PuNktOpHoNe | Pedro Gadanho



O livro Arquitectura em Público foi o mote para uma conversa/entrevista com o seu autor, o arquitecto Pedro Gadanho, sobre os trânsitos mediáticos que fazem/transmitem a arquitectura contemporânea, mas também, sobre o lugar que a crítica (de arquitectura) ocupa nesse tráfego. Fica aqui o registo áudio desta conversa entre Pedro Gadanho, Pedro Bismarck e Bernardo Amaral gravada no dia 15 de Março de 2011 no espaço Labirintho no Porto (a transcrição completa da conversa irá estar disponível brevemente).

introdução
A mediatização foi em Portugal, nas últimas duas décadas, um contributo essencial para que a arquitectura tomasse posição não apenas nessa arena mediática dos assuntos generalistas, mas também, que pudesse ocupar um lugar no consciente colectivo social e cultural de um país, cuja produção de arquitectura foi dominada durante mais de 40 anos, não por arquitectos, como seria de esperar, mas por engenheiros. O que demonstra ainda hoje, mesmo após a batalha pela revogação 73/73, a fragilidade e a debilidade inquieta da palavra arquitectura, cujo sentido talvez possa ser tão claro para nós que fazemos dela vida e quotidiano, mas que não o é certamente para uma grande parte da sociedade. Mas talvez porque, também para nós, é cada vez menos claro (e se não é, deveria ser) o significado desta palavra, cujas transmutações, desvios e deslocamentos, potenciados por todas as recentes e rápidas alterações económicas, sociais, culturais, da massificação à crise, têm obrigado a re-situar as formas que fazem a disciplina, isto é, as suas práticas, os seus limites, os seus campos de acção.
Neste sentido, o que será talvez mais interessante, é que o exercício que reflecte sobre este lugar da arquitectura na arena da mediatização e da esfera pública, é também o exercício que não pode senão reflectir sobre o que é ser, de facto, arquitecto. Ou dito de outro modo, qual é de facto o lugar que a arquitectura pode ocupar na esfera da polis, da cidade e da sociedade, que papel pode desempenhar ou então se quer desempenhar algum papel? Porque mesmo aceitando esse lugar inevitável da arquitectura na esfera simpática dos produtos mediatizados e de consumo, generalizáveis e generalistas, e aceitando que ela agora é reconhecida como prática cultural standard, há outra pergunta que não pode deixar de ser formulada que é: que arquitectura é essa que está a ser mediatizada? E será esse o conteúdo que nos interessa transmitir? Porque afinal a arquitectura não é apenas uma prática cultural simpática e cool, um produto de exportação da marca Portugal, mas é ainda assim um instrumento de construção do território, da vida colectiva e privada, do espaço onde nos movemos diariamente e onde construímos o nosso quotidiano.
Isto é, o limite da visibilidade da arquitectura no espaço cultural e na arena da sociedade (um deficit de que tanto nos queixamos) é também o limite da nossa acção e da nossa prática enquanto arquitectos. E exigir uma outra visibilidade, exige antes de mais, procurar consolidar um outro espaço: um lugar activo onde a arquitectura não se vende apenas como produto cultural estetizado, mas se faz como instrumento e prática de intervenção no território, e nomeadamente na cidade. O território por excelência da arquitectura, e do qual os arquitectos parecem desde há muito irremediavelmente arredados, como aliás atesta o recente processo de reabilitação em curso na cidade do Porto.
Só na ocupação de um outro espaço de intervenção e de acção que discute e fala a cidade, a arquitectura poderá ultrapassar o limite de prática simpática ou da disciplina hermética, e constituir um espaço próprio e consolidado que não depende tanto do arquitecto x ou y, da mediatização ou dos prémios do Siza ou do Souto de Moura, mas da mediatização de si mesmo, isto é, da mediatização de si enquanto acção colectiva, como prática e disciplina que pensa e constrói território e que, por isso, merece um lugar de relevo consistente, não apenas na arena do poder mediático mas na consciência cultural da sociedade.
E esse é o limite a ser ultrapassado, e que passa pela formação nas escolas, na reflexão permanente sobre as práticas da arquitectura, na construção de uma cultura crítica inter-disciplinar, e também pela normalização, no sentido de tornar normal e regular um exercício de crítica que não trabalhe tanto na aclamação epifânica dos mestres, mas que vá ao encontro da cidade, identificando maus exemplos, carências, problemas, num debate cuja natureza terá de ser sempre trans-disciplinar e cultural e muito menos ego-disciplinar.

Ficha técnica
Punktophone 01 | Pedro Gadanho | O Futuro da Crítica
Entrevista: Pedro Bismarck, Bernardo Amaral
Gravado no espaço Labirintho, no Porto, a 15 de Março de 2011.
Montagem | edição : PUNKTO
Agradecimentos :  Pedro Gadanho, André Tavares (Dafne editora) e Pedro Graça (Labirintho)

Links

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