Sobre fazer projectos e a temporalidade que isso implica \ Ana Bigotte Vieira



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Sobre fazer projectos
e a temporalidade que isso implica:
performance, eficácia, resistência e desgaste
Ana Bigotte Vieira

I.
Há qualquer coisa - mais uma sensação do que um discurso bem articulado - neste trailer de Hans Shot First, que eu gostava de convocar. Espectáculo arranque, de e sobre o início, sobre a dificuldade do início, este foi o começo da colaboração de Diogo Bento e Inês Vaz. Vejamos parte do seu trailer (o vídeo pode ser igualmente visualizado aqui):


Paremos aqui (1:11) e fiquemo-nos então com estas duas frases: “sempre nós os dois – e mais um pouco. Nós os dois - e mais um bocadinho.”. E, sobretudo: “O que não é muito interessante, bem sabemos, mas é aquilo que temos À MÃO”.
II.
Avancei com este título (Sobre fazer projectos e a temporalidade que isso implica: eficácia, performance, resistência e desgaste) muito antes de ter escrito este texto e assim, de certa forma, ele passou a funcionar como o projecto da minha apresentação. E um projecto funciona como uma promessa.
Em The Project Horizon: On the Temporality of Making Bojana Kunst parte da proliferação da palavra projecto – estamos todos envolvidos em diversos projectos, por vezes mais do que um ao mesmo tempo, em diferentes latitudes, e muitas vezes quando iniciamos o seguinte não terminámos ainda o anterior – para traçar uma análise daquilo a que chamou uma “temporalidade de projecto”. Na sua opinião, o termo denotaria então um modo temporal, uma atitude projectiva em que se navegaria entre vários projectos (realizados, em curso e não realizados ainda) procurando descortinar um futuro por entre eles alinhavado.
No entanto, e se a imaginação do futuro tem sido terreno para experimentações artísticas colaborativas várias – e pense-se como frequentemente os processos de trabalho colaborativo, por exemplo nas artes performativas, contém em si uma proposta de utopia a realizar ali, durante o tempo do ensaio, durante o tempo que antecede a finalização do projecto [1] – a temporalidade a que Kunst alude, esta temporalidade de projecto, força essa mesma imaginação do futuro a depender de circunstâncias e modos de produção que lhe são totalmente alheios, impossibilitando-a quase de supor e criar modos de vida política e económica diferentes dos existentes. Conhecemo-lo bem: chamamos-lhes candidaturas, concursos, pitching, fundraising. São os momentos de apresentação do projecto, do lacrar da candidatura, da submissão da proposta e do conhecimento dos resultados. São os procedimentos que visam tornar materialmente exequível o que se projectou, reunir as condições de possibilidade para que o projecto realmente aconteça.
Pontuando a sua análise com exemplos concretos de performances em que estas questões são afectivamente trazidas à boca de cena (Kunst analisa Product of Other Circumstances de Xavier Le Roy e Fate Work de Stephano Harney e Valentina Desideri), a autora afirma que o projecto, palavra usada para nomear uma multiplicidade de trabalhos singulares que se dão a ver (e a fazer) enquanto infinita e contínua adição de suplementos discretos, se transformou no horizonte último do fazer actual – e relembro aqui o “tudo isto e mais um bocadinho” que ouvimos há pouco. Mas nesta temporalidade contínua, após a finalização de um projecto é sempre necessário recomeçar de novo pelo que, independentemente das possibilidades abertas, há uma temporalidade que à partida se encontra cerceada pelo seu próprio terminar, i.e., por um lado, pela realização de algo já anteriormente projectado [2] e, por outro, pelo facto de se ter de começar de novo. O que é, evidentemente, um paradoxo dado que a continuidade consiste em: novo projecto, nova promessa de concretização, nova implementação de dívida para com o que há-de vir.
Chegada a este ponto e à noção de ‘dívida’ Kunst justapõe-lhe, num parêntesis, o estado de exaustão como “tonalidade emotiva” (sugestão de tradução de Agamben para as stimmung Heideggerianas [3]), avançando com uma proposta de pensamento da subjectividade assim operante. Diz-nos então: “…and this is also the reason for the exhaustion of the subjectivity that works like that”: EXAUSTÃO A temporalidade de projecto em continuidade levaria a um estado de exaustão.
Nesta dimensão temporal de penhora do por vir, e atentando aos processos de subjectivação desencadeados, encontrar-se-ia uma ligação entre o trabalho criativo e os modos produtivos do capitalismo. É que esta perseguição do horizonte último do projecto influenciaria a aceleração do trabalho criativo requerendo uma contínua e cada vez mais radical individualização do sujeito, que, não obstante e por maior que seja o seu grau de individualização, projecta estandardizadamente, sendo a produção da subjectividade (neste caso da subjectividade que faz projectos) “a mais importante e primária forma de produção, a ‘mercadoria’ que subjaz à produção de todas as mercadorias”, como escreve Maurizio Lazzarato.
Relacionando directamente esta análise com as artes performativas a autora constata o crescente interesse pelos jovens artistas e a multiplicidade de estruturas que alimentam a sua “emergência” (residências, redes, plataformas de formação, mostras de jovens trabalhos), atentando à sua razão de ser. De facto, analisando-o sob o ponto de vista das dinâmicas contemporâneas de produção, em particular no que diz respeito ao trabalho dos artistas é interessante verificar que este interesse deriva não do seu trabalho concretamente, uma vez que este ainda mal começou, mas da “promessa” que as suas jovens práticas encerram: os seus potenciais feitos estão ainda por vir.
O que nos traz de volta ao “e mais um bocadinho”, o tal bocadinho que há-de vir, aquele que é difícil de enumerar no CV porque ou ainda não aconteceu ou excede a sua descrição: aquele de que tão orgulhosa quanto ironicamente Inês e Diogo nos dão conta no trailer que vimos.



Han Shot First, diz-nos a descrição do youtube, é um obra sobre o início e a dificuldade do início que – e por isso o invoco hoje aqui – adopta como tom e como modo uma paródia à celebração. E nisto traz à luz a CELEBRAÇÃO como outra das “tonalidades emotivas” desta temporalidade que vimos projectiva: “Tivemos DGARTES!”, “Fui escolhido para a residência X!”, “Tive bolsa de Y!”, “Fui aceite em H!” “A proposta foi aceite!” “O apoio saiu!” É de celebrar.
É que o trabalho de todas estas jovens promessas está ainda por vir. Fá-lo-ão em cursos, residências, open studios, mostras, apresentações em prédios cedidos provisoriamente, precários pontos de apresentação onde (com sorte, é de celebrar! – daí o tom comemorativo de cada uma destas ocasiões) mais um bocadinho do projecto será levado a cabo, apresentado, adquirirá valor de circulação. O que nos diz algo sobre a instabilidade deste seu valor, que continuamente tem de ser testado e mediado, posto em apresentação (o que faz pensar na figura do virtuoso ou do performer como o trabalhador por excelência do Pós Fordismo, como sugere Paolo Virno [4]).
Kunst especula então sobre o papel dos artistas na produção contemporânea de subjectividades (arrojadas, promissoras, intrépidas) em perpétua condição de “precariedade experimental”: forças de trabalho mal pagas ou não pagas de todo, constantemente em fluxo (de residência em residência, projecto em projecto, apresentação em apresentação, país em país), perpetuamente em processo de transformação porque constantemente sujeitos a escrutínio do público, em aprendizagem constante e concorrência feroz.
Para terminar, a autora propõe três pontos que, a seu ver, poderiam contribuir para colocar fora de cena esta “temporalidade projectiva” e abri-la ao presente:
1.
Não à especulação económica
sobre o futuro valor da arte
(o “promissor”):
Tendo como horizonte a erosão da esfera pública nas sociedades neoliberais e a impotência da arte (por mais politizada que se afirme) em fugir àquilo a que a crítica “populista” chama “elitismo esquerdista”, a autora insurge-se contra uma suposta defesa de que a arte seria boa para a economia e para o mercado, retórica esta que tem minado muita da argumentação sobre os cortes na cultura. Assim, seria importante repensar o valor social e político da arte entendendo-os como intimamente ligados à percepção, ao reconhecimento e à determinação da visibilidade do que temos e poderemos ter em comum.
2.
Sim à apropriação
do tempo presente
“Não é muito interessante, bem sabemos, mas é aquilo que temos À MÃO.” Relembro aqui a segunda frase com que abri este texto. Diz-nos a autora: “Sim à persistência no presente, à duração e à endurance. É de uma importância primordial para a arte e para os trabalhadores neste campo exigir continuidade, persistência e ocupar espaços do presente tanto quanto possível. O que é comum é aquilo que é agora e não o que virá”. Encontramo-nos, e logo vemos para que era o tempo que nos faltava [5]: assim se chama um evento que gostávamos de levar a cabo na plataforma baldioespaço onde se ensaia uma abordagem a que se pode dar o nome de estudos de performance de que faço parte há dois anos. De certa forma isto foi o que ficou por fazer do que fizemos em Montemor-o-Novo (Setembro 2013) e no Teatro Maria Matos (Março 2014) quando organizamos eventos onde tentávamos, a um tempo só, ensaiar praticas de hospitalidade e pensamento crítico (no primeiro) e organização colectiva (no segundo): Encontramo-nos, e logo vemos para que era o tempo que nos faltava.
“Logo vemos” foi justamente aquilo para que nos faltou tempo quando já nos tínhamos encontrado, ao menos no lugar. Foi aquilo que não chegámos a fazer: mas como reunir as condições para tal? E como fazer para que quando essas condições estiverem reunidas, aquilo que sentíamos como necessidade não se tenha já transformado noutra coisa? O título paradoxal deste evento que queremos fazer – mas que (paradoxalmente, também) não é um projecto – é, no fundo, uma forma de reclamar a possibilidade do presente: como criar formas de permitir ao presente readquirir o seu valor temporal, a complexidade e cumplicidade mútua que o constrói sem cair numa retórica que em tudo lembra o comércio da individualista auto-ajuda? Por via de que estruturas tal poderia ser feito? Como passar da ansiedade e da antecipação para uma posição de presente, não um presente cristalizado mas um presente em devir, feito de negociações, acordos, conflitos, encontros?
3.
Não à excelência
e à conclusão de projectos
Neste terceiro e último ponto a autora propõe a recuperação de diferentes modalidades do quotidiano que na actual economia do tempo se assemelham a luxos: preguiça, lentidão, falta de eficiência, bloqueio, resistência a ser global, perder-se na complexidade das próprias ideias, chegar atrasado, levar tempo, ter reticências quanto a estar e a fazer coisas em todo o lado ao mesmo tempo. Mas isto não como afirmação da suposta “preguiça boémia dos artistas”, que desmonta enquanto mito, mas numa espécie de afirmação Bartlebiana da recusa: “I would prefer not to” (eventualmente um pouco à semelhança das teses Agambenianas sobre a inoperatividade).
Segundo Kunst, a desvalorização da arte faria então parte do interesse capitalista geral de que cada um trabalhe para o seu interesse particular – estando os modos do seu fazer estruturados de forma a serem administrados através da temporalidade projectiva para que as suas propostas não possam durar no presente nem articular-se com nenhum momento comum.
Mas voltemos então a Han Shot First, o que não é muito interessante, bem sabemos, mas é aquilo que temos À MÃO. Na candidatura à DGARTES, usada como material do espectáculo e colocada propositadamente disponível no seu blog pode ler-se:
Han shot first é a primeira criação de dois jovens actores independentes. Desde já convém esclarecer que Han shot first nasceu do desenvolvimento de uma ideia prévia de ambos os criadores, intitulada primeira obra. Devido a circunstâncias de programação do Teatro Taborda e a outras de cariz profissional (Diogo Bento e Inês Vaz foram convidados para trabalhar com outras companhias de teatro), este trabalho foi sendo adiado (e desenvolvido) até, finalmente, ter data de estreia marcada para (...) o Teatro Taborda, integrado no ciclo TRY BETTER, FAIL BETTER, com o título com que agora se apresenta. (...) Ainda que possa parecer irónico, a denominação do ciclo onde este espectáculo surge integrado vem mesmo a calhar. Han shot first fala da tentativa, da falha, de dois anti-heróis e do início de dois criadores que executam a sua passagem ao acto.
Como se vê, esta é uma obra (neste caso uma primeira obra) cujas condições de produção são em tudo semelhantes às enunciadas acima. Do blog do espectáculo constam igualmente uma série de fotos sobre esta primeira vez, este feriado nacional na vida de Diogo e Inês, que, como é natural, celebram. O que nos traz de volta à questão das tonalidades emotivas características desta temporalidade de projecto: CELEBRAÇÃO (Tivemos DGARTES!”, “Fui escolhido para a residência X!”, “O apoio saiu!”) e, como vimos, EXAUSTÃO (por se ter de cumprir tudo o que foi proposto no projecto, por preencher formulários e avaliações e relatórios) seriam, então, os dois estados que, por via desta cinética projectiva, à vez, ou quem sabe por vezes em simultâneo, nos atravessariam, moldando os nossos movimentos, os nossos corpos, as nossas emoções, o nosso viver em relação. São estas tonalidades emotivas e as suas conseguintes declinações corporais e relacionais que hoje gostava de trazer para esta conversa.
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Referências
1. Ver a este respeito a análise que Bojana Bauer faz do processo de trabalho de Vera Mantero "Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza" in Bojana Bauer The Makings of … Production and Practice of the Self in Choreography: The Case of Vera Mantero and Guests.
2. “We can also reflect upon the project with the help of Gilles Deleuze and his conceptualization of the difference between virtual and possible: the project can only disclose the possible, it does not belong to the virtual, the possibility is already implemented in it. In that sense, it does not belong to the realm of change.”
3. “(…) maneira fundamental como o ser está, a cada vez, já disposto.” Cfr Agamben, o Aberto.
4. Paolo Virno, em A gramática da multitude, faz da figura do “virtuoso” − de que o paradigma seria o bailarino, o músico, o orador empolgado… (o performer, em suma) – aquele cuja actividade se cumpre em si mesma, sem que dela resulte a produção de um objecto exterior, e cuja actividade exige a presença dos outros − um eficaz objecto de análise das mutações pós-fordistas do trabalho. De acordo com o autor, “com o nascimento da Indústria Cultural, o virtuosismo converte-se em trabalho massificado” porque nesta, a “actividade comunicativa, que em si mesma se cumpre, é um elemento central e necessário. O trabalho assemelha-se então cada vez mais a uma “execução virtuosa”.
5. Este evento parte de uma ideia de Sílvia Pinto Coelho, após reflexão sobre os dois eventos anteriores de grande escala organizados pelo baldio em 2013 e 204 e o seu título, originalmente de Nuno Leão, deriva de uma conversa entre este e eu, em que Nuno se referia às actividades do Grupo de Tradução baldio, a actividade mais regular desta plataforma.
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Imagens
Frames do trailer de Han Shot First. Um espectáculo de Diogo Bento e Inês Vaz, co-produzido pelo Teatro da Garagem, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Ver vídeo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=tgJ0RbFnIjo
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Nota de edição
Comunicação apresentada no seminário “Pensamento Crítico Contemporâneo e Trabalho” organizado pela Unipop e Revista Imprópria, realizado no dia 11 de Outubro de 2014, no ISCTE-IUL, com a colaboração da Associação de Estudantes do ISCTE. Mais info aqui.
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Ana Bigotte Vieira
Doutoranda em Ciências da Comunicação – Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias na FCSH-UNL, tendo sido Visiting Scholar em Performance Studies na NYU-TISCH entre 2009 e 2012. Estudou História Moderna e Contemporânea no ISCTE. A sua investigação incide sobre o papel performativo dos Museus de Arte Moderna, centrando-se nas transformações culturais por que Portugal passa após a entrada na União Europeia. Dramaturgista e investigadora, trabalhou com Gonçalo Amorim, Miguel Castro Caldas e Bruno Bravo, Manuel Henriques, Raquel Castro e Mariana Tengner Barros, entre outros. É fundadora de baldio |Estudos de Performance e dramaturgista. Juntamente com Sandra Lang (CH), com quem co-edita a revista Jeux Sans Frontières, tem organizado uma série de eventos discursivos e performativos em torno da relação entre arte e política. Traduziu vários autores entre os quais Mark Ravenhill, Pirandello, Agamben, Lazzarato.

Ser Pós Moderno entre o Frágil e o Acarte \ Ana Bigotte Vieira




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Ser Pós Moderno
entre o Frágil e o Acarte
Ana Bigotte Vieira

“A análise do arquivo comporta, portanto, uma região privilegiada: ao mesmo tempo próxima de nós, mas diferente da nossa actualidade, é o contorno do tempo que rodeia o nosso presente, que se lhe sobrepõe e delimita a nossa alteridade; é o que, fora de nós, nos delimita. A descrição do arquivo desdobra as suas possibilidades (e o domínio das suas possibilidades) a partir dos discursos que justamente acabam de ser nossos (...). Neste sentido vale para nós como diagnóstico. (...) O diagnóstico assim entendido não estabelece a comprovação da nossa identidade a partir do jogo das distinções. Estabelece que somos diferença, que a nossa razão é a diferença dos discursos, a nossa história a diferença dos tempos, o nosso eu a diferença das máscaras. Que a diferença, longe de ser origem esquecida e recoberta, é essa dispersão que somos e fazemos.”
Michel Foucault, Arqueologia do Saber

Em Janeiro de 2013 teve lugar no Centro de Arte Moderna a conferência O CAM na Cultura Portuguesa dos Anos 80, coordenada pelo Arquitecto Nuno Grande. O texto que se segue foi escrito para esta ocasião, evento invulgar tanto no que diz respeito à escolha do objecto como do seu tratamento. De facto, não apenas a reflexão histórica sobre aquilo a que se chama “os Anos 80” está em grande parte por fazer, como é pouco comum uma abordagem onde cultura, arte, sociedade e formas de vida – vistas como construções humanas, históricas, e não como dados naturais – são entendidas como inextrincáveis e passíveis de se darem a uma reflexão.
Ser Pós Moderno Entre o Frágil e o Acarte foi redigido para o painel com o mesmo nome e moderação de Isabel Carlos, no qual participaram Luís Serpa, Manuel Graça Dias, Jorge Figueira e Ana Bigotte Vieira.
Escrito para ser lido na Sala Polivalente do Centro de Arte Moderna em 2014, este texto, fruto de uma investigação de Doutoramento em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa à época ainda em curso, procura interrogar este espaço na sua espessura histórica e função epocal. Dividido em duas partes, cada uma delas corresponde a uma ideia-chave. Na primeira, tratar-se-ia da ‘disjunção Anos Sessenta/Anos Oitenta’ proposta, entre outros, pelo historiador Luís Trindade [1]; já na segunda, para dar conta da acção de Madalena Perdigão, fundadora e primeira Directora do Serviço ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian, avançar-se-ia a noção de ‘Curadoria da Falta’.
Situado no agora e a pensar numa abertura de possibilidades para amanhã, trata-se de uma análise esboçada por alguém que nasceu em 1980 a tentar um diálogo com quem viveu essa época – não para a reconstruir mas, como diz Michel Foucault na epígrafe acima, para compreender o que no que somos hoje há de diferente do que deixámos de ser – e com isso contribuir para um possível diagnóstico daquilo que poderemos devir. É que na melhor das hipóteses, estando a História desta época em grande parte ainda por fazer, eventos como aquele, caso consigam resistir a uma tentação nostálgica [2], contribuem para a sua construção.


1.
“SER PÓS-MODERNO ENTRE O FRÁGIL E O ACARTE.”
Entre
“Ser Pós-Moderno Entre o Frágil e o Acarte” : a proposta identitária que a afirmação que dá nome a este painel alberga "Ser pós moderno"  coloca dois lugares da cidade de Lisboa em relação e fá-lo por via de uma circulação, de um entre. Os lugares são a discoteca Frágil, no Bairro Alto, aberta por Manuel Reis em 1982 e o Serviço ACARTE, Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte da Fundação Calouste Gulbenkian fundado por Maria Madalena de Azeredo Perdigão em 1984, um ano depois do Centro de Arte Moderna abrir, e nele sediado.
Como pano de fundo está uma época: os anos 80; um país: Portugal; e uma cidade: Lisboa. A identidade implícita na expressão Ser pós-moderno e a sua relação com a circulação entre estes dois lugares coloca-os em recorte, como se fosse pela circulação entre eles que esse Ser pós-moderno se produzisse. É importante notar que, na produção desse ser(-se) pós moderno (de quem? do país? da cidade? das pessoas?), estes dois lugares não serão os únicos nem serão estanques, antes pelo contrário – um recorte é sempre recortado de algo maior, algo onde se insere e com que se relaciona, nem que seja por meio de uma qualquer excepcionalidade (caso, por ex. da Fundação Calouste Gulbenkian, muitas vezes equiparada a um “oásis”, ou do Centro de Arte Moderna, o primeiro Museu de Arte Moderna no país), ou de uma aparente negação (caso, por ex., do Frágil e da “noite lisboeta”, sítio de extravagâncias).
Como refere Nuno Grande (GRANDE 2009), a década de 80 em Portugal, aparece como que cortada ao meio: por um lado, o pedido de auxílio financeiro ao FMI em 1983 e um crescente afastamento dos resquícios do pós-revolução; e, por outro, a eufórica adesão à União Europeia em 1985-1986 com as pressões de construção de uma “portugalidade” capaz de figurar numa mitificada Europa.
Mais do que procurarmos aqui uma definição estável de que ser pós-moderno possa ser esse que se é ou se quer ser, ou mesmo uma caracterização sociológica dos seus sujeitos (esses, que seriam pós-modernos), gostaríamos de tentar olhar para estes lugares, debruçando-nos em particular sobre o segundo, o ACARTE, enquanto espaços activos numa produção de processos de subjectivação em curso [3], reparando que parece haver características que os unem.  



Complexo Exibicionário
Tony Bennet em The Birth of the Museum (BENNET 1995) – partindo de uma grelha foucauldiana onde justapõe a emergência simultânea, no século XIX, do museu e de espaços como a escola, as bibliotecas, as galerias, as arcadas, os grandes armazéns e as exposições internacionais – deu o nome de “complexo exibicionário” a um conjunto de instituições e de lugares que tinham por objectivo a auto-formação dos cidadãos dos recém laicizados estados. De acordo com Bennet, é justamente pela modelação dos modos como se circula entre e se age (n)estes lugares que uma série de rotinas e comportamentos sociais se constituem. Capaz de iluminar a relação entre espaços aparentemente tão opostos como os grandes armazéns, as feiras populares e as bibliotecas, a noção de “complexo exibicionário”, ao complicar as relações entre “alta” e “baixa” cultura, cultura “nacional” e cultura “internacional”, cultura “urbana” e cultura “rural” parece-nos particularmente útil para abordar o tal entre de que falámos a início.
Numa transposição, talvez precipitada (sem dúvida caricatural) desta noção para o contexto português dos anos 80 outros prováveis lugares, para além do Frágil e do ACARTE, apareceriam como possível parte integrante deste “complexo exibicionário”: espaços de consumo como o Amoreiras ou os grandes hipermercados, fenómenos como a emergência do chamado Rock Português ou a Moda Lisboa, o crescimento dos subúrbios, a massificação das férias ou um pouco mais tarde, o despontar de um certo tipo de escrita cultural, entre outros.

Um processo coreopolítico
É que Portugal entra para a Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1986, e os termos “Europa”, “Nação”, “Moderno” – e, em corolário, mesmo que em “curto-circuito” [4], como defende Boaventura de Sousa Santos (SANTOS 1984), ‘Pós Moderno’ – constituem nesta altura, e antes de mais, um apelo, o omnipresente slogan de um processo coreopolítico em curso, como sustenta André Lepecki em Dancing Without the Colonial Mirror: Modernity, Dance and nation in the works of Vera Mantero and Francisco Camacho (1985-1997). Um processo cujo passo, necessariamente demasiado veloz, acarreta consigo um esforço generalizado de amnésia: amnésia de um território entendido enquanto império ultramarino, da guerra colonial...do passado recente de Abril tanto quanto dos 48 anos de ditadura [5] ...implicando, como qualquer transformação histórica abrupta, uma reconfiguração da experiência da corporalidade dos sujeitos, o que, longe de ser um processo pacífico é um processo atravessado e acompanhado por tensões e contradições várias, possíveis cristalizações identitárias e os seus devires minoritários. [6]

A reconfiguração da experiência da corporalidade
É neste terreno, o da reconfiguração desta experiência da corporalidade, que, como veremos, o ACARTE com os seus desfiles de corpos em performance (corpos nus, urbanos, cosmopolitas, multiculturais, exageradamente rápidos ou lentos); com os magotes de gente que acorria às suas iniciativas povoando os seus jardins, com os seus ciclos de eventos onde a participação e a discussão se tornam prática comum e a ida ao museu um hábito – será pródigo. O que se dá em simultâneo com a emergência daquela que viria a ser uma certa elite cultural a operar num Portugal já Europeu, numa Europa que, pela primeira vez, começa a incluir a cultura na sua agenda de prioridades e se organiza numa série de redes, onde os encontros e a troca de ideias se fazem cada vez mais essenciais. [7]
É eventualmente também nestes terrenos que o Frágil, como espaço social informal que é (e não obstante aquele que virá a ser o seu peso na organização formal da sociedade Lisboeta dos Anos Oitenta) [8] se recortará, ainda que de outra forma. A uni-los, estará a presença lúdica e expressiva de um corpo que dança, que é exposto, e que, agindo, relacionando-se, considerando-se objeto de experimentação e de elocução, se oferece performativamente em si como discurso e matéria: seja em espectáculo tout court, como no caso do ACARTE (e lembro-me, por exemplo, de “A vitória dos sentidos sobre o sentido”, título de uma crítica de José Ribeiro da Fonte aos primeiros Encontros ACARTE, em 1987) ou, como no caso do Frágil, pelo gozo de uma “noite lisboeta” que acontece cada vez mais num ambiente cosmopolita de festa com pista de dança e copo na mão, do que a uma mesa de café, e onde a aparência das roupas ou das maneiras pode ditar a possível entrada no estabelecimento.

À porta do Frágil
André Lepecki que, como muitos dos entrevistados, aponta o Frágil nos anos 80 como um espaço contemporâneo do ACARTE, explicava-me em conversa que parte da aventura do Frágil consistiria em entrar e ser (ou não) barrado – coisa que não se passava no ACARTE, onde toda a gente podia entrar, fazendo-me atentar nos modos como estas distribuições de pertença não deixam de ser importantes numa altura em que se queria “pertencer” e, por pertencer, passar a “ser” (“Europeu”, “contemporâneo”, “moderno”, “pós-moderno”).
Sob este ponto de vista, “Ser Pós-moderno” sinalizaria sempre uma cristalização identitária (e é bem sabido como pós-modernismo e neoliberalismo se interrelacionam), onde uma idealizada Europa cosmopolita, agindo por exclusão, marcaria o passo e ditaria o tom. O que parece insuficiente para dar conta do tal entre de que falámos a início, não se adequando quase ao ACARTE, sobretudo nos seus primeiros anos, durante a Direcção da Dr.ª Madalena Perdigão, onde cultura “nacional” e “internacional”, “experimental” e “mainstream”, “amadora” e “profissional”, “alta” e “baixa” conviviam lado a lado, enquadradas pelos muros dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian.
Lepecki, que em Dancing Without The Colonial Mirror..., traça as «interligações entre a emergência simultânea da dança contemporânea e de um novo tipo de subjectividade em determinado contexto político, económico e social – o de um país a sair de um passado de isolamento, colonialismo e subdesenvolvimento, e a investir na criação de uma nova identidade com a qual encontrar um lugar numa idealizada “modernidade europeia”» (LEPECKI 2001) interpela-nos então a olhar para o que fica de fora, neste caso específico temporalmente (“um país a sair de um passado”), ao mesmo tempo que atentamos no que está dentro, colocando-os em relação. [9]

Anos Oitenta/ Anos Sessenta
E de facto, entre os chamados Anos Oitenta e os chamados Anos Sessenta muita coisa muda. Em Portugal ainda mais.
A expressão Anos Sessenta (Sixties) sinaliza aqui não uma década específica mas sim um conceito (JAMESON 1984) que, começando a meio dos Anos Cinquenta prolonga-se até ao final dos Anos Setenta, abarcando a contestação à Guerra na Argélia e do Vietname, a vaga de descolonizações, o Maio de 68 e o movimento Hippie. Refere um período marcado por uma intensa experimentação social, existencial e artística de pendor emancipatório. Em Portugal, sem querer tirar importância às contestações estudantis e a toda a experimentação artística que se dá em finais dos Anos Sessenta – por ex., no campo do teatro ou da performance art (mas haverá outros...) –, poderá porventura dizer-se que os Anos Sessenta enquanto época de massificação cultural são marcados pelo período a seguir à revolução de Abril acontecendo em grande parte nos ‘Anos Setenta’. Assim, eles teriam massivamente lugar com o fim da censura, a participação de rua, as ocupações, o regresso das colónias..., estando intrinsecamente ligados a uma intensa experimentação social, menos talvez que existencial, experimentação existencial essa que assim se daria em grande parte já nos Anos Oitenta (Eighties) num ambiente cultural radicalmente diferente, marcado já pelo fim de Abril e pela entrada para a União Europeia – hipótese teórica apontada por Luís Trindade (TRINDADE 2010) e Rui Bebiano (BEBIANO 2010), que um olhar sobre os Anos Oitenta em Portugal me leva a partilhar, e as entrevistas que fiz em torno do ACARTE parecem corroborar.
Haveria assim, para além de um curto circuito entre modernidade e pós modernidade, como refere Boaventura de Sousa Santos, uma espécie de disjunção de um período (os Sixties, tais como descritos por Jameson para o panorama Norte Americano) por dois períodos (os Sixties e os Eighties), com ambientes culturais opostos – coisa que explicaria algumas das tensões, contradições, paradoxos mas também potencialidades e linhas de fuga que os Anos Oitenta em Portugal parecem conter, nomeadamente quando olhados a partir do momento presente e da actual conjuntura Europeia.
Mas debrucemo-nos agora especificamente sobre a acção do Serviço ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian durante este período. 




2.
 Fazer falta, Sentir falta, Estar em falta
O ACARTE
“Fazia falta no panorama cultural português um Serviço voltado para a cultura contemporânea e/ou para o tratamento moderno de temas intemporais, assim como um Centro de Educação pela Arte dedicado às crianças. Tornava-se necessário assegurar ao Centro de Arte Moderna (...) a possibilidade de ser, não apenas um Museu na acepção restrita do termo mas também um Centro de Cultura.” [10]
Assim explica Madalena Perdigão as razões para a criação do ACARTE, um Serviço, dependente directamente da Presidência da Fundação, que afirmava não adoptar “conceitos estreitos de nacionalismo estéril” mas sim “abrir-se à itinerância no país e no estrangeiro”, tendo por vocação o apoio ao um experimentalismo que passava por um “incentivo à colaboração entre artistas de diferentes áreas para a criação multidisciplinar”.
Entre 1984 e 1989 passaram pelo ACARTE nomes como:
- no teatro: O Bando, Fernanda Lapa, Jan Fabre, Jorge Silva Melo, Jorge Listopad, Filipe La Féria, Ricardo Pais, Giorgio Barberio Corsetti, Tadeus Kantor e muitos outros...
- na dança: Susanne Linke, Rui Horta, Olga Roriz, W.Vandekeybus, Elisa Worm, Anne Teresa de Keersmaeker, Karine Saporta, Pina Bausch, Joseph Nadj, Reinhild Hoffman, Margarida Bettencourt, Vera Mantero, Paula Massano, Clara Andermatt e muitos outros...
- na performance art Wolf Vostell, Fernando Aguiar, Marina Abramovic/Ulay, Ulrich Rosenbach, Silvestre Pestana, Carlos Gordilho ou Miguel Yeco,...
- na música: Constança Capdeville/Grupo Colecviva, Jorge Peixinho /Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, Carlos Zíngaro, Olga Pratz, Jorge Lima Barreto, Vítor Rua, Maurizio Kagel, Bow Gamelan, Pocket Opera, Derek Bailey/ Evan Parker, Touch Monkeys...    
E ainda:
Bandas de Música no Anfiteatro ao ar livre onde acorreram bandas do país inteiro, Concertos à Hora do Almoço, onde se estrearam jovens intérpretes, “Músicas do Mundo” (conceito pouco em voga na altura), actividades complementares às exposições do CAM, e, claro, o incontornável Jazz em Agosto, que ainda hoje perdura e que começou em iniciativa do Serviço ACARTE. O Serviço ACARTE, para além de manter aberto em permanência um Centro de Arte Infantil, organizou ainda conferências, cursos, workshops, um regular jornal falado de actualidade literária, bem como uma série de cursos de Cinema de Animação, produzindo espectáculos e eventos, e co-programando, a partir de 1987, iniciativas internacionais como os Encontros ACARTE – Novo Teatro Dança da Europa (com o Springdance Festival da Holanda, e o Inteatro Polveriggi, de Itália. Muitas das suas iniciativas eram temáticas, agrupando em torno de um assunto uma série multidisciplinar de eventos. E colocando frequentemente o foco no performativo e na presença, no encontro e no diálogo, quase sempre o corpo se constituiu enquanto eixo central deste Serviço. [11]  
Fazia falta, tornava-se necessário – diz-nos aquela que é uma figura central nas artes e na educação em Portugal sem que, porém, existam quase estudos sobre a sua acção.

Maria Madalena de Azeredo Perdigão
Combinando uma formação em música no Conservatório Nacional e em matemática na Universidade de Coimbra, Madalena Perdigão foi Directora do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1957-1974 onde foi responsável pela criação da Orquestra Gulbenkian (1962), do Coro Gulbenkian (1964), do Ballet Gulbenkian (1965), e pela organização de 13 Festivais Gulbenkian de Música. Grande impulsionadora da Educação pela Arte, foi Presidente da Comissão Orientadora da Reforma do Conservatório Nacional entre 1971-1974 no âmbito da reforma Veiga Simão e, entre 1978 e 1984, Presidente do Grupo de Trabalho para a Reestruturação do Ensino Artístico bem como Assessora do Ministro da Educação, regressando à Fundação Calouste Gulbenkian em 1984 para a criação do ACARTE de que viria a ser Directora até ao final da sua vida, em 1989.
A criação deste Serviço corresponde assim à parte final de um longo percurso de criação de estruturas nas quais o conhecimento, a prática, e a fruição das artes são entendidos enquanto essenciais na formação humana, ou seja – e não obstante os tempos sejam já outros –, é por existir uma Orquestra, um Ballet e um coro Gulbenkian (e em complementaridade com estes), numa época em que Portugal estava prestes a ter uma Secretaria de Estado da Cultura separada do Ministério da Educação (posteriormente Ministério da Cultura), que a sua criação deve ser entendida, enquadrando-a na acção maior da Fundação Calouste Gulbenkian, em tempos já de democracia.
Não podendo abordar aqui em detalhe o âmbito de actuação do Serviço área a área, propomos que nos detenhamos um pouco na noção da “falta” tal como esta foi teorizada por Roberto Esposito em Communitas – The Origin and Destiny of The Community para a tentarmos aplicar ao “fazer falta” de que nos fala a fundadora do ACARTE para depois, em conversa, o relacionarmos com Portugal dos Anos Oitenta.

Fazer Falta
Interrogando-se sobre qual seria «a “coisa” que os membros de uma comunidade teriam em comum», Roberto Esposito (ESPOSITO 1998), vai à etimologia de communis que significaria «aquele que partilha um ofício, uma tarefa, uma carga» para daí depreender que communitas seria «a totalidade das pessoas unida não por uma “propriedade” mas precisamente por uma obrigação ou por uma dívida, não por uma adição, mas por uma subtracção: por uma falta, um limite que é configurado como um ónus, ou mesmo por uma modalidade defectiva de quem é “afectado”, por confronto de quem é isento».
Esposito localiza aqui, no contraste entre communitas e immunitas, a tradicional oposição associada com a alternativa entre público e privado. Se communis é o que tem de desempenhar uma tarefa – ou mesmo outorgar uma graça – imune seria o que está dispensado de o fazer, permanecendo assim ingrato. Mas o caminho pela etimologia de communitas «mostra que o munus que a communitas partilha não é uma propriedade ou uma posse». Não seria um ter, mas em contrapartida, «uma dívida, um depósito, uma prenda que tem de ser dada, estabelecendo uma falta. Os sujeitos de uma comunidade estão unidos por uma “obrigação” no sentido em que se diz “eu devo-te uma coisa”, mas não [no sentido em que se diz] “tu deves-me uma coisa”». O que faria com que o comum fosse não «caracterizado pelo que é próprio mas pelo que é impróprio, ou, mais drasticamente ainda, pelo outro; por um esvaziar, seja ele parcial ou completo, da propriedade no seu negativo; removendo o que é especificamente propriedade própria, forçando-o a sair de si, a alterar-se a si».
O que nesta proposta nos interessa para pensar o ACARTE é o questionamento radical de uma noção identitária. Ao localizar a origem do comum não numa propriedade mas numa falta, numa lacuna, Esposito permite-nos pensar produtivamente e em contínuo a comunidade: uma comunidade que não é um dado adquirido, cuja identidade seria necessário estar sempre a afirmar em competição com outras identidades.

Uma ‘Curadoria da Falta’
Ao pautar a sua programação por aquilo a que gostaríamos de chamar uma “curadoria da falta” Madalena Perdigão (e talvez mais ninguém senão ela o pudesse fazer) faz do ACARTE nos anos oitenta um espaço de encontro que, mais do que estar ocupado com a sua identidade, se abre ao que “faz falta”, sendo marcado por esta abertura – e marcando com ela uma época. Talvez por isso a sua acção nestes anos de transformação histórica abrupta – a um tempo só moderna e pós-moderna, clássica e experimental, rural e urbana, para as elites e para as massas, para os adultos e para as crianças – seja sempre tão difícil de definir nos moldes em que teve lugar. Com o seu enfoque no corpo – ao mostrar corpos extremos, pelos quais toda uma tradição da dança pós-moderna americana e da performance art tinha já passado, tradição esta forjada nos tais Anos Sessenta de que Jameson nos fala (Jan Fabre, Anne Teresa de Keersmaeker, Wim Vandekeybus, La Fura dels Baus); ou corpos clássicos, como o de obras teatrais nunca anteriormente representadas no país (Hamlet, Ciclo Retorno à Tragédia); ou corpos vindos de outras culturas e vistos como culturalmente relevantes, cosmopolitas mesmo (Ka-ze-no-Ko, Ciclo Músicas do Mundo, Jornadas de Artes e Letras dos PALOPS); ou pura e simplesmente corpos com vontade de experimentar formas estéticas (Constança Capdeville/Colecviva, Ciclo de música improvisada); ou apenas corpos com uma predisposição geral para se cultivarem ou/e – sobretudo – por mostrar e colocar em diálogo todos estes corpos juntos – a sua acção irá, porventura, de encontro à disjunção que atrás mencionámos. O que a torna, a um tempo só, tão particular e tão explosiva. É que abrir-se ao que falta é, ainda assim, muito diferente de “superar um atraso” ou de “acertar o passo”. O que faz com que este lugar se constitua como um dos lugares dos anos 80, com o tal curto-circuito entre modernidade e pós modernidade de que nos fala Boaventura de Sousa Santos, razão pela qual estamos hoje aqui.
A faltar, o conhecimento aprofundado do que foi o ACARTE pode, quem sabe, fazer-nos sentir menos em falta quando vemos o actual momento em que estamos, 30 anos passados sobre a inauguração deste Centro. E, quem sabe, pode mesmo este Centro de Arte Moderna voltar a ter um peso central nisso.
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Referências
1. Ver a este respeito por exemplo Luís Trindade em Os 3 D’s da Derrota Revolucionária: despolitização, desideologização, desmobilização, disponível aqui ou Pano Cru – a inscrição da memoria do passado revolucionário, disponível aqui.
2. A respeito desta ‘tentação nostálgica’ em que pode rapidamente incorrer um olhar sobre “estas e outras (pós) modernices de que Lisboa já sente falta,” como se podia ler no programa do evento, veja-se a segunda parte do texto de António Araújo A Cultura de Direita em Portugal, publicado cerca de um ano depois da intervenção que aqui se publica.
3. Para usar uma terminologia Foucauldiana. Ver Foucault A vontade de saber (1976).
4. Em Pela Mão de Alice – o social e o político na Pós Modernidade, Boaventura de Sousa Santos (1994), o autor sustenta que o facto de a sociedade portuguesa ser semiperiférica, acarretaria consigo uma “dupla exigência: (1) na formulação de alguns dos objectivos de desenvolvimento deve proceder como se o projecto da modernidade não estivesse ainda cumprido ou não tivesse sequer sido posto em causa; (2) na concretização desses objectivos deve partir do princípio (para ela de algum modo mais vital do que para as sociedades centrais) de que o projecto da modernidade está historicamente cumprido e que não há a esperar o que só um novo paradigma pode tornar possível.” (p.84) de onde deduz que: “a sociedade portuguesa tem ainda de cumprir algumas das promessas da modernidade, mas tem de as cumprir à revelia da teoria da modernização. Desta posição decorrem duas implicações principais. A primeira é que as promessas da modernidade a cumprir têm de ser cumpridas em curto-circuito com as promessas emergentes da pós-modernidade. Assim, como atrás referi, as duas importantes promessas da modernidade ainda a cumprir são, por um lado, a resolução dos problemas da distribuição (ou seja, das desigualdades, que deixam largos estratos da população aquém da possibilidade de uma vida decente ou sequer da sobrevivência); por outro lado, a democratização política do sistema político democrático (ou seja, a incorporação tanto quanto autónoma das classes populares no sistema político, o que implica a erradicação do clientelismo, do personalismo, da corrupção e, em geral, da apropriação privatística da actuação do Estado por parte de grupos sociais ou até por parte dos funcionários do Estado). Qualquer dessas promessas deve, no entanto, ser cumprida em conjunção com o cumprimento, igualmente veemente, das promessas da pós-modernidade. Deste modo, a promessa da distribuição deve ser cumprida em conjunção com a promessa da qualidade das formas de vida (da ecologia à paz, da solidariedade internacional à igualdade sexual) e a promessa da democratização política do sistema político deve ser cumprida em conjunção com a ampliação radical do conceito de política, e, consequentemente, com as promessas de democratização radical da vida pessoal e colectiva, do alargamento incessante dos campos de emancipação, as quais podem começar a ser cumpridas precisamente na articulação entre a democracia representativa e a democracia participativa. Ora, esta conjunção é interdita pelo princípio da modernização, pois, nos seus termos, enquanto não forem resolvidos os problemas da modernidade não faz sentido sequer pôr os problemas da pós-modernidade. Este princípio, que é hoje hegemónico entre nós e que é adoptado tanto pelo Estado como pelos partidos de direita e de esquerda, só poderá conduzir ao bloqueamento da sociedade portuguesa numa semiperiferia crescentemente estúpida.
A segunda implicação do cumprimento da modernidade à revelia da modernização é que é preciso combater a ideia de que tudo o que na sociedade portuguesa é diferente das sociedades centrais é sinal de atraso e deve ser erradicado no processo de desenvolvimento. A contabilidade profunda da sociedade portuguesa está ainda por fazer.
5. Ver a este respeito a proposta de Luís Trindade em Os Excessos de Abril", in REVISTA História, n.º 65, Abril de 2004.
6. De acordo com Gilles Deleuze um devir seria sempre um devir minoritário. Ver a esse respeito Mil Platôs, vol. 4. pág.88.
7. Ver a este respeito o website Europeana: “In 1973, the first significant steps towards defining the cultural basis for a European Union were made when the European Economic Community (EEC) signed the ‘Declaration on the European Identity’. This step was the first attempt to create a European awareness. The declaration led to the introduction of several measures to improve the visibility of Europe in the daily lives of the European citizens. A European flag was created, Beethoven’s ‘Ode to Joy’ was chosen as the European anthem and a standardised European passport created. In 1988, a new policy was introduced which focused specifically on using cultural heritage to demonstrate our common history, involving Europe’s architectural and artistic heritage. The EEC sponsored various arts-related craft and restoration projects and helped preserve a number of monuments that played a big role in the European history, such as the Acropolis, the Parthenon and Mount Athos.” In http://penguincompaniontoeu.com/additional_entries/declaration-on-european-identity/, consultado a 16/1/13.
8. A esse respeito João Fiadeiro contou-me anedoticamente que assinara o seu contrato com a Europália neste local. Anedótico ou não a verdade é que muitos são os testemunhos sobre a importância formal do Frágil na sociedade Lisboeta da época. Ver a este respeito a imprensa aquando dos 30 anos desta discoteca ou o recente projecto de compilação de fotos da noite nesta discoteca, levado a cabo por Catarina Portas e Tiago Manaia.
9. O ensaio de António Araújo A Cultura de Direita em Portugal, publicado cerca de um ano depois da intervenção que aqui se publica, reúne um conjunto notável de informações sobre o ‘dentro’ ao qual aqui se sugere a necessidade de pensar as continuidades com o que (e quem) ficaria então de fora.
10. Brochura bilíngue ACARTE 5 anos.
11. É desta altura a emergência de termos como “Artes do Corpo”, termo cunhado por António Pinto Ribeiro, que chegou mesmo a trabalhar neste Serviço (Ribeiro 1997).
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Bibliografia
BARRETO, António (org.) 2006, Fundação Calouste Gulbenkian, Cinquenta Anos 1956-2006, LISBOA, FCG.
BEBIANO, RUI «’Povo pop’, mudança cultural e dissensão», in Como Se Faz Um Povo. Ensaios em História Contemporânea de Portugal, coordenação de José Neves, Lisboa, Tinta-da-China, 2010, pp. 441-454.
Dionísio, Eduarda (1993): Títulos, acções, obrigações – sobre a cultura em Portugal 1984-1994, Edições Salamandra, Lisboa.
FOUCAULT, Michel (1969): Arqueologia do Saber, Almedina 2006, Lisboa
FOUCAULT, Michel (1976), A vontade de saber , Relógio de Água, 1994, Lisboa.
Gilles Deleuze Félix Guattari (1980) MIL PLATÔS. Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 4. Coordenação da tradução Ana Lúcia de Oliveira. 1a Edição- 1997. EDITORA 34,  São Paulo.
Grande, Nuno (2009): Arquitecturas da Cultura: Política, Debate, Espaço, Dissertação de Doutoramento em Arquitectura apresentada ao DARQ/FCTUC, Porto.
JAMESON, FREDERIC (1984): Periodizing the Sixties in Social Text, No. 9/10, Spring - Summer, 1984 The 60's without Apology, New York.
PERNES, Fernando (2001), Panorama da Cultura Portuguesa Sociedade Porto 2001/Fundação de Serralves, Porto.
RIBEIRO, ANTÓNIO PINTO (2005): Fundação Calouste Gulbenkian, Cinquenta Anos Vol.I - Arte, pág. 371, FCG, Lisboa.
Fontes impressas
FCG (1989): Brochura Serviço Acarte 5 anos de actividades, Arquivo ACARTE.
Electrónicas
ARAÚJO, ANTÓNIO (2014): A Cultura de Direita em Portugal in http://malomil.blogspot.pt/2014/01/a-direita-portuguesa-contemporanea.html, consultado a 21-05-2014.
TRINDADE, LUÍS (2004): Excessos de Abril in http://barnabe.weblog.com.pt/arquivo/098036.html, consultado a 3-04-2011.
Site Oficial da Fundação Calouste Gulbenkian, http://www.gulbenkian.pt/historia consultado em 30/10/11.
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Imagens
1.Imagem gráfica do colóquio (disponível no site do CAM). Imagens dos cartazes do ACARTE disponíveis na net no arquivo digital da Biblioteca Nacional.
2 e 3. Fotografias do Centro de Arte Moderna disponíveis online no site do CAM.
4. Interface digital cronológico ACARTE 1984 - 1989, projecto de Ana Bigotte Vieira com design gráfico Ana Teresa Ascensão e programação Isabel Brison.
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Ana Bigotte Vieira
Doutoranda em Estudos Artísticos, Visiting Scholar na NYU-TISCH entre 2009 e 2012. Estudou História Moderna e Contemporânea no ISCTE. Pós-graduação em Ciências da Comunicação: “Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias” (UNL-FCSH). Dramaturgista e investigadora, trabalhou com Gonçalo Amorim, Miguel Castro Caldas e Bruno Bravo, Manuel Henriques, Raquel Castro e Mariana Tengner Barros, Traduziu Mark Ravenhill, Annibale Ruccello, Spiro Scimone, Pirandello e Giorgio Agamben. Integra o grupo de Teoria e Estética das Artes Performativas do CET (FLUL). Em 2010, recebeu o Dwight Conquergood registration Award na PSi conference #17, Utrecht. É co-curadora de Baldio.