Prefácio a “A Religião do Capital” \ Vítor Silva Tavares



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Prefácio a “A Religião do Capital”
Vítor Silva Tavares
Documenta |24 Setembro 2015
Ao princípio era o Caos – e cá pelo berlinde azul a verde Bem-Aventurança: não se havia ainda inventado o Trabalho – de modos que ninguém fazia literalmente, a ponta de um chavelho, dedicando-se à macacada tão-somente a manducar, chònar, miscigenar e andar por aí, a ares. Como não há bem que sempre dure, inventou-se um dia a Propriedade. Foi quando um avantajado candidato a bípede rapou da moca e vá de zurzi-la na carola do vizinho a fim de abichar só para ele, sublinhe-se, a fêmea mais mamalhuda, o naco mais suculento e o metro quadrado mais fértil de hortaliças. A carne é fraca, o exemplo pegou. E pegou de guisa que obrigou à descoberta das Trocas & Baldrocas entre os auto-empossados (dá cá fêmea, toma lá mamute: estamos quites) e logo à Compra & Venda – e com estas algo que lhe atribuísse Valor, digamos, “real”: concha, búzio, bago, pepita. Breve, a moedinha. Evoluíra muito o macaco, tornara-se sapiens, isto é, descobrira que o Trabalho valorava Coisas em Mercadorias através de sucessivas Transacções e assim a moedinha, já com suas paridades e flutuações consoante o músculo de quem valentemente a entesourava, adquiria um fascínio e um poder que era regalo só de vê-la, tão bonita a maganona. Vá, pois, de trabalhar. Ou melhor: de preferência, para os iluminados (privilegiados por excelência da evolução da espécie), vá pois de pôr os outros a trabalhar. Estava inventada a Civilização.
Entram aqui os Deuses. É que sem eles afigurava-se difícil convencer o pagode a alombar. Mister se tornava pois assustá-lo e, em caso de refilanço, puni-lo: para tal nada melhor que uns mistérios acagaçantes, uns sacerdotes feitos ao bife e uns rapazes jeitosos para a traulitada. A imaginação do homem não tem limites quando se trata de assegurar o seu. Desta tão louvável imaginação brotaram as Leis (ponto de partida: quem tem cu tem medo) para que reinasse a Ordem tornada natural das coisas, ora chamada (e quantos milénios de massacres e latrocínios) Estabilidade. A primeira mocada da História foi aquele momento cheio de Graça que opôs à barbárie, à bagunçada, o preceito sem o qual não há civilização que se diga: cada macaco em seu galho. Para não irmos mais longe: eu no meu e o Champallimaud, por exemplo, no dele.
A Ordem, pois. Graças a ela cresceram e multiplicaram-se, desfizeram-se e reciclaram-se Clãs, Tribos, Nações, Estados, Impérios. Por mor dela se ergueram torres e torres e pirâmides sociais – do maralhal da base aos sobas do topo. Para assegurá-la se armaram milícias, mercenários, verdugos, policias, tropas. Para espiritualizá-la se esgalharam metafísicas, credos, filosofias, catecismos. É que os homens são uns eternos insatisfeitos e depois há por ai, houve sempre e haverá, demasiado gentio a agredir meio mundo com a exibição das suas misérias e a vociferação dos seus rancores, quando não pronto a dar o corpo ao manifesto em momentos de aperto. Que fazer, na circunstância? Toca a salvaguardar os Valores, e à má-fila: com pau, calhau, pez, pistola, canhão, gás, granada, napalm, bomba atómica, que sei eu?, hipoteca e arresto de bens. Na Propriedade ninguém mexe porque é sagrada e o resto são conversas. Logo, decorre daí que não há guerra que não seja santa e como tal justificada: vá pois de malhar em mim, no sindicato, na greve, na revolta, na insurreição, no terrorismo internacional, no Inimigo à vista e a ver vamos. Nem que o berlinde estale de vez, dissipando-se na eternidade. Sem Valores é que nada feito.
Porque nem só de pão vive o homem. Lá indo que o sonho é lindo (e alimenta a vida, como se canta) chegou-se enfim, na dança e contradança de classes em declínio e outras emergentes – quais alcatruzes da nora que não andam sempre ao de cima –, àquele degrau em que os “mais desfavorecidos” (o pé descalço, o condenado da terra, o soldado desconhecido) desataram a escaqueirar bastilhas e a cortar cabeças suseranas aos berros de Igualdade, Liberdade e mais não sei o quê, talvez queques em lugar de pão. Foi um reboliço, uma guincharia – e um susto de todo o tamanho para os donos das coroas e das croas. Imperioso se tornou mudar alguma coisa, acalmar ânimos, bolear exageros, distribuir algum pelos mais esgalgados e vociferantes, enfim e numa palavra, com muito paleio à mistura inaugurar a Democracia: enquanto a malta se distrai com o papelinho do voto nuns tantos empregados de escritório que após se denominam deputados, vereadores, senadores, governadores, ministros, presidentes, o negócio lá vai correndo & rendendo na Paz dos Senhores. Pelo caminho, certo que se teve mesmo de repartir a Propriedade em pública e privada – aquela, uma conquista irreversível das massas populares que a pouco e pouco se dilui até à abstracção, esta uma vasta coutada onde felizmente posso plantar o meu repolho: é só querer e suar muito. E ou me fio nisto ou aí vou eu para fora de carroça, por indecente e má figura, como piolho anti-social, quiçá um comunista.
Bingo! O sonho da Igualdade (e que de revoluções nas avenidas, incêndios em templos, pilhagens de propriedade, as pessoas de bem forçadas a decapitar, enforcar, guilhotinar, assar, empalar, esquartejar, fuzilar e ainda por cima rezar pelas alminhas dos celerados!) deixou sequelas – e degenerescências tais que a não serem travadas poriam o Champallimaud igual a mim e ambos ao biscate, o Belmiro a andar a pé, o Amorim Socialista, o Mello almeida da câmara, o Espírito Santo gato-pingado! Cenário apocalíptico este (de facto prenunciador do Fim da História de que falam filósofos e testemunhas de Jeová), que a revolução industrial, nos seus primórdios, julgou tornar exequível como um paraíso operário – não fora o capitalismo moderno, também com ela nascido. Quer-se dizer que feitas contas coube afinal aos banqueiros e generais da indústria, menos avisados que os seus confrades contemporâneos, proporcionarem o advento dos comunismos - essa praga maldita, pior que a sida. Estava-se mesmo a ver arrebanhando multidões de maltrapilhos (recém-saídos das couves e das fomes endémicas) nas fábricas que nasciam como cogumelos mercê de inventos mecânicos que eram um bem para a humanidade e outro bem acrescido para os accionistas, punham-se os referidos cujos a magicar entre eles, debaixo do mesmo zinco, na maneira de ganhar mais e trabalhar menos, a qual, se se puxasse a guita, iria parar ao saque da Propriedade (logo chamado de “conquista dos bens de produção”) e à sua repartição equitativa. Caldo entornado. Conspirações a dar com um pau. Paulada de criar bicho. A tal revolução industrial, o tal capitalismo pançudo e encharutado, a tal ideia de que toda a Propriedade era um roubo e que os bens se haveriam de repartir consoante as necessidades de cada qual (e oh se estas cresciam, ao ritmo do progresso e do trabalho em cadeia!...) a gerarem a revolução social, a república socialista, o éden operário. Esquerda e direita um dois não passavam de paleios de burgueses, retóricas de papagaios letrados em luta com a má consciência e ela só; agora era a hora da luta de classes, da tábua rasa das diferenças entre filhos do luxo e filhos do lixo, da conquista do Poder por parte do proletariado, ou melhor, da sua vanguarda organizada. Vinha pois aí, de martelo e foice (esta da foice era para não deixar de fora ninguém do povo, fosse ele um campónio alarve), uma nova Ordem mundial. Proletários de todo o mundo, uni-vos. Vanguardas do proletariado, uni-vos ainda mais. E assim nasceram os Partidos sociais-democratas, socialistas, maximalistas, comunistas – ficando de fora uns ranhosos muito senhores dos seus narizes que torciam os ditos à ideia de que a Igualdade hierarquizada num Partido como tal ordeiro acabaria por gerar, também ela, uma data de empregados de escritório mais iguais que outros que tais, seja, camaradas chefes, contra-chefes, capatazes, comissários, controleiros, carreiristas, sem contar com os seguranças necessários à manutenção das Cúpulas e a calar o bico à anarqueirada desobediente civil. A luta de classes a degenerar num arraial de pancadaria inter-pares, enquanto a velha Ordem do capital monopolista retemperava forças e repleta de sabedoria lá ia pensando com seus botões: espera aí que já comes. E com juros.
(Registe-se: Proudhon dá à estampa “O que é a Propriedade” em 1840. Marx publica “O Capital” em 1867. Quatro anos depois, de 21 a 28 de Maio, temos a semana sangrenta da Comuna de Paris. Mas não há emenda: Engels sai-se com a “Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, em 1884. Em 1887, é a vez de um tal Lafargue, mestiço cubano e portanto preguiçosos, acusado de bakuninista pelo senhor seu sogro (Marx), vir a lume com “A Religião do Capital”.)
Vemos que nem assim o velho sonho igualitário se dissipou, escaqueirando-se embora, e sem proveito ou glória, as corruptelas colectivistas. Só que desta vez, levados levados sim, nos queremos todos, em saldo ou promoção, vigários da religião do Super-Mercado, nosso Cifrão. Por mim o digo: com o balúrdio (de plástico ou do outro, de cuspo nos dedos) que desembolsaste para a compra deste livro tão educativo e peitoral, vou eu ali ao Gambrinus celebrar. A santola e vinho verde. Da esperança.

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Nota da edição
Este texto de Vítor Silva Tavares foi publicado como prefácio à edição de “A Religião do Capital” de Paul Lafargue, traduzido pelo próprio Vítor Silva Tavares e por Célia Henriques e publicado em Abril de 1996 pela &etc. Transcrevemos e publicamos este texto como homenagem a Vítor Silva Tavares, que morreu no dia 21 de Setembro de 2015.
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Imagens
Vítor Silva Tavares, Janeiro de 2015, Espaço Sismógrafo, Porto. Créditos: Sismógrafo.
“A Religião do Capital”, Paul Lafargue, edição &etc, Abril de 1996. Prefácio de Vítor Silva Tavares.
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Vítor Silva Tavares
Lisboa, (1937-2015). Escritor e editor português, fundador da Editora & etc.