Entre
as muitas coisas que temos visto em directo nas últimas semanas, há uma
particularmente interessante e inusitada: a da redefinição permanente do
significado da palavra violência. Nesta nossa versão miserável de Paris – que
cabe num palavrão, num insulto ou num objecto perdido arremessado à polícia –,
assistimos diariamente a um esforço de adequação do sentido da “violência”.
Torce-se o seu significado para que inclua muito daquilo a que assistimos.
Molda-se a própria lei para que nela caiba até o acto mais banal. E, claro,
também para que muito do que passa inequivocamente por violência e nos atinge
fique de fora. Basta ver o afinco com que muitos jornalistas se esforçam por
negar em directo, no momento das cargas policiais, o que todos estamos a ver. O
significado tem-se revelado tão flexível que não falta muito para que até
passear o cão possa ser interpretado como um atentado à ordem pública, se não
se usar a roupa certa ou não se respeitar um determinado horário.
Quando
cresce a evidência de que nenhum protesto será alguma vez mais violento do que
a realidade das nossas condições de vida, este esforço de ressignificação
ininterrupta revela-se especialmente necessário. Infelizmente, os manifestantes
não têm colaborado com o investimento mediático e policial nesse exercício de
deslocação e circunscrição da violência. Pouco melhor se tem conseguido que um
ou outro ângulo dramático sobre uma inscrição no chão – “a acampada resiste” –
ou um vidro de uma paragem partido, como se nesses gestos se escondesse o
derradeiro acto de vandalismo que levará ao colapso civilizacional. Perante a
placidez com que os manifestantes se submetem à “reposição da ordem” através da
pancada policial, os oráculos de serviço veem-se forçados a desvelar
indesmentíveis intenções terroristas naqueles que usam máscaras ou capacetes. A
própria PSP decide contribuir para a bambochata com um vídeo tão risível quanto
as cambalhotas de muitos comentadores e jornalistas: tudo o que consegue
demonstrar, com um orgulho ferido, é um exército superior aos manifestantes e
armado até aos dentes, pronto para enfrentar os talibãs, a levar com uma
humilde garrafa perdida. Nesta realidade paralela, o efeito torna-se a causa.
Esta
redefinição está constantemente a acontecer. O que há de excepcional neste
momento é a velocidade com que acontece. O significado renova-se a cada dia que
passa, o que deixa o artifício exposto. “Violência”, “ordem pública”, assim
como muitas outras palavras e expressões, surgem constantemente no “debate
público” como se tivessem um significado universal e imutável. Mas o que se
revela, nesta máquina de produção semântica, é o seu vínculo contextual e até
conjuntural. É sempre a partir de um determinado contexto que se define quem é
a vítima ou o sujeito da violência. O que é ou não considerado violento
relaciona-se sempre com o autor dessa hipotética violência e com o lugar que
lhe é atribuído numa dada ordem. Neste momento que atravessamos, o mecanismo de
produção desse sentido fica exposto porque a desproporcionalidade da violência
não tem permitido deslocar com eficácia a responsabilidade da violência do
centro da “ordem” que nos governa. Aqueles que procuram delimitar e produzir o
seu significado, para dele permanecerem excluídos, têm sido, também, os seus
únicos executores.
Como
resultado, o sujeito da violência que pretendem criar é tão peculiar que tem
sido o único a levar na tromba. Se alguém levanta um dedo perante a agressão, é
porque mereceu ser agredido, mesmo antes sequer de ter erguido tal dedo. Como
sempre aconteceu com os sujeitos que habitam as periferias e os territórios
colonizados, a própria possibilidade de defesa é negada e convertida, ela
mesma, na expressão da violência. Pobres e mal-agradecidos: em vez de ficarem
quietinhos a levar com um bastão, reagem cheios de má vontade. Neste quadro,
é-se sempre violento: por levar porrada e por não levar, por dar porrada e por
não dar. Seremos sempre os culpados desta imensa desordem e de um conflito tão
sanguinário em que só um lado é que leva e não sabe sequer como se defender.
Perturbados
com as cores dos cabelos e o cheiro a erva, entre outros atentados estéticos e
aromáticos, os nossos mediadores não escondem, de resto, que anseiam pelo caos.
Desejam-no porque estão convencidos que podem controlá-lo. E porque precisam
dele para dar finalmente um sentido ao que se passa nas acampadas e nos
protestos; algo que não percebem, nem querem perceber. É vê-los, por isso, a
espremer um desenho no chão, um grafiti numa estátua ou um manifestante mais
nervoso, como se fossem borbulhas prestes a expelir o pus mais fétido e
contagioso. Como os manifestantes não dão sinais de pretenderem revelar os seus
instintos bárbaros para animar o espectáculo, procura-se na mais pequena
vírgula um símbolo de violência apocalíptica. Para desespero destes produtores
de conteúdos, essas vírgulas, por enquanto, só se encontram nas suas próprias
encenações, nos comunicados da polícia e nos discursos dos governantes. É a
Paris que temos.
A
forma como o poder tem usado a violência, perante as acampadas, faz parte dessa
produção de discurso, expressando e procurando normalizar uma certa ideia de
violência. Não representa propriamente uma ruptura. A expressão dessa violência
está contida, desde sempre, nos aparatos e leis que regulam a sociedade e o
poder. Num livro recente, Vladimir Safatle fala de um “fascismo restrito”,
contido na própria ordem liberal. E o que vemos agora é esse fascismo a
desabrochar e a estender-se além das classes e dos sujeitos a que estava
restrito, ou seja, a levar o seu bastão e a sua ordem além dos corpos
periféricos, para atingir a própria classe média branca e “educada”.
Neste
cenário, é claro que a narrativa dos meninos bem comportados – ainda que mal
vestidos e mal cheirosos – não vai durar para sempre. E a facilidade com que muita
gente nas acampadas procura correr atrás dessa imagem e moldar permanentemente
o seu discurso ao formato mediático e político há de dar meia-volta e vai
passar a perseguir-nos. A forma de escapar não é fugir. É apropriarmo-nos
dessas palavras, criar um novo vocabulário. Agitadores, extremistas, radicais,
violentos, entre muitos outros termos que se procuram colar aos manifestantes,
devem ser reclamados e ressignificados. É evidente que somos todas essas coisas
e até muito mais. Mesmo que toda a acampada se dedicasse à jardinagem, seria
sempre isso tudo. O que não podemos nem queremos ser é agitadores, extremistas,
radicais e violentos, em termos que não controlamos e que o inimigo define e
impõe unilateralmente.
Essa
é a violência que devemos recusar. E é contra ela que outros sentidos de
violência devem ser construídos. Não através da impossível recusa ou negação da
violência. Mas sim através da disputa do seu significado.
Em
suma, o que todo este frenesim narrativo pretende é, justamente, deslocar o
debate para um conjunto de perguntas que não têm resposta. O seu fim é encaixar
a realidade a golpes de cassetete no formato da sondagem mediática e dos
simulacros de uma “opinião pública”: somos “contra” ou a “favor” da violência?
Mas a pergunta não é essa. A violência nunca deixará de existir. Não se trata
propriamente de uma opção. O que há a discutir sobre a violência, e assumindo a
sua inevitabilidade, é antes: que tipo de violência é normalizada e se torna
constitutiva dessa normalidade? Como é que ela pode ser gerida? Que violência
se pretende conter? Qual o papel que desempenha na sociedade em que vivemos e
que lugar terá nos processos de luta e mesmo nas relações que desejamos criar?
Para
falar de violência, talvez seja necessário começar por aqui. Nunca pela
armadilha da sua recusa ou apologia.
•
Diogo Duarte
Antropólogo, historiador e tradutor. Escreveu «O anarquismo e a arte de
governar - Portugal (1890-1930)», publicado pela editora Fora de Jogo.
Ficha técnica
Disputar a violência • Diogo Duarte
Data de publicação • 29.10.2026
Edição #46 • Verão — Outono 2026


