAUP. Editor da Revista Punkto. Vive no Porto.


Unneeded Conversations 2012



UNNEEDED CONVERSATIONS 2012 – LOW COST
International Seminar on the practice and theory of art
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FBAUP, Porto, 16-19 May
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+ Informações e inscrições em www.unneeded.i2ads.org
Ficha de inscrição 
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Este ano decidimos olhar a realidade de frente e organizar as unneeded conversations sob o signo do low cost . Ao mesmo tempo, o seminário abriu-se ao cruzamento com áreas como o design e a arquitectura.
A noção de low cost — e as formas de precariedade que dela dependem — não só não é um exclusivo das formas financeiras da economia como abre todo um novo e insuspeitado campo produtivo de pensamento e acção. Pense-se apenas na prática artística e na descoberta de novas formas de acção que integram a precariedade como modalidade poderosa para continuarem a produzir sentido; pense-se nas formas da mediação que resistem à obsessão pela novidade tecnológica ou ao mito da transparência comunicacional; pense-se na reapropriação do degradado espaço público das cidades e na sua livre transformação; pense-se na erupção da edição de autor e na construção de formas alternativas de publicação; pense-se, em suma, como o carácter precário de algumas destas realidades é justamente aquilo que lhes confere um estatuto produtivo e uma resistência ao mainstream do low cost.
Os quatro tópicos de discussão das UNC 2012 são assim os seguintes:
16 de maio / UNGOVERNABLE: The Precarious Politics of Art
17 de maio / UNTAKEN: Public Space, Back to Normality
18 de maio / UNEDITED: Pocket Publication: the Economy of Publishing
19 de maio / UNFUELED: The Potentiality of Media and its Shadows
Participantes confirmados:
Marcelo Campos (BR), Xosé Lois Gutiérrez (SP), Bruno Dias (PT), Xavier Monteys Roig (SP), Miguel Silva Graça (PT), Francisco Ferreira (PT), John Körmeling (NL), Pedro Cid Proença (PT/UK), Miguel Wandschneider (PT), Joana & Mariana (PT), Phil Baber (NL), Andreas Broeckmann (D), Arantza Lauzirika (SP), Daniel Ribeiro (BR), Von Calhau (PT), e ainda os colectivos Pangrama (PT), Punkto (PT) e Embankment (PT).
As sessões principais do seminário terão lugar de 16 a 19 de Maio, à tarde na Aula Magna da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e à noite no Cinema Passos Manuel.
Durante as manhãs dos dias 17, 18 e 19, funcionará no Museu da FBAUP um espaço híbrido de discussão, orientado, respectivamente, pelos colectivos PANGRAMA, PUNKTO e EMBANKMENT.
O programa paralelo incluirá a realização de Workshops nas áreas do cinema, da fotografia, da edição independente e da ilustração/Banda Desenhada, uma feira de publicação independente e outras actividades.
Organização:
Instituto de Investigação em Arte Design e Sociedade (i2ADS) / Núcleo de Arte e Intermedia (NAi)
Coordenação e edição:
Miguel Leal e Fernando José Pereira (FBAUP/i2ADS)
Editores convidados:
UNEDITED – Mário Moura (FBAUP/i2ADS) e Sofia Gonçalves (FBAUL)
UNTAKEN – Pedro Bandeira (UM)
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Mais informações em www.unneeded.i2ads.org

Destruction: Rural Portugal's Loss \ Álvaro Domingues




Álvaro Domingues
Destruction
Records on the trauma of Rural Portugal's loss

It is said that an act of destruction is an act that makes something to disappear. If one doesn’t ask anything else about the circumstance and reasons of that disappearing, there will be few clearing up. It can even be pure illusion, or are not the illusionists themselves the real specialists on disappearance.
In a martial view, destruction is the enemy’s annihilation..., but there are other meanings much more positive where destruction is a necessary condition for rebirth and creation. So has thought the good God when He warned Noah that He would destruct mankind with a flood that restarted everything, like the Sun in each dawn, and the creation reconciled with the creator, once for all. It came to nothing, judging by what happened meanwhile and by the results of multiple floods and catastrophes that occurred. 
The fragments of image/text that are presented belong to “Vida no Campo” [Life in the Countryside] (Domingues, 2011, Dafne, Porto), an essay about the destruction or, in a more psychological record, about the loss of Rural Portugal. Vida no Campo is, therefore, a metaphor about the loss of that Rural Portugal and an antidote against this bad living about depopulation, abandonment, or, in an another record, the deep metamorphosis that is ploughing throughout the (ex)-farmers country, the loss of their ancestral practices, ways of living, territory and landscapes. Ruins, in many cases.
It is not a minor matter. Like Language or History, landscape is a powerful identity mark, a common house. Yet, there are no eternal landscapes. Landscapes are a record of the changing society and if the change is so big, so deep and accelerated, there will be a record of it and few time and plenty of space to understand and digest every marks and the way, either relics either disposals, mutually run-over.
At the same time, if we change the landscape, the stable referents that the landscapes images produce fall into a mess, in a speeding up of differences where, frequently, it is more recognizable what is lost than what it is gained and the way that this gain is evaluated, because it seems weird or exotic, non-belonging, non vernacular like the Romans said about the slaves that where home born by counterpoint to those who were recruited somewhere.
This is why it’s so common to talk about the destruction in course, the de-characterization, the loss of supposed authenticities that after so much mystification seem to have belonged to a primordial time, with no history or any other referent except this pluperfect past where life in the countryside was the image of Paradise and of the wise good People, poor but honest, that lived in its simplicity, joy and communion with Nature and praying to the gods.
The marks and memories of that Rural Portugal are decomposing with the de-ruralization and its track of collateral effects: depopulation, ageing, abandonment of fields and agricultural production, disappearing of certain lifestyles, knowledges and cultural practices – the interior, in the more frequent words about these matters. The few that stay live from an assisted economy between pensions, subsidies, savings, family's helps and those who can, leave because employment is rare, and the bucolic mirage and the lost paradise image is much more from  those who are out (of that interior) and think that the rural and nature are places for vacation and tourism.
In a different record from this one – when abandonment of agriculture doesn't mean the abandonment of people –, rurality transforms itself from inside or it's absorbed by what it is usually named urbanization. This post-rurality is so strange that there is no way we can adjectify the landscapes it builds. Transgenic landscapes, new territories that like GMO's (genetically modified organisms) combine and reproduce distinct genetic references and remix them in an unusual way. Those who usually look don't understand, and because they don't see in there the beautiful cities or the good and pretty villages, become sad and call it ugly. Let us leave the aesthetics for later on; people say that one cannot love what they don't know and, in this case, what's most unknown is the most present thing. A paradox.
Vida no Campo is about all of this: myths of the last rural country in Europe that persists in inscribing in the collective imaginary (and at the same time), the bucolic images and the disposals of that lost world, variating between calamity and fires, resorts for all tastes with lots of grass and green space, rural tourism, desertification or, on the contrary, houses and roads everywhere like in the NW of Portugal. If 97% of the economy is not rural, the country, the society and the territory, are urban (by default and as while as we cannot leave this dichotomy). It seems baffling, but to write an essay it is quite enough.


1
‘Was’ is the past of the indicative of the verb to be. ‘Had been’ is the pluperfect past, of a primordial time where the rural had been a time out of time. It was in fact a stone house with inscriptions on the door lintel which probably had met other times of prosperity and abundance. Meanwhile, since long ago there's a vineyard where before there was the first floor pavement or the oak wooden ceilings; an interior vineyard like the garden of a convent cloister.
Today it is just one more real estate product commercialized by an international business network: local products in global commerce, like it is common in almost everything. In this case, what would be for some the disgrace of a ruin, for others is the charm of the ruin itself. The theme is not from the present.  Since the aesthetics of the antiquity, disposals were produced and fed in European Renaissance, until the Romanticism (that amplified its senses and poetics), and the ruin kept its museum patina and aura of sacralised things. It’s difficult not to feel a certain nostalgia, the same that is able to feed the interest and raise of cost of this and other ruins. Greater than the loss, is the conscience of the loss that truly matters.


2
The Voo do Arado [Flight of the Plough] is the name of a 1996 exhibition at the Museu Nacional de Etnologia [National Museum of Ethnology] and also an indispensable book to understand the fading out of traditional agriculture in Portugal from the 1950's decade. (1)
Transmuted to a condition of flying object or decorative adornment of padiment of the entry of the house, the plough jumps from reality and from the museum to the ready-made world and the symbolic programs of architecture and domestic space. With the , plough an object that constitutes a strong symbol of the civilization process itself, everything that comes from arts and crafts of agriculture – wheels, cars, millstones, jars, pipes, barrels, granaries, etc – converts into an object whose symbolic record unfolds simultaneously into relic, exorcism, identity, memory,...


3
How it is beautiful my village
It is so beautiful my village, the place where I was born
Under the light of a candle, I remember the land where I lived in
It is so beautiful the dawn, the sun falls on the farms
There you couldn't live, today you cry that loss
In the Holy Mary time, when the bells are ringing
It has arrived the end of the day, our people will pray
At that time of joy, soon we prepare the meal
At the Holy Mary time...how it is beautiful my village
Oh olive trees garden, guard your beautiful wheat fields
You're the true hope, you're my parents land
It is so beautiful the dawn, the sun falls on the farms
There you couldn't live, today you cry that loss
In the Holy Mary time, when the bells are ringing
It has arrived the end of the day, our people will pray
At that time of joy, soon we prepare the meal
At the Holy Mary time...how it is beautiful my village (2)


4
This thing of an art of the field and of a field of art has plenty to be said: without understanding the field of art we don't understand art, or the field, or anything else (3). Bourdieu says that the field of art is like any other social field, a private arena where each one plays the game rules to stand a position face to face to the players that legitimise the authority from who are the artists, the arts and the properties of  those symbolic goods. Marcel Duchamp knew about the iconoclast weight of his Fountain, refused by the Independent Salon, 1917, New York; to increase its (counter)power at the Salon, he plotted with a wealthy friend of his to offer a good amount of money by the Fountaine of Richard Mutt (the company that produced the urinal). It was just the beginning of a long story about art and its narrative power, for those who see and for those who give to be seen. ‘Is it possible to do works that aren't art?’ questioned Marcel of the fields [Marcel Duchamp] while installing this readymade train of troughs to some meanwhile mad cows.


5
“It is urgent to help the villages – tomorrow it will be late, tomorrow we'll have railroads, the disordered invasion of new ideas, the new uses and habits; tomorrow there will be fashion (…), obliteration of pure kinds, ruin of homemade industries, pottery, textiles, embroideries and canvas, kept with some much care”. (4)
It is urgent to help the villages is an expression that could be from our present days, in the set of many nostalgics that don't see in the villages the old typical villages that they still think that exist. Some locals – those who live in villages but are not any more real villagers in the real sense of the word –, build these miniature replicas of their own churches and chapels. It is not to override the loss feeling of the real chapel; it is to recharge and celebrate the existence of the chapel itself; to highlight its feeling of identity and self-esteem; to detach from the reality that which is beyond that reality. It's like this, sacred things.


6
From my village I see how much from the land that can be seen from the Universe...
So my village is as big as any other,
Because I have the size of what I see
And not my height...

In the cities life is smaller
Than here in my hillside house.
In the city the big houses close down their view,
Hide the horizon, push our look far away of all heaven,
Make us small because they take us what our eyes can give,
And make us poor because our only wealth is to see. (5)
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1 – J. Pais Brito; Oliveira Baptista; Benjamim Enes Pereira org. (1996), O Voo do Arado, Museu Nacional de Etnologia, Instituto Português de Museus, Lisboa
2 – Roberto Leal, Canto a Portugal, 2003.
3 – José Olaio Correia Carvalho, O Campo da Arte segundo Marcel Duchamp, Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1999. Pierre Bourdieu, La production de la croyance. Contribution à une économie des biens symboliques, Actes de la recherche en sciences sociales, n° 13, 1977, p. 3-43. Pierre Bourdieu, Les règles de l’art : genèse et structure du champ littéraire, Ed. du Seuil, Paris, 1992. J-François Lyotard, Les Transformateurs Duchamp, Ed. Galilée, Paris, 1977. http://www.centrepompidou.fr/education/ressources/ensduchamp/ens-duchamp.htm
4 – Joaquim de Vasconcelos, 1882, cit. Em J. Leal, Metamorfoses da arte popular: Joaquim de Vasconcelos, Vergílio Gomes e Ernesto de Sousa, Etnográfica, Vol. VI (2), 2002, pp.251-280, p.261.
5 - Alberto Caeiro, s/d, O Guardador de Rebanhos. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993), 32.
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Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) is a geographer and Professor at Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP).
Photos taken by the author
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