Disputar a violência • Diogo Duarte



Entre as muitas coisas que temos visto em directo nas últimas semanas, há uma particularmente interessante e inusitada: a da redefinição permanente do significado da palavra violência. Nesta nossa versão miserável de Paris – que cabe num palavrão, num insulto ou num objecto perdido arremessado à polícia –, assistimos diariamente a um esforço de adequação do sentido da “violência”. Torce-se o seu significado para que inclua muito daquilo a que assistimos. Molda-se a própria lei para que nela caiba até o acto mais banal. E, claro, também para que muito do que passa inequivocamente por violência e nos atinge fique de fora. Basta ver o afinco com que muitos jornalistas se esforçam por negar em directo, no momento das cargas policiais, o que todos estamos a ver. O significado tem-se revelado tão flexível que não falta muito para que até passear o cão possa ser interpretado como um atentado à ordem pública, se não se usar a roupa certa ou não se respeitar um determinado horário.

Quando cresce a evidência de que nenhum protesto será alguma vez mais violento do que a realidade das nossas condições de vida, este esforço de ressignificação ininterrupta revela-se especialmente necessário. Infelizmente, os manifestantes não têm colaborado com o investimento mediático e policial nesse exercício de deslocação e circunscrição da violência. Pouco melhor se tem conseguido que um ou outro ângulo dramático sobre uma inscrição no chão – “a acampada resiste” – ou um vidro de uma paragem partido, como se nesses gestos se escondesse o derradeiro acto de vandalismo que levará ao colapso civilizacional. Perante a placidez com que os manifestantes se submetem à “reposição da ordem” através da pancada policial, os oráculos de serviço veem-se forçados a desvelar indesmentíveis intenções terroristas naqueles que usam máscaras ou capacetes. A própria PSP decide contribuir para a bambochata com um vídeo tão risível quanto as cambalhotas de muitos comentadores e jornalistas: tudo o que consegue demonstrar, com um orgulho ferido, é um exército superior aos manifestantes e armado até aos dentes, pronto para enfrentar os talibãs, a levar com uma humilde garrafa perdida. Nesta realidade paralela, o efeito torna-se a causa.

Esta redefinição está constantemente a acontecer. O que há de excepcional neste momento é a velocidade com que acontece. O significado renova-se a cada dia que passa, o que deixa o artifício exposto. “Violência”, “ordem pública”, assim como muitas outras palavras e expressões, surgem constantemente no “debate público” como se tivessem um significado universal e imutável. Mas o que se revela, nesta máquina de produção semântica, é o seu vínculo contextual e até conjuntural. É sempre a partir de um determinado contexto que se define quem é a vítima ou o sujeito da violência. O que é ou não considerado violento relaciona-se sempre com o autor dessa hipotética violência e com o lugar que lhe é atribuído numa dada ordem. Neste momento que atravessamos, o mecanismo de produção desse sentido fica exposto porque a desproporcionalidade da violência não tem permitido deslocar com eficácia a responsabilidade da violência do centro da “ordem” que nos governa. Aqueles que procuram delimitar e produzir o seu significado, para dele permanecerem excluídos, têm sido, também, os seus únicos executores.

Como resultado, o sujeito da violência que pretendem criar é tão peculiar que tem sido o único a levar na tromba. Se alguém levanta um dedo perante a agressão, é porque mereceu ser agredido, mesmo antes sequer de ter erguido tal dedo. Como sempre aconteceu com os sujeitos que habitam as periferias e os territórios colonizados, a própria possibilidade de defesa é negada e convertida, ela mesma, na expressão da violência. Pobres e mal-agradecidos: em vez de ficarem quietinhos a levar com um bastão, reagem cheios de má vontade. Neste quadro, é-se sempre violento: por levar porrada e por não levar, por dar porrada e por não dar. Seremos sempre os culpados desta imensa desordem e de um conflito tão sanguinário em que só um lado é que leva e não sabe sequer como se defender.

Perturbados com as cores dos cabelos e o cheiro a erva, entre outros atentados estéticos e aromáticos, os nossos mediadores não escondem, de resto, que anseiam pelo caos. Desejam-no porque estão convencidos que podem controlá-lo. E porque precisam dele para dar finalmente um sentido ao que se passa nas acampadas e nos protestos; algo que não percebem, nem querem perceber. É vê-los, por isso, a espremer um desenho no chão, um grafiti numa estátua ou um manifestante mais nervoso, como se fossem borbulhas prestes a expelir o pus mais fétido e contagioso. Como os manifestantes não dão sinais de pretenderem revelar os seus instintos bárbaros para animar o espectáculo, procura-se na mais pequena vírgula um símbolo de violência apocalíptica. Para desespero destes produtores de conteúdos, essas vírgulas, por enquanto, só se encontram nas suas próprias encenações, nos comunicados da polícia e nos discursos dos governantes. É a Paris que temos.

A forma como o poder tem usado a violência, perante as acampadas, faz parte dessa produção de discurso, expressando e procurando normalizar uma certa ideia de violência. Não representa propriamente uma ruptura. A expressão dessa violência está contida, desde sempre, nos aparatos e leis que regulam a sociedade e o poder. Num livro recente, Vladimir Safatle fala de um “fascismo restrito”, contido na própria ordem liberal. E o que vemos agora é esse fascismo a desabrochar e a estender-se além das classes e dos sujeitos a que estava restrito, ou seja, a levar o seu bastão e a sua ordem além dos corpos periféricos, para atingir a própria classe média branca e “educada”.

Neste cenário, é claro que a narrativa dos meninos bem comportados – ainda que mal vestidos e mal cheirosos – não vai durar para sempre. E a facilidade com que muita gente nas acampadas procura correr atrás dessa imagem e moldar permanentemente o seu discurso ao formato mediático e político há de dar meia-volta e vai passar a perseguir-nos. A forma de escapar não é fugir. É apropriarmo-nos dessas palavras, criar um novo vocabulário. Agitadores, extremistas, radicais, violentos, entre muitos outros termos que se procuram colar aos manifestantes, devem ser reclamados e ressignificados. É evidente que somos todas essas coisas e até muito mais. Mesmo que toda a acampada se dedicasse à jardinagem, seria sempre isso tudo. O que não podemos nem queremos ser é agitadores, extremistas, radicais e violentos, em termos que não controlamos e que o inimigo define e impõe unilateralmente.

Essa é a violência que devemos recusar. E é contra ela que outros sentidos de violência devem ser construídos. Não através da impossível recusa ou negação da violência. Mas sim através da disputa do seu significado.

Em suma, o que todo este frenesim narrativo pretende é, justamente, deslocar o debate para um conjunto de perguntas que não têm resposta. O seu fim é encaixar a realidade a golpes de cassetete no formato da sondagem mediática e dos simulacros de uma “opinião pública”: somos “contra” ou a “favor” da violência? Mas a pergunta não é essa. A violência nunca deixará de existir. Não se trata propriamente de uma opção. O que há a discutir sobre a violência, e assumindo a sua inevitabilidade, é antes: que tipo de violência é normalizada e se torna constitutiva dessa normalidade? Como é que ela pode ser gerida? Que violência se pretende conter? Qual o papel que desempenha na sociedade em que vivemos e que lugar terá nos processos de luta e mesmo nas relações que desejamos criar?

Para falar de violência, talvez seja necessário começar por aqui. Nunca pela armadilha da sua recusa ou apologia.


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Diogo Duarte

Antropólogo, historiador e tradutor. Escreveu «O anarquismo e a arte de governar - Portugal (1890-1930)», publicado pela editora Fora de Jogo.

 

 

Ficha técnica

Disputar a violência • Diogo Duarte

Data de publicação • 29.10.2026

 Edição #46 • Verão — Outono 2026