Notas sobre Tafuri, militância e sindicalização • Marianela d’Aprile & Douglas Spencer





A arquitectura, ligada a sistemas de poder político e dependente de grandes quantidades de capital, não tem sido imune às mudanças políticas dos últimos quatro anos. Os EUA sofreram um pico de novas construções durante o mandato de Trump, e em 2021, mesmo com o aumento dos custos de construção provocado por quebras nas cadeias de abastecimento relacionadas com a pandemia, a construção prosperou. [1] Durante este mesmo período, grupos como o Architecture Lobby [2] e publicações como a Failed Architecture [3] deram voz a um descontentamento crescente dentro de uma profissão que as pessoas escolhem frequentemente porque querem melhorar o mundo, mas em que acabam apenas a trabalhar longas horas por pouco dinheiro, desenhando edifícios que não irão melhorar nada a não ser os resultados financeiros de um promotor.

Os escritórios de arquitectura são negócios. E, como em qualquer negócio, os interesses de quem possui escritórios de arquitectura são frequentemente contraditórios com os interesses de quem neles trabalha. Mesmo quando trabalham para o sector público, os proprietários dos escritórios serão sempre motivados a cortar custos e a aumentar os lucros. No seio da arquitectura, em geral, estas tendências têm sido historicamente reforçadas por um sentido de alinhamento cultural entre os trabalhadores e os seus patrões. Aceitando a ideia de que um bom projecto requer sacrifício e que esse sacrifício pode levá-los um dia a tornarem-se eles próprios proprietários de um escritório os trabalhadores em arquitectura, historicamente, não têm lutado muito por melhores condições de trabalho. No entanto, ao longo da última meia década, temos visto isso mudar. Muito recentemente, em Nova Iorque, os trabalhadores da SHoP Architects levaram a cabo uma campanha sindical, e os trabalhadores de duas outras empresas de Nova Iorque estão a fazer o mesmo. [4] Pese embora a campanha da SHoP tenha falhado, esta assinala entre os arquitectos uma identificação crescente com os interesses da classe trabalhadora e para uma potencial mudança a respeito de quem exerce o poder nos escritórios de arquitectura, e com que finalidades.

Assim sendo, o que fazer a partir daqui? Não é a primeira vez que existe agitação política, nem a primeira vez que os trabalhadores em arquitectura [5] procuram compreender de que modo podem participar na construção de um mundo melhor. Manfredo Tafuri, escrevendo em finais dos anos 60 e princípios dos anos 70, durante uma época de agitação política contínua, elucidou a posição de classe dos arquitectos e a relação particular da arquitectura, tanto enquanto profissão como enquanto objecto, com o capitalismo enquanto sistema. Com base no livro de Tafuri Projecto e Utopia, de 1973, procuramos aplicar os seus conhecimentos, de forma operativa, ao contexto actual. [6]

Embora as condições em que hoje escrevemos e trabalhamos se sintam (e de certa forma sejam) sem precedentes, já outros aqui estiveram antes e procuraram responder às mesmas questões que nós: como funciona a arquitectura sob o capitalismo? Como devem os trabalhadores em arquitectura compreender a sua posição de classe? Como poderão os trabalhadores em arquitectura contribuir para esforços mais alargados de tornar a sociedade mais justa e mais igualitária, de formas que possam incluir, mas também ir para além da própria arquitectura?

Através de uma leitura de Projecto e Utopia, de Tafuri, procuramos lançar uma luz sobre as condições actuais – a mudança de posições de classe dos que trabalham em arquitectura, as ferramentas de cariz formalista que a profissão tradicionalmente lhes deu para mudar o mundo, e as ferramentas não-arquitectónicas que eles adoptaram – de um modo que nos possa ajudar a traçar um caminho para os trabalhadores em arquitectura que pretendam melhorar não só a sua profissão, mas o mundo em geral. Para isso, tomamos uma posição explicitamente socialista, que entende a acção organizada de massas como o principal instrumento para retirar o poder aos capitalistas e colocá-lo nas mãos dos trabalhadores, a fim de provocar uma transformação social.

 

Quem tem medo da proletarização?

Os arquitectos modernos, segundo Tafuri, abraçaram prontamente o desenvolvimento capitalista. No seu ensaio “Por uma crítica da ideologia arquitectónica[7], e na sua expansão em livro, com o título Projecto e Utopia: Arquitectura e Desenvolvimento do Capitalismo, Tafuri argumentou que a arquitectura moderna tinha aceite as condições da sua própria mercantilização, procurando integrar-se plenamente no “Projecto” do Capital: “a reorganização da produção, da distribuição e consumo relativos à nova cidade capitalista”. [8] Como é exemplificado pelo reposicionamento da disciplina proposto por Le Corbusier em Por uma Arquitectura (1923), a arquitectura procurou escapar às suas orientações académicas e das Belas Artes, para realinhar-se de modo a servir de apoio ao desenvolvimento do capitalismo industrial. [9] Não só viria a prática da arquitectura a tornar-se relevante para este desenvolvimento, como procuraria assegurar um lugar na sua vanguarda, tornando-se num instrumento prospectivo de desenho e planificação da metrópole capitalista e dos seus sistemas produtivos. [10]

Esta, no entanto, foi uma tentativa falhada. Como argumentou Tafuri, em Projecto e Utopia, os esforços dos arquitectos modernos em posicionarem-se como elementos centrais para o desenvolvimento capitalista tiveram apenas como resultado a sua própria marginalização. Constituindo-se enquanto “utopia funcional aos objectivos da reorganização da produção”, o movimento da arquitectura moderna descobriu que as suas visões só poderiam ser alcançadas através da total “reorganização da cidade” – um projecto sobre o qual não era capaz de exercer qualquer influência. Verificou-se assim que as visões dos arquitectos modernos dependiam de forças maiores e externas que proporcionassem as condições para a sua realização. [11] “A planificação enunciada pelas teorias arquitectónicas e urbanísticas”, observou Tafuri, “remete para algo diferente de si” própria. [12] Consequentemente, estas teorias foram apresentadas por Tafuri como “utópicas”, no sentido em que obscurecem o facto de que “a ideologia da planificação só pode realizar-se na construção se indicar que é fora dela que o verdadeiro Plano pode tomar forma.” [13] Nesse sentido, concluiu desta desventura, “a arquitectura e o urbanismo serão objectos, e não sujeitos, do Plano.” [14] O resultado disso sendo que os arquitectos poderiam apenas oferecer a “ideologia” do Plano, mas não o planificação em si, propriamente dita.

A crítica de Tafuri à Utopia em arquitectura baseou-se substancialmente na crítica de Marx e Engels ao Socialismo Utópico. [15] Para Marx e Engels, a prática do Socialismo Utópico consistiu em apresentar soluções fantásticas para as condições reais de crise e contradição forjadas pelo capitalismo, e pelo seu desenvolvimento, sem qualquer relação e desancoradas das suas realidades materiais e históricas. Como escreveram na sua crítica aos Socialistas Utópicos, no Manifesto do Partido Comunista de 1848, no entendimento desses sobre a acção histórica “para o lugar da actividade social tem de entrar a sua actividade inventiva pessoal; para o lugar das condições históricas da libertação, [condições] fantásticas; para o lugar da organização do proletariado em classe, processando-se gradualmente, uma organização da sociedade urdida por eles próprios. A história mundial vindoura resolve-se para eles na propaganda e na execução prática dos seus planos de sociedade.” [16]

Para além da sua resposta puramente idealista às condições materiais de crise e contradição, Marx e Engels também criticaram o Socialismo Utópico por procurar transcender, através das suas visões e fantasias, a necessidade da luta de classes. Ao contrário do comunismo, o utopismo não toma partidos nesta luta, mas propõe, pelo contrário, que esta possa ser totalmente evitada. Como Marx e Engels argumentaram acerca dos Socialistas Utópicos, “a forma não desenvolvida da luta de classes, assim como a sua própria situação de vida, implicam, porém, que eles creiam estar muito acima daquela oposição de classes.” [17]

Na sua discussão sobre o movimento moderno em arquitectura sugere que Tafuri acreditava que esse utopismo estivesse aberto à mesma linha de crítica que Marx e Engels haviam levantado contra o Socialismo Utópico. Perante as consequências da sua marginalização, argumentou, os arquitectos modernos recorreram à proposta da arquitectura como alternativa ao projecto de revolução agora rejeitado. [18] Esse projecto de evitar a revolução através da arquitectura fora sintetizado, para Tafuri, na retórica do arqui-modernista Le Corbusier: "É uma questão de construção que está na chave do equilíbrio [social] hoje rompido; arquitectura ou revolução”. [19]

O desenvolvimento capitalista, entretanto, continuou rapidamente através da aplicação do “plano do capital”, através do qual programou o seu próprio desenvolvimento democrático. [20] Dentro deste plano, argumentou Tafuri, não há nenhum papel para os arquitectos no sentido de resolver directamente as condições materiais da metrópole capitalista. Em vez disso, e numa tentativa fútil de manter uma posição com alguma relevância social, estes recorreram à produção de visões utópicas da cidade, a “tirar da cabeça as soluções”, para retomar as observações de Engels. [21] E, tal como as visões dos Socialistas Utópicos, as dos arquitectos modernos tentaram esconjurar as verdadeiras contradições e crises do capital através da produção de aparências. Seguindo o filósofo Mario Tronti, Tafuri argumentou não haver necessidade no “plano do capital” para a ideologia e, contudo, os arquitectos modernos agarraram-se ainda assim à ideologia da utopia. A “ideologia”, escreveu Tafuri, “só pode percorrer de novo as etapas já superadas para redescobrir, de cada vez e continuamente, a forma mais elevada de si mesma sob a forma da mediação”. [22] O meio pelo qual a contradição é mediada pela arquitectura, ao nível das aparências, é o da forma, descrita por Tafuri como uma “utopia regressiva”. [23] Após a queda de Wall Street, em 1929, e os consequentes programas de planificação e reforma do capitalismo, tudo o que restava à arquitectura era “a utopia da forma, como projecto de recuperação da totalidade humana numa síntese ideal, como posse da desordem através da ordem”. [24]

Para Tafuri, a situação dos arquitectos nos anos 60, não tendo aprendido nada com a história do modernismo, parecia especialmente exasperante. Há muito que os arquitectos haviam sido dispensados das suas tarefas enquanto ideólogos e planificadores; e reduzidos a executar pequenas partes dentro da produção de sistemas urbanos planificados pelo e para o desenvolvimento capitalista, apesar de se agarrarem ainda à crença no seu papel ideológico, enquanto criadores de utopia, mediadores de contradições. Agora confrontados com “o pior de todos os males”, observou Tafuri sarcasticamente, “a proletarização do arquitecto e a sua inserção... nos programas de planificação da produção”, os arquitectos voltaram-se para aquilo que seriam ainda, supostamente, as suas armas mais avançadas: o utopismo regressivo de inventar formas e imaginar futuros. [25] Tafuri tomou este recurso a “contorções formais e ideológicas mais nevróticas” como indicativo do “retrogradismo político de tal grupo intelectual”. [26] Tanto na Europa como nos Estados Unidos, os arquitectos não estavam mais capacitados para enfrentar a situação em que se encontravam nos anos 60 do que nas décadas de 1920 e 1930. Em estado de ansiedade pela usurpação tecnocrática do papel ideológico que de algum modo ainda assumiam como seu, os arquitectos revelaram-se, escreveu Tafuri, “incapazes de analisar historicamente o caminho percorrido”, ou as “consequências das promessas que contribuíram para despoletar”. [27]

A conclusão de Tafuri, a que chegou através de um relato histórico da relação entre a arquitectura e a emergência do capital, foi que “não é possível criar uma estética, uma arte, uma arquitectura de classe, mas apenas uma crítica de classe à estética, à arte, à arquitectura, à cidade”. [28]

Ao proferir estas infames declarações, Tafuri foi amplamente incompreendido como estando a declarar a morte da arquitectura, mas esse não era o seu objectivo. Se entendermos Tafuri como um militante socialista e não como um comentador cultural –  uma figura que trabalha na tradição e com as ferramentas críticas de Marx e Engels, e que recorre também ao marxismo militante de Mario Tronti – torna-se claro que o seu objectivo passava por articular um modo de os arquitectos contestarem o poder do capital, sublinhando a importância da crítica de classe enquanto ferramenta essencial nessa contestação. [29] Nesta leitura, enquanto os arquitectos temerem a proletarização e resistirem aos seus efeitos sobre as suas vidas laborais – nomeadamente, a capacidade que isso lhes confere para se organizarem enquanto trabalhadores, para fazer exigências e extrair concessões do capital – recorrerão apenas a meios regressivos para efectuar mudanças sociais. O que Tafuri nos ensina é que moldar imagens de utopia e fixar-se na inovação formal, mesmo quando isso é feito de boa fé, é ineficaz enquanto meio de produzir uma transformação social significativa. Tais práticas apenas reforçam os credos aos quais os arquitectos se agarram num esforço fútil para se convencerem da sua capacidade de agenciamento. A manutenção desta fé na arquitectura como um agente autónomo de mudança e a imagem de progresso social que ela serve são o que Tafuri entendeu como trágico – e não a arquitectura em si mesma. Esta é a potente mensagem transmitida por Tafuri em Projecto e Utopia. E é preciso repeti-la agora, quase cinquenta anos depois. [30]

 



Para uma Crítica de Classe da Teoria

Isto é, vale a pena repeti-lo agora, porque a onda política sobre a qual se apoiava a escrita de Tafuri foi violentamente repelida ao longo dos anos que se seguiram à publicação da Projecto e Utopia.

Desde então, a profissão tem-se agarrado cada vez com mais determinação à crença nas suas capacidades únicas para imaginar utopias. Continua também a defender a crença de que a inovação formal nos livrará dos males do mundo, da crise ambiental, dos conflitos políticos e da segregação social – e que o principal papel dos arquitectos enquanto agentes reside na sua capacidade de produzir tais inovações formais. Em vez de terem sido postas de lado na sequência da crise financeira de 2007-2008, estas crenças ganharam uma nova vida, por exemplo, nos projectos de regeneração urbana pós-crise.

Para dar um exemplo, o edifício do MAAT (Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia) de Lisboa, concebido pelo escritório Amanda Levete Architects e inaugurado em 2016, consiste numa espécie de plataforma paisagem, ondulada, que faz lembrar exercícios anteriores como o projecto dos Foreign Office Architects para a Marginal Sul, em Barcelona, e a Ópera de Oslo projectada pelo escritório Snøhetta. [31] O MAAT, concebido para a Fundação EDP, uma "instituição privada com estatuto de utilidade publica, sem fins lucrativos”, fundada em 2004 pela empresa do sector energético EDP, serve a empresa na promoção do seu “compromisso de promoção da cidadania.” [32] As qualidades formais do edifício são apresentadas como os meios imediatos para materializar um acesso, uma circulação e uma partilha ilimitados. Levete afirma que a sua arquitectura satisfaz “a necessidade de espaços que nos ajudem a ultrapassar os limites, que de outra forma nos poderiam dividir”. [33] Enquanto a imagem e experiência do edifício MAAT pretende falar de um liberalismo cosmopolita, o negócio da EDP beneficia do trabalho dos trabalhadores de call-centers locais, confinados a cubículos durante longas horas e empregados em contratos de curto prazo, através de terceiros. [34] O efeito último de tal branqueamento por via da imagem arquitectónica, baseado na crença declarada de que a arquitectura é por si capaz de encontrar soluções formais para as contradições sociais, é apenas o de permitir a manutenção dessas mesmas contradições.

A Utopia, neste sentido, continua a desempenhar um papel ideológico conciliatório, com o qual Tafuri a identificou em Projecto e Utopia. [35] Como demonstrou o autor, mesmo quando a concepção arquitectónica é empreendida enquanto meio para a reforma social-democrata, como nos conjuntos de habitação para a classe trabalhadora concebidos por Ernst May e Martin Wagner, esta só é capaz de produzir “utopias realizadas”, não se envolvendo directamente com as contradições do desenvolvimento capitalista, mas criando instâncias isoladas que sugerem de que forma as coisas poderiam ser diferentes do que são. [36]

Mais cinicamente, e agora nas condições contemporâneas do capitalismo neoliberal e da catástrofe ambiental em curso, a arquitectura continua a providenciar formas e imagens que sugerem que a contradição e a crise podem ser sublimadas ou obviadas através do recurso à forma arquitectónica. A arquitectura da Fondation Louis Vuitton de Frank Gehry, em Paris, é uma utopia regressiva de auto-expressão e livre circulação. A arquitectura do Oceanix, de Bjarke Ingels, com as suas ilhas flutuantes de vida sustentável offshore, é uma utopia regressiva do eco-capitalismo. Embora a promessa utópica de tais projectos possa ser compreendida no contexto das crises e contradições existentes - respectivamente, as desigualdades de acesso à cidade baseadas na raça e na classe, e a subida do nível do mar provocada pelas contínuas alterações climáticas – estas são capazes apenas de mostrar que os arquitectos e as empresas que os patrocinam são capazes de imaginar as coisas de outra forma. No entanto, ao oferecer uma imagem do supostamente excepcional, estes projectos sancionam o status quo como a regra que permanece.

Enquanto que Tafuri considerava o apego contínuo da arquitectura às crenças nos seus poderes imaginativos e formais uma acção de retaguarda, o que tem sido mais esclarecido, de um ponto de vista histórico, desde então, é que a manutenção desta crença é também um meio para a arquitectura suportar o seu próprio privilégio de classe. O Projecto e Utopia de Tafuri é, em certo sentido, uma história de como a arquitectura foi sempre ultrapassada pelas forças históricas maiores que tentou dominar, apenas para se encontrar cada vez mais marginalizada, e o seu estatuto profissional cada vez mais precário. Contudo, as condições do capitalismo neoliberal proporcionam um contexto diferente no qual se pode compreender o desenvolvimento histórico desta relação. Numa reviravolta que Tafuri não teria sido capaz de prever, o capitalismo já não planifica reformas democráticas e, em vez disso, recorre à ideologia para sustentar a sua autoridade. E há uma oportunidade para os arquitectos, para alguns arquitectos, nisso. Estes vêem-se a si próprios como activos para o capitalismo, com permissão para produzir utopias puramente formais, de um modo que nunca tinham tido durante a maior parte do século passado. Isto proporciona um caminho de prosperidade material para alguns, dando a certos arquitectos a possibilidade de resistir à proletarização e de preservar o seu estatuto de “especialistas”. [37] Uma crítica de classe da arquitectura, hoje, deve também reconhecer as condições da produção arquitectónica sob o neoliberalismo, e o modo como a posição de classe dos trabalhadores da arquitectura é mantida através das instituições da arquitectura, do seu discurso intelectual, e dos sistemas de licenciamento que diferenciam alguns trabalhadores em arquitectura de outros.

Hoje, uma crítica de classe da arquitectura deve considerar também a prática da teoria de arquitectura. Neste sentido, o trabalho de Gail Day e Diane Ghirardo é instrutivo. Day, no seu ensaio de 2012 intitulado “Manfredo Tafuri, Fredric Jameson and the Contestations of Political Memory” [38] reflectiu sobre a recepção do pensamento de Tafuri na academia anglo-americana, e nas reviravoltas pelas quais a sua política militante foi efectivamente despolitizada. Day identificou Fredric Jameson, sobretudo com o seu ensaio “Architecture and the Critique of Ideology”, [39] como pivotal para esta despolitização. Jameson, argumenta Day, mal interpreta intencionalmente a mensagem de Tafuri como sendo emitida a partir de uma política do desespero, sendo este último acusado então pelo primeiro de “pessimismo cultural”. [40] Jameson acusa a posição de Tafuri de ser equivalente à da arquitectura pós-modernista, “satisfeita em fazer malabarismo com os símbolos pré-dados da realidade contemporânea”. [41] Ambos nascem, para Jameson, da mesma “convicção de que nada de novo pode ser feito, nenhuma mudança fundamental pode ser feita, dentro do ser maciço que é o capitalismo tardio”. [42] O desespero marxiano e a brincadeira pós-moderna são, para Jameson, dois lados maus da mesma moeda dialéctica.

O que Jameson procura reintroduzir na crítica que Tafuri faz da arquitectura e da ideologia é a possibilidade da utopia, de um espaço à parte, mas não em vez, da “entidade maciça que é o capitalismo tardio”, onde a esperança sobrevive: o “enclave”. [43] Deve assinalar-se que, no pensamento de Jameson, o enclave não é uma estratégia política, mas uma proposta puramente teórica, que viveria apenas no pensamento crítico e nas representações culturais que este possa inspirar. Como Day observou:

Numa análise atenta, verifica-se que Jameson não apresenta sequer, como foi amplamente assumido, argumentos para a estratégia política de “construção do enclave”. Ele revela-nos que está menos interessado na possibilidade de enclaves como verdadeiros desafios à hegemonia espacial do que está em preservar, simplesmente, a própria ideia de enclaves. O que é “essencial”, argumenta, é “formar concepções e imagens utópicas de tais projectos, contra as quais desenvolver uma autoconsciência das suas actividades concretas nesta sociedade”. Jameson transforma o problema num problema de preservação do pensamento crítico enquanto tal, ou seja, numa questão de lembrar a possibilidade de que o nosso mundo poderá ser de outra forma. [44]

A crítica vigorosa de Day ao tratamento que Jameson faz de Tafuri pode ser levada ainda mais longe. Não se trata apenas do facto de Jameson despolitizar a militância de Tafuri, reconfigurando-a numa proposta confinada aos domínios da teoria e da cultura – um projecto que não terá qualquer impacto sobre as condições materiais do capitalismo –, mas de que a teoria e a cultura são sustentadas e valorizadas como actividades de uma classe profissional-administrativa através da tradução despolitizada da militância de Tafuri num projecto positivo para essa mesma classe. [45] A teoria e a cultura são tomadas pela classe profissional-administrativa, na qual os arquitectos podem ser incluídos, como meio de acumular capital económico e cultural. Isto também é válido para a recepção e apropriação de Tafuri pela cultura arquitectónica – ela própria substancialmente moldada pelos escritos de Jameson – como base para o seu próprio projecto, no qual pode continuar a sua fetichização da forma e utopia enquanto reivindica para si uma posição de autonomia face às forças e imperativos da produção capitalista. Como Diane Ghirardo observou, a propósito desta apropriação, no seu ensaio “Manfredo Tafuri and Architecture Theory in the US, 1970-2000” [46]: “O que é notável é que a máquina da teoria da arquitectura nos Estados Unidos abraçou com êxtase o desespero de Tafuri, utilizando-o para despoletar uma nova arquitectura, ao mesmo tempo que ignorava a dimensão política fundamental da sua crítica”. [47] Ghirardo aprofundou o papel desempenhado por Peter Eisenman na transformação da dimensão política de crítica de classe de Tafuri num projecto para uma arquitectura da autonomia formal: “O fascínio de Peter Eisenman por Tafuri foi inteiramente auto-interessado... Surpreendentemente, Eisenman continuou a perseguir Tafuri muito depois da sua morte. Num artigo publicado em 2000, Eisenman distorceu os argumentos de Tafuri, sobre a autonomia da história e a crítica em relação à prática, para favorecer uma visão da arquitectura como autónoma em relação a tudo o resto.” [48]

Resgatado e re-avivado por Eisenman, o apego dos arquitectos à experimentação formal acabaria por reencontra-los a trabalhar em condições históricas muito diferentes da planificação económica keynesiana, no contexto do qual Tafuri escreveu. Em 1969, quando “Por uma crítica da ideologia arquitectónica” foi publicado pela primeira vez, a revista New Society publicou o ensaio “Non-Plan”: An Experiment in Freedom”. [49] Escrito por Reyner Banham, Paul Barker, Peter Hall e Cedric Price, este ensaio foi um dos primeiros arautos do desenvolvimento do neoliberalismo e da sua retórica anti-planificação, tanto na política como na arquitectura. Enquanto o trabalho de Cedric Price, como nos seus projectos Fun Palace e Potteries Thinkbelt, antecipa programaticamente uma arquitectura do neoliberalismo, só nos anos 90 é que a forma arquitectónica se alinhou com os princípios do neoliberalismo. As formas dobradas, suaves, complexas e inovadoras dos projectos de Eisenman, Gehry, Zaha Hadid, OMA, Foreign Office Architects, e outros, são manifestações das palavras de ordem do neoliberalismo: flexibilidade, adaptabilidade, complexidade. Para além disso, a própria novidade da forma que certos arquitectos foram agora capazes de fornecer foi realizada como valor monetário no contexto dos projectos, essencialmente neoliberais, de renovação especulativa, gentrificação e concorrência interurbana que esta serve para promover. [50] Onde Tafuri considerou o recurso ao formalismo, na sua própria época, um meio ineficaz para contestar a iminente proletarização da arquitectura, em condições mais recentes a viragem para o formalismo provou ser eficaz para outros fins, nomeadamente para os de arquitectos profissionalmente posicionados para lucrar com esses projectos neoliberais. [51] No entanto, para a maioria de trabalhadores em arquitectura, eles próprios cada vez mais sujeitos pelos seus empregadores às condições de exploração e precariedade do trabalho que existem sob o neoliberalismo, os projectos em que trabalham são simultaneamente símbolos e instrumentos da sua própria exploração. [52]

 

Já não temos medo

O que Tafuri pode não ter sido capaz de imaginar na altura em que escreveu é que as condições de trabalho dos profissionais – e não apenas dos arquitectos – se deteriorariam ao ponto de estes escolherem de bom grado largar o prestígio intelectual da sua profissão, e da promessa de criar um mundo melhor através da forma, para se alinharem com a classe trabalhadora em geral. Temos visto a organização e a sindicalização acontecerem em contextos laborais semelhantes, de colarinho branco: nos estúdios da imprensa, em campus universitários, em start-ups tecnológicas. Este tipo de auto-organização e de identificação, em primeiro lugar, enquanto trabalhador e só depois enquanto profissional desta ou daquela patente, pode ser contagioso, desencadeando efeitos de reverberação ao longo de outras indústrias. Apesar do fracasso da campanha sindical no escritório de arquitectura SHoP, os trabalhadores de pelo menos duas outras empresas de arquitectura em Nova Iorque estão agora a sindicalizar-se. [53]

Tal passo representa um afastamento em relação à protecção do estatuto do arquitecto enquanto profissional raro e especialmente qualificado, renunciando à ideia de que os trabalhadores em arquitectura podem provocar mudanças sociais utilizando exclusivamente as ferramentas da sua profissão. A nível pessoal, esta recalibração não pode ser fácil; pode exigir, por exemplo, um desfazer do sonho de que qualquer estagiário de primeiro ano possa também vir um dia a tornar-se proprietário de um escritório. O que levou os trabalhadores em arquitectura (especificamente na SHoP, mas podemos imaginar que estas condições se apliquem noutros locais) à sindicalização foi o objectivo imediato de melhorar as suas condições de trabalho e abordar directamente as desigualdades: melhores horários, menos stress, melhor salário. Uma tal mudança –reconhecerem-se enquanto trabalhadores e organizarem-se com base nisso – abre possibilidades de transformação que vão muito para além do local de trabalho. Uma vez organizados e dispostos a exercer o seu poder enquanto trabalhadores, os trabalhadores em arquitectura poderiam começar a realizar um mundo melhor, em vez de se limitarem simplesmente a imaginá-lo.

Poderiam, por exemplo, negociar contratos que excluíssem o trabalho em prisões ou centros de detenção. Poderiam negociar contratos que abordassem o racismo, o sexismo e outras formas de discriminação no local de trabalho, pondo em prática medidas para ajudar as pessoas marginalizadas a serem tratadas equitativamente e a sentirem-se apoiadas, ao contrário das “formações” de nível superficial concebidas para cumprir os requisitos de “diversidade, equidade e inclusão”, que se tornaram indispensáveis, mas que produzem poucos resultados substanciais. [54] Poderiam, apoiando-se nos seus conhecimentos profissionais e alavancando o seu poder colectivo, defender a nacionalização dos regulamentos de construção, que ditam tanto do que os arquitectos podem conceber e do aspecto dos seus edifícios. Poderiam, em solidariedade com outros grupos de trabalhadores organizados, pressionar governos e indústrias a conquistar políticas como o Green New Deal, que têm um grande impacto no trabalho de arquitectos e projectistas.

Estes são apenas alguns exemplos. Neste momento, as especificidades do que poderia ser feito através da sindicalização dos trabalhadores em arquitectura importam menos do que o facto de tal sindicalização estar a acontecer. Para se juntarem a centenas de milhares de trabalhadores como parte de um movimento laboral mais amplo, os trabalhadores em arquitectura tiveram de ultrapassar o compromisso convencional de proteger o seu estatuto profissional e abandonar a ideia de que o principal modo de mudarem o mundo é através da forma. Enraizado numa crítica de classe emergente no seio da arquitectura, e pegando talvez nos fios que Tafuri nos deixou no seu trabalho há meio século atrás, este movimento, acreditamos, não decreta a morte da arquitectura, mas antes, a longo prazo, uma nova vida para si mesma. [55]

 

1. Ian Volner, “The  2021 Building Boom That No One Talked About”, Metropolis, 28 de Dezembro de 2021.

2. O Architecture Lobby (TAL) foi fundado em 2015 enquanto grupo que luta pela valorização da arquitectura e do trabalho em arquitectura. Desde então, o TAL tem sido vocal sobre as questões laborais da profissão e tem defendido abertamente a sindicalização. Em nosso entender, o trabalho por si desenvolvido desempenhou um papel determinante em deslocar para a esquerda o panorama político da arquitectura e em elevar a consciência sobre as questões laborais, assim como em propor potenciais soluções por via da sindicalização. Veja-se, por exemplo, o comunicado da organização em apoio do sindicato dos trabalhadores da SHoP Architects: Architecture Lobby, “T-A-L Statement in Support of Architectural Workers United at SHoP Architects”, Architecture Lobby, 23 de Dezembro de 2021. Ver também, no seguimento da tentativa de sindicalização na SHoP Architects: Dan Roche, “Organizing SHoP”, New York Review of Architecture, #23, Fevereiro de 2022.

3. Ver, por exemplo, o ensaio de Marisa Cortright, que argumenta contra o mito da “vocação” do trabalho em arquitectura: “Death to the Calling: A Job in Architecture is Still a Job”, Failed Architecture, 15 de Agosto de 2019.

4. Isabelle Ling, “Inside the Historic Union Drive at SHoP Architects”, Curbed, 4 de Fevereiro de 2022.

5. Quando nos referimos às pessoas que trabalham hoje no domínio da arquitectura, utilizamos o termo “trabalhadores em arquitectura” de acordo com o trabalho de Marisa Cortright que, no seu livro de 2021 “Can this be? Surely this cannot be?” Architectural Workers organizing in Europe, utiliza o mesmo termo: “Eu utilizo especificamente e de forma deliberada ‘trabalhadores em arquitectura’, em vez de ‘arquitectos’, não só porque eu não sou arquitecta, mas porque há muitos trabalhadores para além dos arquitectos que tomam parte na produção de arquitectura.” Cf: Marisa Cortright, “Can this be? Surely this cannot be?” Architectural Workers Organizing in Europe, Praga, VIPER Gallery, 2021, p.4.

6. Manfredo Tafuri, Architecture and Utopia: Design and Capitalist Development (trans. Barbara Luigia La Penta, Cambridge (MA), MIT Press, 1976. Originalmente publicado como Progetto e Utopia, Bari, Laterza, 1973. [Nota do tradutor: para esta tradução, foi utilizada a tradução portuguesa: Manfredo Tafuri, Projecto e Utopia: Arquitectura e desenvolvimento do Capitalismo (trad. Conceição Jardim e Eduardo Nogueira), Lisboa, Presença, 1985.] Aqui, utilizamos o termo “operativa” conscientes da sua ressonância em qualquer discussão sobre os escritos de Tafuri. Em Teorias e História, originalmente publicada em 1968, Tafuri criticava historiadores como Bruno Zevi e Paolo Portoghesi por praticar uma “história operativa”. A História, para Tafuri, torna-se uma prática operativa ou instrumental quando é aproximada e escrita de modo a salvaguardar as preocupações contemporâneas. Notamos neste ensaio como os escritos de Tafuri são eles próprios sujeitos a um uso operativo na teoria e prática da arquitectura. Para nós, contudo, não se trata de condenar moralmente o que sejam as práticas talvez inevitáveis de selecção e interpretação que decorrem da montagem de argumentos através da análise histórica - ou seja, de criticar a operatividade propriamente dita. Pelo contrário, e enquanto partidários da luta de classes, estamos a utilizar de forma descarada os escritos e ideias de Tafuri para outras finalidades que não sejam as de suster as relações de classe actualmente existentes.

7. Manfredo Tafuri, “Toward a Critique of Architectural Ideology”, tr. Stephen Sartarelli, in Architecture Theory Since 1968, ed. Michael Hays, Cambridge (MA), MIT Press, 1998. Originalement publicado como “Per una critica dell’ideologia  architettonica”, Contropiano 2, n.1, 1969, pp. 31-.

8. Manfredo Tafuri, Projecto e Utopia, op.cit, p.40.

9. Le Corbusier, Towards a New Architecture, Londres, Architectural Press, 1964. Originalmente publicado como Vers une Architecture, Paris, Les Éditions G. Crès et Cie, 1923. [Nota do tradutor: para esta tradução foi utilizada a versão portuguesa: Le Corbusier, Por uma arquitectura (trad. Ubirajara Rebouças), São Paulo, Perspectiva, 2000.]

10. Para Tafuri este fenómeno é melhor exemplificado pela planificação das cidades Alemãs entre 1923 e 1933. Aí, arquitectos e urbanistas como Ernst May em Frankfurt e Martin Wagner em Berlim projectaram conjuntos de habitação para a classe trabalhadora que deveriam resolver, para as administrações social-democratas, as contradições entre o desenvolvimento industrial de larga escala e o trabalho. No entanto, observa Tafuri, enquanto que os arquitectos se posicionavam como ideólogos activos de uma economia política Keynesiana, os seus projectos não se situavam nunca no coração da metrópole, nem eram efectivamente capazes de resolver as condições de crise e contradição existentes. Cf: Projecto e Utopia, em particular o Capítulo 5, “Arquitectura ‘radical’ e Cidade”, pp.71-85.

11. ibid., pp.68.

12. ibid.

13. ibid. [Nota do tradutor: a tradução portuguesa foi ligeiramente revista para se aproximar da versão inglesa, originalmente citada.]

14. ibid.

15. Em Projecto e Utopia, Tafuri refere-se directamente tanto ao Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, como a Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, de Engels. Numa nota de rodapé sobre a incapacidade do utopismo para levar a cabo mudanças revolucionárias e sobre a sua tendência histórica para funcionar como instrumento do capitalismo social-democrata, Tafuri observa que “a teoria do ‘salto revolucionário’, visto como necessário partindo de premissas utópicas, revela-se intimamente ligada à praxis social-democrática - como é facilmente verificável numa análise atenta do história dos últimos cinquenta anos”. Manfredo Tafuri, Projecto e Utopia, p. 43.

16. Karl Marx & Friedrich Engels, The Communist Manifesto (trans. Samuel Moore), Londres, Penguin, 2002. [Nota do tradutor: para esta versão foi utilizada a tradução portuguesa: Karl Marx & Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista (ed. José Barata-Moura e Francisco Melo), Lisboa, Editorial Avante, 1997].

17. ibid.

18. “A cultura arquitectónica entre 1920 e 1930 não está preparada a aceitar tais consequências. Aquilo que vê claro é a sua própria tarefa ‘política’. Le Corbusier enuncia claramente a seguinte alternativa: a arquitectura - ler: a programação e a reorganização da produção de edifícios e da cidade como organismo produtivo - deve sobrepor-se à revolução.” Manfredo Tafuri, Projecto e Utopia, p.69-70.

19. Le Corbusier, Por um arquitectura, op.cit, p.191. [Nota do tradutor: a tradução para português foi revista a partir do original, em francês.]

20. Tafuri tomou a noção do “plano do capital” do marxismo operaísta militante de Mario Tronti. Como observa Tilo Amhoff: “Pode, por exemplo, argumentar-se que o entendimento que Tafuri faz da noção de plano deve-se ao ‘plano do capital’ de Mario Tronti. Para Tronti, o ‘plano do capital’ foi uma consequência da socialização do capital, do capital social. Ele escreve: ‘É verdade que a este ponto já não existe desenvolvimento capitalista sem um plano capitalista. Mas não pode haver um plano do capital sem capital social. É a sociedade capitalista que, por si, programa o seu próprio desenvolvimento. E é isto, precisamente, a planificação democrática’. Com a organização social da produção e a nova forma e função do estado no desenvolvimento democrático da economia, o ‘plano do capital’ tornou-se a instituição política para a auto-organização e o auto-governo do capital”. Cf. Tilo Amhoff, “ ‘Architecture as the Ideology of the Plan’: Revisiting Manfredo Tafuri’s Critique of Ideology”, in International Conference Architecture and Ideology Proceedings: September 28-29, 2012, Belgrado, Faculdade de Arquitectura da Universidade de Belgrado, 2012

21. Como observou Engels, “Pretendia-se tirar da cabeça a solução dos problemas sociais, latentes ainda nas condições económicas pouco desenvolvidas da época.” [Nota do tradutor: para esta tradução, utilizou-se a tradução portuguesa: Friedrich Engels, “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico” [1880], (trad. José Braz) in Marxist Internet Archive

22. Manfredo Tafuri, Projecto e Utopia, op.cit, p.46.

23. ibid., p.35.

24. ibid., p.38.

25. Manfredo Tafuri, "Toward a Critique of Architectural Ideology”, op.cit, p.31

26. Manfredo Tafuri, Projecto e Utopia, op.cit, p.120. Tafuri não escreveu aqui, exactamente, quais os arquitectos culpados destas “contorções formais e ideológicas mais nevróticas”. É razoável tomar esta crítica, considerando observações escritas noutros lados durante este período, como uma critica generalizada das neo-vanguardas, incluindo, por exemplo, os Archigram e os Superstudio.

27. ibid., p.120.

28. ibid., p.121.

29. Entendemos Tafuri como uma militante socialista não por questões de conveniência “operativa”, mas como um facto. Tafuri estava associado e era inspirado, especialmente quando escreveu “Per una Critica dell’Ideologia Architettonica”, pelo marxismo militante, e baseado na luta de classes, de figuras tais como Antonio Negri, Mario Tronti e Raniero Panzieri. Na verdade, esse ensaio foi inicialmente publicado no jornal Contropiano, a arma teórica do movimento neo-Marxista italiano conhecido por “Operaísmo”. Os intérpretes de Tafuri, tais como Fredric Jameson, Andrew Leach e Marco Biraghi, procuraram despolitizar a sua escrita ao desvalorizarem ou ignorarem a sua militância, e confinar o seu trabalho a questões puramente intelectuais e académicas. No entanto, como examinou Will Orr em profundidade, essa manobra académica acontece face da militância reconhecida pelo próprio Tafuri. A posição rigorosa e sustentada de Orr foi antecipada por Gail Day e Diane Ghirardo. Insistindo, como fazemos, na militância de Tafuri anos trabalhos aqui citados não deve ser tomado como um gesto interpretativo da história ou da teoria da arquitectura. As ambições são mais elevadas do que isso. De uma perspectiva limitada da teoria e da história da arquitectura, à qual a nossa visão sobre o trabalho de Tafuri é tipicamente confinada, ele é retratado como um fatalista, mas a partir de uma perspectiva política dirigida ao papel da arquitectura no seio do capitalismo a sua mensagem é instrutiva. Cf. William Hutchins Orr, Counterrealisation: Architectural Ideology from Plan to Project, Tese de Doutoramento, Open University, 2019; Fredric Jameson, “Architecture and Critique of Ideology”, in The Ideologies of Theory, Londres/Nova Iorque, Verso, 2008; Andrew Leach, Choosing History, Gent, A&S Books, 2007; Marco Biraghi, Project of Crisis, Cambridge (MA), MIT Press, 2013; Gaild Day, “Manfredo Tafuri, Fredric Jameson and the Contestations of Political Memory,” Historical Materialism, 20, n.1, 2012; e Diane Ghirardo, “Manfredo Tafuri and Architectural Theory in the United States, 1970-2000”, Perspectif: The Yale Architectural journal, 33, 2002

30. No prefácio à tradução inglesa de Projecto e Utopia [Architecture and Utopia], Tafuri clarificou que ao reconhecer a impotência política da arquitectura, na situação actual, não pretendia com isso declarar uma “profecia apocalíptica”. Queremos também notar que Tafuri deixa claro nesse mesmo prefácio que o caminho para encontrar um qualquer papel novo para a construção enquanto “tecnologia da classe trabalhadora” - independentemente de quão remoto isso esteja do horizonte imediato - “não poderá ser alcançado através de esperanças ilusórias”.

31. Para uma análise mais detalhada do projecto relativamente a arquitecturas da participação e às economias políticas do pós-crise na Europa, ver: “Personifying Capital: Architecture and the Image of Participation”, capítulo 3, in Douglas Spencer, Critique of Architecture: Essays on Theory, Autonomy and Political Economy, Basileia, Bauwelt Fundamente/Birkhauser, 2021.

32. Declaração acerca da “missão” da Fundação EDP, disponível em https://www.fundacaoedp.pt/en/content/about-us.

33 Amanda Levete, “There Has Never Been a More Important Time to Celebrate What Unites Us”, CNN Style, 14 de Setembro de 2017

34. Sobre o assunto, ver.: Isabel Maria Bonito Roque, “Trade Unionism and Social Protest Movements in Portuguese Call Centres”, Journal of Labor and Society, 21, 2017.

35. Ver: Manfredo Tafuri, “‘Arquitectura Radical e Cidade”, capítulo 5 em Projecto e Utopia, op.cit, p.71-85.

36. Manfredo Tafuri, Projecto e Utopia, op.cit., p.81.

37. Sob as condições do neoliberalismo, a arquitectura inventiva, de um ponto de vista formal, encontra para si própria um novo nicho económico na produção urbana de “lugares”. A arquitectura, como aconteceu de forma emblemática com o Museu Guggenheim de Frank Ghery, em Bilbao, é avaliada como um recurso fundamental no desenvolvimento de mercados de concorrência interurbana, particularmente, à medida que as cidades procuram deslocar as suas fontes de rendimento da indústria para o turismo. Para uma discussão mais completa das relações entre tais arquitecturas e o desenvolvimento de novos mercados para a arquitectura, ver: Douglas Spencer, The Architecture of Neoliberalism: How Architecture Became an Instrument of Control and Compliance, Londres, Bloomsbury Academic, 2016.

38. Gail Day, “Manfredo Tafuri, Fredric Jameson and the Contestations of Political Memory”, Historical Materialism, 20.1, 2012, pp.31-77.

39. Fredric Jameson, “Architecture and the Critique of Ideology”, op.cit.

40. ibid., p.369.

41. ibid.

42. ibid.

43. ibid., p.367

44. Gail Day, “Manfredo Tafuri, Fredric Jameson and the Contestations of Political Memory”, op.cit., p.69.

45. O termo “profissional-administrativa” [“professional-managerial class” (PMC)] não é utilizado por Tafuri. Foi cunhado após a publicação de Projecto e Utopia, por John e Barbara Ehrenreich no ensaio “The Professional-Managerial Class”, in Pat Walker (ed.), Between Labor and Capital, Boston, South End Press, 1979, pp.5-45

46. Diane Ghirardo, “Manfredo Tafuri and Architectural Theory in the United States, 1970-2000”, op.cit., pp.38-47.

47. ibid. p.40.

48. ibid.

49. Reiner Banham, Paul Barker, Peter Hall and Cedric Price, “Non-plan: An Experiment in Freedom”, New Society, 338, 20 de Março 1969.

50. Douglas Spencer, The Architecture of Neoliberalism: How Architecture Became an Instrument of Control and Compliance, Londres, Bloomsbury Academic, 2016.

51. Apesar de as tendências específicas associadas com as ideias formais de “suavidade”, complexidade e novidade caíram em desuso enquanto tópicos de discussão para a teoria de arquitectura, estas continuam, e em termos bastante lucrativos, a informar o desenho arquitectónico nas suas iterações mais superlativas. Veja-se, por exemplo, a nova biblioteca Sub-Center, em Pequim, dos Snøhetta, de 2022; o cais proposto pelo Heatherwick Studio para a marginal de Seoul, de 2022; o museu marítimo de Shenzhen, dos SANAA, de 2021; a praça Eleftheria, da Zaha Hadid Architects, 2021; a torre One River North, dos MAD Architects, em Denver Colorado, 2021; a torre Luma Arles, de Frank Ghery, em Arles, 2021; e o master plan para a futura cidade de Chengdu, do OMA, 2021.

52. Para um relato crítico recente sobre as condições laborais das práticas de arquitectura, e sobre o modo como estas a ser contestadas na Europea, ver: Marisa Cortright, “Can this be? Surely this cannot be”. Veja-se também o artigo “Wages for Work: Future Architects Front is Campaigning to End Exploitation of UK’s Architectural Assistants”, no qual Amita Raja observa: “A evidência anedótica do trabalho excessivo e das remunerações insuficientes tem-se tornado senso comum na indústria da arquitectura, desde há algum tempo. O impacto adverso da pandemia da COVID-19 nos trabalhadores precários - com contratos de zero horas, em part-time, de agência, ou temporários - exacerbou os efeitos desta cultura tóxica para os trabalhadores em arquitectura. Pouco mais de um ano depois do primeiro confinamento ter sido anunciado no Reino Unido, os arquitectos encontram-se a lutar com as repercussões de despedimentos ilegais e práticas de exploração laboral há muito duradouras.” Architect’s Newspaper, 4 de Maio de 2021

53. Noam Scheiber, “Architects Are the Latest White-Collar Workers to Confront Bosses”, New York Times, 21 de Dezembro de 2021.

54. J.C. Pan, “Workplace, ‘Anti-Racism Trainings’ Aren’t Helping”, Jacobin, 9 de Setembro de 2022.

55. Não entendemos a classe como única categoria de opressão relevante nas lutas laborais. A exploração laboral é composta e geralmente facilitada pela opressão com base em factores tais com a raça, o género, a sexualidade e a nacionalidade. Acreditamos que todas as formas de opressão são mais efectivamente combatidas através do esforço organizado e colectivo dos trabalhadores.

 

 

 

Marianela d’Aprile

É escritora em Brooklyn e editora adjunta da New York Review of Architecture. O seu trabalho sobre arquitectura, arte e cultura tem sido publicado em The Nation, Metropolis, Jacobin, Artnet News, entre outros. Pertence aos quadros do Architecture Lobby e é membro dos Democratic Socialists of America.

 

Douglas Spencer

É professor de Arquitectura na Pickard Chilton e director de licenciatura no Departamento de Arquitectura da Iowa State University. É o autor de The Architecture of Neoliberalism (2016), Critique of Architecture (2021) e contribuiu com escritos para os AA Files, Arch+, E-Flux, Harvard Design Magazine, Log, Radical Philosophy, Volume e outras revistas especializadas.

 

Imagens

1. Movimento dos Trabalhadores em Arquitectura, 1 de Maio, 2021, ©MTA.

2. Manifestação de estudantes em Arquitectura, Maio, 1968, ©Armand Pete.

 

Nota de edição

Este texto foi originalmente publicado em inglês como: Marianela D’Aprile and Douglas Spencer, “Notes on Tafuri, Militancy, and Unionization”, in The Avery Review, n.56 (Abril 2022), disponível na sua versão digital em https://averyreview.com/issues/56/notes-on-tafuri.

A tradução que aqui se apresenta foi realizada por João Paupério para o Jornal Punkto, com revisão de Ricardo Ruivo.

 

Ficha Técnica

Data de publicação: 07.06.2022

Edição #35 • Primavera 2022 •

 

 

 

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