DepA | Proposta Largo da Lapa


depA [departamento Arquitectura]
Proposta para o Concurso de Ideias para o Espaço Público do Largo da Lapa

A Câmara Municipal do Porto lançou, a 13 de Novembro (data da publicação em DR), aquilo a que chamou: Concurso de Ideias para o Espaço Público do Largo da Lapa. Dos termos de referência do dito concurso (um doc. com 51 páginas) somos obrigados a salientar alguns pontos, até porque esses mesmos termos já não se encontram acessíveis no balcão virtual da CM do Porto. Provavelmente, um acto de vergonha… tardio!
ARTIGO 1.º – OBJECTO E MODALIDADE DO CONCURSO 1. O presente procedimento tem por objeto a seleção de 5 (cinco) Trabalhos de Conceção de intervenção no espaço público do largo da lapa.
ARTIGO 8.º – CONCORRENTE 1. Qualquer cidadão poderá apresentar propostas de conceção no âmbito do presente concurso.
ARTIGO 10.º – DOCUMENTOS QUE MATERIALIZAM OS TRABALHOS DE CONCEÇÃO A- DOSSIER DE APRESENTAÇÃO: Os concorrentes devem apresentar, em dossier de formato A4, com as peças escritas, gráficas e desenhadas indispensáveis à comunicação e interpretação, por parte do Júri, da solução proposta (…)
ARTIGO 16.º – CRITÉRIO E FATORES DE SELEÇÃO 1. A seleção dos Trabalhos de Conceção é realizada de acordo com o seguinte critério de seleção: 1.1 Qualidade e adequabilidade da resposta ao programa de intervenção solicitado. 2. O fator de avaliação previsto no número anterior compreende ainda os seguintes fatores: a. Adequabilidade ao Programa solicitado…………………….…… 35% b. Originalidade e Inovação da solução proposta………….….. 35% c. Capacidade de indução de valorização da envolvente….. 30%
ARTIGO 18.º – PRÉMIOS Não serão atribuídos quaisquer prémios no âmbito do presente concurso. 

O colectivo depA, sediado no Porto e composto por arquitectos de formação, apresentou a proposta que a seguir se reproduz:



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O colectivo depA [departamento Arquitectura] foi formado em 2009, no Porto. Explorando a complementaridade dos seus elementos, o depA é um espaço de discussão e criação arquitectónica, tanto na sua forma de projecto como nas suas variáveis interdisciplinares:


The community against the state \ Pedro Bismarck



Pedro Levi Bismarck
The Community against the State
The eviction of the Es.Col.A Project in Porto

The novelty of the coming politics is that it will no longer be a struggle for the conquest or control of the State, but a struggle between the State and the non-State (humanity), an insurmountable disjunction between whatever singularity and the State organization.
Giorgio Agamben
I believe in the unbelievable, in the magic things,
In the occupation of the world by roses
Natália Correia

There is nothing worse to the ‘state’ than to see true democracy at work. And Why? Because it recalls the ‘state’ itself that vaguely unformulated terror present in its own origin: that the self-management of the public thing and the construction of the community could be done outside its limits and sphere of action (and, therefore, outside its control). In brief: that society can be able, by itself, to substitute and make what the ‘state’, the Town Council, the politics, were incapable of doing and thinking. The police acts in defense of the ‘state’, because what is at stand is the failure of the ‘state’ as ‘state’ and the sudden exposure of the wounds of its apparently and trustful democracy.
The eviction of the Es.Col.A Project from a small abandoned school in a Porto depressed area, it’s an example of this fact. And only this open wound can explain the way Porto Town Council managed this process. From the excessive use of force, to the incapability of dialogue and to ideological prejudice, what grounds Porto Town Council’s action is the awareness that the Es.col.A movement has replaced the municipality in a task that it was not able itself to perform (or nor even attempted to), leaving a school (and its community) for five years in a pure state of abandonment.
We can lose ourselves in many technical and, mostly, legal problems around this question, but the theoretical and political fundament at stake is: for once, a community organized itself around an educational and culture program, without the necessity of the ‘state’, proposing a communitarian platform in a depressed area of the city; for once, a community organized itself to react against the city center abandonment and desertification and was able to do what the Town Council always refused; for once, democracy had wings to work and, once more, the Porto Municipality refused democracy.
Above all, the Porto Town Council is the epitome of the authoritarian ‘state’ but absolutely ineffective, that nothing has done and allows nothing to be done. And is this same Council, that in its own defense uses the public property argument, that no more than sixth months ago has sold the Miradouro da Vitória (a public space and historical landmark) and has rented all the main public infrastructures of the city (recognizing, at that time, its non-vocation to manage them). It has been the Porto Town Council who has mostly contributed to the spoliation of our physical and cultural heritage, who mostly has contributed to the mediocrity of our urban environment. And, for that, the dilapidation danger of the res publica, of what is property of the community, is not in the action of the Es.Col.A project, but on the contrary, in the whole political action of Porto Town Council.
But in order to inscribe this question in a real debate one has to situate the problem of the Es.Col.A in the sphere of politics and not reduce it to a problem of law. The tendency of the actual pragmatism that seeks to reduce everything to a problem of law is the great danger that impends over the emptying of politics. It’s the ethic that grounds the law and not the law that grounds the ethic.
Most of all, what is absolutely necessary is our capability to use all of this, once more, to think what can and what is the essence of the everyday exercise of democracy; to think how can we re-inscribe politics in the center of everyday practice and reclaim what thirty years of economical growth, consumerism and well-fare, had despoiled us, that is: our access to politics, our ability to think politics and the ‘state’ as fundamental part of our life in community.
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Image: Es.Col.A : Escola da Fontinha’s rehabilitation by members of the Es.Col.a Project.

A comunidade contra o estado | Pedro Bismarck


Pedro Levi Bismarck
A comunidade contra o estado
O Projecto Es.Col.A e o Bairro da Fontinha

Porque o facto novo da política que vem é que ela não será já a luta pela conquista ou controlo do Estado, mas luta entre o Estado e o não-Estado (a humanidade), disjunção irremediável entre as singularidades quaisquer e a organização estatal
Giorgio Agamben
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas
Natália Correia

Não há nada mais terrível para o ‘estado’ do que ver a verdadeira democracia a funcionar! E porquê? Porque recorda ao ‘estado’ esse terror vagamente informulado na sua génese, isto é, que a autogestão daquilo que é público e a construção da comunidade se possam constituir fora dos seus limites e da sua esfera de acção (e, por isso, fora do seu controlo). Em suma: que a própria sociedade possa ser capaz, por si, de o substituir e fazer aquilo que o ‘estado’, a câmara municipal, a política, foram incapazes de fazer e pensar. A polícia intervém em defesa do ‘estado’, porque o que está em causa é o falhanço do ‘estado’ enquanto ‘estado’ e a exposição súbita das feridas que fazem a sua aparente confiável democracia.
O despejo do Projecto Es.Col.A. é o exemplo disso mesmo. E só essa ferida aberta pode explicar o modo como a Câmara Municipal do Porto geriu este processo. Desde o excessivo uso da força policial, à incapacidade de diálogo e ao preconceito ideológico, o que funda a acção da Câmara é ter consciência que um movimento como o Es.Col.A, a substituiu numa tarefa que ela própria não conseguiu (ou nem sequer pretendeu) desenvolver, deixando uma escola (e a comunidade) durante mais de 5 anos ao abandono.
Podemo-nos perder em muitos problemas técnicos e, sobretudo, legais em torno desta questão, mas o fundamento teórico e político em causa é este: por uma vez, uma comunidade organizou-se em torno de um programa educacional e cultural sem necessidade do ‘estado’, propondo uma plataforma comunitária numa zona deprimida da cidade; por uma vez, uma comunidade juntou-se para contrariar o grave problema de abandono do centro da cidade e fez aquilo que a Câmara sempre se recusou a fazer; por uma vez, a democracia teve asas para trabalhar e, mais uma vez, a Câmara Municipal do Porto recusou a democracia.
Acima de tudo, esta Câmara é a epítome do ‘estado’ autoritário mas completamente ineficaz, que nada fez e nada deixa fazer. E é esta mesma Câmara, que em sua defesa usa o argumento da propriedade pública, que ainda há pouco meses vendeu em hasta pública o miradouro da Bataria da Vitória e que não fez mais que arrendar, nos últimos anos, todos os grandes equipamentos públicos da cidade (porque ela própria assumia a sua incapacidade de os gerir).Tem sido a Câmara, esta Câmara, quem mais tem contribuído para a espoliação do nosso património físico e cultural, que mais tem contribuído para a pobreza do nosso ambiente urbano. E, por isso, o perigo da delapidação da coisa pública, daquilo que afinal é pertença da comunidade, não está na acção do Projecto Es.Col.A, mas bem pelo contrário, em toda a acção política da Câmara Municipal do Porto.
Mas para que esta questão possa ser efectivamente discutida, é preciso colocar o problema da Es.Col.A na esfera da política e não reduzi-la a um simples problema de lei. A tendência do pragmatismo actual que tudo quer reduzir à lei é o grande perigo do esvaziamento da política. É a ética que funda a lei e não a lei que funda a ética.
Aquilo que é absolutamente necessário é que tudo isto nos sirva para, uma vez mais, pensar o que faz e o que é a essência do exercício quotidiano da democracia; pensar como podemos voltar a colocar a política no centro da nossa prática quotidiana e reclamar aquilo que trinta anos de crescimento económico, consumismo e bem-estar afinal nos espoliaram: isto é, o nosso acesso à política, a nossa capacidade de pensar a política e o ‘estado’ como parte fundamental da nossa vida em comunidade.



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Imagem via: Es.Col.A : Recuperação das instalações da Escola da Fontinha por membros do grupo Es.Col.A.

Building Imploded, Political Vacuum | Paulo Mendes





< building imploded [ ] political vacuum >


16.12.2011 . Bairro do Aleixo . Porto
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PAULO MENDES
Nasceu em Lisboa em 1966. Trabalha em Lisboa e no Porto. Artista plástico de formação, comissário de exposições e produtor de projectos culturais. Fundador e membro da direcção da PLANO 21 Associação Cultural.

+ info : site

Aleixo: O início do fim | Ana Lima



Ana Santos Lima
ALEIXO
O INÍCIO DO FIM

O bairro do Aleixo foi construído nos anos 70 com o objectivo de realojar temporariamente a população urbana da Ribeira-Barredo – em pleno centro histórico do Porto - aquando a sua renovação. Uma vez que este processo de reabilitação implicava uma redução significativa do número de habitações, a maior parte das famílias nunca voltou à sua origem. No seu início, o Aleixo foi aclamado e publicitado por constituir uma experiência isolada e inovadora na cidade do Porto: pela sua construção em altura, pela sua localização sobranceira ao rio e pelos equipamentos propostos de apoio às torres (apesar de alguns nunca terem sido construídos). O desenho e implantação da construção cumpriram o Plano Director de 1962 que o urbanista francês Robert Auzelle, a convite da Câmara do Porto, desenhou para a então periferia da cidade. Hoje vemos a história revisitada.
Ao longo dos anos, o bairro foi começando a ser gradualmente “demonizado”, difamado, estigmatizado e desmoralizado pelas razões que todos conhecemos – ou que a comunicação social fez questão de enumerar - ao ponto da demolição ser encarada como “a” panaceia e, consequentemente, ir adquirindo um forte apoio público. Contrária a esta ideia, propus uma possível alternativa à demolição do bairro do Aleixo, em 2007, na Prova Final de Licenciatura em Arquitectura da FAUP.
No desenvolver da minha investigação reconheci o desenho cuidado do projecto, confrontei-me com certas especificidades - como o encanto e magia do saguão interior – e observei o apreço dos moradores pelo seu espaço e as maneiras criativas como dele se apropriavam. Isto fez-me pensar o quão aberrante seria a sua demolição. Ao inquirir os moradores, todos manifestaram a sua tristeza em relação a este tema e o desgosto de algum dia terem que ser realojados. Inevitavelmente, está aqui em causa um conceito extremamente delicado que é o de “habitar” – com todo o significado, sensação de pertença e identificação que este conceito acarreta. A meu ver, uma demolição é, neste sentido, o mais violento e traumatizante acto que se pode praticar em relação a pessoas já fragilizadas por situações económicas e sociais difíceis.
Durante a pesquisa para a minha tese deparei-me com um estudo que ainda não tinha sido, na altura, divulgado em Portugal, dos arquitectos Lacaton & Vassal e Frédric Druot para o Ministério da Cultura Francês1. Eles questionavam o programa público francês de demolição em massa de grande parte dos complexos habitacionais, construídos nos anos 60 e 70, com o objectivo de transformar a imagem depreciativa que foram adquirindo ao longo dos anos. Nesse ensaio, fortemente apoiado em estudos económicos e de viabilidade, demonstram que a recuperação dos bairros e das estruturas existentes é compensatória, a todos os níveis, em relação à demolição.
Ora, a questão que coloquei na altura foi a seguinte: se nos anos 70 adoptámos, com o Aleixo - e através de um urbanista francês - um modelo de habitação social que em França já se refutava e questionava largamente (e o que temos é apenas um pequeníssimo exemplo), então porque não acompanhar seriamente as soluções que hoje em dia se debatem em França e noutros países da Europa e que estão a ser postas em prática com excelentes resultados?
A proposta para o Aleixo tem por base o estudo acima mencionado. De forma a não fragilizar a estrutura existente, propus apenas a demolição das fachadas exteriores e a construção independente, numa estrutura leve, de uma segunda fachada, distando aproximadamente 3m da existente, para onde os apartamentos iriam crescer em área útil, em conforto e em novas infra-estruturas. Pretendia que fosse uma co-construção com os próprios moradores onde a imagem final do conjunto seria o espelho e o resultado dessa riqueza e diferença de modos de vida.
Como projecto de arquitectura foi um exercício interessante. Dada a complexidade do tema, para o projecto ser implementado seria essencial a arquitectura fazer parte de uma equipa multidisciplinar, onde cada técnico pudesse contribuir para uma solução conjunta. Imaginei a metamorfose do bairro do Aleixo como um exemplo de reabilitação (tal como outrora foi um exemplo de construção), uma transformação e um trabalho profundo com o existente, que pudesse ilustrar e se fizesse acompanhar pela evolução das políticas urbanas.
Ao longo dos anos fui-me mantendo atenta às decisões para o futuro do bairro. Curiosamente, à medida que a demolição do Aleixo se ia tornando mais real, o projecto-piloto dos Lacaton & Vassal ia sendo concretizado. A Torre Bois-le-Prêtre, erguida ao longo de uma auto-estrada periférica de Paris, cuja transformação foi o palco da experiência dos fundamentos do estudo anteriormente referido está recentemente a receber prémios consecutivos, dada a inovação e inteligência da sua transformação.
Por cá traçou-se o fim do Aleixo. Assumiu-se a passagem de uma “guetização”, consequência involuntária da circunstância deste bairro social para uma “guetização” voluntária de um condomínio de luxo. Não é “só” o fim do Aleixo. É o fim da participatividade, da reutilização, da liberdade, da transparência económica, da solidariedade social, da tolerância à diferença, da atenção às pessoas e ao que existe, da coragem política. É a ode ao umbigo, à ostracização, à superficialidade, à corrupção, à prepotência, à gentrificação, à insensibilidade e habitação (anti)social, ao desrespeito e enfraquecimento do património.
Iniciou-se a demolição do Aleixo.
A dor, a tristeza e a revolta não desaparecem com a implosão das torres. Uma implosão aparentemente precisa, que se descontrola (invisível aos olhos) na catástrofe do seu significado e na perversão das suas consequências.

“Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida. (…)”    
Herberto Helder


Notas
1-DRUOT, Frédéric; LACATON, Anne; VASSAL, Jean-Philippe. PLUS. Les grands ensembles de logements. Territoires d’exception. Ministère de la Culture et de la Communication, Direction de l´Architecture et du Patrimoine, 2004
Fotografias da autora.
___________
Ana Santos Lima (Porto, 1980)
É licenciada pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, cuja Prova Final de Licenciatura, intitulada "A Metamorfose das Torres do Aleixo" lhe valeu uma menção honrosa na VI Bienal Ibero-Americana de Arquitectura e Urbanismo (BIAU). Trabalhou na Suiça e em Tóquio. Neste momento trabalha no Porto.



[ Table for 100’s ] | Luísa Alpalhão



Luísa Alpalhão
[ Table for 100’s ]


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Apresentação | debate | jantar luso-nipónico
Centro das Artes Culinárias / Mercado de Sta. Clara, Lisboa
18 Janeiro [4ªfeira] / 19h30 > 22h
€6 euros por pessoa / marcação até dia 16.01 através do email: atelier.urban.nomads@gmail.com
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‘They are merchants who belong to the race of the Barbarians of the South. (…) they are completely ignorant of the laws of etiquette. They drink without cups, they eat without chopsticks, and they pick up food with their hands.’
from the brush of the bonze Nampo Bushi, Tanegashima, 1543


As the visitor meanders between a semi-public, semi-private space from the ground floor to the rooftop of one of the few reminiscent industrial buildings, konya2023, in the centre of Fukuoka, historical, cultural and spatial connections between the country of the Barbarians of the South  and the country whose cultural delicacy cannot be found in any other nation come together in [ Table for 100’s ], a project that connects two distinct cultures through food and the spaces around it.     

| to taste aka cultural & historical connections |
Portugal and Japan have had a long-term historical connection that dates back to the 16th century. As stated in Bouvier’s The Japanese Chronicles [1] the image of the Portuguese wasn’t always particularly charming. Today, when people ask ‘Dochira desu ka?’ followed by ‘Porutogaru’ as my reply, the words ‘kasutera’ and ‘Nagasaki’ are immediately spilled out and a genuine smile illuminates the inquirer’s face. The list of dishes and words that resulted from the cultural exchanges between the two countries over the years when Portuguese Jesuit Missionaries inhabited places like Nagasaki and Kagoshima is long and surprising. New dishes have emerged, new flavors and unusual eating habits have been discovered.
Food can be used as the template for multicultural conversations anywhere in the world as people can easily relate to the theme in one way or another. It can also easily be used as a design tool for social projects. It is at the Table that people get together to talk and enjoy each others company regardless of religion or age, nationality or background.
[ Table for 100’s ] is by no means a project solely about design, but a project that triggered many discussions on food, on people’s eating habits and on history. Some of the statements written by Luís Fróis’ on the 16th century ‘Tratado das contradições e diferenças de costumes entre a Europa e o Japão’ [3] were reviewed and contradicted to portray Japanese and European (Portuguese) contemporary society. With no more then a few words, in English and in Japanese, this topic has enough substance for a mutual understanding and leads us to several activities (workshops with children, narratives by adults, correspondence exchanges) and some of the artworks exhibited ([Mix and match] or [LA >> LF : 2011 >> 1563]) beyond the Table itself. More then a product, [ Table for 100’s ] is what could be called a diplomatic tool, a didactic project for all who were part of the team, for the participants and for the visitors.
All research done before and during the design stage was used as the raw material for the several different pieces on the exhibition.

| to touch aka participation, a collective project |
The exhibition’s layout follows a narrative that relates to the times of the day (and the corresponding meals), and the five senses. The visitor is invited to participate from the very start of the route.
There is often a limbo between the artwork and the art consumer. This results from a person’s (the artist’s) personal representation of something that is likely to be unfamiliar to the viewer leading to a lack of understanding of the artwork, possibly an attitude of indifference.
[ Table for 100’s ] avoids adopting an individualistic creative process. It results from a participative approach to design from the conceptual stage to the presentation stage. It invites people to join in and make the project their own, as much as mine, and allows them to recognize their input at all different levels.
Ownership of a product/space/project is one of the qualities that can ensure its success; as the designer is the everyday person who will proudly talk about his work, who will carefully look after it and help maintain it. That is achieved through participative design. It is a way of designing that should grow from micro to macro, from the scale of this Table, to the planning of a city’s public spaces, as seen in Van Eyck’s [4] playgrounds in Amsterdam. It is a design strategy that results from the close link between design and user.

| to see aka materials, a consumer’s society |
In a society where consumption has long reached excess, waste that results from unnecessary over-packaging, under-used materials (often used in temporary exhibitions and then trashed) and food waste has been a recurrent theme in my work. Following Rural Studio [5] or Koeberling and Kaltwasser’s [6] principles my designs have adopted a reverse design approach to the conventional one. The design concept of a project demands a ‘Material Bank’. People become involved in the project through the donation of materials they no longer use that might contribute to the construction of the space/object. These will then inform the design, the plans, elevations and sections.
It is a way of re-inventing waste materials, getting people to participate (often encountering pieces of their belongings in the final product) and reducing costs.
With [ Table for 100’s  ] a ‘Material Bank’ was set up at the start and people donated several materials that were used on the construction and inhabitation of the Table, as well as on the smaller artworks.
This method of design challenges Japanese aesthetics that have been so well described by Moraes [7], Barthes [8] and Tanizaki [9], and questions their passion for wrapping that translates in over-excessive packaging and waste. Japanese culture is no doubt one of the most harmony aware cultures. It’s not an enforced quality, but the result of the artistry that has been intrinsic to this nation for many generations. It was emphasized during the Edo period where the Japanese became the most exquisite artisans and artists, mastering technique, producing beautiful and delicate works. [ Table for 100’s  ] is of a rough aesthetic and, though carefully put together by skilled (and fast) Japanese carpenters, it does not relate to any of the work by contemporary Japanese designers or architects. Instead, it relates to an image of Japan that is not often portrayed but can be found in small villages like Wajima, or costal towns like Hakodate, where the house owner is also the builder, where urban planning is not a known concept and an eclectic collection of materials leads to the most extraordinary contemporary vernacular architecture juxtapositions. 

| to listen aka dining narratives |
For a project to gain what in Japan is called cocoro (heart and soul) it needs to go beyond the object or space; it must inherit and embed people’s stories so it can reflect everyday moments one can relate to creating a series of parallel narratives under the same theme. ‘Dining Stories’ was the base that gave soul to the project. Food was the theme. Spaces, objects and people around it were the pieces of the jigsaw that lead to the Table’s narratives in a Perec style [10]  where attention to detail was key. Correspondents from Japan and Portugal were asked to write about their dining routines and a collection of illustrated narratives was put together helping define the form and contours of [ Table for 100’s  ]. It was another way of getting people involved, to make them reflect on their habits and to get them to participate in the project, so when the Table was built they could find the corner of their dining room where they have breakfast, the desk at the office, the counter of the isakaya. ‘Dining stories’ information was also used as the base material for some of the other works where the visitor could find parallel fragments of people’s dining habits at different times of the day ([24 Hour Dining People]) or recurrent ingredients described on the most eaten dishes ([Can you smell it?]).

| to smell aka unravelling, appropriation of public spaces |
I would like to think of [ Table for 100’s ] as what could be called ‘Bento Architecture’, a variation of Atelier Bow Wow’s ‘Pet Architecture’ [11].
Home-made Bento are beautifully wrapped lunch boxes (with Furoshiki, a simple and versatile large patterned cloth) that often contain leftovers and new food, carefully put together in small partitions, with the five essential colors a meal should have to give one all the necessary ingredients to be healthy. Each small portion is a surprise by itself, as it has its own flavor and beauty, but once put together all partitions form a delicious and rich meal that mixes old and new.
[ Table for 100’s ] is the result of the layering  of knowledge acquired theoretically, but mostly results from life observations and conversations, from an empirical experience. It is an overlaying of stories, and a joint effort that led to an object-space that brings new activities to the city, makes use of a space and materials that would otherwise be neglected and disposed. [ Table for 100’s ] is a mediator between art and architecture through participation and represents an alternative way that can help rejuvenating certain parts of cities in response to the contemporary scenario where the world is in economic crises and people are becoming more individualistic on a daily basis. Small-scale participative and pro-active projects may become more effective then starchitecture constructions as they become part of people’s everyday lives.




[ Table for 100’s ] exhibition and installation | konya2023 | fukuoka | japan
111111 > 111130 www.tablefor100s.wordpress.com

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[1] BOUVIER, Nicolas; The Japanese Chronicles; London, Eland Publishing Limited, 2008 
[2] HEARN, Lafcadio; O Japão uma antologia de escritos sobre o país, Lisboa, Edições Cotovia Ltda, 2005
[3] FRÓIS, Luís; Tratado das contradições e diferenças de costumes entre a Europa e o Japão, Macau, Instituto Português do Oriente, 2001
[4] VAN EYCK, Aldo; Aldo Van Eyck: Works, 1944-99; Basel, Birkhauser Verlag AG, 1999
[5] OPPENHEIMER, Andrea; Rural Studio: Samuel Mockbee and an Architecture of Decency; New York, Princeton Architectural Press, 2002
[6] KOERBERLING, Folke; KALTWASSER, Martin; Ressource Stadt - City as a Resource: One Mans Trash is Anothers Treasure; Berlin, Jovis, 2006
[7] MORAES, Wenceslau de; Dança das Borboletas; Lisboa, O Independente, 1999
[8] BARTHES Roland; Empire of Signs; Australia, Anchor Books, 2005
[9] TANIZAKI, Junichiro; In Praise of Shadows; London, Vintage Classics, 2001
[10] PEREC, Georges; Life: a user’s manual; London, Vintage Classics, 2003 
[11] ATELIER BOW BOW; Pet Architecture Guide Book; Japan, World Photo Press, 2002

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Luísa Alpalhão
Born in Lisbon, 1984. Luísa completed her BSc(Hons) in Architecture from the University of East London, followed by an MA in Architecture at the Royal College of Art, London. She is currently doing a PhD at the Bartlett, University College of London on Architecture, Art and Participation in relation to the way immigrant communities occupy public spaces in Lisbon. Luísa is also the founder of the multi-disciplinary collective atelier urban nomads. (www.atelierurbannomads.org).  

A Chicala não é um bairro pequeno | Paulo Moreira


Paulo Moreira
“A Chicala não é um bairro pequeno”

Esta negação dá título a uma publicação. Parte de um mapa que, para além de ter dado título a uma exposição (“Angola não é um país pequeno”, 2011), é ele próprio uma apropriação de um outro mapa (“Portugal não é um país pequeno”, 1934).
“A Chicala não é um bairro pequeno” procura decifrar um dos musseques mais centrais de Luanda, como laboratório para uma reflexão mais alargada sobre o desenvolvimento pós-colonial da cidade. O contexto da rápida nucleação deste bairro ‘informal’ está no centro de um diálogo com a cidade ‘formal’ – a Chicala está rodeada pelo centro histórico/político de Luanda; os seus habitantes são originários da totalidade das Províncias angolanas, tendo a maior parte procurado ali refúgio durante os anos da guerra civil (1975-2002). O objectivo da pesquisa é demonstrar a relação de reciprocidade entre a Chicala (e, por extensão, outros musseques) e Luanda, apresentando-se a eventual significância desta relação para a cidade. Este lugar específico é, em diversas escalas, um reflexo da história do país, e portanto deveria ser integrado na sua ordem arquitectónica, urbana e territorial.
“A Chicala não é um bairro pequeno” apresenta uma perspectiva da capital de Angola muitas vezes ignorada pelos relatos sobre a actual trajectória neo-liberal do país. Graças a uma extensiva compilação de contribuições de especialistas, profissionais e investigadores emergentes e consagrados, de diversas áreas, o livro mergulha num contexto urbano particular, de baixo para cima, mostrando Luanda como uma cidade bem mais complexa do que simplesmente uma topografia capitalista e consumista rodeada por metabolismos de sobrevivência desesperados.
Lugares como a Chicala formam-se à margem de regulamentos, desobedecendo aos protocolos da indústria da construção – e o simples acto de tentar aprender com esses lugares torna este um projeto controverso. Usando de novo uma negação, diria que não é fácil trabalhar sobre temas como este em lugares como aquele. Mas espera-se que o livro contribua para uma re-avaliação gradual das qualidades e do carácter dos musseques. Há uma verdadeira solidariedade na concretude das suas estruturas sociais e espaciais que merece ser decifrada. Pode ser um tipo de cidade construído na sombra da conjuntura económica e da especulação imobiliária, mas funciona na mesma e deveria ser aceite. Afinal de contas, para que serve a cidade?



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"A Chicala não é um bairro pequeno"
livro editado por Paulo Moreira
Lançamento: Sáb. 7 Janeiro 2012 / 15h

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"Angola não é um país pequeno"
exposição de Paulo Moreira
Encerramento: Sáb. 7 Janeiro 2012 / 15h - 19h
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Galeria Uma Certa Falta de Coerência
Rua dos Caldeireiros 77
4050-140 Porto, Portugal
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Paulo Moreira
Nasceu no Porto em 1980. Licenciou-se na FAUP em 2005. É investigador na London Metropolitan University desde 2010. Foi premiado com o Noel Hill Travel Award (American Institute of Architects – UK Chapter) e o Prize for Social Entrepreneurship (FASD), ambos em 2009. www.paulomoreira.net

[ Table for 100’s ] | Luísa Alpalhão




Luísa Alpalhão
[ Table for 100’s ]

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Apresentação | debate | jantar luso-nipónico
Centro das Artes Culinárias / Mercado de Sta. Clara, Lisboa
18 Janeiro [4ªfeira] / 19h30 > 22h
€6 euros por pessoa / marcação até dia 16.01 através do email: atelier.urban.nomads@gmail.com
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‘They are merchants who belong to the race of the Barbarians of the South. (…) they are completely ignorant of the laws of etiquette. They drink without cups, they eat without chopsticks, and they pick up food with their hands.’
from the brush of the bonze Nampo Bushi, Tanegashima, 1543


Enquanto o visitante deambula entre um espaço semi-público/semi-privado do rés-do-chão ao terraço de um dos poucos edifícios industriais reminiscentes no centro de Fukuoka, Konya2023, as relações históricas, culturais e de utilização de espaços entre o país dos Bárbaros do Sul [i] e o arquétipo de delicadeza cultural [ii] reuniram-se em [ Table for 100’s ], um projecto que une duas culturas distintas através da gastronomia e dos espaços em torno da mesma.

| provar | relações histórico-culturais |
A longa relação histórica entre Portugal e o Japão remonta ao século XVI. No entanto, segundo The Japanese Chronicles [1] de Bouvier, a forma como os Portugueses foram retratados nem sempre foi particularmente positiva. Quando hoje perguntam ‘ Dochira desu ka?’, ao que respondo ‘Porutogaru’ os rostos nipónicos são iluminados por um sorriso reluzente enquanto balbuciam ‘kasutera’ e ‘Nagasaki’. A lista de vocabulário e de pratos oriundos das trocas culturais entre os dois países durante os anos em que os missionários Jesuítas Portugueses ocuparam as cidades de Nagasaki e Kagoshima é surpreendentemente extensa. Aos poucos, novos pratos surgiram, novos sabores e hábitos alimentares foram introduzidos e descobertos.
 A gastronomia pode ser interpretada e utilizada como um modelo para diálogos interculturais em qualquer parte do mundo. Sendo um tema partilhado com entusiasmo pela maioria das culturas, qualquer pessoa pode facilmente aderir a uma discussão sobre o assunto, expressar a sua opinião. A gastronomia pode também ser facilmente utilizada como uma ferramenta para o desenvolvimento de projectos de carácter social. É à Mesa que as pessoas se juntam para falar, partilhar da companhia uns dos outros independentemente da religião ou idade, nacionalidade ou classe social.
[ Table for 100’s ] não deverá ser estritamente encarado como um projecto de design, mas sim como um projecto que desencadeou vários debates sobre comida, hábitos alimentares e do estar à mesa, sobre História e histórias. Alguns dos ditos de Luís Fróis extraídos do ‘Tratado das contradições e diferenças de costumes entre a Europa e o Japão’ [3], escrito no século XVI, foram revistos e refutados de forma a retratar as sociedades Japonesa e Portuguesa contemporâneas. Em poucas palavras, em Inglês e Japonês, este tópico ganhou conteúdo suficiente para um entendimento mútuo que deu origem a várias actividades (oficinas com crianças, narrativas partilhadas por adultos, trocas de saberes por correspondência) e à criação de algumas das peças expostas para além da Mesa ( [Mix and match] ou [LA >> LF : 2011 >> 1563] ). Mais do que um objecto, [ Table for 100’s ] poderia ser considerado como uma ferramenta diplomática, um projecto didáctico para todos os que fizeram parte da equipa, para os visitantes e participantes.
Toda a investigação feita antes e durante a fase de metodologia serviu de fundação para a concepção das várias peças incluídas na exposição.

| tocar | participação, um projecto colectivo |
A organização e disposição da exposição obedecem a uma narrativa relacionada com as diferentes fases do dia, as respectivas refeições e os cinco sentidos. O visitante é convidado a participar desde o início do percurso.
É comum haver um distanciamento entre a obra de arte e o observador. Distanciamento este que resulta da representação pessoal (neste caso do artista) de algo pouco familiar para o observador levando-o a uma incapacidade de percepção da obra e, possivelmente, a uma atitude de indiferença face ao abstracto, ao intangível.
[ Table for 100’s ] evita adoptar um processo criativo individualista. Resulta de uma atitude participativa face ao processo de design desde a fase conceptual até à fase de apresentação. O projecto convida o público a participar de forma a que este sinta responsabilidade por parte da autoria do mesmo para que deixe de ser um ‘projecto de autor’, evidenciando a contribuição de cada indivíduo a vários níveis.
A apropriação de um produto/espaço/projecto é uma das características que assegura o seu sucesso tendo em conta que o designer/criador é o indivíduo comum que irá orgulhosamente falar sobre o seu trabalho, que irá cuidadosamente cuidar do mesmo, contribuir para a sua manutenção e preservação. Esta forma de projectar visa começar pelo micro e daí então passar para o macro, desde a escala da Mesa até ao planeamento de espaços públicos de uma cidade, tal como registado nos Parques Infantis de Van Eyck [4] em Amesterdão. É uma estratégia de design que resulta da relação próxima entre design e utilizador.
    
| ver | materiais, uma sociedade de consumo |
Numa sociedade onde o consumo tem vindo, progressivamente, a atingir níveis excessivos, lixo resultante de um sobre-empacotamento desnecessário, materiais subaproveitados (frequentemente utilizados em exposições/eventos temporários e subsequentemente deitados fora) e desperdícios alimentares têm sido temáticas recorrentes no meu trabalho. Visando referências como os princípios subjacentes ao trabalho de Rural Studio [5] ou Koeberling & Kaltwasser [6] os meus projectos adoptam um processo de design inverso ao convencional. O conceito de qualquer um deles requer um ‘Banco de Materiais’. A população é envolvida no projecto a partir da doação de materiais que, de outra forma, seriam descartáveis, mas que poderão contribuir para a construção do novo espaço/objecto. Materiais esses que irão informar o design, as plantas, alçados e cortes de cada projecto.
Esta atitude perante o processo de design representa uma forma de reinventar o descartável, convidar a população a participar de uma forma proactiva no desenvolvimento do projecto (levando a que esta encontre frequentemente vestígios dos seus pertences no produto final) e de redução de custos.
Em [ Table for 100’s  ] o ‘Banco de Materiais’ foi criado logo no início do projecto. Várias pessoas doaram materiais que foram utilizados tanto na construção como na ocupação da Mesa, tal como nas obras mais pequenas.
Este método de projectar apresenta um desafio para a estética Japonesa tão bem descrita por Moraes [7], Barthes [8] e Tanizaki [9] e questiona a obsessão nacional por embrulhos e embalagens que se traduz em lixo desnecessário fruto de um constante empacotamento excessivo. A cultura Japonesa é certamente aquela onde o sentido de harmonia é mais evidente. Não é uma característica forçada, mas sim uma qualidade que tem sido intrínseca a este povo desde há muitas gerações. Harmonia esta que foi enfatizada durante o período Edo, quando os Japoneses se tornaram nos mais exímios artesãos, mestres de requintadas técnicas, e produtores das mais belas e delicadas obras. [ Table for 100’s  ] apresenta um sentido estético mais cru, menos cuidado que, mesmo tendo sido meticulosamente pensado e construído por carpinteiros Japoneses muito competentes (e rápidos) não pode ser incluído nas mesmas linhas de design ou arquitectura seguida pelos designers e arquitectos Japoneses contemporâneos. Por outro lado, poderíamos estabelecer relações formais e estéticas entre [ Table for 100’s  ] e as construções vernaculares de pequenas vilas piscatórias como Wajima, ou cidades costeiras como Hakodate, onde o proprietário das casas é também o construtor, onde o conceito de planeamento urbano é algo desconhecido, onde construção representa uma colecção ecléctica de materiais que leva às mais extraordinárias justaposições de arquitectura vernacular contemporânea.

| ouvir | narrativas gastronómicas |
Para um projecto ser bem sucedido é necessário que este vá para além da projecção do objecto ou espaço, é necessário que contenha o que no Japão é designado cocoro (alma e coração). O projecto deve herdar e incorporar histórias daqueles que nele estão envolvidos de forma a reflectir episódios e momentos do dia-a-dia comuns e familiares a qualquer pessoa criando um conjunto de narrativas paralelas sobre o mesmo tema. ‘Dining stories’ foi a base que deu conteúdo ao projecto. Gastronomia foi a temática escolhida. Espaços, objectos e pessoas envolvidas constituem as peças do puzzle que conduziram às narrativas de [ Table for 100’s  ] ao estilo de Perec [10] onde o cuidado com o pormenor foi fundamental para a aproximação com os observadores. Correspondentes do Japão e de Portugal foram convidados a relatar os seus hábitos e rotinas alimentares dando origem a uma colecção de narrativas ilustradas que ajudaram a definir a forma e dimensões da Mesa e de todo o projecto. Este foi um outro método de envolver a população local, fazê-la reflectir sobre os seus hábitos para que assim pudessem encontrar referências dos espaços que lhe são familiares, os espaços onde tomam o pequeno almoço, a secretária onde almoçam no escritório, o balcão do isakaya. A informação recolhida em ‘Dining Stories’ serviu também de material de base para alguns dos outros trabalhos em que o visitante poderia encontrar fragmentos paralelos dos hábitos alimentares de várias pessoas ao longo do dia ([24 Hour Dining People]) ou de ingredientes recorrentes utilizados em muitos dos pratos descritos ([Can you smell it?]).

| cheirar | descobrir, apropriação dos espaços públicos |
[ Table for 100’s ] poderia ser designada como ‘Arquitectura Bento’, uma variação de ‘Pet Architecture’ [11] do Atelier Bow Wow. Bento são pequenas caixinhas delicadamente embrulhadas em tecidos Furoshiki (tecidos quadrangulares com os mais belos padrões utilizados para funções várias) que contêm os restos da refeição da noite anterior ou pequenas quantidades de comida cuidadosamente confeccionada e colocada nas múltiplas divisórias criando uma palete cromática com os cinco tons essenciais que qualquer refeição deve reunir. Cada pequena dose é uma surpresa por si só fruto da beleza e sabor de cada ingrediente. Quando combinadas, as várias porções formam uma deliciosa e rica refeição que mistura o novo com o conhecido.
[ Table for 100’s ] é o resultado da sobreposição de um conhecimento adquirido teoricamente com aquele que resulta principalmente de observações e experiências de vida, de diálogos, do saber empírico. É uma sobreposição de histórias e um esforço conjunto que deu origem a um objecto/espaço que permitiu a emergência de novas actividades na cidade, que fez uso de um espaço e de materiais que estariam, de outra forma, subaproveitados ou mesmo negligenciados. [ Table for 100’s ] é um mediador entre arte e arquitectura através de participação que representa um método alternativo cujo objectivo é ajudar a rejuvenescer determinadas zonas urbanas em resposta ao contexto actual de um mundo que encara uma séria crise económica e de um crescendo exponencial de uma atitude individualista da população. Projectos participativos e pro-activos de intervenção urbana podem ter um impacto bastante maior no tecido urbano que intervenções de autor, ‘starchitecture’, resultantes da forte ligação com as rotinas pessoais e o dia-a-dia de cada cidadão.




[ Table for 100’s ] exposição e instalação  | konya2023 | fukuoka | japão
111111 > 111130 www.tablefor100s.wordpress.com

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[1] BOUVIER, Nicolas; The Japanese Chronicles; London, Eland Publishing Limited, 2008 
[2] HEARN, Lafcadio; O Japão uma antologia de escritos sobre o país, Lisboa, Edições Cotovia, 2005
[3] FRÓIS, Luís; Tratado das contradições e diferenças de costumes entre a Europa e o Japão, Macau, Instituto Português do Oriente, 2001
[4] VAN EYCK, Aldo; Aldo Van Eyck: Works, 1944-99; Basel, Birkhauser Verlag AG, 1999
[5] OPPENHEIMER, Andrea; Rural Studio: Samuel Mockbee and an Architecture of Decency; New York, Princeton Architectural Press, 2002
[6] KOERBERLING, Folke; KALTWASSER, Martin; Ressource Stadt - City as a Resource: One Mans Trash is Anothers Treasure; Berlin, Jovis, 2006
[7] MORAES, Wenceslau de; Dança das Borboletas; Lisboa, O Independente, 1999
[8] BARTHES Roland; Empire of Signs; Australia, Anchor Books, 2005
[9] TANIZAKI, Junichiro; In Praise of Shadows; London, Vintage Classics, 2001
[10] PEREC, Georges; Life: a user’s manual; London, Vintage Classics, 2003 
[11] ATELIER BOW BOW; Pet Architecture Guide Book; Japan, World Photo Press, 2002
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Luísa Alpalhão
Nasceu em Lisboa em 1984. Licenciou-se em Arquitectura pela University of East London e completou o Mestrado em Arquitectura na Royal College of Art, Londres. Está, de momento, a fazer um Doutoramento na Bartlett,  University College of London, sobre Arquitectura, Arte e Participação e a forma como comunidades imigrantes têm vindo a moldar os espaços públicos de Lisboa. É fundadora do colectivo pluridisciplinar atelier urban nomads. (www.atelierurbannomads.org).